REsp 2143235 - DECISAO
O recurso especial foi provido porque o Tribunal de origem limitou os juros remuneratórios tomando como único parâmetro a taxa média do Bacen, sem analisar as peculiaridades exigidas pela jurisprudência do STJ para demonstrar abusividade; determinou-se o retorno dos autos ao juízo de origem para novo julgamento...
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- Parties
- Recorrente: CREFISA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 25 June 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão De Mérito Com Devolução Dos Autos Ao Tribunal De Origem
- Outcome
- Recurso especial provido; autos devolvidos ao Tribunal de origem para novo julgamento; pedido subsidiário prejudicado; deferido efeito suspensivo ao recurso até novo julgamento
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Relação De Consumo, Efeito Suspensivo, Compensação/repetição Do Indébito
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Parties
CREFISA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão De Mérito Com Devolução Dos Autos Ao Tribunal De Origem
Legal Issues
- 1 abusividade dos juros remuneratórios e requisitos para sua revisão
- 2 valoração da taxa média do Bacen como parâmetro único
- 3 necessidade de demonstração cabal das peculiaridades do caso (custo de captação, spread, risco de crédito, situação econômica)
Ratio Decidendi
O recurso especial foi provido porque o Tribunal de origem limitou os juros remuneratórios tomando como único parâmetro a taxa média do Bacen, sem analisar as peculiaridades exigidas pela jurisprudência do STJ para demonstrar abusividade; determinou-se o retorno dos autos ao juízo de origem para novo julgamento conforme os parâmetros estabelecidos pelo STJ e, sendo presentes fumus boni iuris e periculum in mora, foi deferido efeito suspensivo ao recurso até o novo julgamento.
Court Disposition
Recurso especial provido; autos devolvidos ao Tribunal de origem para novo julgamento; pedido subsidiário prejudicado; deferido efeito suspensivo ao recurso até novo julgamento
Orders
- Dar provimento ao recurso especial para determinar a devolução dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento nos termos da fundamentação
- Julgar prejudicado o pedido subsidiário relativo à mudança da série do Bacen aplicada
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DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por CREFISA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS com fundamento no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, contra acórdão prolatado pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (Apelação n. 5007267-06.2022.8.24.0039/SC) nos autos de revisional de contratos de empréstimo pessoal. O julgado foi assim ementado (fl. 508): APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO REVISIONAL - CONTRATOS DE EMPRÉSTIMO PESSOAL - SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA DOS PLEITOS EXORDIAIS - RECURSO INTERPOSTO PELA CASA BANCÁRIA. TESE DE IMPOSSIBILIDADE DE INCIDÊNCIA DA LEI N. 8.078/1990 AO CASO CONCRETO - APLICAÇÃO DA SÚMULA 297 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - RELAÇÃO JURÍDICA ENTRE AS PARTES TIDA COMO DE CONSUMO - REVISÃO DAS CLÁUSULAS PACTUADAS -VIABILIDADE - PRINCÍPIO DA AUTONOMIA DA VONTADE - MITIGAÇÃO - CONTRATOS DE ADESÃO - AFRONTA AO ATO JURÍDICO PERFEITO - INEXISTÊNCIA - INSURGÊNCIA DESPROVIDA NO PONTO. JUROS REMUNERATÓRIOS - CONTRATOS DE EMPRÉSTIMO PESSOAL NS. 032350034211(18/06/2019), 032350036086 (11/02/2020), 032350037413 (05/06/2020), 032350039082(03/11/2020) - ENCARGOS AVENÇADOS NOS PATAMARES MENSAIS DE 22% - TAXA MÉDIA DE MERCADO DE 6,80%, 3,35%, 2,78% E 3,36%, TODOS AO MÊS, RESPECTIVAMENTE - EXISTÊNCIA DE ABUSIVIDADES - INEXISTÊNCIA DE EQUÍVOCO QUANTO ÀS SÉRIES TEMPORAIS UTILIZADAS NOS PACTOS DE NS. 032350036086, 032350037413 E 032350039082, PORQUANTO VINCULADOS À COMPOSIÇÃO DE DÍVIDAS - CONSERVAÇÃO DO PRONUNCIAMENTO JUDICIAL QUE DETERMINOU A LIMITAÇÃO DOS PERCENTUAIS À MÉDIA DE MERCADO PARA À ÉPOCA DA CONTRATAÇÃO. COMPENSAÇÃO OU REPETIÇÃO DO INDÉBITO - INTENTO RECURSAL DE INEXISTÊNCIA DE VALORES A RESSARCIR - VIABILIDADE NA FORMA SIMPLES DESDE QUE CONSTATADO O PAGAMENTO INDEVIDO - RECONHECIMENTO DE ABUSIVIDADE NAS AVENÇAS A SER APURADO EM FASE DE LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA - INTELIGÊNCIA DA SÚMULA 322 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - APLICAÇÃO DE JUROS MORATÓRIOS DE 1% AO MÊS, DESDE A CITAÇÃO, E DE CORREÇÃO MONETÁRIA PELO INPC, A PARTIR DE CADA QUITAÇÃO A MAIOR. ESTIPÊNDIO PATRONAL - REQUERIMENTO DE MINORAÇÃO - TODAVIA, OBEDIÊNCIA AOS CRITÉRIOS ESTABELECIDOS NOS §§ 2º E 8º, DO ART. 85, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - VALOR ARBITRADO EM 20% SOBRE O IMPORTE ATRIBUÍDO À DEMANDA (R$ 3.120,41) - QUANTIA CONDIZENTE AO TRABALHO EXERCIDO PELO CAUSÍDICO - DESPROVIMENTO DO PLEITO NO PARTICULAR. HONORÁRIOS RECURSAIS - RECLAMO DESPROVIDO -ESTABELECIMENTO DO ESTIPÊNDIO PATRONAL NO MÁXIMO LEGAL - ELEVAÇÃO DESCABIDA - INTELIGÊNCIA DO ART. 85, § 2º,DO CÓDIGO DE RITOS. Dos embargos de declaração opostos não se conheceu (fls. 618, 621-623). Nas razões do recurso especial, a recorrente aponta, além de dissídio jurisprudencial, violação do art. 421 do Código Civil. Alega que os contratos são plenamente válidos, tratando-se de atos jurídicos perfeitos, por isso constituem lei entre as partes, razão pela qual é descabida sua invalidação. Argumenta que o Tribunal de origem reconheceu a abusividade dos juros remuneratórios mediante simples cotejo com a taxa média de mercado publicada pelo Bacen, ausente análise individualizada das peculiaridades do caso concreto, contrariamente ao decidido no REsp n. 1.061.530/RS. Defende que, na hipótese de manutenção da limitação das taxas de juros à média de mercado, estas devam ser alteradas para as taxas médias divulgadas pelo Bacen nas séries n. 20742 e 25464, referentes apenas a crédito pessoal não consignado, ao invés de se manter a de série n. 25465, relativa a crédito pessoal não consignado e vinculado à composição de dívidas. Pleiteia a atribuição de efeito suspensivo ao recurso especial para que seja evitada a prática de atos executórios, ao argumento de que a pretensão recursal é plausível e de que a imediata produção de efeitos da decisão recorrida representa risco de prejuízo de difícil reparação. Requer o provimento do recurso e a inversão dos ônus de sucumbência caso a demanda seja provida. É o relatório. Decido. O recurso merece prosperar. I - Juros remuneratórios A Segunda Seção do STJ, no Recurso Especial n. 1.061.530/RS, processado segundo o rito previsto no art. 543-C do CPC de 1973, consolidou o entendimento de que as instituições financeiras não se sujeitam à limitação dos juros remuneratórios estipulados na Lei de Usura; de que aos contratos de mútuo bancário não se aplicam as disposições do art. 591, c/c o art. 406, ambos do CC de 2002; e de que a estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade. Dessa forma, "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do caso concreto". Considerando o entendimento firmado no julgamento do recurso especial repetitivo acima indicado, as Turmas da Segunda Seção do STJ já esclareceram também que a limitação da taxa de juros com base apenas no fato de estar acima da taxa média de mercado não encontra respaldo na jurisprudência desta Corte, uma vez que devem ser observados diversos fatores para a revisão da taxa de juros, tais como o custo de captação dos recursos, o spread da operação, a análise de risco de crédito do contratante, ponderando-se a caracterização da relação de consumo e eventual desvantagem exagerada do consumidor. Para melhor compreensão, confiram-se os seguintes julgados: AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO BANCÁRIO. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS CONTRATADA. ABUSIVIDADE. AUSÊNCIA. ORIENTAÇÃO FIRMADA NO RESP N. 1.061.530/RS. CAPITALIZAÇÃO DOS JUROS. JUROS COMPOSTOS. MORA NÃO CONFIGURADA. ALEGAÇÃO DE DECISÃO CITRA PETITA. LITISPENDÊNCIA. REEXAME CONTRATUAL E FÁTICO DOS AUTOS. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. 1. A eventual redução da taxa de juros, somente pelo fato de estar acima da média de mercado, sem que seja mencionada circunstância relacionada ao custo da captação dos recursos, à análise do perfil de risco de crédito do tomador e ao spread da operação, apenas cotejando, de um lado, a taxa contratada e, de outro, o limite aprioristicamente adotado pelo julgador em relação à taxa média divulgada pelo Bacen - estaria em confronto com a orientação firmada na Segunda Seção desta Corte, nos autos do REsp 1.061.530/RS. .. 5. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n. 2.007.281/PR, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 12/9/2022, DJe de 19/9/2022, destaquei.) RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE MÚTUO BANCÁRIO. JUROS REMUNERATÓRIOS. REVISÃO. CARÁTER ABUSIVO. REQUISITOS. NECESSIDADE DE FUNDAMENTAÇÃO ADEQUADA. .. 4- Deve-se observar os seguintes requisitos para a revisão das taxas de juros remuneratórios: a) a caracterização de relação de consumo; b) a presença de abusividade capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada; e c) a demonstração cabal, com menção expressa às peculiaridades da hipótese concreta, da abusividade verificada, levando-se em consideração, entre outros fatores, a situação da economia na época da contratação, o custo da captação dos recursos, o risco envolvido na operação, o relacionamento mantido com o banco e as garantias ofertadas. 5- São insuficientes para fundamentar o caráter abusivo dos juros remuneratórios: a) a menção genérica às "circunstâncias da causa" - ou outra expressão equivalente; b) o simples cotejo entre a taxa de juros prevista no contrato e a média de mercado divulgada pelo BACEN e c) a aplicação de algum limite adotado, aprioristicamente, pelo próprio Tribunal estadual. 6- Na espécie, não se extrai do acórdão impugnado qualquer consideração acerca das peculiaridades da hipótese concreta, limitando-se a cotejar as taxas de juros pactuadas com as correspondentes taxas médias de mercado divulgadas pelo BACEN e a aplicar parâmetro abstrato para aferição do caráter abusivo dos juros, impondo-se, desse modo, o retorno dos autos às instâncias ordinárias para que aplique o direito à espécie a partir dos parâmetros delineados pela jurisprudência desta Corte Superior. 7- Recurso especial parcialmente provido. (REsp n. 2.009.614/SC, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 27/9/2022, DJe de 30/9/2022, destaquei.) Acrescente-se que, no julgamento do REsp n. 1.061.530/RS, ficou vencida a proposta da Ministra relatora de estabelecer critérios objetivos para a aferição da abusividade dos juros remuneratórios, mediante a fixação de um teto a partir da taxa média informada pelo Banco Central à época da contratação, prevalecendo o entendimento de impossibilidade de estipulação do teto de juros aceitável com base apenas na taxa média de mercado, devendo a abusividade ser aferida no caso concreto, pois dependente da análise dos diversos fatores acima já indicados. Nesse sentido, o seguinte precedente: REsp n. 1.821.182/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 23/6/2022, DJe de 29/6/2022. No caso em apreço, o Tribunal a quo limitou os juros remuneratórios dos três contratos sub judice à taxa média de mercado divulgada pelo Bacen, porquanto concluiu que a taxa neles pactuada caracterizava abusividade, nestes termos (fl. 506): No caso concreto, verifica-se que os contratos (docs. 9/12, evento 1) ns. (18/06/2019), 032350036086 (11/02/2020), 032350037413 (05/06/2020), 032350039082 (03/11/2020), preveem a incidência de juros remuneratórios nos percentuais mensais de 22%. A taxa média divulgada pelo Bacen à época das referidas celebrações eram de 6,80%,3,35%, 2,78% e 3,36%, todos ao mês, respectivamente. Nessa hipótese, vislumbra-se que os patamares convencionados a título de juros remuneratórios encontram-se abusivos, pelo que deve ser mantida a sentença que limitou as taxas à média de mercado para época da contratação. Assim, o Tribunal de origem limitou-se a afirmar que a taxa de juros remuneratórios fora pactuada acima da taxa média de mercado estipulada pelo Bacen, sem apresentar outros fundamentos a respeito do tema. Esse entendimento não está de acordo com a jurisprudência do STJ, considerando que a Corte a quo utilizou como único parâmetro a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central, deixando de analisar efetivamente eventual vantagem exagerada, que justificaria a limitação determinada para os dois contratos de empréstimo pessoal. Dessa forma, é necessário o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que, à luz dos requisitos estabelecidos pela jurisprudência do STJ, proceda a novo julgamento, considerando as particularidades do caso concreto e verificando a existência de abusividade dos juros remuneratórios. II - Dissídio jurisprudencial referente à adoção da taxa média incorreta e série divulgada pelo Bacen Em face da determinação de retorno dos autos ao Tribunal de origem para que proceda a novo julgamento com relação aos juros remuneratórios, o pedido subsidiário, de mudança do tipo de taxa média do Bacen aplicada ao caso, fica prejudicado. III - Pedido de concessão de efeito suspensivo ao recurso especial Segundo o art. 1.029, § 5º, I, do CPC, "o pedido de concessão de efeito suspensivo a recurso extraordinário ou a recurso especial poderá ser formulado por requerimento dirigido: I - ao tribunal superior respectivo, no período compreendido entre a publicação da decisão de admissão do recurso e sua distribuição, ficando o relator designado para seu exame prevento para julgá-lo". Para análise desse pleito, deve-se conjugá-lo com o que prevê o art. 300 do CPC: "A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo". Assim, o deferimento do pedido de tutela provisória de urgência ou de pedido incidental para a atribuição de efeito suspensivo a recurso especial exige a presença simultânea de dois requisitos autorizadores: o fumus boni iuris, caracterizado pela relevância jurídica dos argumentos expendidos no pedido; e o periculum in mora, evidenciado pela possibilidade de perecimento do bem jurídico objeto da pretensão resistida. No caso, constata-se a presença dos mencionados pressupostos legais, seja em razão da plausibilidade do direito, que decorre do provimento deste recurso, seja em razão da aparente existência de risco de dano ao recorrente, consistente na possibilidade de execução provisória do acórdão recorrido pela parte recorrida, embora sujeito a eventual alteração de sua parte dispositiva após a realização do novo julgamento na origem. IV - Conclusão Ante o exposto, julgo prejudicado o pedido subsidiário e defiro o pedido de atribuição de efeito suspensivo ao recurso para determinar a suspensão dos efeitos do acórdão recorrido até a data de realização de novo julgamento pelo Tribunal de origem. No mérito, dou provimento ao recurso especial a fim de determinar a devolução dos autos à origem para que novo julgamento seja realizado, avaliando-se eventual abusividade dos juros remuneratórios de acordo com os parâmetros estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Publique-se. Intimem-se. EMENTA