AREsp 2952985 - DECISAO
A extrapolação da taxa média de mercado, por si só, não caracteriza abusividade dos juros remuneratórios; é preciso prova casuística da excessividade (custo de captação, spread, risco, lucro e desequilíbrio contratual) cabalmente demonstrada pelo autor, razão pela qual se manteve o acórdão do tribunal de origem e...
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- Parties
- Agravante: MARCIO ANTONIO RODRIGUES BRANCO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 01 September 2025
- Procedural Posture
- Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial / Conhecimento Do Agravo E Negativa De Provimento Ao Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Taxa Média De Mercado, Abusividade, Revisão Contratual, Inadmissão De Recurso Especial
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Parties
MARCIO ANTONIO RODRIGUES BRANCO
Agravante
Procedural Posture
Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial / Conhecimento Do Agravo E Negativa De Provimento Ao Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Se a extrapolação da taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central, por si só, caracteriza abusividade dos juros remuneratórios
- 2 Qual é o ônus da prova para demonstrar abusividade dos juros contratados
- 3 Aplicabilidade da taxa média de mercado como parâmetro ou limite para limitação de juros
Ratio Decidendi
A extrapolação da taxa média de mercado, por si só, não caracteriza abusividade dos juros remuneratórios; é preciso prova casuística da excessividade (custo de captação, spread, risco, lucro e desequilíbrio contratual) cabalmente demonstrada pelo autor, razão pela qual se manteve o acórdão do tribunal de origem e negou-se provimento ao recurso especial.
Court Disposition
Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
Orders
- Majoro os honorários advocatícios devidos à parte recorrida de R$1.300,00 para R$1.430,00, observando eventual gratuidade de justiça, nos termos do art. 98, § 3º, do CPC/2015.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por MARCIO ANTONIO RODRIGUES BRANCO contra decisão que não admitiu o recurso especial, apresentado em face de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, assim ementado: "AGRAVO INTERNO. APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. AÇÃO ORDINÁRIA (REVISIONAIS DE JUROS - EMPRÉSTIMO CONSIGNADO) . EMPRÉSTIMO CONSIGNADO. INVIABILIDADE DA MERA COMPARAÇÃO COM A TAXA MÉDIA DE MERCADO. ABUSIVIDADE NÃO COMPROVADA. JUROS MANTIDOS NOS TERMOS EM QUE PACTUADOS. IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO." As razões do recurso especial, com fundamento nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, apontam, além de divergência jurisprudencial, ofensa aos arts. 39, inciso V e 51, inciso IV do CDC. Sustenta, em síntese, que a utilização de taxa de juros superior à média do Banco Central configura atuação de índole abusiva da instituição financeira, devendo a quantia ser limitada à taxa referencial emitida pelo BACEN. Contrarrazões ofertadas às fls. 743-780 (e-STJ). Em juízo prévio de admissibilidade, o eg. TJ-RS inadmitiu o apelo nobre (e-STJ, fls. 867-869), dando ensejo ao presente agravo (e-STJ, fls. 878-888). Contraminuta oferecida às fls. 903-942 (e-STJ). É o relatório. Passo a decidir. A irresignação não comporta provimento. Em relação à índole abusiva dos juros remuneratórios, matéria objeto do presente recurso especial, é necessário avaliar se o simples fato de extrapolarem a taxa média praticada pelo mercado financeiro - tabelada pelo Bacen - em operações de mesma espécie, no período de celebração do pacto, indicaria a existência de cobrança excessiva. Com efeito, ao julgar o recurso representativo da controvérsia que pacificou a questão acerca da índole abusiva dos juros remuneratórios (REsp 1.061.530/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, Segunda Seção, julgado em 22/10/2008, DJe de 10/3/2009), a em. Min. Relatora consignou, no que toca ao parâmetro a ser considerado para se inferir se os juros contratados são abusivos ou não, o seguinte: "Descartados índices ou taxas fixos, é razoável que os instrumentos para aferição da abusividade sejam buscados no próprio mercado financeiro. Assim, a análise da abusividade ganhou muito quando o Banco Central do Brasil passou, em outubro de 1999, a divulgar as taxas médias, ponderadas segundo o volume de crédito concedido, para os juros praticados pelas instituições financeiras nas operações de crédito realizadas com recursos livres (conf. Circular nº 2957, de 30.12.1999). A taxa média apresenta vantagens porque é calculada segundo as informações prestadas por diversas instituições financeiras e, por isso, representa as forças do mercado. Ademais, traz embutida em si o custo médio das instituições financeiras e seu lucro médio, ou seja, um "spread" médio. É certo, ainda, que o cálculo da taxa média não é completo, na medida em que não abrange todas as modalidades de concessão de crédito, mas, sem dúvida, presta-se como parâmetro de tendência das taxas de juros. Assim, dentro do universo regulatório atual, a taxa média constitui o melhor parâmetro para a elaboração de um juízo sobre abusividade. Como média, não se pode exigir que todos os empréstimos sejam feitos segundo essa taxa. Se isto ocorresse, a taxa média deixaria de ser o que é, para ser um valor fixo. Há, portanto, que se admitir uma faixa razoável para a variação dos juros.A jurisprudência, conforme registrado anteriormente, tem considerado abusivas taxas superiores a uma vez e meia (voto proferido pelo Min. Ari Pargendler no REsp 271.214/RS, Rel. p. Acórdão Min. Menezes Direito, DJ de 04.08.2003), ao dobro (Resp 1.036.818, Terceira Turma, minha relatoria, DJe de 20.06.2008) ou ao triplo (REsp 971.853/RS, Quarta Turma, Min. Pádua Ribeiro, DJ de 24.09.2007) da média. Todavia, esta perquirição acerca da abusividade não é estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os juros contratados foram ou não abusivos." Vê-se, assim, que a circunstância de a taxa de juros remuneratórios, praticada pela instituição financeira, exceder a taxa média de mercado, não induz, por si só, à conclusão de cobrança abusiva, consistindo a referida taxa em um referencial a ser considerado, e não em um limite que deva ser necessariamente observado pelas instituições financeiras. Desse modo, para considerar aviltante os juros remuneratórios praticados, é imprescindível que se proceda à demonstração cabal de sua natureza abusiva, em cada caso específico. Acerca do tema, mostra-se oportuna, ainda, a transcrição de trecho do voto proferido pelo saudoso Ministro Carlos Alberto Menezes Direito (REsp 271.214/RS, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, Rel. p/ acórdão Ministro CARLOS ALBERTO MENEZES DIREITO, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 12/3/2003, DJ de 4/8/2003, p. 216), em que, após realizar explanação bastante elucidativa acerca dos fatores implicados no cálculo da taxa de juros praticada, concluiu que: "Com efeito, a limitação da taxa de juros em face de suposta abusividade somente teria razão diante de uma demonstração cabal da excessividade do lucro da intermediação financeira, da margem do banco, um dos componentes do spread bancário, ou de desequilíbrio contratual. A manutenção da taxa de juros prevista no contrato até o vencimento da dívida, portanto, à luz da realidade da época da celebração do mesmo, em princípio, não merece alterada à conta do conceito de abusividade. Somente poderia ser afastada mediante comprovação de lucros excessivos e desequilíbrio contratual, o que, no caso, não ocorreu." No caso, a Corte de origem não reconheceu o caráter abusivo do percentual de juros contratados, consoante se divisa na transcrição abaixo (fls. 707-708, e-STJ): O agravo interno não merece acolhimento, devendo ser integralmente mantida a decisão recorrida com base em seus próprios fundamentos, verbis: Com relação aos juros remuneratórios, segundo o atual posicionamento do Superior Tribunal de Justiça, o fato de as taxas dos juros remuneratórios desbordarem das médias de mercado divulgadas pelo Banco Central do Brasil não se mostra suficiente, por si só, para evidenciar a abusividade do encargo contratado. Sinaliza-se ser necessária a observância de critérios casuísticos da concessão do crédito, tais como, custo de captação de recursos, spread da operação, a análise de risco do crédito, per l do contratante, dentre outros, a m de evidenciar-se a efetiva abusividade capaz de respaldar a revisão do encargo. Nesse contexto, se mostra impositivo concluir que a revisão dos juros remuneratórios depende da constatação da extrapolação das médias de mercado aliada à verificação dos fatores alhures mencionados. Cumpre registrar que o ônus probatório acerca da comprovação de tais circunstâncias compete à parte autora, na medida em que se trata de fato constitutivo do seu direito a demonstração da alegada onerosidade que ampare a pretensão de readequação da cláusula contratual, a teor do artigo 373, inciso I, do Código de Processo Civil. A fim de confortar o entendimento ora delineado, colacionam-se os seguintes precedentes da Corte Superior: (..) Na hipótese em liça, veri ca-se que o demandante baseou a sua pretensão de revisão dos juros remuneratórios apenas no fato de que as taxas pactuadas ultrapassaram as médias de mercado, o que, como já destacado, não basta para amparar o seu pedido de readequação do encargo, não trazendo aos autos comprovação quanto à abusividade havida na estipulação dos juros. Dessa forma, é caso de manterem-se os juros remuneratórios estipulados na contratação. Considerando que o pacto restou inalterado, não há falar em compensação e/ou repetição de valores pagos a maior pela contratante. Assim sendo, é caso de prover-se o apelo e julgar-se improcedente a ação. (..) Embora não se desconheça o disposto no artigo 1.021, §3º, do Código de Processo Civil 1 , tendo os argumentos ventilados pela parte no recurso originário, bem como no agravo interno, sido esgotados na decisão atacada, mostram-se dispensáveis novas digressões acerca da matéria debatida nos autos, sob pena de incorrer em desnecessária tautologia." Portanto, na espécie, a instância julgadora a quo concluiu que "o demandante baseou a sua pretensão de revisão dos juros remuneratórios apenas no fato de que as taxas pactuadas ultrapassaram as médias de mercado, o que, como já destacado, não basta para amparar o seu pedido de readequação do encargo, não trazendo aos autos comprovação quanto à abusividade havida na estipulação dos juros. " Nesse contexto, observa-se que a controvérsia foi decidida em conformidade com a jurisprudência desta Corte de Justiça. A propósito: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL - AÇÃO DE REVISÃO CONTRATUAL - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE RECONSIDEROU DELIBERAÇÃO DA PRESIDÊNCIA DO STJ PARA CONHECER DO RECLAMO E PROVER PARCIALMENTE O APELO NOBRE. INSURGÊNCIA DA DEMANDANTE. 1. A legislação processual (art. 932 do CPC/15 c/c com a Súmula 568 do STJ) permite ao relator julgar monocraticamente recurso inadmissível ou, ainda, aplicar a jurisprudência consolidada deste Tribunal. Ademais, a possibilidade de interposição de recurso ao órgão colegiado afasta qualquer alegação de ofensa ao princípio da colegialidade. Precedentes. 2. Nos termos da jurisprudência deste STJ, o mero cotejo entre a taxa de juros remuneratórios pactuada e a taxa média de mercado não é suficiente para o reconhecimento da abusividade do encargo, a qual deve ser apreciada de acordo com as circunstâncias do caso. 3. Agravo interno desprovido. (AgInt no AgInt no AREsp n. 2.565.030/RS, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 2/12/2024, DJEN de 9/12/2024.) DIREITO BANCÁRIO. AGRAVO INTERNO. LIMITAÇÃO DE JUROS REMUNERATÓRIOS. TAXA MÉDIA DE MERCADO. AGRAVO DESPROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo interno interposto contra decisão que deu parcial provimento ao recurso especial da instituição financeira, afastando a limitação dos juros remuneratórios à taxa média de mercado referente a cédulas de crédito bancário. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em saber se a limitação dos juros remuneratórios à taxa média de mercado é aplicável quando a taxa contratada é superior à média, sem fundamentação adequada de abusividade. III. Razões de decidir 3. A jurisprudência do STJ estabelece que a taxa média de mercado serve como referência, mas não implica automaticamente em abusividade se a taxa contratada for superior, devendo ser demonstrada a abusividade no caso concreto. 4. O Tribunal de origem não fundamentou adequadamente a abusividade dos juros, limitando-se a comparar a taxa contratada com a média de mercado, o que contraria a orientação do STJ. IV. Dispositivo e tese 5. Agravo desprovido. Tese de julgamento: "1. A limitação dos juros remuneratórios à taxa média de mercado requer fundamentação específica de abusividade no caso concreto. 2. A simples comparação com a taxa média de mercado não é suficiente para caracterizar abusividade." Dispositivo relevante citado: CDC, art. 51, § 1º.Jurisprudência relevante citada: STJ, REsp 1.061.530/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 22.10.2008; STJ, REsp n. 1.821.182/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 23/6/2022; STJ, AgInt no AREsp n. 1.987.137/SP, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 3/10/2022; STJ, AgInt no AREsp 1.493.171/RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 17.11.2020. (AgInt no REsp n. 2.138.867/SC, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 4/11/2024, DJe de 7/11/2024.) Verifica-se, portanto, que o acórdão recorrido está em consonância com o entendimento jurisprudencial desta Corte Superior. Logo, a manutenção do referido acórdão, no ponto objeto do recurso, é medida que se impõe, mormente ante a incidência da Súmula 83/STJ., pelas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional. Diante do exposto, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Com supedâneo no art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, majoro os honorários advocatícios devidos à parte recorrida de R$1.300,00 (mil e trezentos reais) para R$1.430,00 (mil quatrocentos e trinta reais), observando eventual gratuidade de justiça, nos termos do art. 98, § 3º, do CPC/2015. Publique-se. EMENTA