REsp 2207157 - DECISAO
A extrapolação da taxa média de mercado não configura, por si só, cobrança abusiva; é imprescindível demonstração cabal da abusividade no caso concreto. O Tribunal de origem concluiu não haver discrepância significativa entre a taxa pactuada e a taxa média, entendimento coincidente com precedentes do STJ, atraindo a...
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- Parties
- Recorrente: EDUARDO BARBOSA AVILA; Recorrido: FINANCEIRA RÉ
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 28 April 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Recurso Especial Negado Provimento Pelo STJ
- Outcome
- Nego provimento ao recurso especial
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Abusividade De Cláusulas Contratuais, Taxa Média De Mercado, Repetição Do Indébito, Honorários Advocatícios
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Parties
EDUARDO BARBOSA AVILA
Recorrente
FINANCEIRA RÉ
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Recurso Especial Negado Provimento Pelo STJ
Legal Issues
- 1 Se a extrapolação da taxa média de mercado por si só configura cobrança abusiva
- 2 Qual o parâmetro adequado para aferir a abusividade dos juros remuneratórios
- 3 Necessidade de demonstração cabal da abusividade no caso concreto
Ratio Decidendi
A extrapolação da taxa média de mercado não configura, por si só, cobrança abusiva; é imprescindível demonstração cabal da abusividade no caso concreto. O Tribunal de origem concluiu não haver discrepância significativa entre a taxa pactuada e a taxa média, entendimento coincidente com precedentes do STJ, atraindo a Súmula 83/STJ, razão pela qual se negou provimento ao recurso especial. Foi majorado o percentual dos honorários advocatícios nos termos do art. 85, §11, do CPC/2015.
Court Disposition
Nego provimento ao recurso especial
Orders
- Nego provimento ao recurso especial
- Majorar os honorários advocatícios devidos pela parte recorrida de 10% para 11%
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por EDUARDO BARBOSA AVILA, com fundamento no art. 105, III, "a" e "c", contra v. acórdão do eg. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), assim ementado: "RECURSOS DE APELAÇÃO. AÇÃO REVISIONAL VOLTADA À REVISÃO DE CLÁUSULAS/ENCARGOS DE CONTRATUALIDADE DE CRÉDITO PESSOAL. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA PARA LIMITAR OS JUROS REMUNERATÓRIOS À TAXA MÉDIA DE MERCADO, DESCARACTERIZAR A MORA E DETERMINAR A REPETIÇÃO DO INDÉBITO NA FORMA SIMPLES. INCONFORMISMOS DE AMBOS OS LITIGANTES. RECURSO DA FINANCEIRA RÉ. EXAME DE ADMISSIBILIDADE. POSTULADA MANTENÇA DO ANATOCISMO AVENÇADO. AUSÊNCIA DE INTERESSE RECURSAL. NÃO DISCUSSÃO DA MATÉRIA NA ORIGEM. RECLAMO NÃO CONHECIDO NESTE ASPECTO. MÉRITO. REQUERIDA MANTENÇA DOS JUROS REMUNERATÓRIOS CONFORME CONTRATADOS. ACOLHIMENTO. INEXISTÊNCIA DE ABUSIVIDADE. TAXAS CONTRATADAS QUE NÃO SUPLANTAM EXCESSIVAMENTE O ÍNDICE MÉDIO DE MERCADO DIVULGADO PELO BANCO CENTRAL. ENCARGO MANTIDO COMO PACTUADO. SENTENÇA REFORMADA NO PONTO. PREQUESTIONAMENTO. TEMÁTICAS SUSCITADAS EXAMINADAS À SACIEDADE E DE FORMA FUNDAMENTADA. APRECIAÇÃO DE TODOS OS ARGUMENTOS E DISPOSITIVOS APONTADOS PELOS LITIGANTES DESNECESSÁRIA, QUANDO INCAPAZES DE INFIRMAR A CONCLUSÃO ADOTADA PELO JULGADOR. RESULTADO DO JULGAMENTO. REFORMA DO DECISUM A IMPOR, POR COROLÁRIO, O EXPURGO DAS DETERMINAÇÕES DE DEVOLUÇÃO DE VALORES E DE DESCONFIGURAÇÃO DA MORA, O JULGAMENTO DE IMPROCEDÊNCIA DA ACTIO E A IMPOSIÇÃO DOS ÔNUS DE SUCUMBÊNCIA AO POLO AUTOR. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO ENCARGO, PORQUANTO BENEFICIÁRIA A PARTE ACIONANTE DA GRATUIDADE DA JUSTIÇA. APELO DA PARTE AUTORA. ALMEJADAS FIXAÇÃO DE CORREÇÃO MONETÁRIA ATINENTE À REPETIÇÃO DO INDÉBITO SEGUNDO O IGPM E DE MAJORAÇÃO DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. PREJUDICIALIDADE ANTE O RESULTADO DO PRESENTE JULGAMENTO. APELO DA FINANCEIRA DEMANDADA PARCIALMENTE CONHECIDO E PROVIDO. RECURSO DA PARTE AUTORA PREJUDICADO. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS RECURSAIS. MAJORAÇÃO DESCABIDA ANTE O REDIMENSIONAMENTO DA SUCUMBÊNCIA." (fl. 238) Nas razões do recurso especial (fls. 245/255), a parte recorrente aponta ofensa ao artigo 51, §1º, incisos II e III, do Código de Defesa do Consumidor, além de divergência jurisprudencial, sustentando, em síntese, abusividade das cláusulas contratuais que versam sobre os juros remuneratórios, considerando que o contrato foi pactuado com uma taxa de juros 604,76% acima da taxa média divulgada pelo Banco Central, sem justificativa, o que deixa o consumidor em desvantagem excessiva. Apresentadas contrarrazões às fls. 245/255. É o relatório. Decido. Quanto aos juros remuneratórios, cabe averiguar se só fato de estes extrapolarem a taxa média praticada pelo mercado financeiro em operações de mesma espécie, no período de celebração do pacto, indicaria a existência de cobrança abusiva. Ao julgar o recurso representativo da controvérsia que pacificou a questão acerca da índole abusiva dos juros remuneratórios (REsp 1.061.530/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 22/10/2008, DJe de 10/3/2009), a em. Min Relatora consignou, no que toca ao parâmetro a ser considerado para se inferir se os juros contratados são abusivos ou não, o seguinte: "Descartados índices ou taxas fixos, é razoável que os instrumentos para aferição da abusividade sejam buscados no próprio mercado financeiro. Assim, a análise da abusividade ganhou muito quando o Banco Central do Brasil passou, em outubro de 1999, a divulgar as taxas médias, ponderadas segundo o volume de crédito concedido, para os juros praticados pelas instituições financeiras nas operações de crédito realizadas com recursos livres (conf. Circular nº 2957, de 30.12.1999). (..) A taxa média apresenta vantagens porque é calculada segundo as informações prestadas por diversas instituições financeiras e, por isso, representa as forças do mercado. Ademais, traz embutida em si o custo médio das instituições financeiras e seu lucro médio, ou seja, um "spread" médio. É certo, ainda, que o cálculo da taxa média não é completo, na medida em que não abrange todas as modalidades de concessão de crédito, mas, sem dúvida, presta-se como parâmetro de tendência das taxas de juros. Assim, dentro do universo regulatório atual, a taxa média constitui o melhor parâmetro para a elaboração de um juízo sobre abusividade. Como média, não se pode exigir que todos os empréstimos sejam feitos segundo essa taxa. Se isto ocorresse, a taxa média deixaria de ser o que é, para ser um valor fixo. Há, portanto, que se admitir uma faixa razoável para a variação dos juros. A jurisprudência, conforme registrado anteriormente, tem considerado abusivas taxas superiores a uma vez e meia (voto proferido pelo Min. Ari Pargendler no REsp 271.214/RS, Rel. p. Acórdão Min. Menezes Direito, DJ de 04.08.2003), ao dobro (Resp 1.036.818, Terceira Turma, minha relatoria, DJe de 20.06.2008) ou ao triplo (REsp 971.853/RS, Quarta Turma, Min. Pádua Ribeiro, DJ de 24.09.2007) da média. Todavia, esta perquirição acerca da abusividade não é estanque, o que impossibilita a adoção de critérios genéricos e universais. A taxa média de mercado, divulgada pelo Banco Central, constitui um valioso referencial, mas cabe somente ao juiz, no exame das peculiaridades do caso concreto, avaliar se os juros contratados foram ou não abusivos." Vê-se, assim, que a circunstância de a taxa de juros remuneratórios, praticada pela instituição financeira, exceder a taxa média de mercado, não induz, por si só, à conclusão de cobrança abusiva, consistindo a referida taxa em um referencial a ser considerado, e não em um limite que deva ser necessariamente observado pelas instituições financeiras, tal como entendeu o eg. Tribunal de origem. Portanto, para considerar aviltantes os juros remuneratórios praticados, é imprescindível que se proceda à demonstração cabal de sua natureza abusiva, em cada caso específico. No caso dos autos, como supratranscrito, segundo os fatos definitivamente delineados no acórdão recorrido, o Tribunal de origem concluiu que não se configurou significativa discrepância entre a taxa pactuada e a taxa média de mercado para operações da mesma espécie, considerando-se as peculiaridades envolvidas. É o que se observa do trecho do v. acórdão recorrido, in verbis: "De fato, infere-se que as taxas de juros contratadas foram superiores às médias de mercado divulgadas pelo Banco Central do Brasil. Porém, considerando o posicionamento deste Órgão Fracionário, que vem entendendo inexistir, via de regra, abusividade na hipótese de pactuação de taxa de juros remuneratórios que não for demasiadamente excessiva em relação à taxa média de mercado (Apelação n. 5000645- 22.2019.8.24.0036, rel.ª Des.ª Janice Goulart Garcia Ubialli, j. em 16.5.2023), como no presente caso, não há outra medida senão conservar o ajustado entre as partes. Desse modo, é de ser provido o recurso para determinar a mantença dos juros remuneratórios conforme pactuados." (fl. 236) Nesse contexto, constata-se, inevitavelmente, que o entendimento adotado no acórdão recorrido coincide com a jurisprudência assente desta Corte Superior, circunstância que atrai a incidência da Súmula 83/STJ. Ante o exposto, nos termos do art. 255, §4º, I, do RISTJ, nego provimento ao recurso especial. Nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil de 2015, majoro os honorários advocatícios devidos pela parte recorrida de 10% para 11%. Publique-se. EMENTA