REsp 1913974 - DECISAO
Admitiu-se o recurso extraordinário por entender existir divergência entre o acórdão recorrido e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal relativa à modulação dos efeitos fixada no RE 638.115/Tema 395, notadamente quanto à manutenção do pagamento das parcelas reconhecidas administrativamente até sua absorção por...
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- Parties
- Recorrente: VICENTE DE PAULO CALIFANI; Recorrida: UNIÃO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 10 April 2024
- Procedural Posture
- Recurso Extraordinário / Admitido
- Outcome
- Recurso extraordinário admitido
- Legal Topics
- Incorporação De Quintos/décimos, Cobrança De Parcelas Atrasadas, Repercussão Geral (tema 395), Modulação Dos Efeitos, Princípio Da Legalidade, Segurança Jurídica
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Parties
VICENTE DE PAULO CALIFANI
Recorrente
UNIÃO
Recorrida
Procedural Posture
Recurso Extraordinário / Admitido
Legal Issues
- 1 Possibilidade de cobrança de parcelas atrasadas de quintos/décimos reconhecidos administrativamente
- 2 Aplicação da tese firmada no RE 638.115/Tema 395 do STF quanto à inconstitucionalidade da incorporação no período indicado
- 3 Efeitos da modulação decretada pelo STF sobre verbas reconhecidas administrativamente
Ratio Decidendi
Admitiu-se o recurso extraordinário por entender existir divergência entre o acórdão recorrido e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal relativa à modulação dos efeitos fixada no RE 638.115/Tema 395, notadamente quanto à manutenção do pagamento das parcelas reconhecidas administrativamente até sua absorção por reajustes futuros.
Court Disposition
Recurso extraordinário admitido
Orders
- Admito o recurso extraordinário nos termos do art. 1.030, V, a, do Código de Processo Civil
- Publique-se
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso extraordinário interposto por VICENTE DE PAULO CALIFANI, com fundamento no art. 102, III, a, da Constituição Federal, contra acórdão do Superior Tribunal de Justiça assim ementado (fl. 711): PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. SERVIDOR PÚBLICO FEDERAL. INCORPORAÇÃO DE QUINTOS. RECONHECIMENTO ADMINISTRATIVO. COBRANÇA DE PARCELAS ATRASADAS. MEDIDA PROVISÓRIA 2.225/2001. IMPOSSIBILIDADE. RE 638.115/CE. 1. Tendo o recurso sido interposto contra decisão publicada na vigência do Código de P rocesso Civil de 2015, devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele previsto, conforme Enunciado Administrativo n. 3/2016/STJ. 2. Caso em que o recorrente objetiva a condenação da União ao pagamento das parcelas atrasadas e não pagas relativas à incorporação de quintos/décimos, no período de 8/4/1998 a 5/9/2001, reconhecidas em processo administrativo, acrescidas de correção monetária e juros de mora. 3. A jurisprudência desta Corte firmou a compreensão de que relativamente à pretensão de pagamento das verbas atrasadas, deve ser observada a tese fixada sob o rito da repercussão geral reconhecida no RE 638.115/CE - Tema 395/STF - segundo a qual "é inconstitucional a incorporação de quintos decorrente do exercício de funções comissionadas no período compreendido entre a edição da Lei 9.624/1998 e a MP 2.225-48/2001". Nesse sentido: EDcl no AgInt no AgRg no AREsp 2.085/RJ, relatora Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, DJe 17/2/2023; EDcl no Ag 1.078.244/RJ, relator Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe 30/8/2022; AgInt no RE nos EDcl no AgRg no AREsp 17.132/RJ, relator Ministro Jorge Mussi, Corte Especial, DJe 27/5/2022. 4. Agravo interno não provido. A parte recorrente alega a existência de repercussão geral da matéria debatida e de contrariedade, no acórdão recorrido, aos arts . 5º, XXXV, XXXVI, LIV e LV, 37, caput, X e XV, e 102, § 2º, da Constituição Federal. Nesse sentido, sustenta que a pretensão deduzida nos presentes autos resume-se ao recebimento de parcelas em atraso referente aos quintos/décimos reconhecidos administrativamente pela União. Além disso, argumenta que o acórdão recorrido não está em consonância com o Tema n. 395 do STF por impedir o pagamento das referidas verbas. Assevera que (fl. 763): .. não cabe a conclusão que o impedimento do pagamento das verbas reconhecidas administrativamente e não pagas pela Administração ao seu tempo estaria em consonância com o resultado do julgamento do Tema 395 e suas modulações, pois, é o próprio Supremo Tribunal Federal que afirma que as verbas pretéritas foram mantidas (Min. Edson Fachin) e que em nenhum momento o julgamento do referido tema tenha extinguido os débitos já reconhecidos administrativamente (Min. Alexandre de Moraes), para então entender que o pagamento das verbas de quintos/décimos reconhecidos administrativamente se amolda perfeitamente à decisão do STF no julgamento do RE 638.115 (Min. Gilmar Mendes). Acrescenta que, "ao se observar o julgamento do RE n. 638.115 (Tema 395) em sua integralidade, percebe-se que ao modular os efeitos da decisão, o Supremo autorizou o pagamento das parcelas retroativas dos quintos/décimos" (fl. 767). Requer, ao final, a admissão do recurso e a remessa dos autos ao Supremo Tribunal Federal. As contrarrazões foram apresentadas às fls. 855-859. É o relatório. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE n. 638.115, Tema n. 395 da repercussão geral, firmou posicionamento de que a incorporação de quintos decorrentes do exercício de funções comissionadas no período entre a edição da Lei n. 9.624/1998 e a Medida Provisória n. 2.225-48/2001 ofende, entre outros, o princípio da legalidade. Em julgamento de embargos de declaração no mesmo feito, a Suprema Corte concluiu pela "manutenção do pagamento da referida parcela incorporada em decorrência de decisões administrativas, até que sejam absorvidas por quaisquer reajustes futuros a contar da data do presente julgamento". Confira-se a ementa do julgado: Embargos de declaração nos embargos de declaração no recurso extraordinário. 2. Repercussão Geral. 3. Direito Administrativo. Servidor público. 4. É inconstitucional a incorporação de quintos decorrente do exercício de funções comissionadas no período compreendido entre a edição da Lei 9.624/1998 e a MP 2.225-48/2001. 5. Cessação imediata do pagamento dos quintos incorporados por força de decisão judicial transitada em julgado. Impossibilidade. Existência de mecanismos em nosso ordenamento aptos a rescindir o título executivo, ou ao menos torná-lo inexigível, quando a sentença exequenda fundamentar-se em interpretação considerada inconstitucional pelo STF. Embargos acolhidos neste ponto. 6. Verbas recebidas em decorrência de decisões administrativas. Manutenção da decisão. Inaplicabilidade do art. 54 da Lei 9.784/99. Dispositivo direcionado à Administração Pública, que não impede a apreciação judicial. Necessidade de observância do princípio da segurança jurídica. Recebimento de boa-fé. Decurso do tempo. 7. Modulação dos efeitos da decisão. Manutenção do pagamento da referida parcela incorporada em decorrência de decisões administrativas, até que sejam absorvidas por quaisquer reajustes futuros a contar da data do presente julgamento. 8. Parcelas recebidas em virtude de decisão judicial sem trânsito em julgado. Sobrestados em virtude da repercussão geral. Modulação dos efeitos para manter o pagamento àqueles servidores que continuam recebendo os quintos até absorção por reajustes futuros. 9. Julgamento Virtual. Ausência de violação ao Princípio da Colegialidade. 10. Embargos de declaração parcialmente acolhidos, com efeitos infringentes, para reconhecer indevida a cessação imediata do pagamento dos quintos quando fundado em decisão judicial transitada em julgado. Quanto às verbas recebidas em virtude de decisões administrativas, apesar de reconhecer-se sua inconstitucionalidade, modulam-se os efeitos da decisão, determinando que o pagamento da parcela seja mantida até sua absorção integral por quaisquer reajustes futuros concedidos aos servidores. Por fim, quanto às parcelas que continuam sendo pagas em virtude de decisões judiciais sem trânsito em julgado, também modulam-se os efeitos da decisão, determinando que o pagamento da parcela seja mantida até sua absorção integral por quaisquer reajustes futuros concedidos aos servidores. (RE n. 638.115-ED-ED, relator Ministro Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 18/12/2019, DJe de 8/5/2020.) No que diz respeito aos valores reconhecidos administrativamente e ainda não pagos, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar casos análogos ao presente, tem se posicionado pela possibilidade da cobrança. Observe-se, a propósito: AGRAVO INTERNO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. OFENSA AOS PRINCÍPIOS DO DEVIDO PROCESSO LEGAL, DA AMPLA DEFESA, DO CONTRADITÓRIO, DO DIREITO ADQUIRIDO, COISA JULGADA E ATO JURÍDICO PERFEITO. OFENSA CONSTITUCIONAL REFLEXA. TEMA 660. VERBAS RECEBIDAS EM VIRTUDE DE DECISÕES ADMINISTRATIVAS. MANUTENÇÃO DO PAGAMENTO ATÉ INTEGRAL ABSORÇÃO POR QUAIQUER OUTROS REAJUSTES FUTUROS CONCEDIDOS AOS SERVIDORES. ACÓRDÃO RECORRIDO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STF. TEMA 395 DA REPERCUSSÃO GERAL. 1. O STF, no julgamento do ARE 748.371-RG/MT (Rel. Min. GILMAR MENDES, Tema 660), rejeitou a repercussão geral da violação ao direito adquirido, ao ato jurídico perfeito, à coisa julgada ou aos princípios da legalidade, do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal, quando se mostrar imprescindível o exame de normas de natureza infraconstitucional. 2. Ação que versa sobre o direito de a parte autora perceber o restante dos valores reconhecidos administrativamente e não adimplidos, referentes à incorporação de quintos/décimos. 3. O Plenário desta CORTE, no julgamento do RE 638.115-ED-ED/CE (Rel. Min. GILMAR MENDES, DJe de 8/5/2020), por maioria, acolheu parcialmente os embargos de declaração, com efeitos infringentes, para reconhecer indevida a cessação imediata do pagamento dos quintos, quando fundado em decisão judicial transitada em julgado. 4. Quanto às verbas recebidas em virtude de decisões administrativas - hipótese dos autos -, modulou-se o efeito da decisão para que o servidor continue recebendo os valores até sua absorção integral por quaisquer reajustes futuros concedidos aos servidores. 5. O entendimento firmado pelo STF no Tema 395 em nenhum momento extingue débitos já reconhecidos administrativamente, não adimplidos no tempo apropriado. 6. Agravo Interno a que se nega provimento. (ARE n. 1.331.515 AgR, relator Ministro Alexandre de Moraes, Primeira Turma, julgado em 2/3/2022, DJe de 7/3/2022.) Agravo regimental em recurso extraordinário. Direito administrativo. Servidor Público. Incorporação de quintos após a Lei nº 9.624/98. Repercussão geral no RE nº 638.115/CE. Verbas recebidas em virtude de decisões administrativas. Manutenção do pagamento até integral absorção por outros reajustes futuros concedidos aos servidores. Cobrança de valores pretéritos. Possibilidade. Agravo regimental ao qual se nega provimento. 1. O Plenário da Corte, no julgamento do RE nº 638.115/CE-ED-ED (Tema nº 395 da Repercussão Geral), por maioria, acolheu parcialmente os embargos de declaração para considerar indevida a cessação imediata do pagamento dos quintos reconhecidos administrativamente, modulando os efeitos da decisão para assegurar que o servidor continue recebendo os valores até sua absorção integral por quaisquer reajustes futuros. 2. Agravo regimental não provido. (AgRg no RE n. 1.384.739, relator Ministro Dias Toffoli, Primeira Turma, julgado em 3/10/2022, DJe de 28/11/2022.) AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. INCORPORAÇÃO DE QUINTOS. IMPOSSIBILIDADE. DIREITO AO RECEBIMENTO DE VALORES EM ATRASO RECONHECIDOS ADMINISTRATIVAMENTE. ACÓRDÃO RECORRIDO EM HARMONIA COM O TEMA 395 DA REPERCUSSÃO GERAL. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO, COM APLICAÇÃO DE MULTA DE 1% SOBRE O VALOR ATUALIZADO DA CAUSA, SE UNÂNIME A VOTAÇÃO. (AgRg no RE n. 1.394.772, relatora Ministra Cármen Lúcia, Primeira Turma, julgado em 10/11/2022, DJe de 11/11/2022.) No caso, o acórdão recorrido concluiu pela impossibilidade do recebimento de parcelas pretéritas de incorporações de funções não pagas apesar do reconhecimento do direito na via administrativa, mesmo reportando-se ao Tema n. 395 do STF. Veja-se a transcrição (fls. 714-715): Como assinalado, a insurgência recursal submetida à apreciação desta Corte origina-se de Ação de Cobrança ajuizada contra a União, na qual a autora pretende a condenação da ré ao pagamento das parcelas atrasadas e não pagas relativas à incorporação de quintos/décimos, no período de 8/4/1998 a 5/9/2001, reconhecidas em processo administrativo, acrescidas de correção monetária e juros de mora. Acerca do tema, o Supremo Tribunal Federal, após reconhecer a Repercussão Geral da questão constitucional nos autos do RE 638.115/CE em 19/3/2015, consolidou o entendimento de que a incorporação de quintos aos vencimentos de servidores públicos federais seria possível somente até 28/2/1995 (art. 3º, I, da Lei 9.624/1998). No interregno de 1º/3/1995 a 11/11/1997 (Medida Provisória 1.595-14/1997), a incorporação devida seria de décimos (art. 3º, II e parágrafo único, da Lei 9.624/1998), sendo descabida qualquer concessão a partir de 11/11/1997, data em que a norma autorizadora da incorporação de parcelas remuneratórias foi expressamente revogada pela Medida Provisória 1.595-14, convertida na Lei 9.527/1997 (art. 15). Assim, ficou decidido que "ofende o princípio da legalidade a decisão que concede a incorporação de quintos pelo exercício de função comissionada no período de 8/4/1998 até 4/9/2001, ante a carência de fundamento legal". Contudo, os efeitos da decisão foram modulados após o julgamento de Embargos de Declaração no RE 638.115/CE, a fim de preservar a segurança jurídica, os quais devem ser observados no caso concreto. Naquela oportunidade, o STF acolheu parcialmente os aclaratórios, "com efeitos infringentes, para reconhecer indevida a cessação imediata do pagamento dos quintos quando fundado em decisão judicial transitada em julgado. Quanto às verbas recebidas em virtude de decisões administrativas, apesar de reconhecer-se sua inconstitucionalidade, modulam-se os efeitos da decisão, determinando que o pagamento da parcela seja mantida até sua absorção integral por quaisquer reajustes futuros concedidos aos servidores. Por fim, quanto às parcelas que continuam sendo pagas em virtude de decisões judiciais sem trânsito em julgado, também modulam-se os efeitos da decisão, determinando que o pagamento da parcela seja mantida até sua absorção integral por quaisquer reajustes futuros concedidos aos servidores". Relativamente à pretensão de pagamento das verbas atrasadas, aplica-se a tese da Repercussão Geral de que "é inconstitucional a incorporação de quintos decorrente do exercício de funções comissionadas no período compreendido entre a edição da Lei 9.624/1998 e a Medida Provisória 2.225-48/2001". Nessa linha: REsp 1.217.084/RJ, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 14/4/2021; e AgInt no AgRg no AREsp 797.218/DF, Rel. Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe 4/10/2019. O caso dos autos discute exclusivamente o pagamento de diferenças remuneratórias reconhecidas na via administrativa, porém não pagas pela União. Em vista do decidido no RE 638.115/CE, portanto, é de se concluir pela improcedência do pedido inicial. Constata-se assim que há, em princípio, divergência com o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no tocante à modulação dos efeitos da decisão proferida no Tema n. 395 de repercussão geral. Por fim, deixa-se de encaminhar os autos a juízo de retratação (art. 1.030, II, do CPC), em razão de o acórdão recorrido já haver considerado a aplicação do entendimento relativo à controvérsia apreciada no Tema n. 395 do STF. Ante o exposto, nos termos do art. 1.030, V, a, do Código de Processo Civil, admito o recurso extraordinário. Publique-se. Intimem-se. EMENTA RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. QUINTOS. INCORPORAÇÃO. TEMA N. 395 DO STF. MODULAÇÃO. ACÓRDÃO RECORRIDO EM DIVERGÊNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FE DERAL. RECURSO ADMITIDO.