AREsp 2796898 - DECISAO
Negou-se provimento ao agravo porque a matéria (abusividade dos juros) dependia de valoração das particularidades do caso concreto e de elementos fático-probatórios já apreciados pelo tribunal de origem, sendo vedado ao STJ reexaminar o conjunto fático-probatório nos termos das Súmulas 5 e 7; ademais, não houve...
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- Parties
- Ré: CREFISA; Autor: parte autora
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 21 February 2025
- Procedural Posture
- Agravo Nos Próprios Autos / Decisão Que Negou Provimento Ao Agravo Contra Inadmissão De Recurso Especial
- Outcome
- NEGO PROVIMENTO ao agravo.
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Cerceamento De Defesa, Admissibilidade De Recurso Especial, Súmulas Do STJ, Honorários Advocatícios
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Parties
CREFISA
Ré
parte autora
Autor
Procedural Posture
Agravo Nos Próprios Autos / Decisão Que Negou Provimento Ao Agravo Contra Inadmissão De Recurso Especial
Legal Issues
- 1 abusividade de juros remuneratórios e limitação à taxa média do Banco Central
- 2 necessidade ou não de dilação probatória e alegado cerceamento de defesa
- 3 aplicação das Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo porque a matéria (abusividade dos juros) dependia de valoração das particularidades do caso concreto e de elementos fático-probatórios já apreciados pelo tribunal de origem, sendo vedado ao STJ reexaminar o conjunto fático-probatório nos termos das Súmulas 5 e 7; ademais, não houve cerceamento de defesa, pois o julgamento antecipado do mérito foi autorizado pelo art. 355, I, do CPC/2015 diante da suficiência do acervo documental, e a jurisprudência admite a utilização da taxa média do Banco Central como referencial para limitar juros abusivos.
Court Disposition
NEGO PROVIMENTO ao agravo.
Orders
- Nego provimento ao agravo.
- Majoro os honorários advocatícios em 20% (vinte por cento) do valor arbitrado, observando-se os limites dos §§ 2º e 3º do art. 85 do CPC/2015.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo nos próprios autos interposto contra decisão que inadmitiu o recurso especial em razão da incidência das Súmulas n. 5, 7 e 83 do STJ (e-STJ fls. 613/617). O acórdão recorrido encontra-se assim ementado (e-STJ fl. 540): APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. EMPRÉSTIMO NÃO CONSIGNADO. AÇÃO REVISIONAL. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. APELO DA PARTE RÉ. INÉPCIA DA INICIAL: houve delimitação do objeto da ação, de modo que os pedidos são suficientemente claros e objetivos pois foi possível a determinação do conteúdo da demanda. O demandado logrou produzir defesa e, assim, nada obsta ao julgamento da pretensão veiculada. CERCEAMENTO DE DEFESA: O julgamento antecipado do feito, sem intimação para produção de provas, não configura cerceamento de defesa, pois a questão em debate pode ser resolvida com os documentos já existentes nos autos. NULIDADE DA SENTENÇA: O relatório da sentença, embora simplificado, descreve a tese central apresentada pela ré, que defende a ausência de abusividade nas cláusulas ajustadas, não havendo nulidade a se reconhecer. JUROS REMUNERATÓRIOS: A média do mercado não constitui, efetivamente, um limitador rígido dos contratos, mas um sinalizador para eventual abusividade. Contudo, considerando as particularidades do caso concreto, como o valor e o prazo do financiamento, as fontes de renda do cliente e a forma de pagamento da operação, não há elementos que justifiquem a exorbitância da taxa de juros pactuada, sendo possível constatar a sua abusividade e limitá-los à taxa média informada pelo BACEN, nos termos da jurisprudência do STJ. Eventuais particularidades do consignado local ou inadimplência do consumidor são insuficientes para afastar a abusividade, mesmo porque o risco econômico que existe no exercício de atividades financeiras não pode ser transferido ao consumidor, que é parte hipossuficiente na relação. APELO DESPROVIDO. Os embargos de declaração foram rejeitados (e-STJ fls. 564/567). Nas razões do recurso especial (e-STJ fls. 575/602), interposto com fundamento no art. 105, III, "a" e "c", da CF, a parte recorrente alegou dissídio jurisprudencial e violação: (i) dos arts. 355, I, 369 e 370 do CPC/2015, porque (e-STJ fls. 584/585): .. ao mesmo tempo em que constou que a CREFISA não teria apresentado provas de suas alegações, deixou de reconhecer o cerceamento de defesa em desfavor da CREFISA, ocorrido justamente por não poder (a CREFISA) produzir as provas que pretendia .. além de ser necessário a realização do saneamento e organização do processo, mostra-se imprescindível a dilação probatória no presente caso para produção de prova documental suplementar, prova pericial e oitiva da RECORRIDA, na medida em que a "taxa média" divulgada pelo Banco Central não constitui critério bastante para se aferir a suposta abusividade de juros em contratos de empréstimo pessoal. (ii) dos arts. 421, parágrafo único, do CC e 51, IV, do CDC, pois (e-STJ fls. 588/590): .. na interpretação do artigo 51 do CDC, nos casos que envolvam a revisão da taxa de juros bancários, tem-se estabelecido, por meio de Recurso Repetitivo, que (i) presume-se a regularidade das taxas de juros cobradas, independentemente do percentual fixado; e (ii) apenas é autorizada a revisão das taxas de juros quando, a partir da análise do caso concreto, houver relação de consumo e estiver cabalmente comprovada a abusividade que o coloque em desvantagem exagerada. .. o simples fato de uma taxa de juros corresponder a duas.. três.. quatro vezes a "taxa média" divulgada pelo Banco Central não significa que ela seja abusiva, pois ainda necessária a consideração dos aspectos objetivos daquela operação de crédito (custos e riscos envolvidos) justamente por existirem distintos mercados relevantes. (iii) do art. 927, III, do CPC/2015, visto que (e-STJ fl. 595): .. no momento em que o TJRS julgou em descompasso com o Recurso Especial Repetitivo n.º 1.061.530/RS, incorreu evidente violação ao artigo 927, inciso III, do CPC. No agravo (e-STJ fls. 625/643), afirma a presença dos requisitos de admissibilidade do especial. Contraminuta não apresentada (e-STJ fl. 646). É o relatório. Decido. Ao apreciar a questão relativa aos juros remuneratórios, o Tribunal de origem concluiu pela abusividade da taxa contratada em comparação com a média mensal apurada pelo Banco Central para operações da mesma espécie no período da contratação, fundamentando o caráter abusivo dos juros remuneratórios (e-STJ fls. 537/538): .. verifica-se que as taxas fixadas no contrato objeto da presente demanda exorbitam significativamente da média de remuneração de empréstimos. Nessa esteira, considerando as particularidades do caso concreto, como o valor e o prazo do financiamento, as fontes de renda do cliente e a forma de pagamento da operação, não há elementos que justifiquem a exorbitância da taxa de juros pactuada, sendo possível constatar a sua abusividade .. não socorre à instituição financeira o argumento da inadimplência, porque tal fator deveria ter sido levado em no momento de decidir pela concessão do crédito, mais do que no da fixação da taxa; embora se possa rediscutir em teoria a média de juros com relação a consumidores com prévia negativação, isso não representa uma justificativa para a conduta da ré, que soa contraditória, uma vez que, se sabia que a parte autora era negativada e estava endividada, isso deveria ter pesado no momento de avaliar se era adequado conceder mais um crédito. Ao analisar a presente situação, percebe-se que ausente argumento ou circunstância que justifique a tarifa no patamar firmado, demonstrando-se elevado com relação à média de mercado, utilizada por outras instituições para a mesma modalidade de crédito, ainda que exista a possibilidade de pactuação de juros remuneratórios em referencial superior aqueles informados pelo Banco Central. Ademais, o risco econômico que existe no exercício de atividades financeiras não pode ser transferido ao consumidor, eis que este é parte hipossuficiente na relação. O entendimento está de acordo com a jurisprudência desta Corte. A propósito: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO BANCÁRIO. LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL. SUSPENSÃO DA AÇÃO. INAPLICABILIDADE. JUSTIÇA GRATUITA. AUSÊNCIA DE PROVEITO PARA A PARTE. MÉRITO. JUROS REMUNERATÓRIOS. CRÉDITO CONSIGNADO. NATUREZA ABUSIVA. TAXA MÉDIA DE MERCADO. REFERENCIAL. SÚMULA N. 83 DO STJ. DECISÃO MANTIDA. .. 3. "É admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante às peculiaridades do julgamento em concreto" (REsp 1.061.530/RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 22/10/2008, DJe 10/03/2009) 4. A taxa média de mercado apurada pelo Banco Central para cada segmento de crédito é referencial útil para o controle do abuso da taxa de juros remuneratórios contratada. Precedentes. 5. "Em qualquer hipótese, é possível a correção para a taxa média se for verificada abusividade nos juros remuneratórios praticados" (REsp n. 1.112.879/PR, relatora Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 12/5/2010, DJe de 19/5/2010). 6. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp n. 2.427.734/RS, de minha relatoria, Quarta Turma, julgado em 26/02/2024, DJe 29/02/2024.) Ainda, desconstituir a convicção formada pelas instâncias de origem quanto às peculiaridades do contrato, para assim acolher os argumentos do recurso especial, é inviável em razão das Súmulas n. 5 e 7 do STJ. Quanto ao cerceamento de defesa, a Corte local entendeu (e-STJ fl. 535): Veja-se que o art. 355, I, do CPC, autoriza o julgamento antecipado do mérito quando não houver a necessidade de produção de outras provas. Conforme já decidiu o Superior Tribunal de Justiça, "não há cerceamento do direito de defesa nesses casos, pois o juiz tem o poder-dever de julgar a lide antecipadamente, desprezando a realização de audiência para a produção de provas ao constatar que o acervo documental é suficiente para nortear e instruir seu entendimento". Ademais, "em matéria de julgamento antecipado da lide, predomina a prudente discrição do magistrado no exame da necessidade ou não da realização de prova em audiência, ante as circunstâncias de cada caso concreto e a necessidade de não ofender o princípio basilar do pleno contraditório". Nessa esteira, "cabe ao tribunal de segundo grau, sopesando os termos do contraditório e os elementos probatórios contidos no processo, decidir se há ou não necessidade de produzir prova em audiência". Assim, de acordo com os critérios adotados por esta Corte, desnecessária se faz a dilação probatória no caso dos autos, por se tratar de matéria eminentemente de direito, a qual, no caso concreto, pode ser solucionada com os documentos já existentes nos autos. Assim, modificar o entendimento do acórdão impugnado e reconhecer a existência de cerceamento de defesa, pelo julgamento antecipado da lide e pela desnecessidade de dilação probatória, demandaria reexame do conjunto fático-probatório dos autos, providência não admitida no âmbito desta Corte, a teor da Súmula n. 7/STJ. Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao agravo. Na forma do art. 85, § 11, do CPC/2015, MAJORO os honorários advocatícios em 20% (vinte por cento) do valor arbitrado, observando-se os limites dos §§ 2º e 3º do referido dispositivo. Publique-se e intimem-se. EMENTA