REsp 2105081 - DECISAO
Verificou-se omissão do Tribunal de origem ao não fundamentar a ampliação irrestrita da gratuidade de justiça concedida à pessoa jurídica e ao não indicar as provas que justificassem a incapacidade de arcar com custas e despesas, razão pela qual o recurso especial foi conhecido e provido para cassar o acórdão e...
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- Parties
- Recorrentes: CLAUDINÉIA HILLESHEIM e OUTROS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 September 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento No Superior Tribunal De Justiça (recurso Conhecido E Provido)
- Outcome
- Recurso especial conhecido e provido
- Legal Topics
- Justiça Gratuita, Art. 98 § 5º Do Cpc/2015, Liquidação Extrajudicial, Pessoa Jurídica, Embargos De Declaração, Negativa De Prestação Jurisdicional, Honorários Periciais
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Parties
CLAUDINÉIA HILLESHEIM e OUTROS
Recorrentes
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento No Superior Tribunal De Justiça (recurso Conhecido E Provido)
Legal Issues
- 1 Se houve negativa de prestação jurisdicional por omissão do Tribunal de origem quanto aos pontos suscitados nos embargos de declaração
- 2 Se a concessão irrestrita da gratuidade de justiça à pessoa jurídica em liquidação extrajudicial foi devidamente fundamentada com indicação de provas
- 3 Se a remuneração de perito deve estar abrangida pela gratuidade concedida ou pode ser excluída nos termos do art. 98, § 5º, do CPC/2015
Ratio Decidendi
Verificou-se omissão do Tribunal de origem ao não fundamentar a ampliação irrestrita da gratuidade de justiça concedida à pessoa jurídica e ao não indicar as provas que justificassem a incapacidade de arcar com custas e despesas, razão pela qual o recurso especial foi conhecido e provido para cassar o acórdão e determinar o retorno dos autos ao tribunal de origem para novo julgamento dos embargos de declaração, a fim de que este fundamente sua conclusão quanto à ampliação da benesse.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e provido
Orders
- Determinar o retorno dos autos ao tribunal de origem para novo julgamento dos embargos de declaração
- Ficam prejudicadas as demais alegações dos recorrentes
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por CLAUDINÉIA HILLESHEIM e OUTROS, com fundamento no artigo 105, III, alíneas "a" e "c", da Constituição Federal, contra o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina assim ementado: "AGRAVO DE INSTRUMENTO - JUSTIÇA GRATUITA DEFERIDA À PARTE, PORÉM ALIJANDO-SE DA BENESSE O MONTANTE REFERENTE AOS HONORÁRIOS PERICIAIS - REMUNERAÇÃO DO EXPERTO QUE DEVE ESTAR ABARCADA NA CONCEDIDA GRATUIDADE, INCLUSIVE PARA QUE NÃO SE TOLHA DO BENEFICIADO O DIREITO AO AMPLO ACESSO À JURISDIÇÃO - RECURSO PROVIDO" (e-STJ fl. 71). Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (e-STJ fls. 103/105). No recurso especial, os recorrentes alegam, além de divergência jurisprudencial, violaçã o dos seguintes dispositivos legais com as respectivas teses: (i) art. 1.022 do Código de Processo Civil - porque o acórdão combatido teria incorrido em negativa de prestação jurisdicional ao não apreciar aspectos relevantes da demanda suscitados nos embargos declaratórios, mais especificamente, teria se omitido "(..) em observar a ausência de provas das alegações da agravante, ora recorrida, a respeito da extensão e real necessidade do deferimento da justiça gratuita para todos os atos processuais" (e-STJ fl. 126); (ii) art. 98, § 5º, do Código de Processo Civil - porque, sem justificativa, concedeu o benefício da gratuidade da justiça em favor da recorrida relativo a todos os atos processuais, inclusive às custas e despesas necessárias a realização de perícia. Contrarrazões às e-STJ fls. 135/140. É o relatório. DECIDO. A insurgência merece prosperar em parte. No tocante à negativa de prestação jurisdicional, verifica-se que o Tribunal de origem não se pronunciou acerca dos pontos levantados pelos recorrentes, suficientes para infirmar a conclusão adotada. Verifica-se que o juízo originário concedeu o benefício da gratuidade de justiça com ressalvas pelos seguintes fundamentos: "Como não há a mínima evidência que a executada não possa arcar com parte das despesas processuais, assim como tendo em vista que representaria verdadeiro descalabro que o contribuinte catarinense, já forçado e coagido pelo Estado a recolher tributos, fosse onerado ainda mais para atender interesse da instituição financeira executada, - a realização da perícia não será alcançada pela gratuidade decorrente da liquidação extrajudicial da devedora, de acordo com o que autoriza o art. 98, § 5.º, do Código de Processo Civil, e tal como já determinado na decisão ao ev. 207 (dispositivo 2)." O Tribunal de Justiça, por sua vez, não apontou as provas porventura colacionadas aos autos que o levaram a concluir pela total incapacidade financeira da recorrida para arcar com as custas processuais a ponto de justificar a ampliação irrestrita do benefício. Instado a se manifestar a esse respeito pelos competentes embargos de declaração, a Corte de origem quedou-se silente. Esclareça-se que a jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que o fato de haver a decretação da liquidação extrajudicial ou falência, não remete, por si só, ao reconhecimento da necessidade para fins de concessão da assistência judiciária gratuita à pessoa jurídica. A propósito: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. FUNDAMENTOS DA DECISÃO AGRAVADA. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO. ART. 1.021, § 1º, DO CPC/2015. PEDIDO DE ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA. PESSOA JURÍDICA. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. EFEITO EX NUNC. 1. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é pacífica no sentido de que, em se tratando de pessoas jurídicas, não há falar em presunção de miserabilidade, cabendo à parte agravante comprovar a condição alegada. 2. É firme a orientação desta Corte Superior de que os arts. 6º e 9º da Lei nº 1.060/1950 devem ser interpretados de forma restritiva, isto é, abrangendo apenas os atos de concessão do benefício legal até a decisão final da causa. A concessão da gratuidade judiciária pode ser requerida no curso da ação, mas não tem efeitos retroativos. 3. Não pode ser conhecido o recurso que não infirma especificamente os fundamentos da decisão agravada, haja vista o disposto no art. 1.021, § 1º, do Código de Processo Civil de 2015. O conteúdo normativo do referido dispositivo legal já estava cristalizado no entendimento jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça na redação da Súmula nº 182/STJ. 4. Agravo interno não conhecido." (AgInt no AREsp 1.626.718/SE, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 8/3/2021, DJe de 12/3/2021 - grifou-se) "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA.. PESSOA JURÍDICA EM LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL - NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO DA HIPOSSUFICIÊNCIA PARA QUE OCORRA O DEFERIMENTO DA GRATUIDADE DE JUSTIÇA. AUSÊNCIA. SÚMULA 83/STJ. DESNECESSIDADE DE REALIZAÇÃO DE PERÍCIA CONTÁBIL. VERBETE SUMULAR N. 7 DESTA CORTE SUPERIOR. INVIABILIDADE DE SUSPENSÃO DO FEITO COM BASE NO ART. 18 DA LEI N. 6.024/1974. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Consoante a jurisprudência desta Corte Superior, "o comando previsto no art. 18 da Lei 6.024/74, segundo o qual a decretação da liquidação extrajudicial produzirá, de imediato, a suspensão das ações iniciadas sobre direitos e interesses relativos ao acervo da entidade liquidanda, não alcança as ações de conhecimento voltadas à obtenção de provimento relativo à certeza e liquidez do crédito" (AgInt no AREsp n. 2.440.392/RS, relatora a Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 4/12/2023, DJe de 6/12/2023). A simples decretação de liquidação extrajudicial não tem o condão de, por si só, induzir ao reconhecimento da hipossuficiência financeira da parte agravante. 2. O Superior Tribunal de Justiça entente que "o direito à gratuidade da justiça da pessoa jurídica em regime de liquidação extrajudicial ou de falência depende de demonstração de sua impossibilidade de arcar com os encargos processuais, o que não ficou afigurado na espécie" (AgInt no REsp 1.619.682/RO, Relator o Ministro Raul Araújo, DJe de 7/2/2017). Aplicação da Súmula 83/STJ. 3. A segunda instância concluiu que não teria ocorrido cerceamento de defesa. Justificou-se que não era necessária a realização de perícia contábil para aferir o montante devido. Além do mais, firmou o aresto que estaria ausente demonstrativo da necessidade de confecção dessa prova, sobretudo porque a parte não teria apresentado fundamentação concreta e específica de memorial que indicasse eventual incorreção de cálculo juntado pela credora. Óbice do enunciado sumular 7 desta Corte Superior. 4. Agravo interno desprovido." (AgInt no AREsp 2.565.111/SC, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 10/6/2024, DJe de 13/6/2024 - grifou-se) "PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL. COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. PESSOA JURÍDICA EM ESTADO DE FALÊNCIA. GRATUIDADE DE JUSTIÇA REQUERIDA APÓS A INTERPOSIÇÃO DO RECURSO ESPECIAL. POSSIBILIDADE. DOCUMENTAÇÃO CAPAZ DE COMPROVAR O ESTADO DE HIPOSSUFICIÊNCIA. DEFERIMENTO. EFEITOS EX NUNC. AGRAVO INTERNO PROVIDO. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO. 1. Nos termos da jurisprudência desta Corte, "o direito à gratuidade da justiça da pessoa jurídica em regime de liquidação extrajudicial ou de falência depende de demonstração de sua impossibilidade de arcar com os encargos processuais" (AgInt no REsp 1.619.682/RO, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, Quarta Turma, julgado em 15/12/2016, DJe de 7/2/2017). 2. "O benefício da assistência judiciária gratuita não possui efeito retroativo, de forma que a sua concessão posterior não tem o poder de eximir a parte do pagamento das despesas processuais anteriores à sua concessão" (EDcl nos EDcl nos EDcl no AgInt nos EDcl no AREsp 1.860.078/MS, Relator Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, Terceira Turma, julgado em 30/10/2023, DJe de 3/11/2023). 3. Na hipótese, às fls. 275-336, consta documentação comprovando o estado atual de hipossuficiência da pessoa jurídica. Com efeito, observa-se também que a parte agravada não trouxe prova incontestável de que a parte agravante não precisa da suscitada gratuidade. Desse modo, é cabível o deferimento da gratuidade de justiça, o qual, todavia, não possui efeitos retroativos, devendo valer a partir do momento do pedido. 4. Agravo interno provido para, em novo exame do feito, conhecer do agravo e dar parcial provimento ao recurso especial, a fim de deferir o benefício de gratuidade de justiça." (AgInt nos EDcl nos EDcl no AREsp 1.023.258/MG, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 19/3/2024, DJe de 22/3/2024) Por esse motivo, há no CPC dispositivo expresso permitindo ao magistrado dosar as circunstâncias da gratuidade de justiça, com a previsão de deferimento parcial a depender do caso, nos termos do seu artigo 98, § 5º. Colacionam-se: "DIREITO PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE EXECUÇÃO DE TÍTULOS EXTRAJUDICIAIS. GRATUIDADE DE JUSTIÇA. PEDIDO FORMULADO POR UM DOS DEVEDORES. COMPATIBILIDADE DO BENEFÍCIO COM A TUTELA JURISDICIONAL EXECUTIVA. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA DO INSTITUTO. DESCABIMENTO. 1. Ação ajuizada em 24/02/2010. Recurso especial interposto em 18/12/2018 e concluso ao Gabinete em 02/07/2019. 2. O propósito recursal consiste em dizer acerca da possibilidade de concessão, no processo de execução de título extrajudicial, do benefício da gratuidade de justiça em favor de um dos executados. 3. A gratuidade de justiça não é incompatível com a tutela jurisdicional executiva, voltada à expropriação de bens do devedor para a satisfação do crédito do exequente. 4. O benefício tem como principal escopo assegurar a plena fruição da garantia constitucional de acesso à Justiça, não comportando interpretação que impeça ou dificulte o exercício do direito de ação ou de defesa. 5. O direito à gratuidade de justiça está diretamente relacionado à situação financeira deficitária do litigante que não o permita arcar com as custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios, o que não significa que peremptoriamente será descabido se o interessado for proprietário de algum bem. 6. Se não verificar a presença dos pressupostos legais, pode o julgador indeferir o pedido de gratuidade, após dispensar à parte oportunidade de apresentação de documentos comprobatórios (art. 99, § 2º, do CPC/15). 7. Ainda, o CPC contém expresso mecanismo que permite ao juiz, de acordo com as circunstâncias concretas, conciliar o direito de acesso à Justiça e a responsabilidade pelo ônus financeiro do processo, qual seja: o deferimento parcial da gratuidade, apenas em relação a alguns dos atos processuais, ou mediante a redução percentual de despesas que o beneficiário tiver de adiantar no curso do procedimento (art. 98, § 5º, do CPC/15). 8. Recurso especial conhecido e provido." (REsp 1.837.398/RS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 25/5/2021, DJe de 31/5/2021) "AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. JUSTIÇA GRATUITA. PEDIDO DE PARCELAMENTO DE CUSTAS. ART. 98, § 6º, DO CPC/2015. REVISÃO DAS CONDIÇÕES FINANCEIRAS. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. 1. O CPC/2015 buscou prevenir a utilização indiscriminada/desarrazoada da benesse da justiça gratuita, ao dispor, no art. 98, parágrafos 5º e 6º, que a gratuidade poderá ser concedida em relação a algum ou a todos os atos processuais, ou consistir na redução percentual ou parcelamento de despesas processuais que o beneficiário tiver de adiantar no curso do procedimento. 2. A firme jurisprudência desta Corte orienta que a afirmação de pobreza, para fins de obtenção da gratuidade de justiça, goza de presunção relativa de veracidade. Por isso, por ocasião da análise do pedido, o magistrado deverá investigar a real condição econômico-financeira do requerente, devendo, em caso de indício de haver suficiência de recursos para fazer frente às despesas, determinar seja demonstrada a hipossuficiência (ainda que parcial, caso se pretenda apenas o parcelamento). 3. No caso, afirmado no acórdão recorrido que a parte não demonstrou insuficiência financeira capaz de justificar a concessão do benefício do parcelamento das custas, a pretensão recursal em sentido contrário encontra óbice na Súmula 7/STJ, porquanto demandaria reexame das provas, providência vedada em sede de recurso especial. 4. Agravo interno não provido." (AgInt no AREsp 1.450.370/SP, relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe de 28/6/2019) Nesse contexto, torna-se necessária a cassação do acórdão de e-STJ fls. 103/105 e o retorno dos autos à origem para que o Tribunal promova novo julgamento dos aclaratórios, fundamentando o seu entendimento de ampliação do benefício irrestritamente, a partir das provas colacionadas . Ante o exposto, conheço do recurso especial e dou-lhe provimento para determinar o retorno dos autos ao tribunal de origem a fim de que seja realizado novo julgamento acerca dos embargos de declaração, ficando prejudicadas as demais alegações. Publique-se. Intimem-se. EMENTA