AREsp 2612863 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial para excluir da condenação a indenização prevista no art. 387, IV, do CPP, em razão da ausência de indicação do valor mínimo pleiteado na peça acusatória, o que comprometeu o contraditório e a ampla defesa, conforme jurisprudência do STJ.
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- Parties
- Agravante: MAYCON MARTINS CAMPOS; Manifestante: Parquet Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 December 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Conhecimento E Provimento Do Agravo
- Outcome
- Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial para excluir a indenização fixada na condenação.
- Legal Topics
- Indenização, Fixação De Valor Mínimo, Reconhecimento De Pessoas, Reparação De Danos, Gratuidade De Justiça, Contraditório E Ampla Defesa
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Parties
MAYCON MARTINS CAMPOS
Agravante
Parquet Federal
Manifestante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Conhecimento E Provimento Do Agravo
Legal Issues
- 1 Possibilidade de fixação de indenização mínima na sentença sem indicação de valor na peça acusatória
- 2 Nulidade do reconhecimento de pessoas realizado no calor dos acontecimentos
- 3 Necessidade de instrução específica para apuração do quantum indenizatório
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial para excluir da condenação a indenização prevista no art. 387, IV, do CPP, em razão da ausência de indicação do valor mínimo pleiteado na peça acusatória, o que comprometeu o contraditório e a ampla defesa, conforme jurisprudência do STJ.
Court Disposition
Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial para excluir a indenização fixada na condenação.
Orders
- Conheço do agravo.
- Dou provimento ao recurso especial.
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por MAYCON MARTINS CAMPOS contra decisão do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais que inadmitiu o recurso especial aviado com fulcro na alínea "a" do permissivo constitucional e interposto contra o acórdão prolatado na Apelação Criminal n. 1.0000.23.123379-2/001. Extrai-se dos autos que o agravante foi condenado, como incurso nos arts. 157, caput, e 329, caput, ambos c/c o art. 61, I, todos do Código Penal, às penas de 5 (cinco) anos e 3 (três) meses de reclusão e 2 (dois) meses e 18 (dezoito) dias de detenção, em regime inicial fechado. Irresignada, a defesa interpôs apelação. Eis a ementa do acórdão (e-STJ fl. 524): EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL - ROUBO E RESISTÊNCIA - PRELIMINAR - NULIDADE DO RECONHECIMENTO DE PESSOAS - NÃO OCORRÊNCIA - REJEIÇÃO - ABSOLVIÇÃO - IMPOSSIBILIDADE - MATERIALIDADE E AUTORIA DELITIVAS COMPROVADAS - DECOTE DA FIXAÇÃO DE INDENIZAÇÃO - IMPOSSIBILIDADE - GRATUIDADE DA JUSTIÇA - CONCESSÃO - JUÍZO DA EXECUÇÃO. -A inobservância dos preceitos do artigo 226 do Código de Processo Penal não acarreta nulidade do reconhecimento de pessoas feito ainda no calor dos acontecimentos, logo após o cometimento do ilícito e pautado, ainda, na posse da res furtiva. Nestes casos, a possibilidade de falso reconhecimento é praticamente obliterada e não impõe a necessidade do procedimento previsto em Lei, que é realizado "quando houver necessidade". Precedentes. -Impossível o acolhimento da pretensão absolutória quando a materialidade e a autoria delitivas se encontram fartamente comprovadas nos autos. -Afasta-se o pleito absolutório do crime de resistência quando a materialidade e a autoria delitivas estão satisfatoriamente comprovadas nos autos, e não há causas excludentes da tipicidade, da ilicitude ou da culpabilidade. -A fixação de indenização à vítima diante dos danos causados pelo delito, nos termos do artigo 387, IV, do Código de Processo Penal, só é possível quando houver pedido expresso do Ministério Público ou do assistente de acusação e, ainda, haja o devido contraditório e ampla defesa. -Compete ao Juízo da Execução verificar a miserabilidade do condenado para fins de deferimento dos benefícios de gratuidade de justiça e a consequente suspensão do pagamento das custas processuais, em razão da possibilidade de alteração financeira do apenado entre a data da condenação e a execução do decreto condenatório. V. V. O Col. STJ firmou o entendimento no sentido de que "a reparação de danos, além de pedido expresso, pressupõe a indicação de valor e de prova suficiente a sustentá-lo, possibilitando ao réu o direito de defesa com indicação de quantum diverso ou mesmo a comprovação de inexistência de prejuízo material ou moral a ser reparado. Necessário, portanto, instrução específica para apurar o valor da indenização." (AgRg no AR Esp 1361693/GO, Quinta Turma, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, D Je 23/04/2019). No recurso especial, a defesa alega que se faz " necessária a instrução específica, para apuração do importe da indenização na fase judicial, possibilitando ao réu o direito de defesa com indicação de quantum diverso ou mesmo a comprovação de inexistência de prejuízo a ser reparado." (e-STJ fl. 608). Requer seja decotada a indenização fixada ao recorrente. O Parquet Federal manifestou-se pelo provimento do recurso especial. É o breve relatório. Decido. Acerca da indenização, destacou o Tribunal de origem (e-STJ fl. 540): De fato, é pressuposto para o deferimento da indenização prevista no art. 387, inciso IV, do CPP, a existência de pedido formulado pelo ofendido ou pelo Ministério Público, de forma a garantir o contraditório e a ampla defesa. Para que seja fixado na sentença o valor mínimo para reparação dos danos causados à vítima, com base no art. 387, IV, do Código de Processo Penal, deve haver pedido formal nesse sentido pelo ofendido ou pelo ente Ministerial e ser oportunizada a defesa pelo réu, sob pena de violação ao princípio da ampla defesa. In casu, o pedido de fixação de indenização civil, nos termos do art. 387, IV, CPP, foi requerido pelo Ministério Público à fl. 02 do documento único, oportunizando ao réu o direito de discutir acerca do "quantum" indenizatório a ser fixado. Além disso, a Defesa, em sede de alegações finais, manifestou-se expressamente pedindo o afastamento de indenização de valor mínimo em favor da vítima, alegando ausência de comprovação de dano ou prejuízo à vítima, não havendo, pois, que se falar em violação ao princípio do contraditório e da ampla defesa. Tal entendimento está em desacordo com a orientação do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual "a fixação de valor mínimo para reparação dos danos materiais causados pela infração exige, além de pedido expresso na inicial, a indicação de valor e instrução probatória específica" (AgRg no REsp n. 1.856.026/SC, relator Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, julgado em 16/6/2020, DJe 23/6/2020, grifei). Na leitura do trecho transcrito, observo que o órgão acusatório não indicou expressamente o valor específico da indenização, pleiteando apenas que fosse fixado o valor mínimo para a reparação dos danos. Assim, entendo que não foi dada ao agravante a oportunidade de discutir a indenização fixada, de modo que deve ser decotado da condenação o pagamento da indenização à vítima. Nesse mesmo sentido: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL PENAL. ESTUPRO TENTADO. VIOLAÇÃO DO ART. 387, IV, DO CPP. REPARAÇÃO POR DANO MORAL AFASTADA EM SEDE DE APELAÇÃO. PLEITO DE RESTABELECIMENTO DA CONDENAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DE VALOR MÍNIMO NA DENÚNCIA. NOVO ENTENDIMENTO DA TERCEIRA SEÇÃO. RESP N. 1.986.672/SC. 1. Esta Corte Superior vinha adotando o entendimento de que não há óbice para que o Magistrado fixe o valor da reparação mínima (art. 387, IV, do Código de Processo Penal) com base em dano moral sofrido pela vítima, exigindo-se somente pedido expresso na inicial acusatória. 1.1. No entanto, mais recentemente, revisando o entendimento até então estabelecido, a Terceira Seção deste Tribunal, ao julgar o REsp n. 1.986.672/SC, incluiu, além do pedido expresso, a necessidade de que o pleito indenizatório venha acompanhado de indicação do valor mínimo da pretendida reparação, a fim de assegurar o contraditório do réu quanto à questão. 1.2. No caso, o Ministério Público requereu, na inicial acusatória, indenização nos termos do art. 387, IV, do Código de Processo Penal, entretanto deixou de indicar o valor mínimo da reparação. Nesse contexto, inviável a reforma do acórdão recorrido, já que a ausência do valor mínimo fragiliza o contraditório do réu. 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no REsp n. 2.049.194/RS, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 17/6/2024, DJe de 20/6/2024, grifei.) PENAL. RECURSO ESPECIAL. CRIME DE ESTELIONATO. FIXAÇÃO DE VALOR INDENIZATÓRIO MÍNIMO. INCLUSÃO DO NOME DA VÍTIMA EM CADASTROS DE INADIMPLENTES. DANO MORAL IN RE IPSA. DESNECESSIDADE DE INSTRUÇÃO PROBATÓRIA ESPECÍFICA, NO CASO CONCRETO. EXIGÊNCIA, PORÉM, DE PEDIDO EXPRESSO E VALOR INDICADO NA DENÚNCIA. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO, NA PEÇA ACUSATÓRIA, DA QUANTIA PRETENDIDA PARA A COMPENSAÇÃO DA VÍTIMA. RECURSO ESPECIAL A QUE SE DÁ PROVIMENTO, PARA EXCLUIR A FIXAÇÃO DO VALOR INDENIZATÓRIO MÍNIMO. 1. A liquidação parcial do dano (material ou moral) na sentença condenatória, referida pelo art. 387, IV, do CPP, exige o atendimento a três requisitos cumulativos: (I) o pedido expresso na inicial; (II) a indicação do montante pretendido; e (III) a realização de instrução específica a fim de viabilizar ao réu o exercício da ampla defesa e do contraditório. Precedentes desta Quinta Turma. 2. A Quinta Turma, no julgamento do AgRg no REsp 2.029.732/MS em 22/8/ 2023, todavia, adotou interpretação idêntica à da Sexta Turma, no sentido de que é necessário incluir o pedido referente ao valor mínimo para reparação do dano moral na exordial acusatória, com a dispensa de instrução probatória específica. Esse julgamento não tratou da obrigatoriedade, na denúncia, de indicar o valor a ser determinado pelo juiz criminal. Porém, a conclusão foi a de que a indicação do valor pretendido é dispensável, seguindo a jurisprudência consolidada da Sexta Turma. 3. O dano moral decorrente do crime de estelionato que resultou na inclusão do nome da vítima em cadastro de inadimplentes é presumido. Inteligência da Súmula 385/STJ. 4. Com efeito, a possibilidade de presunção do dano moral in re ipsa, à luz das específicas circunstâncias do caso concreto, dispensa a obrigatoriedade de instrução específica sobre o dano. No entanto, não afasta a exigência de formulação do pedido na denúncia, com indicação do montante pretendido. 5. A falta de uma indicação clara do valor mínimo necessário para a reparação do dano almejado viola o princípio do contraditório e o próprio sistema acusatório, por na prática exigir que o juiz defina ele próprio um valor, sem indicação das partes. Destarte, uma medida simples e eficaz consiste na inclusão do pedido na petição inicial acusatória, juntamente com a exigência de especificar o valor pretendido desde o momento da apresentação da denúncia ou queixa-crime. Essa abordagem reflete a tendência de aprimoramento do contraditório, tornando imperativa a sua inclusão no âmbito da denúncia. 6. Assim, a fixação de valor indenizatório mínimo por danos morais, nos termos do art. 387, IV, do CPP, exige que haja pedido expresso da acusação ou da parte ofendida, com a indicação do valor pretendido, nos termos do art. 3º do CPP c/c o art. 292, V, do CPC/2015. 7. Na peça acusatória (apresentada já na vigência do CPC/2015), apesar de haver o pedido expresso do valor mínimo para reparar o dano, não se encontra indicado o valor atribuído à reparação da vítima. Diante disso, considerando a violação do princípio da congruência, dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa e do sistema acusatório, deve-se excluir o valor mínimo de indenização por danos morais fixado. 8. O entendimento aqui firmado não se aplica aos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, que continuam regidos pela tese fixada no julgamento do tema repetitivo 983/STJ. 9. Recurso especial provido para excluir a fixação do valor indenizatório mínimo. (REsp n. 1.986.672/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Terceira Seção, julgado em 8/11/2023, DJe de 21/11/2023.) Por fim, cumpre registrar que o réu foi condenado como incurso nos arts. 157, caput, e 329, caput, ambos do CP, fatos que não envolveram violência doméstica, motivo pelo qual não se aplica o entendimento do Tema n. 983. Nesse sentido: AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO QUALIFICADO. REPARAÇÃO DE DANOS. FIXAÇÃO DO VALOR MÍNIMO DA INDENIZAÇÃO. DANO MORAL PRESUMIDO. NECESSIDADE DE PEDIDO EXPRESSO NA DENÚNCIA E DE INDICAÇÃO DO VALOR PRETENDIDO. DESNECESSIDADE DE INSTRUÇÃO ESPECÍFICA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. "Em situações envolvendo dano moral presumido, a definição de um valor mínimo para a reparação de danos: (I) não exige prova para ser reconhecida, tornando desnecessária uma instrução específica com esse propósito, todavia, (II) requer um pedido expresso e (III) a indicação do valor pretendido pela acusação na denúncia" (REsp n. 1.986.672/SC, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 3ª S., DJe 21/11/2023). Portanto, a fixação do valor mínimo para reparação de danos morais em casos de homicídio depende de pedido expresso na inicial acusatória e de indicação do valor pretendido. 2. No caso, os réus foram condenados por homicídio qualificado contra o filho dos agravantes. Não houve pedido expresso na denúncia de pagamento de valor com fundamento no art. 387, IV, do CPP, circunstância que obsta a fixação da reparação prevista no art. 387, IV, do CPP. A situação ora em exame não envolve violência doméstica, motivo pelo qual não se adota o entendimento do tema repetitivo n. 983. 3. Agravo regimental não provido. (AgRg nos EDcl no REsp n. 2.140.049/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 16/9/2024, DJe de 18/9/2024, grifei.) Ante o exposto, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, nos termos acima delineados. Publique-se. Intimem-se. EMENTA