AREsp 2801738 - DECISAO
Negou-se provimento ao agravo em recurso especial porque, embora a taxa média de mercado seja referencial útil, a caracterização da abusividade depende da demonstração concreta das peculiaridades do caso; contudo, no presente processo a Corte de origem adequadamente concluiu pela manifesta abusividade da taxa...
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- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 December 2024
- Procedural Posture
- Agravo / Agravo Manifestado Contra Decisão Que Negou Seguimento a Recurso Especial
- Outcome
- nego provimento ao agravo em recurso especial
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Abusividade, Taxa Média De Mercado, Revisão Contratual, Recurso Especial, Agravo Interno, Prequestionamento, Honorários Advocatícios
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Procedural Posture
Agravo / Agravo Manifestado Contra Decisão Que Negou Seguimento a Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Se a mera comparação entre a taxa contratada e a taxa média de mercado apurada pelo Banco Central é suficiente para declarar a abusividade dos juros remuneratórios
- 2 Aplicabilidade do entendimento firmado no REsp 1.061.530/RS quanto ao uso da taxa média de mercado como referencial
- 3 Vedação ao reexame de matéria fático-probatória pelo STJ nos termos das Súmulas 5 e 7
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo em recurso especial porque, embora a taxa média de mercado seja referencial útil, a caracterização da abusividade depende da demonstração concreta das peculiaridades do caso; contudo, no presente processo a Corte de origem adequadamente concluiu pela manifesta abusividade da taxa pactuada (diferência significativa em relação à taxa média divulgada pelo Banco Central) e limitou os juros com base nas circunstâncias do caso, conclusão cuja reforma demandaria reexame fático-probatório vedado pelo STJ.
Court Disposition
nego provimento ao agravo em recurso especial
Orders
- Nego provimento ao agravo em recurso especial.
- Majorar em 10% (dez por cento) a quantia já arbitrada a título de honorários em favor da parte recorrida, nos termos do art. 85, §11, do CPC/2015, observados os limites dos §§2º e 3º do mesmo artigo.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de agravo manifestado contra decisão que negou seguimento a recurso especial, no qual se alega violação dos arts. 421 do Código Civil e 927 do Código de Processo Civil, além de dissídio jurisprudencial. O acórdão recorrido está retratado na seguinte ementa (fl. 501): DUPLO AGRAVO INTERNO. APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO REVISIONAL C/C REPETIÇÃO DE INDÉBITO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. INOVAÇÃO RECURSAL. MATÉRIAS NÃO IMPUGNADAS POR MEIO DE APELAÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. MITIGAÇÃO DO PRINCÍPIO DA FORÇA OBRIGATÓRIA DO CONTRATO. LIMITAÇÃO JUROS REMUNERATÓRIOS. TAXA MÉDIA DE MERCADO. AUSÊNCIA DE FATO NOVO. DECISÃO MANTIDA. 1. Caracteriza inovação recursal o questionamento de matéria, por meio de agravo interno, que não foi levada ao órgão colegiado em sede de apelação, que impõe o seu não conhecimento. 2. Manifesta a abusividade acerca da estipulação da taxa de juros remuneratórios, possível sua limitação à média do mercado à época da contratação. Inteligência do Recurso Repetitivo nº 1.061.530/RS. 3. A abusividade das taxas de juros remuneratórios contratadas exsurge quando o percentual avençado for superior a uma vez e meia, ou ao dobro ou ao triplo da taxa média de mercado. 4. Ausente inconsistência na decisão vergastada e/ou inovação fático- jurídica, é o caso de negar provimento ao segundo agravo interno. PRIMEIRO AGRAVO INTERNO NÃO CONHECIDO. SEGUNDO AGRAVO INTERNO CONHECIDO E DESPROVIDO. Foram opostos embargos de declaração, que ficaram retratados na seguinte ementa (fl. 524): EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO INTERNO N A APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO REVISIONAL. JUROS REMUNERATÓRIOS. ABUSIVIDADE CONSTATADA. APLICAÇÃO DA TAXA MÉDIA DE MERCADO. AUSÊNCIA DE VÍCIOS. PREQUESTIONAMENTO DA MATÉRIA. 1. O recurso de embargos de declaração tem sua finalidade prevista no artigo 1.022 do Código de Processo Civil, prestando-se para corrigir omissão, obscuridade ou contradição; ausentes esses vícios, sua rejeição é medida que se impõe. 2. Manifesta a abusividade acerca da estipulação da taxa de juros remuneratórios, possível sua limitação à média do mercado à época da contratação. Inteligência do Recurso Repetitivo nº 1.061.530/RS. 3. O julgador não está obrigado a manifestar explicitamente sobre cada um dos dispositivos legais apontados pela parte, mesmo para fins de prequestionamento. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO CONHECIDOS E REJEITADOS. Sustenta a parte agravante que é indevido o reconhecimento de abusividade de taxa de juros remuneratórios apenas tendo como base a taxa média praticada no mercado. Assim posta a questão, passo a decidir. Quanto à questão dos juros remuneratórios, destaco que a atual jurisprudência do STJ firmou o entendimento de que a taxa média de mercado apurada pelo Banco Central do Brasil para cada segmento de crédito é referencial útil para o controle da abusividade, mas o simples fato de a taxa efetiva cobrada no contrato estar acima da taxa média de mercado não significa, por si só, abuso. Ao contrário, a média de mercado não pode ser considerada o limite, justamente porque é média; incorpora as menores e maiores taxas praticadas pelo mercado, em operações de diferentes níveis de risco. O caráter abusivo da taxa de juros contratada haverá de ser demonstrado de acordo com as peculiaridades de cada caso concreto, levando-se em consideração circunstâncias como o custo da captação dos recursos no local e época do contrato, a análise do perfil de risco de crédito do tomador e o spread da operação. A propósito, confira-se: AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS CONTRATADA. ABUSIVIDADE. AUSÊNCIA. ORIENTAÇÃO FIRMADA NO RESP N. 1.061.530/RS. 1. De acordo com a orientação adotada no julgamento do REsp. 1.061.530/RS, sob o rito do art. 543-C do CPC/73, "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do julgamento em concreto." 2. Prevaleceu o entendimento de que a taxa média de mercado apurada pelo Banco Central para cada segmento de crédito é referencial útil para o controle da abusividade, mas o simples fato de a taxa efetiva cobrada no contrato estar acima da taxa média de mercado não significa, por si só, abuso. Ao contrário, a média de mercado não pode ser considerada o limite, justamente porque é média; incorpora as menores e maiores taxas praticadas pelo mercado, em operações de diferentes níveis de risco. Foi expressamente rejeitada a possibilidade de o Poder Judiciário estabelecer aprioristicamente um teto para taxa de juros, adotando como parâmetro máximo o dobro ou qualquer outro percentual em relação à taxa média. 3. O caráter abusivo da taxa de juros contratada haverá de ser demonstrado de acordo com as peculiaridades de cada caso concreto, levando-se em consideração circunstâncias como o custo da captação dos recursos no local e época do contrato, a análise do perfil de risco de crédito do tomador e o spread da operação. 4. A redução da taxa de juros contratada pelo Tribunal de origem, somente pelo fato de estar acima da média de mercado, em atenção às supostas "circunstâncias da causa" não descritas, e sequer referidas no acórdão - apenas cotejando, de um lado, a taxa contratada e, de outro, o limite aprioristicamente adotado pela Câmara em relação à taxa média divulgada pelo Bacen - está em confronto com a orientação firmada no REsp. 1.061.530/RS. 5. Hipótese, ademais, em que as parcelas foram prefixadas, tendo o autor tido conhecimento, no momento da assinatura do contrato, do quanto pagaria do início ao fim da relação negocial. 6. Agravo interno provido. (AgInt no AREsp n. 1.522.043/RS, relator Ministro Marco Buzzi, relatora para acórdão Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 17.11.2020, DJe de 10.3.2021.) Nesse contexto, registro que esta Corte Superior entende que é possível proceder à revisão da taxa de juros remuneratórios, quando caracterizada a relação de consumo e o caráter abusivo ficar devidamente demonstrado, conforme as peculiaridades do caso concreto. Na situação dos autos, observo que a Corte de origem manteve a limitação dos juros remuneratórios no contrato de empréstimo pessoal, o qual tem como modalidade de pagamento o desconto em conta corrente, considerando as peculiaridades do caso concreto, e em razão da diferença significativa entre a taxa pactuada e a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil, conforme se observa dos seguintes trechos (fl. 401): (..) A par desse panorama, em consulta realizada no sítio eletrônico do Banco Central do Brasil ("Sistema Gerenciador de Séries Temporais"), o índice da taxa média mensal de juros das operações de empréstimo de crédito pessoal não consignado - pessoas físicas - para aquele período (junho/2018) foi de 6,58% ao mês e 114,85% ao ano. Diante disso, a taxa estipulada pela instituição financeira na hipótese vertente (18,5% a. m e 666,69% a. a) materializa mais que o dobro da taxa média de mercado, em nítida abusividade, a qual justifica a presente intervenção judicial. Inclusive, pois, a natureza de empréstimo pessoal não confere a instituição financeira a possibilidade de praticar juros na taxa que lhe for mais conveniente, devendo haver um mínimo de proporcionalidade, o que não foi observado neste caso. (..) Dessa forma, anoto que rever a conclusão da Corte local, a qual manteve a limitação da taxa de juros remuneratórios contratada, em razão da manifesta abusividade da taxa pactuada no contrato em questão, diante da diferença significativa entre a taxa fixada no contrato e a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil, demandaria o reexame contratual e fático dos autos, situação vedada pelos óbices das Súmulas n. 5 e 7 do STJ. Em face do exposto, nego provimento ao agravo em recurso especial. Nos termos do art. 85, § 11, do CPC/15, majoro em 10% (dez por cento) a quantia já arbitrada a título de honorários em favor da parte recorrida, observados os limites estabelecidos nos §§ 2º e 3º do mesmo artigo. Intimem-se. EMENTA