HC 945881 - DECISAO
As alterações legislativas mais gravosas que impactam a execução penal não podem ser aplicadas retroativamente a fatos praticados antes de sua vigência; por isso, a vedação de saídas temporárias prevista na Lei n. 14.843/2024 não se aplica ao caso concreto em que o crime foi cometido anteriormente, sendo devido...
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- Parties
- Paciente: ALAN SANTOS ARAUJO; Defesa: Defesa
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 September 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Concessão in Limine, Restabelecimento Da Decisão Do Juiz Da VEC
- Outcome
- Habeas corpus concedido
- Legal Topics
- Irretroatividade Da Lei Penal, Saídas Temporárias, Progressão De Regime, Lei N. 14.843/2024, Habeas Corpus
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Parties
ALAN SANTOS ARAUJO
Paciente
Defesa
Defesa
Procedural Posture
Habeas Corpus / Concessão in Limine, Restabelecimento Da Decisão Do Juiz Da VEC
Legal Issues
- 1 Aplicação retroativa de disposição mais gravosa da Lei n. 14.843/2024 às execuções penais em curso, especificamente vedação das saídas temporárias prevista no art. 122, § 2º da LEP, para crime cometido antes da vigência da lei
Ratio Decidendi
As alterações legislativas mais gravosas que impactam a execução penal não podem ser aplicadas retroativamente a fatos praticados antes de sua vigência; por isso, a vedação de saídas temporárias prevista na Lei n. 14.843/2024 não se aplica ao caso concreto em que o crime foi cometido anteriormente, sendo devido restabelecer a decisão do juízo de primeira instância e conceder o habeas corpus.
Court Disposition
Habeas corpus concedido
Orders
- Concedo o habeas corpus, in limine, para restabelecer a decisão do Juiz da VEC.
- Publique-se e intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO ALAN SANTOS ARAUJO alega sofrer coação ilegal diante de acórdão do Tribunal de origem, que revogou seu benefício a saídas temporárias em razão da vedação introduzida pela Lei n. 14.843/2024. A defesa argumenta que a lei penal mais gravosa não pode retroagir a fatos cometidos antes de sua vigência e não é aplicável ao caso concreto. Busca o restabelecimento da decisão de primeiro grau. Decido. A controvérsia deste habeas corpus se restringe à aplicação imediata das regras mais severas introduzidas pela Lei n. 14.843/2024 às execuções em curso, especificamente a vedação do direito à saída temporária prevista no art. 122, § 2º da LEP ao condenado por crime hediondo praticado antes de sua vigência. Segundo o aresto estadual, "o reeducando cumpre pena pela prática de crime hediondo de organização criminosa (processo criminal n. 50122601620218240011), pois direcionada à prática do crime de tráfico de drogas, conforme autos de execução n. 8000023-59.2022.8.24.0011 do SEEU, sendo, portanto, o benefício vedado em qualquer hipótese, nos termos do art. 122, § 2º, do mesmo diploma legal" (fl. 14). É de rigor a concessão da ordem. As leis relacionadas à execução são de natureza penal, e não processual de aplicação imediata, pois dizem respeito à individualização da pena na fase do cumprimento da sentença e impactam direitos subjetivos do condenado (progressão de regime, livramento condicional, saídas temporárias, prisão domiciliar etc.). Assim, não podem retroagir, salvo se forem mais benéficas ao reeducando, situação em que terão efeitos retroativos (art. 2º, parágrafo único, do CP). Esta Corte não aplica de forma imediata as alterações legislativas mais rigorosas que afetam a execução penal. Em demandas relacionadas à progressão de regime, é firme a compreensão de que a "LEI N. 13.964/2019. PACOTE ANTICRIME. ALTERAÇÃO DOS PATAMARES DE PROGRESSÃO DO ART. 112 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL. HIPÓTESE DE LEI PENAL POSTERIOR MAIS GRAVOSA. IRRETROATIVIDADE" (AgRg no HC n. 707.364/GO, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 15/2/2022, DJe de 24/2/2022). O princípio da irretroatividade da lei penal, salvo se benéfica (art. 5º, inciso XL, da CF), sempre foi respeitado no âmbito da execução, resultando, inclusive, na criação de súmulas. A Súmula n. 471/STJ, estabelece: "Os condenados por crimes hediondos ou assemelhados cometidos antes da vigência da Lei n. 11.464/2007 sujeitam-se ao disposto no art. 112 da Lei n. 7.210/1984 (Lei de Execução Penal) para a progressão de regime prisional" (Súmula 471/STJ). Em outro caso, o colegiado também considerou que "não pode ser negado o direito ao indulto ou a comutação das penas ao sentenciado cujos crimes, na época em que foram praticados, não eram considerados hediondos, pois entendimento contrário acarretaria em violação ao princípio da irretroatividade da lei penal mais severa" (HC n. 221.535/SP, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Quinta Turma, julgado em 13/3/2012, DJe de 2/4/2012). Portanto, há um histórico de decisões judiciais que reconhecem como ilegal a aplicação retroativa de normas mais rigorosas que impactam benefícios do sistema progressivo. Menciono o seguinte acórdão: "A Lei 11464/2007, introduzindo nova redação ao § 2º do art. 2º da Lei dos Crimes Hediondos, fixou lapsos mais gravosos à modificação do regime de cumprimento da pena, não podendo, dessa forma, ser aplicada aos crimes praticados antes da sua vigência" (HC n. 134.578/SP, relator Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 7/12/2010, DJe de 1/2/2011). Não há razão para adotar essa interpretação para a progressão de regime (e o indulto), mas não às saídas temporárias. A esse respeito, o Supremo Tribunal Federal, por meio de decisão do Ministro André Mendonça, proferida no Habeas Corpus n. 240.770/MG, salientou que: .. tendo em vista o princípio da individualização da pena, o qual também se estende à fase executória, consistindo em inovação legislativa mais gravosa, faz-se necessária a incidência da norma vigente quando da prática do crime, somente admitida a retroatividade de uma nova legislação se mais favorável ao sentenciado (novatio legis in mellius). .. Assim, entendo pela impossibilidade de retroação da Lei nº 14.836, de 2024, no que toca à limitação aos institutos da saída temporária e trabalho externo para alcançar aqueles que cumprem pena por crime hediondo ou com violência ou grave ameaça contra pessoa - no qual se enquadra o crime de roubo -, cometido anteriormente à sua edição, porquanto mais grave (lex gravior)" (grifei). A propósito, a Sexta Turma, em recente julgado, afirmou a irretroatividade de outra alteração mais severa trazida pelo Pacote Anticrime, relacionada ao art. 112, § 1º, da LEP. Confira-se: .. 1. A exigência de realização de exame criminológico para toda e qualquer progressão de regime, nos termos da Lei n. 14/843/2024, constitui novatio legis in pejus, pois incrementa requisito, tornando mais difícil alcançar regimes prisionais menos gravosos à liberdade. 2. A retroatividade dessa norma se mostra inconstitucional, diante do art. 5º, XL, da Constituição Federal, e ilegal, nos termos do art. 2º do Código Penal. 3. No caso, todas as condenações do paciente são anteriores à Lei n. 14.843/2024, não sendo aplicável a disposição legal em comento de forma retroativa. 4. Recurso em habeas corpus provido para afastar a aplicação do § 1º do art. 112 da Lei de Execução Penal, com redação dada pela Lei n. 14.843/2024, determinando o retorno dos autos ao Juízo da execução para que prossiga na análise do pedido de progressão de regime. (RHC n. 200.670/GO, relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 20/8/2024, DJe de 23/8/2024). No mesmo sentido, mudando o que deve ser mudado, menciono as seguintes decisões monocráticas: HC n. 926.021/SP, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), DJe 5/8/2024; HC n. 925.335/SP, relatora Ministra Daniela Teixeira, DJe 2/7/2024; HC n. 924.158/SP, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do TJSP), DJe 1º/7/2024. À vista do exposto, concedo o habeas corpus, in limine, para restabelecer a decisão do Juiz da VEC. Publique-se e intimem-se. EMENTA