AREsp 2430801 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial, anulando o acórdão recorrido e determinando o retorno dos autos à origem para que a eventual anulação do processo administrativo seja reexaminada à luz da existência ou não de prejuízo concreto à defesa, em observância ao entendimento do STJ de que, sem...
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- Parties
- Recorrente/agravante: INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVAVEIS-IBAMA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 November 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão De Admissibilidade E Julgamento Do Agravo Em Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial; anulo o acórdão recorrido e determino o retorno dos autos à origem para reanálise da nulidade do processo administrativo à luz da existência ou não de prejuízo concreto.
- Legal Topics
- Intimação Por Edital, Nulidade Por Ausência De Prejuízo, Princípio Pas De Nullité Sans Grief, Exceção De Pré Executividade, Alegações Finais
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Parties
INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVAVEIS-IBAMA
Recorrente/agravante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão De Admissibilidade E Julgamento Do Agravo Em Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Cabimento de intimação por edital para apresentação de alegações finais
- 2 Necessidade de demonstração de prejuízo concreto para declaração de nulidade do processo administrativo
- 3 Aplicação do art. 26 da Lei 9.784/99 e do art. 122 do Decreto 6.514/2008
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial, anulando o acórdão recorrido e determinando o retorno dos autos à origem para que a eventual anulação do processo administrativo seja reexaminada à luz da existência ou não de prejuízo concreto à defesa, em observância ao entendimento do STJ de que, sem demonstração de prejuízo efetivo, não cabe declarar nulidade processual (princípio pas de nullité sans grief).
Court Disposition
Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial; anulo o acórdão recorrido e determino o retorno dos autos à origem para reanálise da nulidade do processo administrativo à luz da existência ou não de prejuízo concreto.
Orders
- Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial
- Anulo o acórdão recorrido
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DECISÃO Trata-se de agravo interposto da decisão que não admitiu o recurso especial pelo qual o INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVAVEIS-IBAMA se insurgira, com fundamento no art. 105, inciso III, alínea a, da Constituição Federal, contra o acórdão do TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO assim ementado (fl. 406): EXECUÇÃO FISCAL. EXCEÇÃO DE PRÉ-EXECUTIVIDADE. IBAMA. PROCESSO ADMINISTRATIVO. ALEGAÇÕES FINAIS. NOTIFICAÇÃO POR EDITAL. DESCABIMENTO. 1. A Lei nº 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, determina que a intimação seja efetuada por ciência no processo, por via postal com aviso de recebimento, por telegrama ou outro meio que assegure a certeza da ciência do interessado. 2. O art. 122 do Decreto nº 6.514/08, por limitar o direito do administrado, não se sobrepõe sobre as regras da Lei nº 9.784/99. Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (fls. 431/432). Nas razões de seu recurso especial, a parte recorrente alega violação ao art. 1.022, I, II e III, do Código de Processo Civil (CPC), apontando omissões no acórdão recorrido. Aduz que houve ofensa ao art. 282, § 1º, do CPC e ao art. 563 do Código de Processo Penal (CPP), argumentando que o prejuízo é requisito para a nulidade do ato e que, como não houve prejuízo no caso ora em análise, não é possível a decretação da nulidade. Sustenta a ocorrência de afronta aos arts. 26, 28 e 69 da Lei 9.784/1999, aos arts. 122 e 123 do Decreto 6.514/2008 e ao art. 100 da Instrução Normativa 14/2009, uma vez que a intimação por edital para apresentação de alegações finais não seria capaz de violar nenhum desses dispositivos. Ao final, requer o conhecimento e provimento do recurso especial. A parte adversa apresentou contrarrazões (fl. 458). O recurso não foi admitido, razão pela qual foi interposto o agravo em recurso especial ora em análise. É o relatório. A decisão de admissibilidade foi devidamente refutada na petição de agravo e, por isso, passo ao exame do recurso especial. Na origem, trata-se de exceção de pré-executividade apresentada pela parte ora agravada em que sustenta a nulidade do processo administrativo de constituição do crédito em razão de cerceamento de defesa decorrente da notificação para apresentação de alegações finais por meio de edital. A parte recorrente opôs embargos de declaração na origem, argumentando que não foi demonstrada a existência de nenhum prejuízo para a parte ora recorrida, não só porque houve a apresentação de defesa, mas também porque, intimada pessoalmente, deixou de interpor qualquer recurso contra a decisão administrativa, culminando na aplicação de penalidade. Ao apreciar o recurso integrativo, o TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO decidiu o seguinte (fl. 434): Os embargos de declaração não visam à cassação ou substituição da decisão impugnada e, em razão disso, pode ser interposto por qualquer uma das partes, mesmo que vencedor na causa, mas desde que evidenciada alguma das hipóteses acima elencadas. Vale dizer, a rediscussão do mérito, caso seja a intenção da parte, deve ser veiculada por meio de recurso próprio. Isso porque nova apreciação de fatos e argumentos deduzidos, já analisados ou incapazes de infirmar as conclusões adotadas pelo julgador, consiste em objetivo que destoa da finalidade a que se destinam os embargos declaratórios. Foi decidido que as questões trazidas em embargos de declaração já haviam sido solucionadas, quando foi decidido que a notificação por edital para a apresentação das alegações finais seria descabida. Vê-se que inexiste a alegada violação do art. 1.022 do Código de Processo Civil, pois a prestação jurisdicional foi dada na medida da pretensão deduzida, consoante se depreende da análise do acórdão recorrido. O Tribunal de origem apreciou fundamentadamente a controvérsia, não padecendo o julgado de erro material, omissão, contradição ou obscuridade. É importante destacar que julgamento diverso do pretendido, como neste caso, não implica ofensa ao dispositivo de lei invocado. Quanto ao mais, a irresignação recursal merece prosperar. A controvérsia foi solucionada da seguinte forma (fl. 409): Ocorre que, nos termos do disposto no Art. 26 da Lei 9.784/99, caput e §3º, a intimação do interessado para ciência de decisão ou efetivação de diligências no âmbito do processo administrativo federal será efetuada por ciência no processo, por via postal com aviso de recebimento, por telegrama ou outro meio que assegure a certeza da ciência do interessado. Somente em caso de interessados indeterminados, desconhecidos ou com domicílio indefinido, a intimação deve ser efetuada por meio de publicação oficial, sendo nulas as intimações quando feitas sem observância das prescrições legais (§4º e §5º do mesmo artigo). No caso, como já referido, foi notificada a parte executada por Carta-AR da autuação, bem como das decisões administrativas de primeira e segunda instâncias, tendo inclusive sido apresentado defesa administrativa em um primeiro momento. A notificação para apresentação de alegações finais antes da decisão de primeira instância, contudo, foi injustificadamente realizada por meio de edital. Nestes termos, considerando que a notificação para apresentação de alegações finais foi realizada por edital, mesmo sem tratar o caso de interessado indeterminado, desconhecido ou com domicílio indefinido, bem como que não há prova de que a parte executada teve ciência inequívoca da intimação, até mesmo porque não apresentou alegações finais no processo administrativo, constata-se que a notificação foi irregular no caso. Observo que o acórdão recorrido está em desconformidade com a jurisprudência mais recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), estabelecida no sentido de que, sem a demonstração do efetivo prejuízo, não há nulidade do processo administrativo, sendo permitida a notificação editalícia para a apresentação de alegações finais. A propósito, colho os seguintes precedentes: PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO FISCAL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. NULIDADE NA INTIMAÇÃO POR EDITAL. MULTA DO ART. 1.021, § 4º, DO CPC/2015. AGRAVO INTERNO IMPROVIDO. .. II. Há exagerado apego ao formalismo no reconhecimento judicial da nulidade do processo administrativo ambiental, por vício formal de intimação, pautado apenas na invocação em abstrato de garantias processuais fundamentais do autuado, sem qualquer demonstração de efetivo prejuízo à defesa do interessado decorrente da prática do ato processual de intimação em descompasso com a forma prescrita em lei. (REsp n. 1.933.440/RS, Rel. Min. Ministro Paulo Sérgio Domingues, j. 16.4.2024, DJe de 10.5.2024). III. Agravo Interno improvido. (AgInt no REsp n. 2.113.876/SC, relatora Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em 30/9/2024, DJe de 3/10/2024.) ADMINISTRATIVO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. ALEGAÇÕES FINAIS. INTIMAÇÃO POR EDITAL. DECRETO 6.514/2008. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO. PRINCÍPIO PAS DE NULLITÉ SANS GRIEF. NULIDADE AFASTADA. 1. A intimação, nos moldes em que realizada, em consonância com o Decreto 6.514/2008, não gerou prejuízo concreto à defesa do interessado. .. 3. "O acórdão recorrido destoa da tradição jurisprudencial brasileira que, na matéria, é a seguinte: "Em direito público, só se declara nulidade de ato ou de processo quando da inobservância de formalidade legal resulta prejuízo" (STF, MS 22.050/MT, Rel. Ministro MOREIRA ALVES, TRIBUNAL PLENO, DJU de 15/09/95). E ainda: STJ, RMS 46.292/RJ, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, DJe de 08/06/2016; MS 13.348/DF, Rel. Ministra LAURITA VAZ, TERCEIRA SEÇÃO, DJe de 16/09/2009; MS 9.384/DF, Rel. Ministro GILSON DIPP, TERCEIRA SEÇÃO, DJU de 16/08/2004" (REsp 2.021.212/PR, Rel. Min. Assusete Magalhães, Segunda Turma, julgado em 21/11/2023, DJe de 28/11/2023.) 4. Nos termos da jurisprudência do STJ, sem efetivo prejuízo, não se cogita de nulidade do processo administrativo (princípio pas de nullité sans grief). A propósito: AREsp. 1.503.814/MG, Rel. Min. Assusete Magalhães, Segunda Turma, julgado em 15/6/2021, DJe de 25/6/2021; RMS 46.292/RJ, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJe de 8/6/2016. 5. Agravo Interno não provido. (AgInt no AREsp n. 2.251.757/SC, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 17/6/2024, DJe de 24/6/2024.) PROCESSUAL - ADMINISTRATIVO - PROCESSO ADMINISTRATIVO AMBIENTAL - ART. 70, §§ 3º E 4º, DA LEI 9.605/98 - INTIMAÇÃO POR EDITAL PARA APRESENTAÇÃO DE ALEGAÇÕES FINAIS - PREVISÃO REGULAMENTAR (ART. 122, PARÁGRAFO ÚNICO, DO DECRETO 6.514/2008) - TESE: NULIDADE PROCESSUAL POR VIOLAÇÃO A GARANTIAS PROCESSUAIS FUNDAMENTAIS - TESE: ILEGALIDADE DO REGULAMENTO À LUZ DOS ARTS. 2º E 26 DA LEI 9.784/99 - DECLARAÇÃO JUDICIAL DE NULIDADE DE PROCESSO ADMINISTRATIVO QUE NÃO PRESCINDE DA COMPROVAÇÃO DE PREJUÍZO CONCRETO À DEFESA - PAS DE NULLITÉ SANS GRIEF - RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Nos processos administrativos ambientais previstos no art. 70, §§ 3º e 4º, da Lei 9.605/98, aos quais se aplicam, subsidiariamente, as disposições da Lei 9.784/99, somente é admissível a declaração judicial de nulidade processual decorrente da intimação editalícia para apresentação de alegações finais, tal como prevista no art. 122, parágrafo único, do Decreto 6.514/2008 na redação anterior ao advento do Decreto 9.760/2019, se comprovado prejuízo concreto à defesa do autuado. 2. Interpretação das regras legais e regulamentares aplicáveis ao caso concreto que prestigia o princípio da segurança jurídica, pela vertente da preservação dos atos processuais, os quais, na moderna processualística, não devem ser objeto de declaração de nulidade por vício de forma se: i) realizados sob forma diversa da prevista em lei, atingiram a finalidade que deles se esperava; ou ii) realizados sob forma diversa, não acarretaram prejuízo concreto àquele a quem aproveitaria a declaração de nulidade (pas de nullité sans grief). 3. O prejuízo à defesa do autuado, na espécie, não se presume, haja vista que a intimação ficta para a apresentação de alegações finais tinha por pressuposto a proibição de agravamento das sanções impostas ao infrator pelo agente autuante, na forma do art. 123, parágrafo único, do Decreto 6.514/2008. 4. Hipótese dos autos em que o acórdão recorrido, em exagerado apego ao formalismo, promove o reconhecimento judicial da nulidade do processo administrativo ambiental, por vício formal de intimação, pautado apenas na invocação em abstrato de garantias processuais fundamentais do autuado, sem qualquer demonstração de efetivo prejuízo à defesa do interessado decorrente da prática do ato processual de intimação em descompasso com a forma prescrita em lei. 5. Recurso especial do Ibama a que se dá provimento, a fim de anular o acórdão recorrido e determinar o retorno dos autos à origem, onde, mediante avaliação das circunstâncias fático-probatórias da causa, a pretensão anulatória do processo administrativo ambiental deverá ser reanalisada, desta vez à luz da existência ou inexistência de prejuízo concreto à esfera jurídica do interessado, ora recorrido. (REsp n. 1.933.440/RS, relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Turma, julgado em 16/4/2024, DJe de 10/5/2024, sem destaque no original.) Dessa forma, merece reforma o acórdão recorrido, para que entre em consonância com a jurisprudência atualizada deste Tribunal. Ante o exposto, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, anulando o acórdão recorrido e determinando o retorno dos autos à origem, para que a anulação do processo administrativo seja novamente analisada, à luz a existência ou não de prejuízo à parte interessada. Publique-se. Intimem-se. EMENTA