REsp 2183366 - DECISAO
Havendo elementos nos autos que indicam vingança como motivação do crime e não sendo tal tese manifestamente improcedente, a aferição de se o sentimento constitui motivo torpe compete ao Conselho de Sentença; por isso, o STJ conheceu do recurso especial e, com fundamento na Súmula 568, deu provimento para...
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- Parties
- Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO; Recorrida: RAIANE FERREIRA LEMOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 August 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento No Superior Tribunal De Justiça Após Decisão De Pronúncia E Recurso Em Sentido Estrito No Tribunal De Justiça Do Estado De São Paulo
- Outcome
- Recurso especial conhecido e provido para restabelecer a qualificadora do motivo torpe na sentença de pronúncia.
- Legal Topics
- Homicídio Tentado Qualificado, Motivo Torpe, Pronúncia, Tribunal Do Júri, Art. 413 Do CPP, Súmula 568/stj
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO
Recorrente
RAIANE FERREIRA LEMOS
Recorrida
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento No Superior Tribunal De Justiça Após Decisão De Pronúncia E Recurso Em Sentido Estrito No Tribunal De Justiça Do Estado De São Paulo
Legal Issues
- 1 possibilidade de exclusão da qualificadora do motivo torpe na fase de pronúncia
- 2 violação do art. 413 do CPP pela exclusão da qualificadora pelo Tribunal a quo
- 3 competência do Conselho de Sentença para avaliar se a vingança configura motivo torpe
Ratio Decidendi
Havendo elementos nos autos que indicam vingança como motivação do crime e não sendo tal tese manifestamente improcedente, a aferição de se o sentimento constitui motivo torpe compete ao Conselho de Sentença; por isso, o STJ conheceu do recurso especial e, com fundamento na Súmula 568, deu provimento para restabelecer a qualificadora do motivo torpe na sentença de pronúncia.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e provido para restabelecer a qualificadora do motivo torpe na sentença de pronúncia.
Orders
- Conheço do recurso especial e, com fundamento na Súmula n. 568 do STJ, dou‑lhe provimento para restabelecer a qualificadora do motivo torpe presente na sentença de pronúncia.
- Publique‑se. Intimem‑se.
Full Case Text
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DECISÃO Cuida-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, com fundamento na alínea "a" do inciso III do art. 105 da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO em julgamento da Recurso em Sentido Estrito n. 1500554-64.2021.8.26.0052. Consta dos autos que a recorrida RAIANE FERREIRA LEMOS foi pronunciada pela prática do delito tipificado no art. 121, § 2º, inciso I, c/c art. 14, inciso II, ambos do Código Penal (tentativa de homicídio qualificado pelo motivo torpe). Recurso em sentido estrito interposto pela defesa foi parcialmente provido para afastar a qualificadora do motivo torpe, mantendo-se a pronúncia (fl. 275). O acórdão ficou assim ementado: Recurso em sentido estrito contra decisão de pronúncia Homicídio tentado qualificado Versões colidentes, mas igualmente plausíveis quanto à existência de legítima defesa ou de animus necandi na conduta Inviabilidade de absolvição, impronúncia ou desclassificação, nesta sede. Motivo torpe Não demonstrada correlação com paga ou promessa Qualificadora afastada. Recurso a que se dá parcial provimento. (fl. 276) Em sede de recurso especial (fls. 292/324), o Ministério Público apontou violação ao art. 413 do CPP, uma vez que o Tribunal de origem afastou indevidamente a qualificadora do motivo torpe, exigindo correlação com interesse pecuniário. Requer o provimento do recurso especial para incluir na sentença de pronúncia a qualificadora do motivo torpe. Contrarrazões da recorrida às fls. 331/336. Admitido o recurso no Tribunal de origem (fls. 340/341), os autos foram protocolados e distribuídos nesta Corte. Aberta vista ao Ministério Público Federal, este opinou pelo provimento do recurso especial (fls. 351/354). É o relatório. Decido. Sobre a violação ao art. 413 do CPP, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo afastou a qualificadora do motivo torpe nos seguintes termos: "Visto isto, data vênia, para que a "vingança" que motiva o crime caracterize a torpeza esculpida no tipo em comento faz-se necessário que guarde relação com os núcleos antecedentes, quais sejam "paga" ou "promessa de recompensa". In casu, não se vislumbra, a partir do conjunto probatório, qualquer interesse pecuniário no comportamento do acusado, de modo que deve ser afastada, desde logo, referida qualificadora." (fl. 282) Extrai-se do trecho acima que o Tribunal a quo afastou a qualificadora do motivo torpe na fase de pronúncia, afirmando que a vingança que caracterizaria a torpeza seria aquela relacionada a um interesse pecuniário do comportamento do agente. Ocorre que este Superior Tribunal de Justiça possui entendimento no sentido de que a verificação da vingança como motivo torpe seria matéria afeta ao Conselho de Sentença, podendo ser excluída apenas se manifestamente improcedente. Com efeito, entende esta Corte que, havendo lastro probatório mínimo, cabe ao Conselho de Sentença decidir, soberanamente, se o réu praticou o homicídio motivado por vingança, assim como analisar se referido sentimento, no caso concreto, constitui o motivo torpe que qualifica o crime de homicídio. No mesmo sentido, citam-se precedentes (grifos nossos): AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL PENAL. HOMICÍDIO QUALIFICADO. VIOLAÇÃO DOS ARTS. 74, § 1º, E 413, CAPUT E § 1º, AMBOS DO CPP. DECISÃO DE PRONÚNCIA. RECURSO EM SENTIDO ESTRITO. EXCLUSÃO DE QUALIFICADORA. MOTIVO TORPE, EM DECORRÊNCIA DE VINGANÇA. IMPOSSIBILIDADE. COMPETÊNCIA DO CONSELHO DE SENTENÇA. AUSÊNCIA DE MANIFESTA IMPROCEDÊNCIA. 1. Segundo a jurisprudência deste Superior Tribunal, faz-se possível a exclusão de qualificadoras dispostas na decisão de pronúncia, desde que o decisum esteja devidamente fundamentado. No caso, isso não ocorreu, pois é evidente a fragilidade da justificativa apresentada pela Corte paranaense para o afastamento da qualificadora do motivo torpe. 2. Na hipótese em que elementos fáticos estabelecidos na origem firmam dúvidas acerca da existência de qualificadoras, esta Corte considera adequado o restabelecimento da pronúncia, a fim de que o tema seja submetido ao Tribunal do Júri, órgão competente para avaliar se a vingança pela morte da mãe do agravante foi, no caso concreto, de índole torpe ou não. 3. Não se desconhece que a vingança, por si só, não substantiva o motivo torpe; a sua afirmativa, contudo, não basta para elidir a imputação de torpeza do motivo do crime, que há de ser aferida à luz do contexto do fato (STF, HC 83.309/MS, Primeira Turma, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 06/02/2004) (REsp 1816313/PB, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 10/09/2019, DJe 16/09/2019). Ocorre que, apresentado fato concreto, a verificação de ser ele razão abjeta ou não à prática do homicídio é matéria afeta ao Conselho de Sentença (AgRg no AgRg no AREsp n. 1.926.967/AM, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 3/11/2021). 4. Agravo regimental improvido. (AgRg no REsp n. 1.980.145/PR, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 28/11/2022, DJe de 2/12/2022.) AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. RÉU PRONUNCIADO POR HOMICÍDIO QUALIFICADO POR MOTIVO TORPE. MOTIVAÇÃO AFASTADA PELO TRIBUNAL A QUO. NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. Embora a decisão de pronúncia deva ser comedida na apreciação das provas, precisa conter uma fundamentação mínima para o reconhecimento de qualificadoras, e deixar o juízo de valor acerca da sua efetiva ocorrência para ser apreciado pelo Conselho de Sentença. É possível a exclusão de qualificadoras na fase do iudicium accusationis quando elas são manifestamente improcedentes, sem que isso usurpe a competência do Tribunal popular. A vingança, por si só, não torna torpe o motivo do delito. Análise do contexto fático-probatório. Ainda que reprovável a conduta do réu, mostra-se desarrazoado imputar a torpeza a ela na situação dos autos, uma vez que o agente haveria praticado o delito para vingar as ameaças da vítima à vida dele e de sua família, bem como as agressões físicas e a tentativa de golpes de faca que ele teria sofrido na noite anterior ao crime. Agravo regimental não provido. (AgInt no AREsp n. 1.770.465/MT, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 24/5/2022, DJe de 30/5/2022.) EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE OMISSÃO PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. HOMICÍDIO QUALIFICADO. SENTENÇA DE PRONÚNCIA. FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA. MATERIALIDADE E INDÍCIOS DA AUTORIA DELITIVA. MOTIVO TORPE. AFASTAMENTO. NECESSIDADE DE REVOLVIMENTO DE FATOS E PROVAS. SÚMULA 7/STJ. VÍCIOS. INEXISTÊNCIA. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS. 1.Os embargos de declaração têm a finalidade simples e única de completar, aclarar ou corrigir uma decisão ambígua, omissa, obscura ou contraditória, conforme dispõe o art. 619 do CPP. 2. Esta esta Corte Superior, ao analisar o tema, posicionou-se de forma clara, adequada e suficiente ao concluir: (i) que o Tribunal local examinou em detalhe todos os argumentos defensivos, apresentando fundamentos suficientes e claros para refutar as alegações deduzidas, razão pela qual foram rejeitados os aclaratórios; (ii) que o Tribunal de Justiça solveu a questão com fundamentação satisfatória, expondo, suficientemente, as razões pelas quais entendeu pela manutenção da pronúncia do envolvido, enfrentando os pontos relevantes ao deslinde da controvérsia, adotando, no entanto, solução jurídica contrária aos interesses do recorrente; (iii) que, no presente caso, o Tribunal local, soberano na análise do conjunto fático-probatório, mantendo a sentença de pronúncia, concluiu pela presença de elementos indicativos da autoria do acusado pelo homicídio da vítima, supostamente por motivação torpe, e, para alterar a referida conclusão e decidir pela absolvição, em razão da ausência de indícios da autoria delitiva, bem como pela não não ocorrência da referida qualificadora, como requer a parte recorrente, demandaria, necessariamente, o revolvimento do acervo fático-probatório delineado nos autos, providência incabível em sede de recurso especial, ante o óbice contido na Súmula 7/STJ; (iv) que não se desconhece que a vingança, por si só, não substantiva o motivo torpe; a sua afirmativa, contudo, não basta para elidir a imputação de torpeza do motivo do crime, que há de ser aferida à luz do contexto do fato (STF, HC 83.309/MS, Primeira Turma, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 06/02/2004) (REsp 1816313/PB, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 10/09/2019, DJe 16/09/2019), ocorre que, apresentado fato concreto, a verificação de ser ele razão abjeta ou não à prática do homicídio é matéria afeta ao Conselho de Sentença. 3. Por meio dos aclaratórios, é nítida a pretensão da parte embargante em provocar o rejulgamento da causa, situação que, na inexistência das hipóteses previstas no art. 619 do CPP, não é compatível com o recurso protocolado. 4. Embargos de declaração rejeitados. (EDcl no AgRg no AgRg no AREsp n. 1.926.967/AM, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 9/11/2021, DJe de 12/11/2021.) No caso concreto, os elementos dos autos indicam que a recorrida teria tentado matar a vítima em razão de vingança, porque esta havia expulsado um amigo da acusada do terreno onde moravam. Tais circunstâncias, ainda que controvertidas quanto à torpeza, não se mostram manifestamente improcedentes, sendo adequada sua submissão ao Tribu nal do Júri. Ante o exposto, conheço do recurso especial e, com fundamento na Súmula n. 568 do STJ, dou-lhe provimento para restabelecer a qualificadora do motivo torpe presente na sentença de pronúncia. Publique-se. Intimem-se. EMENTA