REsp 2154365 - DECISAO
O tribunal concedeu provimento parcial ao recurso especial apenas para afastar a multa prevista no art. 1.026, § 2º, do CPC/2015, por entender que embargos de declaração opostos com o objetivo de prequestionamento não têm caráter protelatório (Súmula 98). Quanto ao mérito relativo à limitação dos juros...
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- Parties
- Recorrente: Crefisa S/A Crédito Financiamento e Investimentos
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 October 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão
- Outcome
- Parcial provimento do recurso especial para afastar a multa do art. 1.026, § 2º, do CPC/2015; mantida, no mais, a decisão do Tribunal de origem quanto à limitação dos juros remuneratórios.
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Abusividade De Cláusula Contratual, Prova Pericial Contábil, Embargos De Declaração, Multa Processual, Taxa Média Do Banco Central
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Parties
Crefisa S/A Crédito Financiamento e Investimentos
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão
Legal Issues
- 1 abusividade da taxa de juros remuneratórios
- 2 necessidade de prova pericial contábil para demonstração de abusividade
- 3 aplicação da multa do art. 1.026, § 2º, do CPC/2015
Ratio Decidendi
O tribunal concedeu provimento parcial ao recurso especial apenas para afastar a multa prevista no art. 1.026, § 2º, do CPC/2015, por entender que embargos de declaração opostos com o objetivo de prequestionamento não têm caráter protelatório (Súmula 98). Quanto ao mérito relativo à limitação dos juros remuneratórios, manteve-se a decisão de origem que reconheceu a abusividade da taxa contratada, diante da manifesta disparidade entre a taxa pactuada e a média divulgada pelo Banco Central, e porque a modificação exigiria reexame de matéria fático-probatória vedado pelas Súmulas 5 e 7 do STJ.
Court Disposition
Parcial provimento do recurso especial para afastar a multa do art. 1.026, § 2º, do CPC/2015; mantida, no mais, a decisão do Tribunal de origem quanto à limitação dos juros remuneratórios.
Orders
- Afastar a multa do art. 1.026, § 2º, do CPC/2015 imposta à recorrente.
- Intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial manifestado por Crefisa S/A Crédito Financiamento e Investimentos, no qual se alega violação dos arts. 421 do Código Civil, 355, I e II, 356, I e II, e 1.026, § 2º, do Código de Processo Civil, além de dissídio jurisprudencial. O acórdão recorrido está retratado na seguinte ementa (fl. 450): APELAÇÕES CÍVEIS. AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO DE EMPRÉSTIMO PESSOAL. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. RECURSOS DE AMBAS AS PARTES. APELO DA RÉ. PRELIMINARES. TESE DE CERCEAMENTO DE DEFESA ANTE A AUSÊNCIA DE REALIZAÇÃO DE PERÍCIA CONTÁBIL. DESACOLHIMENTO. ANÁLISE DE EVENTUAL ABUSIVIDADE VIABILIZADA PELOS DOCUMENTOS JÁ CONSTANTES DOS AUTOS. ACERVO PROBATÓRIO SUFICIENTE AO DESLINDE DA CONTROVÉRSIA. PREFACIAL REPELIDA. AVENTADO EXERCÍCIO ABUSIVO DA ADVOCACIA PELO CAUSÍDICO DA REQUERENTE. PRETENDIDA A EXPEDIÇÃO DE OFÍCIO AO NUMOPEDE E À OAB, BEM COMO A INTIMAÇÃO DA AUTORA PARA CONFIRMAR A CONTRATAÇÃO DO PATRONO. REJEIÇÃO. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO MÍNIMA DAS SUPOSIÇÕES LEVANTADAS. AUTORA REPRESENTADA MEDIANTE INSTRUMENTO PROCURATÓRIO IDÔNEO. EVENTUAIS INFRAÇÕES ÉTICAS QUE PODEM SER DENUNCIADAS PELA PRÓPRIA PARTE PERANTE OS ÓRGÃOS ADMINISTRATIVOS COMPETENTES. PROVIDÊNCIAS DESCABIDAS. FORMULAÇÃO ARREDADA. MÉRITO. JUROS REMUNERATÓRIOS. PEDIDO DE MANUTENÇÃO DAS TAXAS CONTRATADAS. REJEIÇÃO. RELAÇÃO DE CONSUMO. MITIGAÇÃO DO PRINCÍPIO DO PACTA SUNT SERVANDA. OBSERVAÇÃO DAS TAXAS MÉDIAS DIVULGADAS PELO BACEN. JUROS PACTUADOS EXORBITANTES. ILEGALIDADE ASSENTADA. ACERTADA ADEQUAÇÃO CONFORME A SÉRIE TEMPORAL RESPECTIVA. DECISÃO PRESERVADA. REPETIÇÃO DO INDÉBITO. PRETENSO AFASTAMENTO DA OBRIGAÇÃO. INVIABILIDADE. CONSTATAÇÃO DE ABUSIVIDADES NOS CONTRATOS. IMPOSITIVA DEVOLUÇÃO, NA FORMA SIMPLES, DOS VALORES PAGOS A MAIOR. HIPÓTESE DE ENGANO JUSTIFICÁVEL. ART. 42, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CDC. DECISÓRIO ESCORREITO. APELO DA AUTORA. REPETIÇÃO DO INDÉBITO. JUROS MORATÓRIOS E CORREÇÃO MONETÁRIA. ALMEJADA A READEQUAÇÃO NA FORMA DE INCIDÊNCIA. INADMISSIBILIDADE. MATÉRIA NÃO DEDUZIDA EM PRIMEIRA INSTÂNCIA. FLAGRANTE INOVAÇÃO RECURSAL. ANÁLISE INVIABILIZADA, SOB PENA DE SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. RECLAMO NÃO CONHECIDO NO PONTO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. VERBA ESTABELECIDA NA ORIGEM EM R$ 1.000,00. PLEITO DE MAJORAÇÃO PARA O MONTANTE DE R$ 4.000,00. DESACOLHIMENTO. VALOR SENTENCIAL CAPAZ DE BEM REMUNERAR OS ESFORÇOS EMPREENDIDOS PELO CAUSÍDICO. DEMANDA DE BAIXA COMPLEXIDADE. CRITÉRIOS DO ART. 85, § 2º, DO CPC ATENDIDOS. PARÂMETROS CONSIGNADOS NA TABELA DA OAB NÃO VINCULANTES. DECISÓRIO IRRETOCÁVEL. FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS RECURSAIS EM FAVOR DO PRECURADOR DA PARTE AUTORA. RECURSO DA RÉ CONHECIDO E DESPROVIDO. RECURSO DA AUTORA CONHECIDO EM PARTE E, NESTA EXTENSÃO, DESPROVIDO. Foram opostos embargos de declaração, que ficaram retratados na seguinte ementa (fl. 487): EMBARGOS DE DECLARAÇÃO OPOSTOS POR AMBAS AS PARTES. CONTRADIÇÃO, OBSCURIDADE, OMISSÃO E ERRO MATERIAL. INEXISTÊNCIA. INCONFORMISMO COM O MÉRITO. DECLARATÓRIOS QUE NÃO SE PRESTAM PARA REDISCUSSÃO DA MATÉRIA. REJEIÇÃO. APLICAÇÃO DA MULTA DO ARTIGO 1.026, § 2º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. ACLARATÓRIOS CONHECIDOS E REJEITADOS. Sustenta a recorrente que é indevido o reconhecimento de abusividade de taxa de juros remuneratórios apenas tendo como base a taxa média praticada no mercado. Afirma que os embargos de declaração, por ela opostos, não podem ser considerados protelatórios, nos termos da Súmula n. 98 do STJ. Argumenta que é imprescindível a realização de prova pericial contábil para se concluir pela abusividade da taxa de juros remuneratórios definida em contrato. Assim posta a questão, passo a decidir. Quanto à questão dos juros remuneratórios, destaco que a atual jurisprudência do STJ firmou o entendimento de que a taxa média de mercado apurada pelo Banco Central do Brasil para cada segmento de crédito é referencial útil para o controle da abusividade, mas o simples fato de a taxa efetiva cobrada no contrato estar acima da taxa média de mercado não significa, por si só, abuso. Ao contrário, a média de mercado não pode ser considerada o limite, justamente porque é média; incorpora as menores e maiores taxas praticadas pelo mercado, em operações de diferentes níveis de risco. O caráter abusivo da taxa de juros contratada haverá de ser demonstrado de acordo com as peculiaridades de cada caso concreto, levando-se em consideração circunstâncias como o custo da captação dos recursos no local e época do contrato, a análise do perfil de risco de crédito do tomador e o spread da operação. A propósito, confira-se: AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS CONTRATADA. ABUSIVIDADE. AUSÊNCIA. ORIENTAÇÃO FIRMADA NO RESP N. 1.061.530/RS. 1. De acordo com a orientação adotada no julgamento do REsp. 1.061.530/RS, sob o rito do art. 543-C do CPC/73, "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do julgamento em concreto." 2. Prevaleceu o entendimento de que a taxa média de mercado apurada pelo Banco Central para cada segmento de crédito é referencial útil para o controle da abusividade, mas o simples fato de a taxa efetiva cobrada no contrato estar acima da taxa média de mercado não significa, por si só, abuso. Ao contrário, a média de mercado não pode ser considerada o limite, justamente porque é média; incorpora as menores e maiores taxas praticadas pelo mercado, em operações de diferentes níveis de risco. Foi expressamente rejeitada a possibilidade de o Poder Judiciário estabelecer aprioristicamente um teto para taxa de juros, adotando como parâmetro máximo o dobro ou qualquer outro percentual em relação à taxa média. 3. O caráter abusivo da taxa de juros contratada haverá de ser demonstrado de acordo com as peculiaridades de cada caso concreto, levando-se em consideração circunstâncias como o custo da captação dos recursos no local e época do contrato, a análise do perfil de risco de crédito do tomador e o spread da operação. 4. A redução da taxa de juros contratada pelo Tribunal de origem, somente pelo fato de estar acima da média de mercado, em atenção às supostas "circunstâncias da causa" não descritas, e sequer referidas no acórdão - apenas cotejando, de um lado, a taxa contratada e, de outro, o limite aprioristicamente adotado pela Câmara em relação à taxa média divulgada pelo Bacen - está em confronto com a orientação firmada no REsp. 1.061.530/RS. 5. Hipótese, ademais, em que as parcelas foram prefixadas, tendo o autor tido conhecimento, no momento da assinatura do contrato, do quanto pagaria do início ao fim da relação negocial. 6. Agravo interno provido. (AgInt no AREsp n. 1.522.043/RS, relator Ministro Marco Buzzi, relatora para acórdão Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 17.11.2020, DJe de 10.3.2021.) Nesse contexto, registro que esta Corte Superior entende que é possível proceder à revisão da taxa de juros remuneratórios, quando caracterizada a relação de consumo e o caráter abusivo ficar devidamente demonstrado, conforme as peculiaridades do caso concreto. Na situação dos autos, observo que a Corte de origem manteve a limitação dos juros remuneratórios no contrato de empréstimo pessoal, cuja modalidade de pagamento é o desconto em conta corrente, considerando as peculiaridades do caso concreto, e em razão da diferença significativa entre a taxa pactuada e a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil, conforme se observa dos seguintes trechos (fl. 446): (..) Na espécie, à guisa de evitar tautologia, valho-me das informações constantes da sentença acerca do contrato objeto desta lide e da correspondente média de mercado aplicável: Da análise do contrato firmado entre as partes e carreado aos autos (Contrato 7), tem-se que foi pactuado juros remuneratórios à taxa anual de 987,22%. Na data da celebração do pacto (05/10/2020), conforme dados colhidos do site do Banco Central do Brasil, a média anual de mercado para esta espécie de operação era de 77,05% (Série 20742 - Taxa média de juros das operações de crédito com recursos livres - Pessoas físicas - Crédito pessoal não consignado). Em atenção aos dados colacionados - diga-se, jamais impugnados pela recorrente -, obtempera-se haver sido ultrapassado em demasia o percentual limítrofe estabelecido por esta Corte como razoável à pactuação dos juros, à míngua de qualquer justificativa hábil a sustentar tão elevada superação. É cogente, assim, o reconhecimento da abusividade. Reforça-se que "incumbia à parte ré comprovar, de forma cabal e antes da sentença, "entre outros fatores, a situação da economia na época da contratação, o custo da captação dos recursos, o risco envolvido na operação, o relacionamento mantido com o banco e as garantias ofertadas" (REsp n. 2.009.614/SC, rela. Mina. Nancy Andrighi, j. 27-9-2022), a justificar a manutenção dos percentuais contratados, já que envolvem informações relativas ao seu negócio e, por decorrência, não são habitualmente informadas à parte autora no momento da contratação" (TJSC, Apelação n. 5046546- 42.2022.8.24.0930, rel. Des. Dinart Francisco Machado, Terceira Câmara de Direito Comercial, j. 22-2- 2024). E as alegações tecidas pela requerida, genérica e abstratamente, a respeito do modelo contratual celebrado não perfaz sustentação hábil a fazer comprovar, em contreto, a legitimidade da taxa convencionada. (..) De todo acertada, portanto, a limitação estabelecida na origem para adequar a taxa de juro de conformidade com a média estabelecida pela autarquia federal, pois consonante com a postura endossada pela Corte Superior, se não, vejamos: (..) (destaquei) Dessa forma, anoto que rever a conclusão da Corte local, a qual manteve a limitação da taxa de juros remuneratórios contratada, em razão da manifesta abusividade da taxa pactuada no contrato em questão, demandaria o reexame contratual e fático dos autos, situação vedada pelos óbices das Súmulas n. 5 e 7 do STJ. Acrescento, ademais, que a modificação do acórdão recorrido, que afastou a tese de cerceamento de defesa, diante da ausência de realização de prova pericial contábil, demandaria, novamente, o reexame fático dos autos, o que encontra óbice na Súmula n. 7 do STJ. Ressalto, por outro lado, que a jurisprudência do STJ entende que a oposição de embargos de declaração, com o fim de prequestionamento, não possui caráter protelatório, não ensejando a aplicação da multa prevista no art. 1.026, § 2º, do CPC/2015. Nesse sentido, cito o seguinte precedente: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. MULTA. ART. 1.026, § 2º, DO CPC/2015. OPOSIÇÃO DE ACLARATÓRIOS COM O OBJETIVO DE PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA DE CARÁTER PROTELATÓRIO. DECISÃO MANTIDA. 1. "A oposição de embargos de declaração, com nítido fim de prequestionamento, não possui caráter protelatório, não ensejando a aplicação da multa prevista no art. 1.026, § 2º, do CPC/2015, nos termos da Súmula 98 do STJ" (AgInt no AREsp n. 2.000.528/MG, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 2/5/2022, DJe de 6/5/2022). 2. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n. 1.735.672/MT, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 13.11.2023, DJe de 20.11.2023.) Em face do exposto, dou parcial provimento ao recurso especial, apenas para afastar a multa do art. 1.026, § 2º, do CPC/2015, imposta à recorrente. Intimem-se. EMENTA