HC 1097586 - DECISAO
A ordem de habeas corpus foi denegada porque o paciente não comprovou arrependimento nem reparação do dano exigidos pelo art. 9º, XV do Decreto n. 12.338/2024, a recuperação do bem deu-se por intervenção policial e não por ato voluntário do condenado, e a representação pela Defensoria Pública, isoladamente, não...
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- Parties
- Paciente: RODRIGO JOSE GONCALVES; Órgão Prolator Do Acórdão: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 26 May 2026
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Denegatória
- Outcome
- denego a ordem de habeas corpus
- Legal Topics
- Indulto Presidencial, Interpretação Restritiva De Decreto, Hipossuficiência Econômica, Reparação Do Dano, Habeas Corpus, Pena Privativa De Liberdade, Crime Contra O Patrimônio
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Parties
RODRIGO JOSE GONCALVES
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
Órgão Prolator Do Acórdão
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Denegatória
Legal Issues
- 1 Se o paciente sofre constrangimento ilegal por acórdão do TJRS
- 2 Se o indulto previsto no art. 9º, XV, do Decreto n. 12.338/2024 se aplica ao caso
- 3 Se a representação pela Defensoria Pública presume incapacidade econômica para fins de indulto (art. 12, §2º)
Ratio Decidendi
A ordem de habeas corpus foi denegada porque o paciente não comprovou arrependimento nem reparação do dano exigidos pelo art. 9º, XV do Decreto n. 12.338/2024, a recuperação do bem deu-se por intervenção policial e não por ato voluntário do condenado, e a representação pela Defensoria Pública, isoladamente, não afasta o cumprimento cumulativo das demais condições do Decreto.
Court Disposition
denego a ordem de habeas corpus
Orders
- Denego a ordem de habeas corpus.
- Publique-se e intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO RODRIGO JOSE GONCALVES alega sofrer constrangimento ilegal no seu direito de locomoção em decorrência de acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL no Agravo em Execução n. 8001897-61.2025.8.21.0010. A defesa busca o indulto da pena do paciente em relação a condenação por delito não impeditivo, com fulcro no Decreto Presidencial n. 12.338/2024, por reputar preenchidos os requisitos necessários para tal finalidade. Decido. I. Indulto - interpretação restritiva e sistemática - Decreto n. 12.338/2024 O art. 5º, XLVI, da CF estabelece que a lei regulará a individualização da pena, o que também ocorre na fase da execução, para fins de declaração do indulto e de outros benefícios. A sentença concessiva do indulto tem natureza declaratória. O julgador deve observar estritamente os requisitos exigidos pelo Presidente da República, sob pena de usurpação da competência privativa disposta no art. 84, XII, da Constituição Federal (v.g.: AgRg no HC n. 773.059/AM, Rel. Ministro Rogerio Schietti, 6ª T., DJe 16/3/2023). A jurisprudência desta Corte é de que "para a análise do pedido de indulto ou comutação de pena, o Magistrado deve restringir-se ao exame do preenchimento dos requisitos previstos no decreto presidencial, uma vez que os pressupostos para a concessão da benesse são da competência privativa do Presidente da República (HC n. 456.119/RS, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, DJe 15/10/2018)" (HC n. 468.737/RS, Rel. Ministra Laurita Vaz, 6ª T, Dje 10/04/2019). Ressalto que é do Presidente da República (art. 84, XII, da CF) a opção discricionária de conceder ou não o perdão e fica a seu critério a extensão e os requisitos do indulto, que não é suscetível de revisão judicial, a não ser excepcionalmente, uma vez desrespeitados os limites constitucionais (e os tratados internacionais). Esta Corte tem entendimento de que a interpretação do decreto presidencial que possibilita o indulto deve ser realizada de maneira sistemática, com a constatação dos requisitos objetivo e subjetivo necessários à sua concessão: .. 4. A interpretação sistemática do Decreto exige que todos os dispositivos sejam aplicados de forma conjunta e harmônica, não permitindo extensão do benefício a penas de multa para crimes excluídos do indulto, como o tráfico de drogas. 5. A hipossuficiência econômica do condenado, por si só, não presume o direito à extinção da punibilidade da pena de multa, especialmente sem comprovação nos autos. O fato de ser assistido pela Defensoria Pública não constitui prova suficiente de incapacidade financeira para arcar com a pena de multa. 6. A jurisprudência desta Corte e do Supremo Tribunal Federal é pacífica ao vedar a extensão do indulto natalino às penas restritivas de direitos e de multa, quando há expressa vedação normativa, como no caso de condenações por tráfico de drogas. IV. RECURSO DESPROVIDO. (REsp n. 2.165.758/SP, relatora Ministra Daniela Teixeira, 5ª T., DJEN de 6/1/2025, grifei.) Assim, "em homenagem ao princípio da legalidade, os decretos presidenciais são interpretados de forma literal, não havendo margem discricionária ao Magistrado para atuar além das exaustivas hipóteses legais previstas para conceder indulto ou comutação de pena" (HC n. 668.976/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, 6ª T., DJe de 14/3/2022). Reafirmo, enfim, que o indulto natalino é um benefício cuja concessão está restrita aos requisitos estabelecidos no decreto presidencial, sendo vedada a extensão do perdão a situações não previstas pelo Presidente da República. II. Crime contra o patrimônio praticado sem violência ou grave ameaça - reparação do dano e hipossuficiência - Decreto n. 12.338/2024 Atento à realidade dos milhares de sentenciados de nosso país, o decreto presidencial possibilitou que a ausência de condições financeiras para o pagamento da pena de multa não seja empecilho para o benefício de clemência. O art. 12, § 2º, do decreto estabeleceu critérios alternativos para presunção da hipossuficiência, dentre eles a representação pela Defensoria Pública ou por advogado dativo (inciso I). A mesma atenção foi dada no art. 9º, XV, aos condenados: .. a pena privativa de liberdade por crime contra o patrimônio, cometido sem violência ou grave ameaça a pessoa que, até 25 de dezembro de 2024, tenham reparado o dano conforme o disposto no art. 16 ou no art. 65, caput, inciso III, alínea "b", do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, excetuada a necessidade de reparação do dano nas hipóteses previstas no art. 12, § 2º, deste Decreto .. . A presunção de incapacidade financeira não afasta as demais condições do Decreto, que devem ser atendidas cumulativamente. Por isso, na hipótese de condenação a pena privativa de liberdade por crime contra o patrimônio, cometido sem violência ou grave ameaça, a reparação do dano está atrelada, no mesmo inciso, à presença da manifestação tempestiva de arrependimento, na forma e nos marcos temporais do art. 16 ou do art. 65, caput, III, "b", do Código Penal. Nesse sentido: EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS. INDULTO. ART. 9º, XV, DO DECRETO N. 12.338/2024. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. I. Caso em exame 1. Habeas corpus impetrado em favor de paciente definitivamente condenado por furto de um telefone celular, buscando a concessão de indulto com base no art. 9º, XV, do Decreto Presidencial n. 12.338/2024. 2. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo deu provimento ao agravo em execução ministerial, reformando a decisão de primeiro grau que havia concedido o indulto. II. Questão em discussão 3. A questão em discussão consiste em determinar se a interpretação do artigo 9º, XV, do Decreto n. 12.338/2024, que fundamentou o indulto, foi correta, considerando que a recuperação do bem furtado ocorreu por intervenção dos agentes de segurança e não por ato voluntário do paciente. III. Razões de decidir 4. A aplicação de Decreto Presidencial que concede o indulto deve ser orientada, ao menos como regra, por intepretação restritiva - não extensiva -, sob pena de invasão da competência atribuída de modo privativo ao Presidente da República pelo art. 84, XII, da Constituição da República. 5. A partir de interpretação restritiva do art. 9º, XV, do Decreto Presidencial n. 12.338/2024, tem direito ao indulto quem se arrependeu do furto cometido e, até o recebimento da denúncia, ao menos manifestou arrependimento ou vontade de reparar o dano, mas não o fez tão somente por ser incapaz do ponto de vista econômico para tanto (incapacidade presumida diante do fato de o agente ser representado pela Defensoria Pública). 6. No caso, não existe direito ao indulto, com base no art. 9º, XV, do referido Decreto, porquanto não existiu nenhum sinal ou notícia de arrependimento ou de vontade de reparar o dano, haja vista que o celular furtado foi recuperado em razão da prisão em flagrante do paciente, que trazia o aparelho em sua mochila, a qual fora revistada por agentes de segurança. 7. O fato de o apenado ser representado pela Defensoria Pública implica presumir a sua incapacidade econômica para reparar o dano (art. 12, § 2º, do Decreto n. 12.338/2024), mas não afasta a necessidade, exigida pelo art. 9º, XV, de demonstração do arrependimento ou da vontade de reparação do dano. IV. Dispositivo e tese 8. Habeas corpus não conhecido. Tese de julgamento: "1. A hipótese de indulto prevista no art. 9º, XV, do Decreto Presidencial n. 12.338/2024, não se aplica quando a recuperação do bem furtado ocorre por intervenção policial e não por ato voluntário do condenado". Dispositivos relevantes citados: Decreto Presidencial n. 12.338/2024, art. 9º, XV; art. 12, §2º; Código Penal, arts. 16 e 65, III, "b". Jurisprudência relevante citada: STJ, HC n. 840.309/SC, Rel. Min. Daniela Teixeira, Quinta Turma, DJEN de 9/12/2024; STJ, HC n. 815.952/SP, Rel. Min. Daniela Teixeira, Quinta Turma, DJEN de 4/12/2024; STJ, AgRg no HC n. 763.745/SC, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 14/12/2022; STJ, AgRg no HC n. 759.029/SC, Rel. Min. Jesuíno Rissato (Desembargador convocado do TJDFT), Quinta Turma, DJe de 19/10/2022. (HC n. 1.008.710/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, 5ª T., DJEN de 14/8/2025, grifei.) III. O caso dos autos O Juízo da VEC assim decidiu a controvérsia (fl. 24): Analisadas as manifestações da Defesa e do Ministério Público, verifico que não é cabível a concessão do benefício de indulto, tendo em vista que o apenado Rodrigo Jose Gonçalves, não se enquadra no disposto no art. 9, inciso XV, do Decreto Presidencial acima referido. Isso porque foi condenado pelos crimes de latrocínio, roubo agravado, receptação, o que impede o enquadramento específico no inciso referido pela defesa no pleito, em especial porque o diploma é expresso ao prever a necessidade de soma de todas as condenações prolatadas até a data de 25 de dezembro de 2024 para a apreciação do benefício ("Art. 7º Para fins da declaração do indulto e da comutação de pena, as penas correspondentes a infrações diversas deverão ser somadas até 25 de dezembro de 2024"). Ante o exposto, INDEFIRO o pedido de indulto formulado pela Defesa, com base no art. 9º, inciso XV, Decreto n. 12.338/2024. O Tribunal de origem, por sua vez, mencionou o seguinte (fls. 21-22): Adianto que o douto Procurador de Justiça, Dr. Ricardo Felix Herbstrith, levantou questão importante para o julgamento do presente agravo, de modo que transcrevo o parecer como razões de decidir evento 8, PROMOÇÃO1: No mérito, a decisão agravada deve ser mantida. Para além das razões invocadas pelo Juízo da Execução, ou do estrito cumprimento das frações de pena exigidas no caso concreto, o pleito esgrimido esbarra da ausência de comprovação de reparação às vítimas. Com efeito, o indulto das penas decorrentes da prática de delitos contra o patrimônio, perpetrados sem violência contra a pessoa, está condicionado à reparação do dano, conforme expressamente estabelece o artigo 9º, inciso XV, do Decreto 12.338/2024: .. Na espécie, não há comprovação nos autos de que o agravante tenha promovido a reparação dos danos patrimoniais derivados dos crimes que cometeu, razão pela qual desautorizado o benefício. A assistência do apenado pela Defensoria Pública, por si só, não tem o condão de conduzir à presunção de impossibilidade de reparar o dano causado às vítimas dos delitos cujas penas requer o indulto. A interpretação do Decreto Presidencial concessivo da benesse deve ser restritiva, sendo indispensável a comprovação da alegada hipossuficiência econômica, notadamente porque a reparação do dano também tem natureza sancionatória. .. Portanto, perfeitamente configurado óbice à pretensão. Assim, diante do não preenchimento dos requisitos previstos no Decreto Presidencial nº 12.338/2024, a decisão que indeferiu o pedido de indulto deve ser mantida. 4. DIANTE DO EXPOSTO, o Ministério Público manifesta-se pelo conhecimento e improvimento do recurso. De fato, assim dispõe o art. 9º, XV, do Decreto nº 12.338/2024: .. Destaco que o fato de a apenada ser assistida pela Defensoria Pública não presume sua incapacidade de reparar o dano e não a inclui na exceção do art. 12, §2º, do Decreto 12.338/2024, porquanto a referida exceção abarca sentenciados condenados exclusivamente a pena de multa, não sendo o caso dos autos. In casu, não há demonstração de reparação do dano pela apenada, razão pela qual não se enquadra nas hipóteses autorizadoras do benefício. .. Assim, adequado o indeferimento do indulto. O paciente foi condenado à pena de 34 anos e 4 dias de reclusão, pela prática de diversos delitos - dois roubos majorados, latrocínio e receptação - sendo uma das condenações por crime contra o patrimônio sem violência ou grave ameaça à pessoa. No curso da execução penal, requereu o benefício do indulto com fundamento no Decreto Presidencial n. 12.338/2024, por alegar preencher os requisitos previstos no art. 9º, XV, c/c o art. 12, § 2º, I, especialmente quanto à presunção de incapacidade econômica decorrente da atuação da Defensoria Pública em sua defesa. No caso, há diversos pontos a serem considerados que convergem para inexistência de ilegalidade no posicionamento das instâncias originárias. Primeiro, constatou-se que o paciente não adotou, em momento algum, nenhuma providência que visasse à reparação do dano ou que demonstrasse arrependimento. Segundo, na condenação imposta, não houve a aplicação da causa de diminuição de pena prevista no art. 16 (arrependimento posterior), nem da atenuante descrita no art. 65, III, "b", ambas do Código Penal. Portanto, não houve reparação do dano. Percebe-se que o paciente não conseguiu comprovar a intenção tempestiva de ressarcimento do dano. Inexiste, portanto, ilegalidade que justifique a concessão da ordem de habeas corpus. IV. Dispositivo À vista do exposto, denego a ordem de habeas corpus. Publique-se e intimem-se. EMENTA