REsp 2199065 - DECISAO
O Recurso Especial foi provido porque, embora a taxa contratada (32,65% a.a.; 2,35% a.m.) supere a taxa média do BACEN à época (27,15% a.a.; 2,02% a.m.), não há demonstração cabal de abusividade ou onerosidade excessiva capaz de justificar a revisão; a diferença entre as taxas foi considerada pequena e não indicou...
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- Parties
- Autora: autora; Ré: ré - instituição financeira
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 September 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Em Recurso Especial Pelo Tribunal Colegiado
- Outcome
- Recurso Especial provido para manter a taxa de juros remuneratórios pactuada; condenada a autora ao pagamento das despesas processuais e honorários advocatícios de R$ 1.500,00, com exigibilidade suspensa em caso de benefício da gratuidade da justiça.
- Legal Topics
- Juros Remuneratórios, Revisão Contratual, Abusividade De Cláusulas Contratuais, Taxa Média De Mercado Do BACEN, Honorários Advocatícios, Alienação Fiduciária
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Parties
autora
Autora
ré - instituição financeira
Ré
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Em Recurso Especial Pelo Tribunal Colegiado
Legal Issues
- 1 Se a cobrança de juros remuneratórios acima da taxa média de mercado divulgada pelo BACEN configura, por si só, abusividade
- 2 Qual o grau de demonstração exigido para a revisão da taxa de juros (onerosidade excessiva, peculiaridades do caso concreto)
- 3 Aplicabilidade e força vinculante de precedentes repetitivos do STJ e súmulas (p.ex. Súmula 382/STJ, REsp 1.061.530/RS)
Ratio Decidendi
O Recurso Especial foi provido porque, embora a taxa contratada (32,65% a.a.; 2,35% a.m.) supere a taxa média do BACEN à época (27,15% a.a.; 2,02% a.m.), não há demonstração cabal de abusividade ou onerosidade excessiva capaz de justificar a revisão; a diferença entre as taxas foi considerada pequena e não indicou situação excepcional, e a jurisprudência do STJ estabelece que a taxa média é referencial e não limite rígido, exigindo prova do abuso para redução judicial.
Court Disposition
Recurso Especial provido para manter a taxa de juros remuneratórios pactuada; condenada a autora ao pagamento das despesas processuais e honorários advocatícios de R$ 1.500,00, com exigibilidade suspensa em caso de benefício da gratuidade da justiça.
Orders
- Dar provimento ao Recurso Especial e manter a taxa de juros remuneratórios pactuada.
- Autora arcará com as despesas processuais.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial (REsp) apresentado pela ré - instituição financeira - em face de acórdão assim ementado (fl. 257): APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO DO CONSUMIDOR E PROCESSO CIVIL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO BANCÁRIO DE FINANCIAMENTO DE VEÍCULO. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. IRRESIGNAÇÃO DO BANCO RÉU. JUROS REMUNERATÓRIOS CONTRATADOS EM PERCENTUAL SUPERIOR À TAXA MÉDIA DE MERCADO DIVULGADA PELO BANCO CENTRAL À ÉPOCA DA CONTRATAÇÃO. ABUSIVIDADE CONFIGURADA. PRECEDENTES DESTA CÂMARA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS ARBITRADOS SOBRE O VALOR DA CAUSA. DESCABIMENTO. PROVEITO ECONÔMICO MENSURÁVEL. DIFERENÇA ENTRE OS VALORES ORIGINALMENTE CONTRATADOS E AQUELES QUE SERÃO OBTIDOS APÓS O RECÁLCULO COM A LIMITAÇÃO DOS JUROS REMUNERATÓRIOS. PRECEDENTES DO STJ. RECURS O CONHECIDO E PROVIDO EM PARTE. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA. Foram rejeitados os embargos de declaração opostos a esse acórdão. No REsp, alega-se que o acórdão recorrido contrariou: A) os artigos 1º e 4º da Lei 4.595/1964 porque ignorou que a revisão da taxa de juros remuneratórios pactuada em contrato bancário só é possível em casos excepcionais, nos quais fique demonstrado que o consumidor foi colocado em situação de grave desvantagem, decorrente de onerosidade excessiva; e também porque olvidou que, para a revisão, devem ser consideradas as particularidades do caso concreto, não sendo suficiente a comparação entre taxas (contratada e média de mercado); B) o artigo 1.022 do Código de Processo Civil (CPC/2015) porque deixou de sanar os vícios apontados nos embargos de declaração. No REsp, afirma-se também que o acórdão recorrido, ao aplicar os artigos mencionados acima, deu-lhes interpretação que, no mesmo contexto fático, diverge da de outros tribunais. Iniciando, anoto que, nos termos da Súmula 382 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a estipulação de taxa de juros remuneratórios em patamar superior a 12% ao ano não indica, por si só, abusividade na sua cobrança. A redução da taxa de juros depende de demonstração de onerosidade excessiva - capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada -, observando-se as peculiaridades de cada caso concreto e levando-se em consideração circunstâncias como o custo da captação dos recursos no local e época do contrato, a análise do perfil de risco de crédito do tomador e o spread da operação. O só fato de a taxa efetiva cobrada no contrato estar acima da taxa média de mercado - praticada em operações equivalentes e na mesma época - não significa abuso, que também não se caracteriza pela circunstância de haver estabilidade inflacionária no período. A taxa média não pode ser considerada limite; justamente por ser média, incorpora as menores e maiores taxas praticadas pelo mercado, em operações de diferentes níveis de risco. O que impõe eventual redução é o abuso, ou seja, a comprovação de cobrança muito acima daquilo que se pratica no mercado. A taxa média pode ser utilizada como referência (baliza, parâmetro) no exame de eventual desequilíbrio contratual, mas ela não constitui valor absoluto, rígido a ser adotado invariavelmente em todos os casos. Nesse sentido: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS À EXECUÇÃO. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO PARA EMPRÉSTIMO DE CAPITAL DE GIRO. FUNDAMENTAÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. SUFICIENTE. CAPITALIZAÇÃO DIÁRIA. MP 2.170-36/2001. APLICAÇÃO DA SÚMULA 83 DO STJ. JUROS REMUNERATÓRIOS. TAXA MÉDIA DO MERCADO. COBRANÇA ABUSIVA. LIMITAÇÃO. NÃO COMPROVAÇÃO. SÚMULA 83/STJ. CARACTERIZAÇÃO DA MORA. AGRAVO NÃO PROVIDO. .. . 4. A jurisprudência do STJ orienta que a circunstância de a taxa de juros remuneratórios praticada pela instituição financeira exceder a taxa média do mercado não induz, por si só, à conclusão de cobrança abusiva, consistindo a referida taxa em um referencial a ser considerado, e não em um limite que deva ser necessariamente observado pelas instituições financeiras. 5. Na hipótese, ante a ausência de comprovação cabal da cobrança abusiva, deve ser mantida a taxa de juros remuneratórios acordada. .. . 7. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 1726346/SC, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, DJe 17.12.2020.) AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO. TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS CONTRATADA. ABUSIVIDADE. AUSÊNCIA. ORIENTAÇÃO FIRMADA NO RESP N. 1.061.530/RS. 1. De acordo com a orientação adotada no julgamento do REsp. 1.061.530/RS, sob o rito do art. 543-C do CPC/73, "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do julgamento em concreto.". 2. Prevaleceu o entendimento de que a taxa média de mercado apurada pelo Banco Central para cada segmento de crédito é referencial útil para o controle da abusividade, mas o simples fato de a taxa efetiva cobrada no contrato estar acima da taxa média de mercado não significa, por si só, abuso. Ao contrário, a média de mercado não pode ser considerada o limite, justamente porque é média; incorpora as menores e maiores taxas praticadas pelo mercado, em operações de diferentes níveis de risco. Foi expressamente rejeitada a possibilidade de o Poder Judiciário estabelecer aprioristicamente um teto para taxa de juros, adotando como parâmetro máximo o dobro ou qualquer outro percentual em relação à taxa média. 3. O caráter abusivo da taxa de juros contratada haverá de ser demonstrado de acordo com as peculiaridades de cada caso concreto, levando-se em consideração circunstâncias como o custo da captação dos recursos no local e época do contrato, a análise do perfil de risco de crédito do tomador e o spread da operação. 4. A redução da taxa de juros contratada pelo Tribunal de origem, somente pelo fato de estar acima da média de mercado, em atenção às supostas "circunstâncias da causa" não descritas, e sequer referidas no acórdão - apenas cotejando, de um lado, a taxa contratada e, de outro, o limite aprioristicamente adotado pela Câmara em relação à taxa média divulgada pelo Bacen - está em confronto com a orientação firmada no REsp. 1.061.530/RS. 5. Hipótese, ademais, em que as parcelas foram prefixadas, tendo o autor tido conhecimento, no momento da assinatura do contrato, do quanto pagaria do início ao fim da relação negocial. 6. Agravo interno provido. (AgInt no AREsp 1.522.043/RS, Rel. Ministro MARCO BUZZI, Rel. p/ Acórdão Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI, QUARTA TURMA, julgado em 17.11.2020, DJe de 10.3.2021) No caso vertente, a autora, pessoa física, propôs a demanda visando à revisão de mútuo celebrado com a ré para financiar aquisição de veículo automotor, com garantia real (alienação fiduciária). A sentença acolheu a pretensão de revisão da taxa de juros remuneratórios contratada, determinando a observância das taxas médias de mercado (27,15% ao ano e 2,02% ao mês). A Corte local, julgando a apelação da ré, confirmou a sentença, nos termos seguintes (fls. 249-255). O cerne da questão gira em torno da revisão contratual de cláusulas abusivas. Matéria de altíssima recorrência no Poder Judiciário brasileiro, a discussão acerca da cobrança abusiva dos juros remuneratórios já foi, por diversas vezes, objeto de apreciação pelas Cortes Superiores, encontrando-se pacificada atualmente. Nesse cenário, o Supremo Tribunal Federal sumulou o entendimento (Súmula nº 596/STF) de que as limitações dos juros remuneratórios previstas na Lei de Usura (Decreto nº 22.626/33) não podem ser impostas às instituições financeiras. Por sua vez, o Superior Tribunal de Justiça, em sua súmula nº 382, assentou o entendimento no sentido de que a estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade. Ademais, por ocasião do julgamento do Recurso Especial nº 1.061.530/RS, pela Relatora Min. Nancy Andrighi, submetido à sistemática dos recursos repetitivos, o STJ apregoou o entendimento de que o parâmetro decisório a nortear o julgador a aferir a existência ou não de abusividade dos juros remuneratórios - diante das peculiaridades de cada caso concreto - é a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil (BACEN) à época da celebração do negócio. Confira-se: .. Tratando-se de acórdão proferido pelo STJ em sede recurso repetitivo, vale lembrar, o entendimento nele firmado é de observância obrigatória por juízes e tribunais, nos termos do art. 927, III do CPC/15. Daí porque este Egrégio Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, alinhando-se com a jurisprudência do STJ sobre a matéria, editou a sua súmula nº 13, que assim dispõe: .. . Com efeito, são fartos os precedentes da Primeira Câmara Cível deste Sodalício reafirmando o entendimento de que, em casos como o presente, devem ser revisadas as taxas de juros remuneratórios que superem a taxa média de mercado divulgada pelo BACEN quando da celebração do negócio. Note-se: .. Isto posto, em deferência ao princípio do colegiado e em atenção ao art. 926 do CPC/15 - que impõe aos tribunais o dever de uniformizar sua jurisprudência, mantendo-a estável, íntegra e coerente - rendo-me ao critério supramencionado para aferir a abusividade dos juros remuneratórios e passo ao exame do caso em tela. Por ora, do debulho dos documentos insertos no processo, constato que houve a juntada da tela de contratação (ID 54948472) objeto da controvérsia, de modo que passo a analisar a ocorrência ou não de abusividade contratual por parte da instituição financeira. A partir da aplicação do Código de Defesa do Consumidor, a limitação dos juros remuneratórios dependerá da comprovação de sua abusividade, a ser verificada caso a caso, a partir da taxa média de mercado registrada pelo BACEN à época da contratação e conforme a natureza do crédito alcançado. Consequentemente, apenas quando restar demonstrado o excesso do encargo é que se admite o afastamento do percentual de juros avençado pelas partes contratantes. Dessa forma, consultando as ferramentas disponibilizadas pelo BACEN é possível verificar a existência ou não de abusividade nas taxas de juros aplicadas no caso concreto. Em relação ao contrato de concessão de financiamento, tem-se que a taxa de juros referente a contratação em 19 de Maio de 2022, foi de 32,65% a. a. e 2,35% a. m. (ID 54948472). Contudo, em consulta ao sítio do Banco Central, contata-se que a taxa média à época da contratação (maio /2022) foi de 27,15% a. a e 2,02% a. m. Desse modo, de acordo com os elementos constantes no quadro demonstrativo supra, verifica-se que os encargos praticados, nos períodos destacados, extrapolam a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central, o que indicia a abusividade dos juros. Outrossim, registra-se que o entendimento majoritário desta Câmara, no exame da abusividade, é o da impossibilidade de existência de margem de tolerância entre os parâmetros. Portanto, correta foi a decisão de origem, que declarou abusivas as cláusulas contratuais que estabeleceram taxas de juros superiores a taxa média de mercado do contrato firmado entre as partes. Nesse contexto, penso que a taxa de juros remuneratórios pactuada deve ser mantida, pois não há nos autos sinais claros, indícios fortes da ocorrência de situação excepcional, reveladora de abusividade com relação àquela taxa. Com efeito, depreende-se do exame da sentença e do acórdão recorrido, complementado pela leitura das demais peças do processo, que não ocorreu diferença acentuada entre a taxa pactuada (mensal de 2,35%) e a taxa média (mensal de 2,02%). Sem dificuldade, observa-se que a taxa pactuada não alcança o dobro da taxa média. Embora a comparação entre taxas não seja o único critério de aferição de eventual abusividade, conforme precedentes acima indicados, é certo que o fato de a taxa pactuada não estar muito (exageradamente) acima da taxa média, situando-se aquela dentro de uma faixa razoável, aceitável de variação em relação a esta, evidencia que, em vez de abusiva, a taxa pactuada na verdade está ajustada (adequada) ao cenário econômico-financeiro da época da contratação, não se justificando a intervenção judicial. Em outras palavras, não existindo, no caso concreto, demonstração de excesso na estipulação da taxa de juros remuneratórios, torna-se inviável a revisão postulada na petição inicial. Em face do exposto, dou provi mento ao REsp para manter a taxa de juros remuneratórios pactuada. A autora arcará com as despesas processuais e pagará honorários advocatícios de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais), ficando sob condição suspensiva a exigibilidade dessa obrigação em caso de beneficiário da gratuidade da justiça. Quanto ao mais, fica prejudicado o REsp. Intimem-se. EMENTA