AREsp 2875696 - DECISAO
Conhecido o agravo, negou-se provimento ao recurso especial porque a presença de crime impeditivo (homicídio qualificado), vedado pelo art. 7º do Decreto n. 11.302/2022, impede a concessão do indulto aos demais delitos enquanto não cumprida a pena do crime impeditivo, considerando-se 'concurso' em sentido amplo para...
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- Parties
- Agravante: Oscar Rodrigues da Cunha; Recorrido: Presidência do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 09 May 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Julgamento De Admissibilidade E Mérito Do Agravo
- Outcome
- Conheço do agravo e nego provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Indulto Natalino (decreto N. 11.302/2022), Crimes Impeditivos, Unificação De Penas (art. 111 Da Lep), Concurso De Crimes, Inadmissão De Recurso Especial (súmula N. 83 Do Stj)
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Parties
Oscar Rodrigues da Cunha
Agravante
Presidência do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
Recorrido
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Julgamento De Admissibilidade E Mérito Do Agravo
Legal Issues
- 1 Se o indulto previsto no Decreto n. 11.302/2022 deve ser vedado quando o apenado cumpre pena por crime impeditivo (homicídio qualificado) remanescente de unificação de penas, mesmo que não praticado em concurso com outros crimes
- 2 Interpretação do termo 'concurso' no art. 11 do Decreto n. 11.302/2022 em relação ao art. 111 da Lei de Execuções Penais
Ratio Decidendi
Conhecido o agravo, negou-se provimento ao recurso especial porque a presença de crime impeditivo (homicídio qualificado), vedado pelo art. 7º do Decreto n. 11.302/2022, impede a concessão do indulto aos demais delitos enquanto não cumprida a pena do crime impeditivo, considerando-se 'concurso' em sentido amplo para abarcar a unificação de penas prevista no art. 111 da LEP e em observância ao entendimento do STF.
Court Disposition
Conheço do agravo e nego provimento ao recurso especial.
Orders
- Conheço do agravo
- Nego provimento ao recurso especial
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO A controvérsia foi devidamente sintetizada no parecer ministerial acostado às e-STJ fls. 659/662, cujo relatório ora transcrevo: Trata-se de agravo interposto por Oscar Rodrigues da Cunha, contra decisão da Presidência do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, que inadmitiu o recurso especial defensivo. Colhe-se dos autos que o agravante cumpre pena unificada pela prática dos crimes de posse e porte ilegal de arma de fogo, homicídio qualificado e ameaça, além da contravenção penal prevista no art. 65 da LCP. No curso da execução, a defesa formulou pedido do indulto natalino a que se refere o Decreto n. 11.302/2022 quanto aos delitos comuns. No entanto, o pedido foi indeferido pelo Juízo das Execuções Penais, sob o fundamento de que não foram preenchidos os requisitos lá especificados. Interposto agravo em execução, o TJDFT negou-lhe provimento. Assim, interpôs-se recurso especial, fundado na alínea a do permissivo constitucional, alegando-se violação do art. 111 da LEP. Argumenta-se que os crimes comuns não foram praticados em concurso com o delito impeditivo previsto no art. 7º do Decreto Presidencial (homicídio qualificado), de modo que deve ser aplicada interpretação restritiva quanto ao conceito de concurso de crimes, o qual deve ser restringir às hipóteses previstas nos arts. 69, 70 e 71 do CP. Requereu, assim, a extinção da punibilidade do recorrente quanto aos delitos comuns não praticados em concurso com o homicídio qualificado. Contrarrazões às f. 597-599. O recurso foi inadmitido, ante o óbice da Súmula n. 83 do STJ. Sobreveio, então, agravo em recurso especial, objetivando o reexame da admissibilidade recursal. Contraminuta ao agravo à f. 636. Ao final do parecer , o Ministério Público Federal manifestou-se pelo conhecimento do agravo e pelo não conhecimento do recurso especial. É o relatório. Decido. Presentes os pressupostos de admissibilidade do agravo, passo ao exame do recurso especial. O indulto é constitucionalmente ato privativo do Presidente da República, podendo ele trazer, no ato discricionário, as condições que entender cabíveis para a concessão do benefício, não se estendendo ao Poder Judiciário nenhuma ingerência no âmbito de alcance da norma. O Decreto n. 11.302/2022 concede indulto natalino: (a) aos acometidos por paraplegia, tetraplegia ou cegueira, doença grave permanente, que imponha severa limitação de atividade e exija cuidados contínuos que não possam ser prestados no estabelecimento penal, como neoplasia maligna ou síndrome da deficiência imunológica adquirida (aids), em estágio terminal; (b) aos agentes públicos que compõem o Sistema Único de Segurança Pública condenados por excesso culposo, por crime culposo; (c) aos militares das Forças Armadas, em operações de Garantia da Lei e da Ordem, condenados por excesso culposo; (d) aos maiores de 70 anos de idade que tenham cumprido pelo menos 1/3 da pena; e (e) aos condenados por crime cuja pena privativa de liberdade máxima em abstrato não seja superior a 5 anos (art. 5º). Assim, não há como concluir que o limite máximo de pena em abstrato estipulado no art. 5º do Decreto n. 11.302/2022 somente autorize a concessão de indulto se, após a unificação do art. 111 da Lei de Execuções Penais (LEP), as penas correspondentes a infrações diversas, somadas, não ultrapassarem 5 anos, pois o dispositivo estabelece que será considerado, individualmente, o preceito secundário relativo a cada infração penal. Confira-se: Art. 5º Será concedido indulto natalino às pessoas condenadas por crime cuja pena privativa de liberdade máxima em abstrato não seja superior a cinco anos. Parágrafo único. Para fins do disposto no caput, na hipótese de concurso de crimes, será considerada, individualmente, a pena privativa de liberdade máxima em abstrato relativa a cada infração penal. A aplicação do art. 5º, contudo, não é feita isoladamente. Imperioso analisar as hipóteses de exclusão da concessão do indulto, quais sejam: i) reincidência (art. 12); ii) existência de crimes impeditivos (art. 7º); e iii) necessidade de cumprimento da pena do crime impeditivo (art. 11, parágrafo único). No caso sob apreciação, conforme destacado pelas instâncias ordinárias, o benefício não pode ser deferido quanto aos delitos comuns praticados pelo recorrente, pois ele ainda cumpre pena pelo crime de homicídio qualificado, que é impeditivo da benesse, por ser hediondo e praticado por meio de violência ou grave ameaça. Com efeito, o art. 7º, incisos I e II, do referido Decreto veda expressamente o deferimento do indulto aos crimes considerados hediondos/equiparados, nos termos da Lei n. 8.072/1990, bem como aos cometidos mediante violência ou grave ameaça à pessoa. Em hipóteses tais, impõe-se o cumprimento das referidas penas para, somente após, ser pleiteado o indulto em relação aos demais crimes, conforme determina o art. 11 do ato presidencial, abaixo transcrito: Art. 11. Para fins do disposto neste Decreto, as penas correspondentes a infrações diversas serão unificadas ou somadas até 25 de dezembro de 2022, nos termos do disposto no art. 111 da Lei n. 7.210, de 11 de julho de 1984. Parágrafo único. Não será concedido indulto natalino correspondente a crime não impeditivo enquanto a pessoa condenada não cumprir a pena pelo crime impeditivo do benefício, na hipótese de haver concurso com os crimes a que se refere o art. 7º, ressalvada a concessão fundamentada no inciso III do caput do art. 1º. De fato, a expressão "concurso", utilizada pelo artigo supracitado, deve ser compreendida em seu sentido amplo, como unificação de penas, ou seja, a prática de qualquer desses delitos, não se referindo, pois, aos arts. 69 e 70 do Código Penal. A questão foi novamente apreciada pela Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, que, por unanimidade de votos, aprovou a seguinte tese: EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS. RECEPTAÇÃO SIMPLES. INDULTO (DECRETO N. 11.302/2022). DEFERIMENTO PELO JUÍZO E CASSAÇÃO PELO TRIBUNAL. CRIME IMPEDITIVO NÃO PRATICADO EM CONCURSO (ROUBO MAJORADO). ENTENDIMENTO DA TERCEIRA SEÇÃO NO HC 856.053/SC. NECESSIDADE DE O CRIME IMPEDITIVO TER SIDO PRATICADO EM CONCURSO. IMPERIOSA ALTERAÇÃO. ADEQUAÇÃO À ORIENTAÇÃO MAIS ATUAL DO STF. CONSIDERAÇÃO DO CRIME IMPEDITIVO COMO ÓBICE À CONCESSÃO DO BENEFÍCIO, AINDA QUE O CRIME IMPEDITIVO CUJO CUMPRIMENTO DA PENA NÃO TENHA SIDO PRATICADO EM CONCURSO, MAS REMANESCENTE DE UNIFICAÇÃO DE PENAS. 1. Com a finalidade de uniformizar o entendimento desta Corte com o do Supremo Tribunal Federal, deve o julgamento do presente agravo ser afetado à Terceira Seção. 2. No julgamento do AgRg no HC n. 856.053/SC, a Terceira Seção desta Corte, em acórdão da minha lavra, firmou orientação de que, para a concessão do benefício de indulto, fundamentado no Decreto Presidencial n. 11.302/2022, dever-se-ia considerar como crime impeditivo do benefício apenas o cometido em concurso com crime não impeditivo. Em se tratando de crimes cometidos em contextos diversos, fora das hipóteses de concurso (material ou formal), não haveria de se exigir o cumprimento integral da pena pelos crimes impeditivos. 3. Sobreveio a apreciação do tema pelo Supremo Tribunal Federal, ocasião na qual o Pleno da Corte, em sessão de julgamento realizada em 21/2/2024, referendou medida cautelar deferida pelo Ministro Luís Roberto Barroso, firmando orientação de que o crime impeditivo do indulto, fundamentado no Decreto Presidencial n. 11.302/2022, deve ser considerado tanto no concurso de crimes quanto em razão da unificação de penas. Precedente. 4. A fim de prezar pela segurança jurídica, deve este Superior Tribunal se curvar ao referido entendimento e modificar sua convicção, a fim de considerar que o crime impeditivo do benefício do indulto, fundamentado no Decreto Presidencial n. 11.302/2022, deve ser tanto o praticado em concurso como o remanescente em razão da unificação de penas. 5. No caso, trata-se de apenado que cumpre pena por crime de associação criminosa e roubo majorado, praticados em concurso e receptação simples em ação penal diversa. A ordem foi liminarmente concedida para restabelecer a decisão que concedeu o indulto em relação ao crime de receptação simples. No entanto, a aplicação do atual entendimento do STF impõe que seja modificada a decisão, a fim de manter o indeferimento do benefício em relação ao citado delito. 6. Agravo regimental provido para cassar a decisão na qual se concedeu liminarmente a ordem, restabelecendo-se o acórdão do Tribunal de Justiça de Sergipe que, no julgamento do Agravo de Execução Penal n. 202300361180, cassou a decisão do Juízo da 7ª Vara Criminal da comarca de Aracajú/SE que concedeu o benefício ao agravado. (AgRg no HC n. 890.929/SE, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Terceira Seção, julgado em 24/4/2024, DJe de 29/4/2024.) Portanto, a Corte local interpretou o dispositivo em comento de forma literal, de maneira que não prospera a insurgência defensiva. Ora, havendo a incidência do art. 7º do referido decreto, de rigor o indeferimento do indulto, com fundamento no art. 11 do mesmo diploma, ante a ausência do cumprimento dos requisitos necessários para a concessão do benefício. Ante o exposto, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se. EMENTA