REsp 1839183 - ACORDAO
Verificou-se que o Tribunal de origem enfrentou e fundamentou as questões essenciais, afastando a alegação de violação aos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015; contudo, quanto à exclusão da cobertura securitária por vícios construtivos, o acórdão estadual divergiu da jurisprudência consolidada da Segunda Seção (REsp...
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- Parties
- Agravante: TERCIO ALVES DA ROCHA; Agravante: BENTO DO CARMO FERREIRA DOS SANTOS; Agravado: SUL AMERICA COMPANHIA NACIONAL DE SEGUROS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 15 December 2021
- Procedural Posture
- Agravo Interno No Recurso Especial / Acórdão (julgamento Colegiado)
- Outcome
- Agravo interno provido; recurso especial parcialmente provido; remessa ao Tribunal de origem para novo julgamento da apelação à luz da jurisprudência do STJ.
- Legal Topics
- Indenização Securitária, Sistema Financeiro De Habitação (sfh), Vícios Construtivos, Cláusula Excludente De Responsabilidade, Boa Fé Objetiva, Função Socioeconômica Do Contrato, Súmula 284/stf, Súmulas 5 E 7/stj, Súmula 83/stj
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Parties
TERCIO ALVES DA ROCHA
Agravante
BENTO DO CARMO FERREIRA DOS SANTOS
Agravante
SUL AMERICA COMPANHIA NACIONAL DE SEGUROS
Agravado
Procedural Posture
Agravo Interno No Recurso Especial / Acórdão (julgamento Colegiado)
Legal Issues
- 1 violação aos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015
- 2 incidência da multa decendial e aplicação da Súmula 284/STF
- 3 inaplicabilidade de cláusula excludente de cobertura por vícios construtivos em seguro habitacional vinculado ao SFH
Ratio Decidendi
Verificou-se que o Tribunal de origem enfrentou e fundamentou as questões essenciais, afastando a alegação de violação aos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015; contudo, quanto à exclusão da cobertura securitária por vícios construtivos, o acórdão estadual divergiu da jurisprudência consolidada da Segunda Seção (REsp 1.804.965/SP), segundo a qual cláusula que exclui cobertura de vícios estruturais em seguro habitacional vinculado ao SFH é inaplicável por afrontar a boa-fé objetiva e a função socioeconômica do contrato. Ademais, o pedido de multa decendial foi obstado pela Súmula 284/STF em razão da deficiência da fundamentação do recurso. Assim, deu-se provimento ao agravo interno para prover...
Court Disposition
Agravo interno provido; recurso especial parcialmente provido; remessa ao Tribunal de origem para novo julgamento da apelação à luz da jurisprudência do STJ.
Orders
- Agravo interno provido.
- Recurso especial parcialmente provido.
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2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da QUARTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, dar parcial provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Luis Felipe Salomão, Maria Isabel Gallotti, Antonio Carlos Ferreira e Marco Buzzi votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Luis Felipe Salomão. EMENTA PROCESSUAL CIVIL E DIREITO CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. VIOLAÇÃO AOS ARTS. 489 E 1.022 DO CPC/2015. ACÓRDÃO ESTADUAL FUNDAMENTADO. MULTA DECENDIAL. DEFICIÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 284/STF. CLÁUSULA EXCLUDENTE DE RESPONSABILIDADE POR VÍCIOS CONSTRUTIVOS. INAPLICABILIDADE. DISSONÂNCIA DO ACÓRDÃO RECORRIDO COM O ENTENDIMENTO DA SEGUNDA SEÇÃO. AGRAVO INTERNO PROVIDO. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO. 1. Não se verifica a alegada violação aos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015, na medida em que a eg. Corte estadual dirimiu, fundamentadamente, os pontos essenciais ao deslinde da controvérsia. 2. No que tange ao pedido de incidência da multa decendial, de fato, observa-se que a parte recorrente não trouxe nas razões do especial argumentação jurídica pertinente, de modo a demonstrar o acerto de sua tese. Incide, portanto, o óbice previsto na Súmula 284 do STF na hipótese em que a deficiência da fundamentação do recurso não permite a exata compreensão da controvérsia. 3. A Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que "a interpretação fundada na boa-fé objetiva, contextualizada pela função socioeconômica que desempenha o contrato de seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH, leva a concluir que a restrição de cobertura, no tocante aos riscos indicados, deve ser compreendida como a exclusão da responsabilidade da seguradora com relação aos riscos que resultem de atos praticados pelo próprio segurado ou do uso e desgaste natural e esperado do bem, tendo como baliza a expectativa de vida útil do imóvel, porque configuram a atuação de forças normais sobre o prédio" (REsp 1.804.965/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 27/05/2020, DJe de 1º/06/2020). 4. No caso, ao afastar a indenização securitária por vícios construtivos, em razão da exclusão contratual, o Tribunal de origem se distanciou da jurisprudência do STJ, motivo pelo qual o apelo comporta provimento. 5. Agravo interno provido para dar parcial provimento ao recurso especial.
RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO RAUL ARAÚJO (Relator): Trata-se de agravo interno interposto por TERCIO ALVES DA ROCHA e OUTRO contra decisão da lavra deste Relator (fls. 1.461/1.468), que conheceu em parte do recurso e, nessa extensão, negou-lhe provimento, por negativa de prestação jurisdicional e incidência da Súmula 83/STJ quanto à exclusão da cobertura securitária, por ausência de previsão na apólice, aplicabilidade das Súmulas 5 e 7 desta Corte, pela necessidade de interpretação de cláusula contratual e do reexame do conjunto fático-probatório dos autos, e da Súmula 284/STF quanto à multa decendial. Em suas razões, os agravantes afirmam, na mesma linha de argumentação apresentada no recurso especial, que há negativa de prestação jurisdicional, especialmente em relação à análise sistemática do conteúdo da apólice, bem como a inaplicabilidade das Súmulas 5 e 7 do STJ. Acrescentam que a cláusula restritiva de direitos fere o princípio da boa-fé e que, em contratos de que tratam os autos, deve prevalecer a finalidade social do seguro habitacional (fl. 1.486). Aduzem que a Súmula 284/STF é inaplicável ao caso. Pedem, assim, seja reconsiderada a decisão agravada ou que o feito seja levado a julgamento pelo órgão colegiado, pleiteando, por fim, o provimento do recurso, "para que seja restabelecida a sentença". Impugnação apresentada às fls. 1.500/1.519, pela manutenção da decisão agravada. É o relatório. AgInt no RECURSO ESPECIAL Nº 1.839.183 - SP (2019/0280926-6) RELATOR : MINISTRO RAUL ARAÚJO AGRAVANTE : TERCIO ALVES DA ROCHA AGRAVANTE : BENTO DO CARMO FERREIRA DOS SANTOS ADVOGADOS : LECYAN MENDES SLOVINSKI - SC004046 FRANCISCO DE ASSIS ZIMMERMANN FILHO E OUTRO(S) - SC004200 PEDRO EGÍDIO MARAFIOTTI - SP110669 GUILHERME LIMA BARRETO - SP215227 HENRIQUE JOSÉ BOAVENTURA VIEIRA E OUTRO(S) - SC017391 JOAO BATISTA XAVIER DA SILVA - SP244454 AGRAVADO : SUL AMERICA COMPANHIA NACIONAL DE SEGUROS ADVOGADOS : SAMIRA REBECA FERRARI E OUTRO(S) - SP279477 LOYANNA DE ANDRADE MIRANDA - SP398091 EMENTA PROCESSUAL CIVIL E DIREITO CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. VIOLAÇÃO AOS ARTS. 489 E 1.022 DO CPC/2015. ACÓRDÃO ESTADUAL FUNDAMENTADO. MULTA DECENDIAL. DEFICIÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 284/STF. CLÁUSULA EXCLUDENTE DE RESPONSABILIDADE POR VÍCIOS CONSTRUTIVOS. INAPLICABILIDADE. DISSONÂNCIA DO ACÓRDÃO RECORRIDO COM O ENTENDIMENTO DA SEGUNDA SEÇÃO. AGRAVO INTERNO PROVIDO. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO. 1. Não se verifica a alegada violação aos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015, na medida em que a eg. Corte estadual dirimiu, fundamentadamente, os pontos essenciais ao deslinde da controvérsia. 2. No que tange ao pedido de incidência da multa decendial, de fato, observa-se que a parte recorrente não trouxe nas razões do especial argumentação jurídica pertinente, de modo a demonstrar o acerto de sua tese. Incide, portanto, o óbice previsto na Súmula 284 do STF na hipótese em que a deficiência da fundamentação do recurso não permite a exata compreensão da controvérsia. 3. A Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que "a interpretação fundada na boa-fé objetiva, contextualizada pela função socioeconômica que desempenha o contrato de seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH, leva a concluir que a restrição de cobertura, no tocante aos riscos indicados, deve ser compreendida como a exclusão da responsabilidade da seguradora com relação aos riscos que resultem de atos praticados pelo próprio segurado ou do uso e desgaste natural e esperado do bem, tendo como baliza a expectativa de vida útil do imóvel, porque configuram a atuação de forças normais sobre o prédio" (REsp 1.804.965/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 27/05/2020, DJe de 1º/06/2020). 4. No caso, ao afastar a indenização securitária por vícios construtivos, em razão da exclusão contratual, o Tribunal de origem se distanciou da jurisprudência do STJ, motivo pelo qual o apelo comporta provimento. 5. Agravo interno provido para dar parcial provimento ao recurso especial. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO RAUL ARAÚJO (Relator): Diante das razões trazidas no agravo, reconsidero a decisão de fls. 1.461-1.468, uma vez que não incidem os óbices das Súmulas 7 e 5 do STJ. Passo, assim, a novo julgamento do feito. Na leitura das razões do apelo nobre, observa-se que os agravantes defendem a violação dos arts. 1.022 e 489 do CPC/2015, sob o argumento de que o acórdão recorrido foi omisso e com fundamentação deficiente. Com efeito, na leitura minudente do v. acórdão estadual, verifica-se que o eg. Tribunal estadual manifestou-se acerca dos temas pretendidos pelos agravantes, concluindo que, nos termos da apólice, não fazem jus à indenização securitária. Dessa forma, verifica-se que o acórdão do Tribunal de origem abordou todos os pontos necessários à composição da lide, ofereceu conclusão conforme à prestação jurisdicional solicitada, encontra-se alicerçado em premissas que se apresentam harmônicas com o entendimento adotado e desprovido de obscuridades ou contradições. Salienta-se que esta Corte é pacífica no sentido de que não há omissão, contradição ou obscuridade no julgado quando se resolve a controvérsia de maneira sólida e fundamentada e apenas se deixa de adotar a tese do embargante. Nesse sentido, colhem-se estes precedentes: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL - AÇÃO CONDENATÓRIA - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE NEGOU PROVIMENTO AO APELO EXTREMO. INSURGÊNCIA RECURSAL DO AUTOR. (..) 2. Não constatada a alegada violação aos artigos 489, § 1º, inc. IV, e 1.022, inc. II, do CPC/15, porquanto todas as questões submetidas a julgamento foram apreciadas pelo órgão julgador, com fundamentação clara, coerente e suficiente, ainda que em sentido contrário a pretensão recursal. (..) 4. Agravo interno desprovido." (AgInt no AREsp 1.378.786/GO, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 12/03/2019, DJe de 15/03/2019 - g. n.) "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. DOIS RECURSOS INTERPOSTOS CONTRA A MESMA DECISÃO. PRECLUSÃO. UNIRRECORRIBILIDADE. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AOS ARTS. 489 E 1.022 DO CPC. REEXAME DO SUPORTE FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. SÚMULA 7/STJ. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO DE PRECEITO LEGAL. DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL NÃO VERIFICADO. (..) 2. Não se viabiliza o recurso especial pela indicada violação dos artigos 489 e 1.022 do Código de Processo Civil quando a matéria em exame foi devidamente enfrentada pelo Tribunal de origem, ainda que em sentido contrário à pretensão da parte recorrente. (..) 7. Agravo interno de fls. 720-730 não conhecido. Agravo interno de fls. 707-717 não provido." (AgInt no AREsp 1.270.355/DF, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 12/03/2019, DJe de 19/03/2019 - g. n.) No que tange ao pedido de incidência da multa decendial, de fato, observa-se que a parte recorrente não trouxe nas razões do especial argumentação jurídica pertinente, de modo a demonstrar o acerto de sua tese. Incide, portanto, o óbice previsto na Súmula 284 do STF na hipótese em que a deficiência da fundamentação do recurso não permite a exata compreensão da controvérsia. No mesmo sentido: AgInt no REsp 1.674.404/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 21/09/2017, DJe de 09/10/2017. Por sua vez, em relação à cobertura securitária por vícios construtivos, melhor sorte socorre os recorrentes. Com efeito, ao julgar a apelação interposta pela seguradora, o Tribunal a quo concluiu não ser devida a indenização, pois havia cláusula no contrato de seguro que expressamente excluía a indenização por vício construtivo, nos seguintes termos: "No caso concreto, os autores reclamam de avarias produzidas em razão de vícios construtivos nos imóveis adquiridos pelo SFH - Sistema Financeiro de Habitação. Sabe-se que o contrato de seguro pode restringir a hipótese de cobertura (artigo 757, do CC), sendo certo que a indenização é prevista para os casos em que influa circunstancia de caráter externo, havendo exclusão expressa para o caso de vício de construção. (..) Como a própria causa petendi aponta que as avarias reclamadas são originadas de vícios de construção, temos que não cabe o pleito de indenização securitária. Não se configurou o alegado risco de desmoronamento, o qual, todavia, deveria ter origem também em causa exógena. E também não se diga que, não havendo cobertura securitária, não haveria responsabilidade civil. Os autores apenas deveriam ter manejado sua ação contra quem é efetivamente responsável pelos vícios construtivos. Assim, a ré não pode ser responsabilizada pelos prejuízos comprovadamente enfrentados pelos autores, pelo que desnecessária a discussão das demais questões pendentes. Logo, a improcedência era de rigor." Ocorre que a Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o REsp 1.804.965/SP (Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, DJe de 1º/06/2020), firmou o entendimento de que, com base na função socioeconômica do contrato e na boa-fé objetiva, é nula a cláusula contratual que, em seguro habitacional, exclui a cobertura dos danos causados pelos vícios de construção. O julgado foi assim ementado: "RECURSO ESPECIAL. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚM. 211/STJ. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. IMÓVEL ADQUIRIDO PELO SFH. ADESÃO AO SEGURO HABITACIONAL OBRIGATÓRIO. RESPONSABILIDADE DA SEGURADORA. VÍCIOS DE CONSTRUÇÃO (VÍCIOS OCULTOS). BOA-FÉ OBJETIVA. FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO. JULGAMENTO: CPC/15. 1. Ação de indenização securitária proposta em 11/03/2011, de que foi extraído o presente recurso especial, interposto em 12/07/2018 e concluso ao gabinete em 16/04/2019. 2. O propósito recursal é decidir se os prejuízos resultantes de sinistros relacionados a vícios estruturais de construção estão acobertados pelo seguro habitacional obrigatório, vinculado a crédito imobiliário concedido para aquisição de imóvel pelo Sistema Financeiro da Habitação - SFH. 3. A ausência de decisão acerca dos dispositivos legais indicados como violados impede o conhecimento do recurso especial (súm. 211/STJ). 4. Devidamente analisadas e discutidas as questões de mérito, e suficientemente fundamentado o acórdão recorrido, de modo a esgotar a prestação jurisdicional, não há falar em violação do art. 1.022 do CPC/15. 5. Em virtude da mutualidade ínsita ao contrato de seguro, o risco coberto é previamente delimitado e, por conseguinte, limitada é também a obrigação da seguradora de indenizar; mas o exame dessa limitação não pode perder de vista a própria causa do contrato de seguro, que é a garantia do interesse legítimo do segurado. 6. Assim como tem o segurado o dever de veracidade nas declarações prestadas, a fim de possibilitar a correta avaliação do risco pelo segurador, a boa-fé objetiva impõe ao segurador, na fase pré-contratual, o dever, dentre outros, de dar informações claras e objetivas sobre o contrato, para permitir que o segurado compreenda, com exatidão, o verdadeiro alcance da garantia contratada, e, nas fases de execução e pós-contratual, o dever de evitar subterfúgios para tentar se eximir de sua responsabilidade com relação aos riscos previamente determinados. 7. Esse dever de informação do segurador ganha maior importância quando se trata de um contrato de adesão - como, em regra, são os contratos de seguro -, pois se trata de circunstância que, por si só, torna vulnerável a posição do segurado. 8. A necessidade de se assegurar, na interpretação do contrato, um padrão mínimo de qualidade do consentimento do segurado, implica o reconhecimento da abusividade formal das cláusulas que desrespeitem ou comprometam a sua livre manifestação de vontade, enquanto parte vulnerável. 9. No âmbito do SFH, o seguro habitacional ganha conformação diferenciada, uma vez que integra a política nacional de habitação, destinada a facilitar a aquisição da casa própria, especialmente pelas classes de menor renda da população, tratando-se, pois, de contrato obrigatório que visa à proteção da família e à salvaguarda do imóvel que garante o respectivo financiamento imobiliário, resguardando, assim, os recursos públicos direcionados à manutenção do sistema. 10. A interpretação fundada na boa-fé objetiva, contextualizada pela função socioeconômica que desempenha o contrato de seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH, leva a concluir que a restrição de cobertura, no tocante aos riscos indicados, deve ser compreendida como a exclusão da responsabilidade da seguradora com relação aos riscos que resultem de atos praticados pelo próprio segurado ou do uso e desgaste natural e esperado do bem, tendo como baliza a expectativa de vida útil do imóvel, porque configuram a atuação de forças normais sobre o prédio. 11. Os vícios estruturais de construção provocam, por si mesmos, a atuação de forças anormais sobre a edificação, na medida em que, se é fragilizado o seu alicerce, qualquer esforço sobre ele - que seria naturalmente suportado acaso a estrutura estivesse íntegra - é potencializado, do ponto de vista das suas consequências, porque apto a ocasionar danos não esperados na situação de normalidade de fruição do bem. 12. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido." (REsp 1804965/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 27/05/2020, DJe de 1º/06/2020, g.n.) Nesse mesmo sentido: "AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. SEGURO HABITACIONAL. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 1.022 DO CPC/2015. QUESTÃO JURÍDICA NÃOALEGADA NOS ACLARATÓRIOS. TESE DE INAPLICABILIDADE DAS NORMAS CONSUMERISTAS. INOVAÇÃO RECURSAL. DESCABIMENTO. VÍCIOS CONSTRUTIVOS. DEVER DE INDENIZAR DA SEGURADORA. ACÓRDÃO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. AGRAVO PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESSA EXTENSÃO, DESPROVIDO. 1. É inviável o reconhecimento da violação ao art. 1.022 do CPC/2015, uma vez que foi alegada omissão quanto a tese jurídica que nem sequer foi suscitada nos embargos declaratórios. 2. É vedado à parte insurgente, nas razões do agravo interno, apresentar tese que não foi aventada no momento da interposição do recurso especial, razão pela qual não é possível conhecer da alegação de inaplicabilidade das normas consumeristas. 3. Segundo o entendimento jurisprudencial desta Corte, firmado com base na função socioeconômica do contrato e na boa-fé objetiva, é nula a cláusula contratual que, em seguro habitacional, exclui a cobertura dos danos causados pelos vícios de construção. 4. Agravo interno parcialmente conhecido e, nessa extensão, desprovido." (AgInt no REsp 1890590/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 15/12/2020, DJe 18/12/2020, g.n.) "AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. SEGURO HABITACIONAL. VÍCIOS DE CONSTRUÇÃO. INTERPRETAÇÃO DO SEGURO OBRIGATÓRIO CONSOANTE A SUA FUNÇÃO SOCIAL, A BOA-FÉ OBJETIVA, E A NATUREZA ADESIVA. A CLÁUSULA DAS CONDIÇÕES PARTICULARES DO SEGURO QUE AFASTA A COBERTURA DOS VÍCIOS CONSTRUTIVOS AFRONTA O QUANTO DISPOSTO NO ART. 51, VI E §2º, DO CDC. 1. Discussão acerca da abusividade de cláusula constante nas condições particulares do seguro habitacional inserto no âmbito do SFH segundo a qual vícios de construção ou defeitos físicos oriundos de causas internas estejam afastados da cobertura securitária. 2. O seguro é erigido dentro do sistema de financiamento como garantia ao segurado e, do mesmo modo, ao financiador, de modo que possa desempenhar a sua mais clara função: garantir que o segurado seja ressarcido pelos riscos invalidez/morte, danos físicos ao imóvel financiado, e responsabilidade do construtor e que o credor financiante não seja surpreendido com a ruína do imóvel que garante o financiamento. 3. Abusividade da cláusula das condições particulares do seguro habitacional que restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato. Incompatibilidade com os fins sociais do seguro obrigatório habitacional da exclusão dos principais vícios que acometam o bem objeto de garantia do financiamento. 4. Ilegitimidade passiva afastada na origem quando do julgamento de anterior agravo de instrumento. Preclusão. Enunciado 283/STF. Questão, ademais, a depender da revisão do contexto fático probatório, o que não é da competência deste Tribunal Superior. Enunciado 7/STJ. 5. Prescrição ânua contada da efetiva ciência do segurado acerca dos vícios construtivos. Indefinição do marco inicial. Danos progressivos. Impossibilidade de reconhecimento do implemento do prazo prescricional no caso concreto. Súmulas 568 e 7/STJ. 6. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO." (AgInt no REsp 1876017/SP, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 07/12/2020, DJe 11/12/2020, g.n.) "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DECISÃO DA PRESIDÊNCIA. RECONSIDERAÇÃO. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. CLÁUSULA EXCLUDENTE DE RESPONSABILIDADE POR VÍCIOS CONSTRUTIVOS. INAPLICABILIDADE. CONSONÂNCIA DO ACÓRDÃO RECORRIDO COM O ENTENDIMENTO DA SEGUNDA SEÇÃO. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. Agravo interno contra decisão da Presidência que não conheceu do agravo em recurso especial, em razão da falta de impugnação específica de fundamento decisório. Reconsideração. 2. A Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de que "a interpretação fundada na boa-fé objetiva, contextualizada pela função socioeconômica que desempenha o contrato de seguro habitacional obrigatório vinculado ao SFH, leva a concluir que a restrição de cobertura, no tocante aos riscos indicados, deve ser compreendida como a exclusão da responsabilidade da seguradora com relação aos riscos que resultem de atos praticados pelo próprio segurado ou do uso e desgaste natural e esperado do bem, tendo como baliza a expectativa de vida útil do imóvel, porque configuram a atuação de forças normais sobre o prédio" (REsp 1.804.965/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 27/05/2020, DJe de 1º/06/2020). 3. No caso, como se trata de vícios estruturais, intrínsecos à construção vinculada ao SFH, é incabível a sua exclusão quanto à cobertura por seguro obrigatório. Incidência da Súmula 83/STJ. 4. Agravo interno provido para conhecer do agravo e negar provimento ao recurso especial. (AgInt no AREsp 1648820/SP, de minha relatoria, QUARTA TURMA, julgado em 28/09/2020, DJe 20/10/2020, g.n.) Dessa forma, estando o acórdão estadual em dissonância com a jurisprudência assente do STJ sobre o tema, deve ser dado provimento ao recurso especial, uma vez que, por se tratar de vícios estruturais, intrínsecos à construção vinculada ao SFH, é incabível a sua exclusão quanto à cobertura por seguro obrigatório. Ante o exposto, dá-se provimento ao agravo interno para dar parcial provimento ao recurso especial, a fim de determinar a remessa dos autos ao Tribunal de origem, para que seja proferido novo julgamento da apelação, à luz da citada jurisprudência do STJ. É como voto.