AREsp 2578925 - DECISAO
Nega-se provimento ao agravo em recurso especial porque a jurisprudência desta Corte exige demonstração específica e cabal da abusividade dos juros remuneratórios, não sendo suficiente o simples cotejo com a taxa média do Bacen; além disso, eventual reexame de cláusulas e do conjunto fático-probatório é vedado no...
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- Parties
- Agravante: MARA ALICIA LIEDTKE
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 08 November 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Impugnação De Decisão Que Inadmitiu Recurso Especial (agravo Contra Decisão De Inadmissão)
- Outcome
- nega provimento ao agravo em recurso especial
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Súmulas 5, 7 E 83 Do STJ, Honorários Advocatícios
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Parties
MARA ALICIA LIEDTKE
Agravante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Impugnação De Decisão Que Inadmitiu Recurso Especial (agravo Contra Decisão De Inadmissão)
Legal Issues
- 1 incidência das Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ
- 2 possibilidade de limitação dos juros remuneratórios com base na taxa média do Bacen
- 3 requisitos para revisão das taxas de juros remuneratórios
Ratio Decidendi
Nega-se provimento ao agravo em recurso especial porque a jurisprudência desta Corte exige demonstração específica e cabal da abusividade dos juros remuneratórios, não sendo suficiente o simples cotejo com a taxa média do Bacen; além disso, eventual reexame de cláusulas e do conjunto fático-probatório é vedado no recurso especial pelas Súmulas n. 5 e 7 do STJ. Mantém-se assim o acórdão regional que não reconheceu abusividade e aplica-se majoração de honorários na forma do art. 85, §11 do CPC.
Court Disposition
nega provimento ao agravo em recurso especial
Orders
- Nego provimento ao agravo em recurso especial.
- Majoram-se os honorários advocatícios em 10% sobre o valor já arbitrado nas instâncias de origem, nos termos do §11 do art. 85 do CPC.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de agravo em recurso especial interposto por MARA ALICIA LIEDTKE contra decisão que inadmitiu recurso especial com fundamento nas Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ. A agravante alega que os p ressupostos de admissibilidade do recurso especial foram atendidos, defendendo não ser caso de incidência das Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ. O recurso especial, fundado no art. 105, III, c, da Constituição Federal, foi interposto contra acórdão prolatado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul em apelação nos autos de ação revisional de contrato bancário. O julgado foi assim ementado (fls. 230): APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO. SENTENÇA CITRA PETITA. OMISSÃO DO JUÍZO EM RELAÇÃO A MATÉRIA IMPUGNADA EM RÉPLICA, DE FÁCIL SANEAMENTO (§1º DO ART. 1.013 DO CPC), INCAPAZ DE IMPLICAR NULIDADE DA DECISÃO. RETIFICAÇÃO DO VALOR DA CAUSA. IMPOSSIBILIDADE, VIDE ART. 329, I E II, DO CPC. JUROS REMUNERATÓRIOS. CONSOANTE ENTENDIMENTO ASSENTADO PELO STJ, OS JUROS PODEM SER PACTUADOS ATÉ O LIMITE DA TAXA MÉDIA DE MERCADO, NA ÉPOCA DA CONTRATAÇÃO. AUSENTE ABUSIVIDADE, OS JUROS SÃO MANTIDOS NOS TERMOS EM QUE CONTRATADOS. COMPENSAÇÃO/ REPETIÇÃO DO INDÉBITO. ANTE A INEXISTÊNCIA DE NULIDADE/ ABUSIVIDADE DE CLÁUSULA CONTRATUAL E, POR CONSEGUINTE, PAGAMENTO À MAIOR, INEXISTEM VALORES A REPETIR OU COMPENSAR. HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA, MAJORADOS POR EXPRESSA PREVISÃO LEGAL. NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO. UNÂNIME. Nas razões do recurso especial, a ora agravante aponta, além de dissídio jurisprudencial, violação do art. 51, IV e § 1º, III, do CDC. Sustenta que os juros remuneratórios do contrato analisado são abusivos por estarem acima da média do mercado. Assim, é medida impositiva a limitação dos juros remuneratórios à média do Bacen. Afirma que, para ser reconhecida a abusividade das taxas de juros remuneratórios, basta que estas sejam superiores à média do Bacen, independentemente da extensão da diferença entre elas. Requer o provimento do recurso e a inversão dos ônus de sucumbência caso a demanda seja provida. Contrarrazões apresentadas às fls. 307-313. É o relatório. Decido. O recurso não merece prosperar. I - Juros remuneratórios (violação do art. 51 do CDC) A Segunda Seção do STJ, no Recurso Especial n. 1.061.530/RS, processado segundo o rito previsto no art. 543-C do CPC de 1973, consolidou o entendimento de que as instituições financeiras não se sujeitam à limitação dos juros remuneratórios estipulados na Lei de Usura; de que aos contratos de mútuo bancário não se aplicam as disposições do art. 591, c/c o art. 406, ambos do CC de 2002; e de que a estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade. Dessa forma, "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do caso concreto". Considerando o entendimento firmado no julgamento do recurso especial repetitivo acima indicado, as Turmas da Segunda Seção do STJ já esclareceram também que a limitação da taxa de juros com base apenas no fato de estar acima da taxa média de mercado não encontra respaldo na jurisprudência desta Corte, uma vez que devem ser observados diversos fatores para a revisão da taxa de juros, tais como o custo de captação dos recursos, o spread da operação, a análise de risco de crédito do contratante, ponderando-se a caracterização da relação de consumo e eventual desvantagem exagerada do consumidor. Para melhor compreensão, confiram-se os seguintes julgados: AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO BANCÁRIO. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS CONTRATADA. ABUSIVIDADE. AUSÊNCIA. ORIENTAÇÃO FIRMADA NO RESP N. 1.061.530/RS. CAPITALIZAÇÃO DOS JUROS. JUROS COMPOSTOS. MORA NÃO CONFIGURADA. ALEGAÇÃO DE DECISÃO CITRA PETITA. LITISPENDÊNCIA. REEXAME CONTRATUAL E FÁTICO DOS AUTOS. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. 1. A eventual redução da taxa de juros, somente pelo fato de estar acima da média de mercado, sem que seja mencionada circunstância relacionada ao custo da captação dos recursos, à análise do perfil de risco de crédito do tomador e ao spread da operação, apenas cotejando, de um lado, a taxa contratada e, de outro, o limite aprioristicamente adotado pelo julgador em relação à taxa média divulgada pelo Bacen - estaria em confronto com a orientação firmada na Segunda Seção desta Corte, nos autos do REsp 1.061.530/RS. .. 5. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n. 2.007.281/PR, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 12/9/2022, DJe de 19/9/2022, destaquei.) RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE MÚTUO BANCÁRIO. JUROS REMUNERATÓRIOS. REVISÃO. CARÁTER ABUSIVO. REQUISITOS. NECESSIDADE DE FUNDAMENTAÇÃO ADEQUADA. .. 4- Deve-se observar os seguintes requisitos para a revisão das taxas de juros remuneratórios: a) a caracterização de relação de consumo; b) a presença de abusividade capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada; e c) a demonstração cabal, com menção expressa às peculiaridades da hipótese concreta, da abusividade verificada, levando-se em consideração, entre outros fatores, a situação da economia na época da contratação, o custo da captação dos recursos, o risco envolvido na operação, o relacionamento mantido com o banco e as garantias ofertadas. 5- São insuficientes para fundamentar o caráter abusivo dos juros remuneratórios: a) a menção genérica às "circunstâncias da causa" - ou outra expressão equivalente; b) o simples cotejo entre a taxa de juros prevista no contrato e a média de mercado divulgada pelo BACEN e c) a aplicação de algum limite adotado, aprioristicamente, pelo próprio Tribunal estadual. 6- Na espécie, não se extrai do acórdão impugnado qualquer consideração acerca das peculiaridades da hipótese concreta, limitando-se a cotejar as taxas de juros pactuadas com as correspondentes taxas médias de mercado divulgadas pelo BACEN e a aplicar parâmetro abstrato para aferição do caráter abusivo dos juros, impondo-se, desse modo, o retorno dos autos às instâncias ordinárias para que aplique o direito à espécie a partir dos parâmetros delineados pela jurisprudência desta Corte Superior. 7- Recurso especial parcialmente provido. (REsp n. 2.009.614/SC, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 27/9/2022, DJe de 30/9/2022, destaquei.) Acrescente-se que, no julgamento do REsp n. 1.061.530/RS, ficou vencida a proposta da Ministra relatora de estabelecer critérios objetivos para a aferição da abusividade dos juros remuneratórios, mediante a fixação de um teto a partir da taxa média informada pelo Banco Central à época da contratação, prevalecendo o entendimento de impossibilidade de estipulação do teto de juros aceitável com base apenas na taxa média de mercado, devendo a abusividade ser aferida no caso concreto, pois dependente da análise dos diversos fatores acima já indicados. Nesse sentido, o seguinte precedente: REsp n. 1.821.182/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 23/6/2022, DJe de 29/6/2022. No caso, o Tribunal de origem não constatou a abusividade dos juros remuneratórios previstos contratualmente, nestes termos (fl. 228): Ou seja, a aferição da abusividade dos juros praticados pela instituição financeira dependerá da comprovação inequívoca de que a taxa avençada excede substancialmente a média de mercado. Sobre o tema, destaco, ainda, os seguintes precedentes, n. 700331312931 e 700265556152. No caso dos autos, está em revisão contrato de empréstimo nº 30-2000102359 firmado em abril/2020, em que foram estipulados juros remuneratórios de 1,84% ao mês. A taxa média praticada à época, em operações desta natureza, consoante veiculado pelo Banco Central3, era de 1,41% ao mês, ou seja, as taxas praticadas pela instituição financeira, neste contrato especificamente, não se mostram significativamente maiores que aquelas praticadas pelo mercado financeiro, impondo-se a manutenção da sentença, no ponto. Assim, para aferir a abusividade dos juros pactuados, seria necessário reexaminar cláusulas contratuais e o conjunto fático-probatório dos autos, procedimento vedado na via do recurso especial (Súmulas n. 5 e 7 do STJ). II - Conclusão Ante o exposto, nego provimento ao agravo em recurso especial. Nos termos do § 11 do art. 85 do CPC, majoro, em 10% sobre o valor já arbitrado nas instâncias de origem, os honorários advocatícios em desfavor da parte ora recorrente, observados, se aplicáveis, os limites percentuais previstos no § 2º do referido artigo e ressalvada eventual concessão de gratuidade de justiça. Publique-se. Intimem-se. EMENTA