REsp 2248709 - DECISAO
O Tribunal conheceu parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, negou provimento porque o acórdão recorrido assentou-se em fundamento eminentemente constitucional (status constitucional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência), cuja revisão pelo STJ implicaria usurpação de competência...
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- Parties
- Recorrente: União; Apelada: Apelada
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 07 April 2026
- Procedural Posture
- Recurso Especial (originária: Ação Ordinária) / Conhecimento Parcial Do Recurso Especial E, Na Parte Conhecida, Negado Provimento (decisão Colegiada)
- Outcome
- Conheço parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, nego-lhe provimento.
- Legal Topics
- Horário Especial Para Servidor Público Com Dependente Deficiente, Redução De Jornada Sem Compensação, Convenção Sobre Os Direitos Das Pessoas Com Deficiência, Exigência De Laudo De Junta Médica, Súmula 7/stj, Honorários Sucumbenciais
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Parties
União
Recorrente
Apelada
Apelada
Procedural Posture
Recurso Especial (originária: Ação Ordinária) / Conhecimento Parcial Do Recurso Especial E, Na Parte Conhecida, Negado Provimento (decisão Colegiada)
Legal Issues
- 1 Status constitucional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e sua aplicabilidade para conferir tratamento protetivo ao servidor responsável por criança com deficiência
- 2 Necessidade ou não de laudo de junta médica oficial para concessão de horário especial previsto no art.98, §§2 e 3 da Lei 8.112/90 quando há relatórios médicos nos autos
- 3 Possibilidade de fixação de jornada reduzida em 20 horas semanais sem parâmetro legal expresso e respeito ao art.19 da Lei 8.112/90
Ratio Decidendi
O Tribunal conheceu parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, negou provimento porque o acórdão recorrido assentou-se em fundamento eminentemente constitucional (status constitucional da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência), cuja revisão pelo STJ implicaria usurpação de competência do STF; além disso, a avaliação da suficiência dos relatórios médicos constitui exame de prova cujo reexame é vedado em recurso especial (Súmula 7), e na ausência de óbice legal específico a fixação da jornada em 20 horas semanais foi considerada razoável e proporcional pelo Tribunal de origem.
Court Disposition
Conheço parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, nego-lhe provimento.
Orders
- Conheço parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, nego-lhe provimento.
- Majoro em 10% (dez por cento), em desfavor da parte recorrente, o valor já arbitrado dos honorários sucumbenciais, nos termos do art.85, §11, do Código de Processo Civil.
Full Case Text
Judgment text and source record
4 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pela União, com fundamento no art. 105, inciso III, alínea a, da Constituição Federal, no qual se insurge contra o acórdão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região assim ementado (fl. 176): ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO SEM COMPENSAÇÃO DE HORÁRIO. CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA. STATUS DE DIREITO FUNDAMENTAL. ART. 5º, § 3, DA CONSTITUIÇÃO. FILHO DEFICIENTE. AUTISMO. ART. 98, §§ 2º E 3º DA LEI 8.112/90. SENTENÇA MANTIDA. 1. Cuida-se de recurso de apelação interposto pela União contra sentença que julgou procedente o pedido formulado na inicial, determinando que a apelante autorizasse a redução da carga horária da autora de 40 (quarenta) para 20 (vinte) horas semanais, sem necessidade de compensação de horário e sem redução de remuneração. 2. O Brasil ratificou, em 01/08/2008, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, assinada em 30/03/2007 e promulgada por meio do Decreto nº 6.949/2009. Trata-se do primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado com força de emenda constitucional, nos termos do art. 5º, § 3º, da Constituição, com redação dada pela EC 45/2004, o que dá aos direitos previstos na Convenção status de direitos fundamentais. 3. Prevê a Convenção, em seu art. 7º, em relação às crianças com deficiência, que os Estados Partes deverão tomar todas as medidas necessárias para assegurar às crianças com deficiência o pleno desfrute de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, em igualdade de oportunidades com as demais crianças. 4. Em consonância com o entendimento firmado na jurisprudência, foi editada a Lei nº 13.370, de 12/12/2016, dando nova redação ao § 3º do art. 98 da Lei nº 8.112/90, para estender o direito a horário especial ao servidor público federal que tenha cônjuge, filho ou dependente com deficiência de qualquer natureza, revogando a exigência de compensação de horário. 5. Nos termos do art. 19 da Lei nº 8.112/90, o servidor cumprirá jornada máxima de 40 (quarenta) horas semanais, de modo que se afigura razoável a fixação do favor legal da jornada semanal de 20 (vinte) horas ao servidor beneficiário, haja vista a inexistência de óbice legal para tanto, atuando-se, aqui, segundo critério de proporcionalidade e necessidade. 6. Na hipótese, a deficiência dos filhos da apelada restou incontroversa pelos relatórios médicos acostados aos autos. 7. Apelação desprovida. Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (fls. 204/212). A parte recorrente alega violação dos arts. 1.022 do Código de Processo Civil (CPC) e 489, § 1º, do CPC, sustentando negativa de prestação jurisdicional e fundamentação deficiente porque o Tribunal não teria enfrentado, de forma clara e suficiente, a exigência de avaliação por junta médica oficial para concessão de horário especial e a impossibilidade de fixação "aleatória" de jornada reduzida em 20 horas semanais. Sustenta ofensa ao art. 98, § 2º e § 3º, da Lei 8.112/1990 ao argumento de que o direito ao horário especial depende de laudo da junta médica oficial que comprove a necessidade e que a extensão do benefício ao servidor com cônjuge, filho ou dependente com deficiência mantém essa exigência. Aponta violação do art. 19 da Lei 8.112/1990, alegando que a redução para 20 horas semanais é incompatível com os limites mínimos de jornada previstos e que eventual concessão deve observar, no mínimo, seis horas diárias e trinta horas semanais. Contrarrazões apresentadas às fls. 234/244. O recurso foi admitido (fl. 251). É o relatório. Na origem, cuida-se de ação ordinária, com pedido de redução da jornada de trabalho para vinte horas semanais, sem compensação e sem redução remuneratória, para acompanhamento de filho com deficiência. Inexiste a alegada violação do art. 1.022 e do art. 489 do Código de Processo Civil, pois a prestação jurisdicional foi dada na medida da pretensão deduzida, tendo o Tribunal de origem apreciado fundamentadamente a controvérsia, não padecendo o julgado de erro material, omissão, contradição ou obscuridade. A parte recorrente sustenta omissão da instância ordinária no tocante a estas questões: (a) exigência de avaliação por junta médica oficial para concessão de horário especial, na forma do art. 98, § 2º, da Lei 8.112/1990; (b) impossibilidade de fixação "aleatória" da jornada reduzida em 20 horas semanais sem definição técnica; e (c) necessidade de observância da jornada mínima prevista no art. 19 da Lei 8.112/1990. Todavia, conforme se depreende da análise do acórdão recorrido, o Tribunal de origem, de modo expresso, fundamentado e coeso, enfrentou cada um dos pontos supostamente omissos, tendo concluído que: (i) a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada pelo Decreto 6.949/2009, possui status constitucional e autoriza o tratamento protetivo à criança com deficiência, em igualdade de oportunidades, assegurando ao servidor responsável horário especial sem compensação; (ii) a deficiência do filho da parte recorrida foi constatada por relatórios médicos juntados aos autos, suficientes para a formação da convicção judicial; e (iii) a fixação da jornada semanal de 20 horas, embora não parametrizada em lei, é razoável e proporcional, à luz do art. 19 da Lei 8.112/1990, diante da inexistência de óbice legal e da necessidade demonstrada. É importante ressaltar que o contraponto aos argumentos das partes não demanda a citação literal de suas palavras ou dos mesmos dispositivos legais. É suficiente que haja fundamentação fática e jurídica coerente e adstrita ao que se debate nos autos. O Tribunal de origem acolheu a pretensão autoral fundamentado na interpretação do art. 5º, § 3º, da Constituição Federal e na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto 6.949/2009), nestes termos (fl. 172 ): "Trata-se do primeiro tratado internacional de direitos humanos aprovado com força de emenda constitucional, nos termos do art. 5º, § 3º, da Constituição o que dá aos direitos previstos na Convenção status de direitos fundamentais." Dessa forma, é forçoso reconhecer que, possuindo o acórdão recorrido fundamento eminentemente constitucional, revela-se descabida sua revisão pela via do recurso especial, sob pena de usurpação de competência do Supremo Tribunal Federal (STF), prevista no art. 102 da Constituição Federal. O exame do alcance e dos limites de tese jurídica fixada pelo STF demanda a interpretação de preceitos e dispositivos constitucionais, providência essa de competência exclusiva da Suprema Corte. Nesse mesmo sentido: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL - AGRAVO DE INSTRUMENTO NA ORIGEM - AÇÃO MONITÓRIA - PROVA DUCUMENTAL - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE NEGOU PROVIMENTO RECLAMO. INSURGÊNCIA DA DEMANDADA. 1. A competência desta Corte restringe-se à interpretação e uniformização do direito infraconstitucional federal, não sendo cabível o exame de eventual violação a dispositivos e princípios constitucionais sob pena de usurpação da competência atribuída ao Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 102 da Constituição Federal.
4. Agravo interno desprovido. (AgInt no AREsp n. 2.807.807/RJ, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 11/6/2025, DJEN de 17/6/2025, sem destaque no original.) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ICMS. BASE DE CÁLCULO. PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. FORMA DE CÁLCULO. ICMS DESTACADO NAS NOTAS FISCAIS VERSUS ICMS A RECOLHER NA COMPETÊNCIA. ACÓRDÃO RECORRIDO FUNDADO EM PRECEDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL EM REPERCUSSÃO GERAL. AGRAVO INTERNO DA FAZENDA NACIONAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
2. O Tribunal de origem apenas interpretou o precedente do Supremo Tribunal Federal em repercussão geral para aplicá-lo ao caso concreto, razão pela qual não cabe ao Superior Tribunal de Justiça dirimir a controvérsia em sede de Recurso Especial no pertinente à interpretação constitucional do referido RE 574.706 RG/PR, sob pena de usurpação da competência do Supremo Tribunal Federal prevista no art. 102 da Constituição Federal. 3. Agravo Interno da FAZENDA NACIONAL a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n. 1.578.077/SP, Ministro Manoel Erhardt - Desembargador Convocado do TRF da 5ª Região, Primeira Turma, julgado em 19/4/2021, DJe de 29/4/2021, sem destaque no original.) ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. PENSÃO MILITAR. FILHA. REQUISITOS DO ART. 7º DA LEI 3.765/60 C/C LEI 8.216/91. ALEGADA OMISSÃO ACERCA DE VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. AFERIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE ANÁLISE, EM SEDE DE RECURSO ESPECIAL. ALEGADA OFENSA AO ART. 535 DO CPC/73. NÃO OCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DO DISPOSITIVO LEGAL QUE, EM TESE, TERIA RECEBIDO INTERPRETAÇÃO DIVERGENTE DAQUELA FIRMADA POR OUTROS TRIBUNAIS. DEFICIÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULA 284/STF, APLICADA POR ANALOGIA. IMPOSSIBILIDADE DE APRECIAÇÃO DE MATÉRIA CONSTITUCIONAL, EM SEDE DE RECURSO ESPECIAL, SOB PENA DE USURPAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO STF. AGRAVO INTERNO IMPROVIDO.
V. Do exame do julgado combatido e das razões recursais, verifica-se que a solução da controvérsia possui enfoque eminentemente constitucional. Dessa forma, compete ao Supremo Tribunal Federal eventual reforma do acórdão recorrido, no mérito, sob pena de usurpação de competência inserta no art. 102 da Constituição Federal. Precedentes do STJ (AgRg no AREsp 584.240/RS, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, DJe de 03/12/2014; AgRg no REsp 1.473.025/PR, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, DJe de 03/12/2014). VI. Agravo interno improvido. (AgInt no REsp n. 1.377.313/CE, relatora Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, julgado em 18/4/2017, DJe de 26/4/2017, sem destaque no original.) Nos exatos termos do acórdão recorrido, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região assim se manifestou (fl. 173): "No presente caso, a deficiência do filho da apelada foi constatada pelos relatórios médicos acostados aos autos." O Tribunal de origem reconheceu a suficiência da prova documental (relatórios médicos) para confirmar a deficiência do dependente e, à míngua de critério legal específico para quantificar o horário especial, fixou a jornada de 20 horas semanais com base em proporcionalidade e necessidade, referindo o art. 19 da Lei 8.112/1990. Entendimento diverso, conforme pretendido, implicaria o reexame do contexto fático-probatório dos autos, circunstância que redundaria na formação de novo juízo acerca dos fatos e das provas, e não na valoração dos critérios jurídicos concernentes à utilização da prova e à formação da convicção, o que impede o conhecimento do recurso especial quanto ao ponto. Incide no presente caso a Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo a qual "a pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial". Ante o exposto, conheço parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, a ele nego provimento. Majoro em 10% (dez por cento), em desfavor da parte recorrente, o valor já arbitrado dos honorários sucumbenciais, nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, observados, se aplicáveis, os limites percentuais previstos nos §§ 2º e 3º desse mesmo dispositivo, bem como os termos do art. 98, § 3º, desse diploma legal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA