AREsp 2840189 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e deu-se parcial provimento ao recurso especial por entender que o Tribunal de origem utilizou como único parâmetro a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central para declarar a abusividade dos juros, o que contraria a jurisprudência do STJ que exige exame casuístico e demonstração cabal...
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- Parties
- Agravante: CREFISA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 February 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão Conhecimento E Provimento Parcial, Retorno Dos Autos Ao Tribunal De Origem
- Outcome
- Conheço do agravo e dou parcial provimento ao recurso especial, determinando o retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento quanto à eventual abusividade dos juros remuneratórios conforme parâmetros da jurisprudência do STJ.
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Abusividade, Taxa Média De Mercado, Admissibilidade De Recurso Especial, Fundamentação Insuficiente (art. 927 Cpc)
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Parties
CREFISA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
Agravante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão Conhecimento E Provimento Parcial, Retorno Dos Autos Ao Tribunal De Origem
Legal Issues
- 1 se é suficiente, como único parâmetro, o cotejo entre taxa contratada e taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central para reconhecer abusividade dos juros remuneratórios
- 2 requisitos para revisão de juros remuneratórios em contratos bancários (relação de consumo, demonstração cabal de abusividade e análise das peculiaridades do caso)
- 3 admissibilidade do fundamento de violação ao art. 927 do CPC por ausência de individualização
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e deu-se parcial provimento ao recurso especial por entender que o Tribunal de origem utilizou como único parâmetro a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central para declarar a abusividade dos juros, o que contraria a jurisprudência do STJ que exige exame casuístico e demonstração cabal da abusividade diante de fatores como custo de captação, spread e risco; determinou-se o retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento à luz dos parâmetros fixados pela jurisprudência do STJ. Alegação genérica de violação do art. 927 do CPC não foi demonstrada e, por isso, não conheceu-se dessa fundamentação.
Court Disposition
Conheço do agravo e dou parcial provimento ao recurso especial, determinando o retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento quanto à eventual abusividade dos juros remuneratórios conforme parâmetros da jurisprudência do STJ.
Orders
- Determinar devolução dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento, avaliando-se a abusividade dos juros remuneratórios de acordo com os parâmetros estabelecidos pela jurisprudência do STJ.
- Publique-se. Intimem-se.
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DECISÃO Trata-se de agravo em recurso especial interposto por CREFISA S.A. CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS contra decisão que inadmitiu recurso especial com fundamento nas Súmulas n. 5 e 7 do STJ. A agravante alega que os pressupostos de admissibilidade do recurso especial foram atendidos. O recurso especial, fundado no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, foi interposto contra acórdão prolatado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Goiás em apelação nos autos de ação revisional de contrato bancário. O julgado foi assim ementado (fl. 524): EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO REVISIONAL. FUNDAMENTAÇÃO CONCISA. POSSIBILIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA NÃO CARACTERIZADO. JUROS REMUNERATÓRIOS. ONEROSIDADE EXCESSIVA. DEMONSTRAÇÃO. LIMITAÇÃO À TAXA MÉDIA DE MERCADO. HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS. MAJORAÇÃO. 1. A sentença sucinta não viola o disposto no artigo 93, IX, da Constituição da República e, tampouco, o artigo 489, § 1º, do CPC, pois da análise da pretensão deduzida na petição inicial o magistrado a quo externou as razões jurídicas do seu convencimento motivado. 2. O julgamento antecipado da lide não acarreta cerceamento do direito de defesa quando presente nos autos acervo documental hábil a delinear a controvérsia, formando suficientemente o convencimento do julgador. 3. Afigura-se viável a limitação dos juros remuneratórios, tomando-se como parâmetro a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil à época da celebração do contrato, vez que comprovada a abusividade do percentual pactuado. 4. Aplicando-se a orientação da Corte Superior, a devolução do indébito será na forma simples até a data da modulação dos efeitos do julgado proferido no STJ, isto é, dia 30 de março de 2021, a partir de quando será aplicada a repetição do indébito na sua forma dobrada. 5. RECURSO DE APELAÇÃO CONHECIDO E DESPROVIDO. Nas razões do recurso especial, a ora agravante aponta, além de dissídio jurisprudencial, violação dos arts. 421 do Código Civil e 927 do Código de Processo Civil. Sustenta que os contratos são plenamente válidos, tratando-se de atos jurídicos perfeitos, por isso constituem lei entre as partes, razão pela qual é descabida sua invalidação. Argumenta que o Tribunal de origem reconheceu a abusividade dos juros remuneratórios mediante simples cotejo com a taxa média de mercado publicada pelo Bacen, ausente análise individualizada das peculiaridades do caso concreto, contrariamente ao decidido no REsp n. 1.061.530/RS. Pleiteia a atribuição de efeito suspensivo ao recurso especial para que seja evitada a prática de atos executórios, ao argumento de que a pretensão recursal é plausível e de que a imediata produção de efeitos da decisão recorrida representa risco de prejuízo de difícil reparação. Requer o provimento do recurso e a inversão dos ônus de sucumbência caso a demanda seja provida. Contrarrazões foram apresentadas (fls. 593-598). É o relatório. Decido. O recurso merece prosperar em parte. I - Juros remuneratórios A Segunda Seção do STJ, no Recurso Especial n. 1.061.530/RS, processado segundo o rito previsto no art. 543-C do CPC de 1973, consolidou o entendimento de que as instituições financeiras não se sujeitam à limitação dos juros remuneratórios estipulados na Lei de Usura; de que aos contratos de mútuo bancário não se aplicam as disposições do art. 591 c/c o art. 406, ambos do CC de 2002; e de que a estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade. Dessa forma, "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do caso concreto". Considerando o entendimento firmado no julgamento do recurso especial repetitivo acima indicado, as Turmas da Segunda Seção do STJ já esclareceram também que a limitação da taxa de juros, com base apenas no fato de estar acima da taxa média de mercado, não encontra respaldo na jurisprudência desta Corte, uma vez que devem ser observados diversos fatores para a revisão da taxa de juros, tais como o custo de captação dos recursos, o spread da operação, a análise de risco de crédito do contratante, ponderando-se a caracterização da relação de consumo e eventual desvantagem exagerada do consumidor. Para melhor compreensão, confiram-se os seguintes precedentes: AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO BANCÁRIO. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS CONTRATADA. ABUSIVIDADE. AUSÊNCIA. ORIENTAÇÃO FIRMADA NO RESP N. 1.061.530/RS. CAPITALIZAÇÃO DOS JUROS. JUROS COMPOSTOS. MORA NÃO CONFIGURADA. ALEGAÇÃO DE DECISÃO CITRA PETITA. LITISPENDÊNCIA. REEXAME CONTRATUAL E FÁTICO DOS AUTOS. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. 1. A eventual redução da taxa de juros, somente pelo fato de estar acima da média de mercado, sem que seja mencionada circunstância relacionada ao custo da captação dos recursos, à análise do perfil de risco de crédito do tomador e ao spread da operação, apenas cotejando, de um lado, a taxa contratada e, de outro, o limite aprioristicamente adotado pelo julgador em relação à taxa média divulgada pelo Bacen - estaria em confronto com a orientação firmada na Segunda Seção desta Corte, nos autos do REsp 1.061.530/RS. .. 5. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n. 2.007.281/PR, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 12/9/2022, DJe de 19/9/2022, destaquei.) RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE MÚTUO BANCÁRIO. JUROS REMUNERATÓRIOS. REVISÃO. CARÁTER ABUSIVO. REQUISITOS. NECESSIDADE DE FUNDAMENTAÇÃO ADEQUADA. .. 4. Deve-se observar os seguintes requisitos para a revisão das taxas de juros remuneratórios: a) a caracterização de relação de consumo; b) a presença de abusividade capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada; e c) a demonstração cabal, com menção expressa às peculiaridades da hipótese concreta, da abusividade verificada, levando-se em consideração, entre outros fatores, a situação da economia na época da contratação, o custo da captação dos recursos, o risco envolvido na operação, o relacionamento mantido com o banco e as garantias ofertadas. 5. São insuficientes para fundamentar o caráter abusivo dos juros remuneratórios: a) a menção genérica às "circunstâncias da causa" - ou outra expressão equivalente; b) o simples cotejo entre a taxa de juros prevista no contrato e a média de mercado divulgada pelo BACEN e c) a aplicação de algum limite adotado, aprioristicamente, pelo próprio Tribunal estadual. 6. Na espécie, não se extrai do acórdão impugnado qualquer consideração acerca das peculiaridades da hipótese concreta, limitando-se a cotejar as taxas de juros pactuadas com as correspondentes taxas médias de mercado divulgadas pelo BACEN e a aplicar parâmetro abstrato para aferição do caráter abusivo dos juros, impondo-se, desse modo, o retorno dos autos às instâncias ordinárias para que aplique o direito à espécie a partir dos parâmetros delineados pela jurisprudência desta Corte Superior. 7. Recurso especial parcialmente provido. (REsp n. 2.009.614/SC, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 27/9/2022, DJe de 30/9/2022, destaquei.) Acrescente-se que, no julgamento do REsp n. 1.061.530/RS, ficou vencida a proposta da Ministra relatora de estabelecer critérios objetivos para a aferição da abusividade dos juros remuneratórios, mediante a fixação de um teto a partir da taxa média informada pelo Banco Central à época da contratação, prevalecendo o entendimento de impossibilidade de estipulação do teto de juros aceitável com base apenas na taxa média de mercado, devendo a abusividade ser aferida no caso concreto, pois dependente da análise dos diversos fatores acima já indicados. Nesse sentido, o seguinte precedente: REsp n. 1.821.182/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 23/6/2022, DJe de 29/6/2022. No caso em apreço, o Tribunal a quo limitou os juros remuneratórios do contrato sub judice à taxa média de mercado divulgada pelo Bacen, porquanto concluiu que a taxa nele pactuada caracterizava abusividade, nestes termos (fls. 529-531, destaquei): No mais, infere-se que os litigantes firmaram os contratos de empréstimo pessoal nos 041360028811 e 096060002869, oportunidade em que restou fixada a taxa de juros remuneratórios de 22% (vinte e dois por cento) ao mês e 987,22% (novecentos e oitenta e sete vírgula vinte e dois por cento) ao ano, para cada um deles. Da análise dos autos, denota-se que a apelante alega que a sentença merece reforma, eis que a taxa média de juros do BACEN não se presta a avaliar suposta abusividade. Cediço que a estipulação de juros remuneratórios superiores a doze por cento ao ano (12% a. a.), por si só, não indica abusividade. .. No caso vertente, entendeu o magistrado de primeiro grau, acertadamente, que os juros remuneratórios contratados superam em muito a média praticada pelo mercado no período. Vê-se que no contrato pactuado a taxa de juros é de 22% (vinte e dois por cento) ao mês e de 987,22% (novecentos e oitenta e sete vírgula vinte dois por cento) ao ano. Como bem ponderou o magistrado sentenciante, em consulta no sítio eletrônico do BACEN, a taxa média de juros das operações de crédito do mercado financeiro para pessoa física-crédito pessoal não-consignado, à época da celebração do contrato, "era de 80,70% a. a e de 5,05 a. m em maio de 2021 (contrato nº 041360028811) e era de 103,59% a. a e de 6,10% a. m em janeiro de 2020 (contrato nº 09606000286)". Do cotejo entre a taxa de juros remuneratórios e a média de mercado, afigura-se clara a abusividade daquela, pois alcança o duodécuplo da média, circunstância que autoriza a limitação pretendida pela autora/ recorrida. O fundamento postado na sentença sob censura encontra suporte no julgamento dos recursos representativos de controvérsias repetitivas, REsp nº 1.061.530/RS e REsp nº 1.112.880/PR, bem como em outras jurisprudências oriundas do STJ, haja vista a indefensável discrepância em relação à taxa de juros remuneratórios. .. Embora a apelante apresente argumentos no sentido de que não haveria limites para a cobrança de juros pelas instituições financeiras, o ato judicial proferido na primeira instância, no tocante à adoção da taxa média de mercado, como visto alhures, está respaldado na orientação jurisprudencial do STJ, bem como deste Sodalício, razão pela qual deve prevalecer. Assim, o Tribunal de origem limitou-se a afirmar que a taxa de juros remuneratórios fora pactuada acima da taxa média de mercado estipulada pelo Bacen, sem apresentar outros fundamentos a respeito do tema. Esse entendimento não está de acordo com a jurisprudência do STJ, considerando que a Corte a quo utilizou como único parâmetro a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central, deixando de analisar efetivamente eventual vantagem exagerada, que justificaria a limitação determinada para os dois contratos de empréstimo pessoal. Dessa forma, é necessário o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que, à luz dos requisitos estabelecidos pela jurisprudência do STJ, proceda a novo julgamento, considerando as particularidades do caso concreto e verificando a existência de abusividade dos juros remuneratórios. II - Violação do art. 927 do CPC A alegação de violação de normas legais ou de dissídio jurisprudencial sem a individualização precisa e compreensível do dispositivo legal supostamente ofendido, isto é, sem a específica indicação numérica do artigo de lei, parágrafos e incisos e das alíneas, e a citação de passagem de artigos sem a efetiva demonstração da divergência ou contrariedade de lei federal impedem o conhecimento do recurso especial por deficiência de fundamentação. No caso, a parte agravante apresentou, no recurso especial, argumentação genérica em relação à alegada ofensa ao art. 927 do CPC, porquanto não se desincumbiu de demonstrar, de forma clara, direta e específica, violação de legislação federal, especialmente porque se restringiu a fazer referência aos dispositivos sem, contudo, demonstrar como teria ocorrido por parte do acórdão recorrido eventual violação em relação à referida tese, bem como deixou de especificar qual comando normativo estaria sendo afrontado. Impõe-se, portanto, a aplicação, por analogia, da Súmula n. 284 do STF: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência de sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia". III - Conclusão Ante o exposto, conheço do agravo para dar parcial provimento ao recurso especial a fim de determinar a devolução dos autos à origem para que novo julgamento seja realizado, avaliando-se eventual abusividade dos juros remuneratórios, de acordo com os parâmetros estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Publique-se. Intimem-se. EMENTA