HC 958078 - DECISAO
Não conhecer do habeas corpus por ser substitutivo de recurso próprio; subsidiariamente, não acolher o pedido porque, conforme prova nos autos, o paciente não havia iniciado o cumprimento da pena até 25/12/2023, de modo que não se comprovou o requisito objetivo do art. 2º do Decreto n. 11.846/2023 para a concessão...
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- Parties
- Paciente: CASSIANO BRITO DOS SANTOS; Manifestante/parte: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 December 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Não Conhecido
- Outcome
- não conheço do habeas corpus
- Legal Topics
- Indulto Presidencial, Requisitos Objetivos Do Indulto, Ultratividade De Decreto, Cabimento Do Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio
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Parties
CASSIANO BRITO DOS SANTOS
Paciente
Ministério Público Federal
Manifestante/parte
Procedural Posture
Habeas Corpus / Não Conhecido
Legal Issues
- 1 Se o paciente preenche os requisitos objetivos do Decreto Presidencial n. 11.846/2023 para concessão de indulto
- 2 Se o habeas corpus é meio adequado para substituir recurso próprio contra decisão em execução penal
Ratio Decidendi
Não conhecer do habeas corpus por ser substitutivo de recurso próprio; subsidiariamente, não acolher o pedido porque, conforme prova nos autos, o paciente não havia iniciado o cumprimento da pena até 25/12/2023, de modo que não se comprovou o requisito objetivo do art. 2º do Decreto n. 11.846/2023 para a concessão do indulto.
Court Disposition
não conheço do habeas corpus
Orders
- Não conhecer do habeas corpus
- Intimem-se
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de habeas corpus, sem pedido liminar, impetrado em favor de CASSIANO BRITO DOS SANTOS, impugnando acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, no julgamento Agravo em Execução Penal n. 0001200-31.2024.8.26.0154. Consta que, em decisão proferida no bojo do processo de Execução Penal, o Juízo de Direito da UNIDADE REGIONAL DE DEPARTAMENTO ESTADUAL DE EXECUÇÃO CRIMINAL DEECRIM 8ª RAJ da Comarca de São José do Rio Preto/SP indeferiu o pedido do paciente de concessão do indulto previsto no Decreto Presidencial n. 11.846/2023 (e-STJ fl. 33). Inconformada, a defesa interpôs agravo em execução, que veio a ser desprovido em acórdão assim ementado (e-STJ fl. 61): Agravo em execução. Indulto. Pressuposto legal. Não cumprida qualquer pena privativa de liberdade até a edição do diploma regulador do indulto, inviável o deferimento do instituto, nos termos do artigo 2º do Decreto presidencial 11.846/2023. Na presente impetração, a defesa insiste no direito do paciente à concessão do indulto previsto no Decreto n. 11.846/2023, sustentando que o reeducando preenche todos os requisitos para tanto. Nesse sentido, argumenta que, apesar de ter sido indeferido o pedido de indulto este deve ser aceito, Cassiano já preencheu os requisitos objetivos de 1/3 da pena de furto consumado e do furto tentado, portanto avaliando os crimes individualmente é possível visualizar o direito. (e-STJ fl. 4). Ao final, requer a concessão da ordem para que seja deferido o indulto. O Ministério Público Federal ofereceu o parecer de e-STJ fls. 1156/1158, ocasião em que opinou pelo não conhecimento do writ. É o relatório. Passo a decidir. O Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse entendimento objetivou preservar a utilidade e a eficácia do mandamus, que é o instrumento constitucional mais importante de proteção à liberdade individual do cidadão ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a celeridade que o seu julgamento requer. Nesse sentido, confiram-se os seguintes julgados, exemplificativos dessa nova orientação das Cortes Superiores do País: HC n. 320.818/SP, Relator Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma, julgado em 21/5/2015, DJe 27/5/2015; e STF, HC n. 113.890/SC, Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julg. em 3/12/2013, DJ 28/2/2014. Assim, de início, incabível o presente habeas corpus substitutivo de recurso próprio. Todavia, em homenagem ao princípio da ampla defesa, passa-se ao exame da insurgência para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal passível de ser sanado pela concessão da ordem, de ofício. Busca-se, no presente habeas corpus, seja o paciente agraciado com o indulto previsto no Decreto Presidencial n. 11.846/2023, alegando ostentar todos os requisitos necessários para tanto. Inicialmente, deve ser ressaltado que A concessão de indulto ou comutação da pena é ato de indulgência do Presidente da República, condicionado ao cumprimento, pelo apenado, das exigências taxativas previstas no decreto de regência (AgRg no HC n. 714.744/PR, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 14/6/2022, DJe de 21/6/2022.). No caso concreto, o pleito foi originalmente indeferido pelo Juízo das Execuções Criminais pela falta do requisito objetivo, pois, conforme se verifica dos autos, o(a) sentenciado(a) não apresentava, em 25/12/2023, lapso necessário para a concessão da(s) benesse(s), já que não havia sequer iniciado o cumprimento das penas, uma vez que foi preso somente em 18/02/2024, fl. 24/26. (e-STJ fl. 33). Por sua vez, o Tribunal de Justiça manteve o indeferimento dos benefícios encampando os mesmos fundamentos do Juízo de primeiro grau, asseverando que (e-STJ fl. 62): .. Nega-se provimento ao recurso. É bem verdade que Cassiano desconta pena privativa de liberdade decorrente de condenação por crimes de furto, um na modalidade consumada, outro tentada, ambos enlaçados em continuidade delitiva. Igualmente, não se olvida que os delitos em foco não são obstativos à concessão do indulto previsto no Decreto presidencial 11.846/2023. Entretanto, concretamente, não há que se deferir o instituto. Isso porque flagra-se dos autos de execução de origem, assim como muito bem apontou e comprovou a Procuradoria de Justiça, Cassiano somente iniciou a execução da sua pena privativa de liberdade em 18 de fevereiro de 2024. Portanto, quando da edição do diploma legal supostamente incidente, Cassiano não havia descontado pena alguma, sendo impossível concluir pela ultratividade do referido Decreto, como dispõe seu próprio artigo 2º. Anota-se, aliás, que essas foram as expressas razões que fundamentaram o indeferimento originário do pedido (fls. 49 daqueles autos). Em face do exposto, nega-se provimento ao recurso interposto. Constata-se, assim, que o Tribunal de Justiça manteve o indeferimento do pedido de concessão do indulto com fundamento na não satisfação de um dos requisitos objetivos, qual seja, o cumprimento das frações mínimas previstas no rol do art. 2º do Decreto n. 11.846 de 22 de dezembro de 2023, sobretudo, em se tratando de delito de furto, aquelas previstas nos incisos XV e XVI e Art. 2º Concede-se o indulto coletivo às pessoas, nacionais e migrantes: .. XV - condenadas por crime contra o patrimônio cometido sem grave ameaça ou violência a pessoa, desde que tenham cumprido um quinto da pena, se não reincidente, ou um quarto da pena, se reincidente, e reparado o dano até 25 de dezembro de 2023, exceto se houver inocorrência de dano ou incapacidade econômica de repará-lo; e XVI - condenadas a pena privativa de liberdade por crime contra o patrimônio, cometido sem grave ameaça ou violência a pessoa, com valor do bem estimado não superior a um salário mínimo, desde que tenham cumprido, no mínimo, cinco meses de pena privativa de liberdade, até 25 de dezembro de 2023. Na espécie, verifica-se que o entendimento das instâncias ordinárias está em consonância com a disciplina dada pelo Decreto n. 11.846/2023, tendo em vista a informação no sentido de que "Cassiano somente iniciou a execução da sua pena privativa de liberdade em 18 de fevereiro de 2024. Portanto, quando da edição do diploma legal supostamente incidente, Cassiano não havia descontado pena alguma, sendo impossível concluir pela ultratividade do referido Decreto, como dispõe seu próprio artigo 2º." (e-STJ fl. 62). E tal conclusão não destoa da jurisprudência desta Corte Superior de Justiça, pacífica no sentido de que é possível a concessão do indulto ou comutação desde que o apenado tenha cumprido a fração mín ima da respectiva pena privativa de liberdade pela qual foi condenado, quando tais requisitos são exigidos pelo respectivo Decreto Presidencial, como na hipótese. Nessa linha, mutatis mutandis, colaciono os seguintes precedentes em interpretação análoga: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. INDULTO. DECRETO N. 11.846/2023. REQUISITO OBJETIVO NÃO CUMPRIDO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Inexiste constrangimento ilegal na negativa do indulto ao apenado em virtude de não haver preenchido os requisitos objetivos exigidos pelo Decreto Presidencial n. 11.846/2023, vez que não cumpriu a fração de 2/3 em relação ao crime de tráfico de drogas, bem como a exigência de cumprimento ininterrupto de vinte anos de pena previstos pelo decreto. 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 911.453/SC, relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 9/9/2024, DJe de 12/9/2024.) AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. INDULTO PRESIDENCIAL. DECRETO N. 9.246/2017. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO DE PENA DE PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA. REQUISITO OBJETIVO NÃO PREENCHIDO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. O Superior Tribunal de Justiça, alinhando-se à nova jurisprudência da Corte Suprema, também passou a restringir as hipóteses de cabimento do habeas corpus, não admitindo que o remédio constitucional seja utilizado em substituição ao recurso ou ação cabível, ressalvadas as situações em que, à vista da flagrante ilegalidade do ato apontado como coator, em prejuízo da liberdade do paciente, seja cogente a concessão, de ofício, da ordem de habeas corpus. (AgRg no HC 437.522/PR, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 07/06/2018, DJe 15/06/2018) 2. Para a concessão do indulto previsto no art. 1º, I, do Decreto n. 9.246/2017, o cumprimento da fração de 1/5 da pena (requisito legal objetivo) deve ser aferido em relação a cada uma das sanções restritivas de direitos aplicadas ao reeducando. Precedentes: AgRg no HC 681.192/MG, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 16/11/2021, DJe 22/11/2021; AgRg no HC 616.798/MG, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, Quinta Turma, julgado em 21/9/2021, DJe 24/9/2021; AgRg no HC 565.641/MG, Rel. Ministra LAURITA VAZ, Sexta Turma, julgado em 9/6/2020, DJe 23/6/2020. 3. A previsão do art. 10, parágrafo único, II, do Decreto 9.246/2017, que admite a comutação do valor de condenação pecuniária de qualquer natureza, não alcança as penas restritivas de direito, dentre as quais a pena de prestação pecuniária. 4. No caso concreto, a despeito de ter cumprido mais de 1/5 da pena de prestação de serviços à comunidade, o agravado não adimpliu sequer 1/5 da prestação pecuniária estabelecida em sentença e parte integrante da totalidade de sua pena, não fazendo, portanto, jus ao indulto pleiteado. 5. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no HC n. 709.729/MG, DE MINHA RELATORIA, Quinta Turma, julgado em 8/2/2022, DJe de 15/2/2022.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. COMUTAÇÃO DA PENA. DECRETO PRESIDENCIAL N. 8.615, DE 23/12/2015. AUSÊNCIA DOS REQUISITOS OBJETIVOS. DECISÃO FUNDAMENTADA DO JUIZ DE PRIMEIRO GRAU. AGRAVO EM EXECUÇÃO PENDENTE DE JULGAMENTO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. AGRAVO IMPROVIDO. 1. O Juízo da Execução Penal idoneamente nega a comutação da pena quando aponta fundamento válido, pois "os lapsos objetivos estão ausentes, mesmo contando desde o início do cumprimento da pena de tais execuções (únicas vigentes) sem qualquer interrupção por prática de crime, de falta grave ou fuga. Frise-se: desde o início das execuções das penas vigentes e mesmo sem computar qualquer interrupção, o sentenciado não cumpriu os lapsos de 1/4 que o Decreto exige para a comutação dos crimes comuns em execução" . Ademais, Negar essa conclusão do Juiz de primeiro grau exigiria dilação probatória, o que não se permite no sumaríssimo rito do writ, que exige prova pré-constituída. 2. Cabe ao Tribunal estadual, e não a esta Corte Superior, reexaminar o cumprimento dos requisitos objetivos para a comutação da pena do paciente, o que não houve no presente caso, porque, conforme acórdão de fls. 105-118, a Corte local não conheceu do writ lá impetrado, pois "o ilustre advogado informou ter sido interposto agravo em execução com o mesmo questionamento (fls. 05)". 3. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 592.805/SP, relator Ministro NEFI CORDEIRO, Sexta Turma, julgado em 3/11/2020, DJe de 16/11/2020.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. COMUTAÇÃO. ERRO NA FOLHA DE CÁLCULO DA PENA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. CRIME HEDIONDO IMPEDITIVO DO BENEFÍCIO ATÉ O CUMPRIMENTO DE 2/3 DA PENA. IMPOSSIBILIDADE DE CÔMPUTO DE PERÍODO DE PRISÃO ANTERIOR À PRÁTICA DO CRIME HEDIONDO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. A suposta incorreção da folha de cálculos não foi analisada pelo Tribunal de origem, o que impede o conhecimento da matéria, sob pena de incorrer em supressão de instância. 2. O Decreto n. 8.615/2017 prevê que a condenação por crime hediondo impede a concessão da comutação em relação aos outros crimes até o cumprimento de 2/3 da pena. No caso em análise, o crime hediondo somente foi praticado em 2003, não sendo possível, considerar como data inicial do cumprimento da pena o dia 31/12/2000, sob pena de gerar um "crédito de pena" ao paciente. Precedentes. 3. Agravo Regimental desprovido. (AgRg no HC n. 544.941/SP, relator Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, Quinta Turma, julgado em 10/3/2020, DJe de 24/3/2020.) AGRAVO REGIMENTAL. EXECUÇÃO PENAL. COMUTAÇÃO DE PENAS. DECRETO PRESIDENCIAL N. 8.380/2014. AUSÊNCIA DO REQUISITO OBJETIVO. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Na hipótese, o Juízo singular baseou sua decisão na ausência do requisito de ordem objetiva, porquanto o paciente não cumpriu o lapso exigido pelo art. 8º, parágrafo único, do Decreto n. 8.380/2014, qual seja, 2/3 da pena referente aos delitos hediondos, o que obsta a concessão da benesse. 2. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 524.378/SP, relator Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 5/9/2019, DJe de 12/9/2019.) Assim, não configurado, na espécie, constrangimento ilegal, a justificar a concessão do writ de ofício. Ante o exposto, com amparo no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ, não conheço do habeas corpus. Intimem-se. Sem recurso, arquivem-se os autos. EMENTA