REsp 2145252 - DECISAO
A superação da taxa média do Bacen não caracteriza automaticamente abusividade; é necessário demonstrar cabalmente a abusividade no caso concreto. No presente feito, o Tribunal de origem constatou discrepância significativa entre as taxas pactuadas e a média de mercado, caracterizando abusividade, estando o acórdão...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: CREFISA S/A CRÉDITO FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 September 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão De Mérito
- Outcome
- Nego provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Repetição De Indébito, Abuso De Cláusulas Contratuais, Taxa Média Do Banco Central
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Parties
CREFISA S/A CRÉDITO FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão De Mérito
Legal Issues
- 1 Se a extrapolação da taxa média do mercado por si indica abusividade
- 2 Possibilidade de revisão de cláusulas contratuais em contratos bancários sob o CDC
- 3 Parâmetro adequado para aferição da abusividade dos juros remuneratórios
Ratio Decidendi
A superação da taxa média do Bacen não caracteriza automaticamente abusividade; é necessário demonstrar cabalmente a abusividade no caso concreto. No presente feito, o Tribunal de origem constatou discrepância significativa entre as taxas pactuadas e a média de mercado, caracterizando abusividade, estando o acórdão em conformidade com a jurisprudência do STJ, razão pela qual o recurso especial foi negado (Súmula 83/STJ).
Court Disposition
Nego provimento ao recurso especial.
Orders
- Nego provimento ao recurso especial
- Indeferido o pedido de efeito suspensivo ao recurso especial
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por CREFISA S/A CRÉDITO FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS, com fundamento nas alíneas "a" e "c", do permissivo constitucional, apresentado em desafio a acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, assim ementado: "REVISÃO. EMPRÉSTIMO PESSOAL. PROCEDÊNCIA. APELO DA DEMANDADA. PEDIDO DE EXPEDIÇÃO DE OFÍCIOS AO NUMOPEDE PARA APURAÇÃO DE INDÍCIOS DEINFRAÇÕES DISCIPLINARES E CONDUTA TÍPICA. CONDUTA TEMERÁRIA NÃO VERIFICADA. POSSIBILIDADE DA PRÓPRIA PARTE ACIONAR OS ÓRGÃOS COMPETENTES, CASO QUEIRA. NÃO ACOLHIMENTO. INCIDÊNCIA DAS NORMAS PROTETIVAS DO CONSUMIDOR, NOS TERMOS DA SÚMULA N.297 DO STJ. PRINCÍPIO DA AUTONOMIA DA VONTADE MITIGADO NA HIPÓTESE. Em atenção ao art. 6º, inciso V e ao art. 51, ambos previstos no Código de Defesa do Consumidor, é patente a possibilidade de revisão, pelo Poder Judiciário, das cláusulas contidas nos contatos que instrumentalizam as relações de consumo, especialmente com o fim de aniquilar as arbitrarieda des comumente inseridas nos contratos de adesão, tal como nos contratos de natureza bancária. Ademais, a revisão das cláusulas contratuais é permitida também sob à ótica do Código Civil, à luz dos princípios da função social do contrato (art. 421) e da boa-fé objetiva (art. 422), que estatuem que o acordo de vontades (pacta sunt servanda) não pode ser transformado num instrumento de práticas abusivas e deve ser mitigado para possibilitar a revisão das cláusulas e condições contratuais abusivas e iníquas. JUROS REMUNERATÓRIOS. VERIFICAÇÃO DA ABUSIVIDADE QUE SE PAUTA NA TAXAMÉDIA DE MERCADO, ADMITIDA CERTA VARIAÇÃO. ORIENTAÇÃO DO STJ. PRECEDENTESDESTA CÂMARA. ABUSIVIDADE EVIDENCIADA NA HIPÓTESE. REPARO DA SENTENÇASOMENTE QUANTO À SÉRIE TEMPORAL. Na esteira do entendimento delineado pelo STJ - que admite a revisão do percentual dos juros remuneratórios quando aplicável o CDC ao caso e quando exista abusividade no pacto -, esta Câmara julgadora tem admitido como parâmetro para aferir a abusividade a flexibilização da taxa de juros remuneratórios até o percentual de 10% (dez por cento) acima da taxa média divulgada pelo Banco Central. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. PRESCINDIBILIDADE DE PROVA DO ERRO. DEVOLUÇÃOSIMPLES. É pacífico o entendimento de que a repetição do indébito independe de prova do erro, conforme se extrai do teor da Súmula n. 322, editada pelo Superior Tribunal de Justiça: "para repetição de indébito, nos contratos de abertura de crédito em conta corrente, não se exige a prova do erro". Outrossim, é devida a devolução dos valores referentes à cobrança abusiva dos encargos por parte dobanco, não só para restringir o ilícito detectado, como também para prostrar o enriquecimento semcausa, tal qual previsto no art. 884 do Código Civil: "aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custade outrem, será obrigado a restituir o indevidamente aferido, feita a atualização dos valoresmonetários". Em atenção ao entendimento exarado pelo Superior Tribunal de Justiça, a restituição dos valores devese dar de forma simples. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NÃO PROTELATÓRIOS. MULTA AFASTADA. Se não há falar em intento protelatório, inaplicável a multa em embargos de declaração. APELO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO." (fls. 776-777) Os embargos de declaração foram rejeitados. Nas razões recursais, a insurgente aponta, além de divergência jurisprudencial, violação ao art. 421 do CC, ao argumento da impossibilidade de revisão da taxa dos juros remuneratórios tão somente pela taxa média do Banco Central. Pugna, ainda, pela concessão de efeito suspensivo ao apelo especial. É o relatório. Decido. Quanto aos juros remuneratórios, cabe averiguar se o tão só fato de estes extrapolarem a taxa média praticada pelo mercado financeiro em operações de mesma espécie, no período de celebração do pacto, indicaria a existência de cobrança abusiva. Ao julgar o recurso representativo da controvérsia que pacificou a questão acerca da índole abusiva dos juros remuneratórios (REsp 1.061.530/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 22/10/2008, DJe de 10/3/2009), a em. Min. Relatora consignou, no que toca ao parâmetro a ser considerado para inferir se os juros contratados são abusivos ou não, o seguinte: "Descartados índices ou taxas fixos, é razoável que os instrumentos para aferição da abusividade sejam buscados no próprio mercado financeiro. Assim, a análise da abusividade ganhou muito quando o Banco Central do Brasil passou, em outubro de 1999, a divulgar as taxas médias, ponderadas segundo o volume de crédito concedido, para os juros praticados pelas instituições financeiras nas operações de crédito realizadas com recursos livres (conf. Circular nº 2957, de 30.12.1999). (..) A taxa média apresenta vantagens porque é calculada segundo as informações prestadas por diversas instituições financeiras e, por isso, representa as forças do mercado. Ademais, traz embutida em si o custo médio das instituições financeiras e seu lucro médio, ou seja, um "spread" médio. É certo, ainda, que o cálculo da taxa média não é completo, na medida em que não abrange todas as modalidades de concessão de crédito, mas, sem dúvida, presta-se como parâmetro de tendência das taxas de juros. Assim, dentro do universo regulatório atual, a taxa média constitui o melhor parâmetro para a elaboração de um juízo sobre abusividade. Como média, não se pode exigir que todos os empréstimos sejam feitos segundo essa taxa. Se isto ocorresse, a taxa média deixaria de ser o que é, para ser um valor fixo. Há, portanto, que se admitir uma faixa razoável para a variação dos juros. A jurisprudência, conforme registrado anteriormente, tem considerado abusivas taxas superiores a uma vez e meia (voto proferido pelo Min. Ari Pargendler no REsp 271.214/RS, Rel. p. Acórdão Min. Menezes Direito, DJ de 04.08.2003), ao dobro (Resp 1.036.818, Terceira Turma, minha relatoria, DJe de 20.06.2008) ou ao triplo (REsp 971.853/RS, Quarta Turma, Min. Pádua Ribeiro, DJ de 24.09.2007) da média. Todavia, esta perquirição acerca da abusividade não é estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os juros contratados foram ou não abusivos." Vê-se, assim, que a circunstância de a taxa de juros remuneratórios, praticada pela instituição financeira, exceder a taxa média de mercado, não induz, por si só, à conclusão de cobrança abusiva, consistindo a referida taxa em um referencial a ser considerado, e não em um limite que deva ser necessariamente observado pelas instituições financeiras, tal como entendeu o eg. Tribunal de origem. Portanto, para considerar aviltantes os juros remuneratórios praticados, é imprescindível que se proceda à demonstração cabal de sua natureza abusiva, em cada caso específico. No caso dos autos, segundo os fatos definitivamente delineados no acórdão recorrido, o Tribunal de origem concluiu pela configuração de significativa discrepância entre a taxa pactuada e a taxa média de mercado para operações da mesma espécie, considerando-se as peculiaridades envolvidas, in verbis: "A tabela abaixo colacionada compara as taxas pactuadas e as médias de mercado divulgadas pelo Bacen: N. do contrato Taxa pactuada Taxa do BACEN 030400068586 706,42% a.a. 126,90% a. a. 095010409421 987,22% a.a. 116,60% a. a. 030400047843 987,22% a. a. 141,86% a. a. 030400045695 987,22% a. a. 136,16% a. a. 030400045691 987,22% a. a. 136,16% a. a. 030400043257 987,22% a. a. 128,18% a. a. 030400043078 987,22% a. a. 128,18% a. a. 030400040771 987,22% a. a. 122,84% a. a. 030400038114 987,22% a.a. 129,19% a. a. 030400036073 987,22% a. a. 118,80% a.a." ( fl. 774) Como se constata, os juros contratados superam, em muito, o índice médio do Bacen, assim evidenciada a significativa discrepância entre a taxa pactuada e a média de mercado, caracterizada, portanto, a abusividade dos juros remuneratórios. Desse modo, constatada a conformidade do acórdão recorrido com a jurisprudência desta Corte, é inviável o provimento do recurso especial no tópico, nos termos da Súmula 83/STJ. Em razão da manifesta inadmissibilidade do recurso, indefiro o pleito de efeito suspensivo ao presente recurso. Diante do exposto, nego provimento ao recurso especial. Publique-se. EMENTA