REsp 2206107 - DECISAO
Conheço em parte e dou provimento ao recurso especial para determinar a devolução dos autos ao tribunal de origem para novo julgamento, porquanto o acórdão recorrido utilizou exclusivamente a taxa média do BACEN para limitar os juros remuneratórios, o que não se conforma com a jurisprudência do STJ; deve-se avaliar...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: CREFISA S.A. -CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS; Recorrido: parte autora
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 22 April 2025
- Procedural Posture
- Ação Revisional De Contrato Bancário / Recurso Especial Conhecido Em Parte E Provido; Autos Devolvidos Ao Tribunal De Origem Para Novo Julgamento
- Outcome
- recurso especial conhecido em parte e provido; autos devolvidos ao tribunal de origem para novo julgamento; pedido de tutela provisória prejudicado.
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Abusividade Contratual, Prova Pericial, Taxa Média Do BACEN, Descaracterização Da Mora, Repetição De Indébito, Súmula 7 Do STJ
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
CREFISA S.A. -CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
Recorrente
parte autora
Recorrido
Procedural Posture
Ação Revisional De Contrato Bancário / Recurso Especial Conhecido Em Parte E Provido; Autos Devolvidos Ao Tribunal De Origem Para Novo Julgamento
Legal Issues
- 1 cerceamento de defesa por não permitir prova pericial para demonstrar perfil de risco do cliente
- 2 uso da taxa média do BACEN como parâmetro único para aferir abusividade dos juros remuneratórios
- 3 revisão dos encargos contratuais por onerosidade e vantagem exagerada do consumidor
Ratio Decidendi
Conheço em parte e dou provimento ao recurso especial para determinar a devolução dos autos ao tribunal de origem para novo julgamento, porquanto o acórdão recorrido utilizou exclusivamente a taxa média do BACEN para limitar os juros remuneratórios, o que não se conforma com a jurisprudência do STJ; deve-se avaliar a abusividade considerando múltiplos fatores (custo de captação, spread, análise de risco, relação de consumo e eventual vantagem exagerada); o pedido de efeito suspensivo foi julgado prejudicado.
Court Disposition
recurso especial conhecido em parte e provido; autos devolvidos ao tribunal de origem para novo julgamento; pedido de tutela provisória prejudicado.
Orders
- Devolução dos autos à origem para novo julgamento conforme parâmetros da jurisprudência do STJ
- Julgo prejudicado o pedido de tutela provisória (efeito suspensivo)
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por CREFISA S.A. -CRÉDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS com fundamento no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul em apelação nos autos de ação revisional de contrato bancário. O julgado foi assim ementado (fl. 626): APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. AÇÃO REVISIONAL. CONTRATO BANCÁRIO. JUROS REMUNERATÓRIOS. TAXA MÉDIA DE MERCADO. ABUSIVIDADE. DESCONSIDERAÇÃO DA MORA. REPETIÇÃO SIMPLES DO INDÉBITO. 1. Preliminar de ausência de análise de documentação fundamental e impossibilidade de utilização da taxa média do BACEN. As razões ventiladas pela apelante não merecem ser admitidas, vez que confusas com o mérito da demanda, não podendo serem enquadradas como preliminar. Impõe-se a rejeição da preliminar. 2. Preliminar quanto ao cerceamento de defesa por ausência de intimação acerca do interesse na dilação probatória e da necessidade de observância de demais provas. No caso dos autos, a produção de outras provas revela-se desnecessária, já que a matéria discutida é eminentemente de direito, que atrai o julgamento antecipado, na forma do inciso I do art. 355 do Código de Processo Civil. Preliminar rejeitada. 3. Dos juros remuneratórios. É cediço que a estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano não indica abusividade, exceto se houver significativa discrepância em relação à taxa fixada no contrato e a taxa média divulgada pelo BACEN à época da contratação, consoante entendimento do superior tribunal de justiça no julgamento do REsp n.º 1.112.879/PR representativo de controvérsia. Caso concreto em que demonstrada excessiva desvantagem à consumidora (art. 51, § 1º, do CDC) que autoriza a readequação do encargo. Revisão que deve observar a taxa média disponibilizada pelo BACEN. Descabida a revisão dos juros observando margem tolerável, diante do reconhecimento da abusividade. 4. Da descaracterização da mora. O STJ, por meio do REsp n.º 1.061.530/RS, assentou entendimento de que, reconhecida a abusividade de encargo do período da normalidade, possível a descaracterização da condição da inadimplência. Caso concreto que demonstra inequívoca abusividade, impondo-se na descaracterização da mora. 5. Da pretensão de devolução de valores. Repetição de indébito que, diante do julgamento do EREsp n.º 1.413.542/RS, autoriza a devolução dobrada, quando evidenciada ofensa à boa-fé objetiva. Entretanto, ainda que reconhecida abusividade de encargo incidente no período da normalidade contratual, não resta apresentada ofensa à boa-fé objetiva, razão pela qual os valores pagos a maior devem ser restituídos de maneira simples. Precedentes desta Câmara. PRELIMINARES REJEITADAS. RECURSO DESPROVIDO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS SUCUMBENCIAIS MAJORADOS. No recurso especial, a parte recorrente aponta violação dos seguintes artigos: a) 421 do CC e 927 do CPC, porque a liberdade contratual deve ser exercida nos limites da função social do contrato, sendo a revisão contratual uma exceção, razão pela qual deve ser utilizada apenas em casos de comprovação de abusividade, o que não ocorreu no caso concreto; e b) 355, I e II, e 356, I e II, do CPC, visto que houve cerceamento de defesa ao não se permitir a produção de prova pericial para demonstrar o perfil de risco do cliente, tendo em vista as particularidades da operação de crédito concedido à parte autora. Sustenta que o Tribunal de origem contrariou o entendimento do Superior Tribunal de Justiça ao decidir pela limitação dos juros remuneratórios com base na taxa média de mercado, sem considerar as peculiaridades do caso concreto, conforme entendimento consolidado no REsp n. 1.821.182/RS. Pleiteia a atribuição de efeito suspensivo ao recurso especial para que seja evitada a prática de atos executórios, ao argumento de que a pretensão recursal é plausível e de que a imediata produção de efeitos da decisão recorrida representa risco de prejuízo de difícil reparação. Requer o provimento do recurso para que se determine a realização de prova pericial contábil para verificar a abusividade da taxa de juros, bem como para que se afaste a limitação dos juros remuneratórios e se restabeleça a taxa ajustada pelas partes no contrato de empréstimo. Inadmitido o recurso especial na origem, o agravo em recurso especial apresentado foi convertido em recurso especial. É o relatório. Decido. O recurso merece prosperar em parte. I - Arts. 355, I e II, e 356, I e II, do CPC A recorrente afirma que houve cerceamento de defesa ao não se permitir a produção de prova pericial para demonstrar o perfil de risco do cliente, tendo em vista as particularidades da operação de crédito concedido à parte autora. A Corte estadual concluiu que as alegações controvertidas nos presentes autos encontram-se amparadas apenas pela prova documental, não tendo a prova pericial o condão de trazer esclarecimentos relevantes para seu deslinde. Deveria a instituição financeira, quando da apresentação da defesa, ter demonstrado cabalmente que, para a incidência da taxa de juros nesse patamar, valera-se, no caso em concreto, de análise objetiva de risco de crédito da operação e do perfil do tomador. Observe-se (fl. 619, destaquei): Quanto ao cerceamento de defesa por ausência de intimação acerca do interesse na dilação probatória e ausência de análise de documentação fundamental, de plano os fundamentos não vão acolhidos, uma vez que, diante da controvérsia dos autos, a produção de outras provas revela-se desnecessária, já que a matéria discutida é eminentemente de direito, que atrai o julgamento antecipado, na forma do inciso I do art. 355 do Código de Processo Civil. Logo, adequado o julgamento antecipado do mérito, tal como referido pelo juízo a quo, dispensada a prévia realização de decisão saneadora por se tratar de pronunciamento judicial não obrigatório. Assim, para alterar o entendimento do aresto impugnado sobre a suficiência dos documentos juntados aos autos para esclarecimento das questões fáticas, seria imprescindível a incursão no acervo fático-probatório dos autos, o que é vedado pela Súmula n. 7 do STJ. A propósito: AgInt no AREsp n. 2.437.350/RS, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 27/11/2023, DJe de 30/11/2023. II - Arts. 421 do CC e 927 do CPC No recurso especial, a parte recorrente alega que o Tribunal de origem utilizou a taxa média de mercado como único parâmetro para aferir a abusividade dos juros remuneratórios, sem considerar as peculiaridades do caso concreto. Considerando o entendimento firmado no julgamento do Recurso Especial n. 1.061.530/RS, as Turmas da Segunda Seção do STJ já esclareceram que a limitação da taxa de juros, com base apenas no fato de estar acima da taxa média de mercado, não encontra respaldo na jurisprudência desta Corte, uma vez que devem ser observados diversos fatores para a revisão da taxa de juros, tais como o custo de captação dos recursos, o spread da operação, a análise de risco de crédito do contratante, ponderando-se a caracterização da relação de consumo e eventual desvantagem exagerada do consumidor. Confira-se trecho do acórdão recorrido (fl. 621, destaquei): Levando em conta tais premissas, no caso dos autos, tenho que resta evidente situação excepcional que autoriza a revisão do encargo, porquanto patente onerosidade e desvantagem à parte consumidora, já que fixados em 21,27% ao mês, de modo que descabido quaisquer sejam os fundamentos da instituição financeira, em especial de que observou as particularidades da consumidora. Portanto, para restabelecer o equilíbrio entre as partes, considero adequado adotar a taxa média de juros correspondente à modalidade da operação vigente no momento em que o consumidor aderiu ao contrato. Essa abordagem parece ser a mais justa para remunerar adequadamente o capital cedido pela instituição financeira e estabelecer um critério claro pelo qual o tomador do crédito possa entender a composição de seu débito. Desse modo, considerando que a Taxa Média Mensal de juros disponibilizada pelo BACEN à época da negociação entre as partes era de 5,61% ao mês (abril de 2023 - crédito pessoal não consignado), bem como considerando reconhecimento da onerosidade excessiva, inarredável a manutenção da sentença que revisou o encargo. Como visto acima, o Tribunal de origem limitou-se a afirmar que a taxa de juros remuneratórios fora pactuada acima da taxa média de mercado estipulada pelo Bacen, sem apresentar outros fundamentos a respeito do tema, apontando genericamente as peculiaridades das contratações. Esse entendimento não está de acordo com a jurisprudência do STJ, que considera insuficientes para fundamentar o reconhecimento do caráter abusivo dos juros remuneratórios a menção genérica às "circunstâncias da causa" ou outra expressão equivalente; o simples cotejo entre a taxa de juros prevista no contrato e a média de mercado divulgada pelo Bacen; e a aplicação de algum limite adotado aprioristicamente pelo próprio tribunal estadual. Assim, a Corte a quo utilizou como único parâmetro a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central, estabelecendo um teto como margem de tolerância do que seria admitido a título de juros e baseando-se apenas em uma menção genérica às peculiaridades da causa. Deixou, por conseguinte, de analisar efetivamente eventual vantagem exagerada, que justificaria a limitação determinada para o contrato em revisão. III - Pedido de concessão de efeito suspensivo Conforme entendimento do STJ, "havendo manifestação superveniente do órgão julgador sobre o tema, não subsiste o pedido de tutela provisória que pretendia conceder efeito suspensivo ao recurso já julgado" (AgInt no AREsp n. 2.298.991/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 4/9/2023, DJe de 6/9/2023). IV - Conclusão Ante o exposto, conheço em parte do recurso especial e, nessa extensão, dou-lhe provimento a fim de determinar a devolução dos autos à origem para que novo julgamento seja realizado, avaliando-se eventual abusividade dos juros remuneratórios de acordo com os parâmetros estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Julgo prejudicado o pedido de tutela provisória. Publique-se. Intimem-se. EMENTA