REsp 1929498 - DECISAO
O recurso foi conhecido parcialmente apenas quanto à preliminar de ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015 e, nessa extensão, não provido. No mérito, manteve-se o acórdão recorrido por entender que a Universidade Federal é parte legítima e que a revisão administrativa promovida em 2018 estava fulminada pela decadência...
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- Parties
- Recorrente: Universidade Federal do Rio Grande do Sul
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 May 2021
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento De Recurso Especial (decisão)
- Outcome
- Recurso Especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, não provido (conheço parcialmente e nego provimento).
- Legal Topics
- Legitimidade Passiva, Decadência Administrativa (art. 54 Da Lei 9.784/1999), Revisão Administrativa, Horas Extras Incorporadas, Coisa Julgada, Prescrição Do Fundo De Direito, Honorários Advocatícios
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Parties
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento De Recurso Especial (decisão)
Legal Issues
- 1 legitimidade passiva da universidade federal autônoma
- 2 aplicabilidade do prazo decadencial de cinco anos do art. 54 da Lei 9.784/1999 à revisão administrativa
- 3 incidência do princípio da segurança jurídica sobre atos administrativos consolidados
Ratio Decidendi
O recurso foi conhecido parcialmente apenas quanto à preliminar de ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015 e, nessa extensão, não provido. No mérito, manteve-se o acórdão recorrido por entender que a Universidade Federal é parte legítima e que a revisão administrativa promovida em 2018 estava fulminada pela decadência quinquenal prevista no art. 54 da Lei 9.784/1999 (com início em 01-02-1999, encerrando-se em 01-02-2004), não havendo ilegalidade manifesta que autorizasse a revisão fora do prazo, sendo aplicável o princípio da segurança jurídica; ademais, a recorrente não enfrentou fundamentos autônomos suficientes do acórdão (incidência analógica da Súmula 283/STF) nem indicou dispositivo...
Court Disposition
Recurso Especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, não provido (conheço parcialmente e nego provimento).
Orders
- Majoro os honorários advocatícios em 10% sobre o valor arbitrado anteriormente, nos termos dos §§ 2º e 3º do art. 85 do CPC/2015.
- Publique-se.
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DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul,com fundamento no art. 105, III, "a", da Constituição Federal, contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, assim ementado (e-STJ fls. 482-483): PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. REVISÃO ADMINISTRATIVA DE REMUNERAÇÃO. HORAS EXTRAS INCORPORADAS POR DECISÃO DA JUSTIÇA TRABALHISTA. SUPRESSÃO. DECISÃO DO TCU. PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA. DECADÊNCIA. ILEGITIMIDADE PASSIVA. CORREÇÃO MONETÁRIA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. 1. A UFRGS, como autarquia autarquia federal, responde diretamente pelos seus atos, possuindo personalidade jurídica e autonomia administrativa e financeira, é a única parte passiva a figurar no polo passivo da ação. 2. A revisão administrativa em debate envolve asupressão dopagamento de rubrica relativa a horas extras incorporadas por servidor público estatutário, ex-celetista,por força de sentença judicial trabalhista,rubrica essa que foi paga pela Universidade durante longoperíodo aos servidores, após sua migração para o regime estatutário,com a advento do Regime Jurídico Único (RJU). 3. A manutenção dopagamento da rubrica após o ingresso dos servidores no regime estatutário não representou ilegalidade manifesta,resultando em verdade daaplicação de determinada interpretação da administração acerca da questão, o que motivou o pagamento da parcela da mesma forma por longos anos. 4.A superveniência de nova interpretação jurídica da questão não pode ser aplicada retroativamentepara atingir os atos consolidados pelo tempo, em flagrante contrariedade à regra expressa no art. 2º,parágrafo único, inciso XIII, da Lei 9.784/99, sob pena de violação ao princípio da segurança jurídica. 5. A revisão administrativa somente pode ser efetivada no prazo de cinco anos contados do ato a ser revisado, como previsto no art. 54 da Lei 9.784/99, como o exige o princípio da segurança jurídica. No caso doato revisado ser anterior à vigência da Lei 9.784/99, cujo art. 54 instituiu a decadência do direito revisional da administração, o prazo quinquenal inicia na data da vigência da lei, ou seja, em 01-02-1999, encerrando-se em 01-02-2004; prazo em muito ultrapassado pela Administração no caso em análise. 6. Em julgamento ocorrido em 03/10/2019, o Plenário do Supremo Tribunal Federal rejeitouos embargos de declaração opostos contra a decisão que aprovou a tese constante do Tema 810, consignando que o IPCA-E deve ser aplicado sem qualquer modulação, merecendo manutenção a sentença que assim determinou. Juros de 6% (seis por cento) ao mês, a partir da citação. 7. A verba honorário fixada em 10% (dez por cento) a incidir sobre valor atualizado da causa, conforme disposto no artigo 85, §§ 2º e 4º, inciso III, do CPC e na esteira dos procedentes da Turma. Os dois embargos de declaração interpostos pela União foram rejeitados (e-STJ fls. 536-537 e 580-581). Nas razões do recurso especial, a recorrente aponta, preliminarmente, violação do art. 1.022, II, do CPC/2015, ao argumento de que a Corte de origem não se manifestou a respeito de pontos importantes para o deslinde da controvérsia. No mérito,alega violação dosartigos 114, e 485, VI, do CPC/2015; 54 da Lei 9.784/1999; e 884 do Código Civil, aos argumentos de que: a) não é parte legítima para figurar no polo passivo da presente ação; b) necessidade de litisconsórcio com a União; c) ocorrência daprescrição dofundo de direito, "considerando que a pretensão em tela se dirige contra ato de efeitos concretos, qual seja, a transformação da natureza da verba em comento, que passou a observar unicamente os reajustes gerais destinados aos servidores públicos federais (em detrimento da parametrização com os vencimento, que vinha sendo praticada até então)" - e-STJ fl. 595; d)não ocorrência da decadência administrativa; e)inexistência de ofensa à coisa julgada, pois estaé formulada com base em uma determinada situação jurídica que perde vigência ante o advento de nova lei que passa a regulamentar as situações jurídicas já formadas, modificando o status quo anterior, como no caso de reestruturação da carreira com absorção da rubrica; f) necessidade de restituição ao erários dos valores recebidos indevidamentesob pena deenriquecimento ilícito. Com contrarrazões às e-STJ fls. 656-674. Juízo positivo de admissibilidade à e-STJ fl. 823. É o relatório. Passo a decidir. Conforme estabelecido pelo Plenário do STJ, aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma nele prevista (Enunciado Administrativo n. 3). De início, afasta-se a alegada violação do artigo 1.022, II, do CPC/2015, porquanto o acórdão recorrido manifestou-se de maneira fundamentada a respeito das questões relevantes para a solução da controvérsia. A tutela jurisdicional foi prestada de forma eficaz, não havendo razão para a anulação do acórdão proferido em sede de embargos de declaração. Nesse passo, cabe ainda ressaltar que a jurisprudência deste Superior Tribunal é firme no sentido de que "o julgador não está obrigado a rebater, um a um, todos os argumentos invocados pelas partes quando, por outros meios que lhes sirvam de convicção, tenha encontrado motivação satisfatória para dirimir o litígio. As proposições poderão ou não ser explicitamente dissecadas pelo magistrado, que só estará obrigado a examinar a contenda nos limites da demanda, fundamentando o seu proceder de acordo com o seu livre convencimento, baseado nos aspectos pertinentes à hipótese sub judice e com a legislação que entender aplicável ao caso concreto" (AgInt no AREsp 1.344.268/SC, Rel. Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe 14/2/2019). Nesse mesmo sentido: AgInt no REsp 1.689.834/RS, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 10/09/2018; AgInt no AREsp 1.079.824/SP, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 07/03/2018. Quanto à legitimidade passiva, verifico que o julgado da Corte de origem está em consonância com o entendimento firmado no STJ de que a função fiscalizadora do TCU não implica a inclusão da União na demanda, uma vez que as universidades federais são autônomas, independentes e dotadas de personalidade jurídica própria. Nesse sentido: PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO E OBSCURIDADE. INEXISTÊNCIA. INSTITUIÇÃO FEDERAL. PERSONALIDADE JURÍDICA PRÓPRIA E AUTONOMIA FINANCEIRA E OPERACIONAL. LEGITIMIDADE PASSIVA PARA FIGURAR NO POLO PASSIVO DAS DEMANDAS PROPOSTAS POR SEUS SERVIDORES. REMOÇÃO POR MOTIVO DE SAÚDE ENTRE INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE ENSINO DIVERSAS. POSSIBILIDADE. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS. AFERIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ. 1. Constata-se que não se configura a alegada ofensa ao artigo 1.022 do Código de Processo Civil de 2015, uma vez que o Tribunal de origem julgou integralmente a lide e solucionou, de maneira amplamente fundamentada, a controvérsia, em conformidade com o que lhe foi apresentado. 2. Quanto à inclusão da União como litisconsorte passiva necessária, a irresignação não merece prosperar, porquanto, nos termos da jurisprudência do STJ, as instituições federais pessoas jurídicas de direito público possuem legitimidade para figurar no polo passivo das demandas propostas por seus servidores por serem autônomas, independentes e dotadas de personalidade jurídica própria, distinta da União. 3. O cargo de professora de Universidade Federal pode e deve ser interpretado, ainda que unicamente para fins de aplicação do art. 36, § 2º, da Lei 8.112/1990, como pertencente a um quadro de professores federais, vinculado ao Ministério da Educação. 4. O Tribunal de origem lançou os seguintes fundamentos (fl. 479, e-STJ): "IV - Preenchimento dos requisitos do art. 36, III, b, da Lei nº 8.112/90: Inclusão do dependente no assentamento funcional do servidor e laudo emitido por junta médica. Primeiramente, esclareço que a dependente foi incluída no assentamento funcional da servidora, conforme consta de documento juntado à petição inicial (p. 15, evento 1 do processo originário), estando suprido tal requisito. Já no tocante à apresentação de laudo médico por junta médica oficial, consta de decisão embargada: Quanto à alegação da UFRGS de que não há laudo médico oficial a amparar o pleito, tal assertiva não encontra lastro nos elementos probatórios colacionados aos autos, uma vez que foi realizada a avaliação técnica pertinente. Ademais, a jurisprudência admite a apresentação de atestados médicos particulares (até porque a referência a parecer de junta médica do órgão está relacionada ao procedimento a ser adotado na esfera administrativa, e não tem o condão de impedir a utilização de outros meios de prova, submetidas ao crivo do contraditório, na via judicial)". 5. Na hipótese, o Tribunal de origem concluiu, após análise do acervo probatório da demanda, que estão preenchidos os requisitos do art. 36, parágrafo único, III, "b", da Lei 8.112/1990. O reexame das provas dos autos esbarra na Súmula 7/STJ. 6. Recursos Especiais conhecidos parcialmente, apenas em relação à preliminar de violação do art. 1.022 do CPC/2015, e, nessa parte, não providos. (REsp 1.833.604/RS, Rel. Min. Herman Bejamin, Segunda Turma, DJe 11/10/2019). ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ENSINO SUPERIOR. COBRANÇA DE TAXA. PREQUESTIONAMENTO CONFIGURADO. LEGITIMIDADE PASSIVA DA UNIÃO EXPRESSAMENTE TRATADA PELO ACÓRDÃO RECORRIDO. NO MÉRITO, A UNIÃO NÃO É LEGITIMADA PASSIVA NAS AÇÕES QUE DISCUTEM ASPECTOS DOS CONTRATOS PARTICULARES ENTRE UNIVERSIDADE E ALUNO, A EXEMPLO DA COBRANÇA DE TAXAS. ACÓRDÃO PARADIGMA: RESP 1.344.771/PR, REL. MIN. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJE 24.4.2013 (TEMA 584). AGRAVO INTERNO DO PRESENTANTE MINISTERIAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. O presente Recurso atrai a incidência do Enunciado Administrativo 3 do STJ, segundo o qual, aos recursos interpostos com fundamento no Código Fux (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016), serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma do novo Código. 2. A matéria objeto de irresignação da UNIÃO foi prequestionada, pelo menos de maneira implícita, no acórdão recorrido. Afinal, conquanto não tenha citado expressamente o art. 485, VI do Código Fux, o Tribunal de origem manifestou-se pela legitimidade passiva da UNIÃO, em razão de sua responsabilidade na fiscalização das instituições de ensino superior - justamente a questão objeto do Recurso Especial. 3. Segundo o entendimento deste Tribunal Superior, fixado na forma do art. 543-C do CPC/1973 e aplicado múltiplas vezes em seguida, os processos relativos a aspectos dos contratos particulares firmados entre Universidade e Aluno - a exemplo da cobrança de taxas - não envolvem matéria de interesse da UNIÃO. Acórdão paradigma: REsp. 1.344.771/PR, Rel. Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJe 24.4.2013 (Tema 584). 4. Agravo Interno do Presentante Ministerial a que se nega provimento. (AgInt REsp 1.761.550/SP, Min. Rel. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe 10/05/2019) Dessa forma, inexiste a obrigatoriedade da inclusão da União como litisconsorte, sendo certa a legitimidade passiva da recorrente, incidindo, quanto ao ponto, a Súmula 83 do STJ. De outro lado, observo que o aresto atacado também não destoa do entendimento firmado neste Tribunal de que "a alteração do parâmetro estabelecido para cálculo das horas extras procurou corrigir ato administrativo próprio, anterior ao advento da Lei n. 9.784/1999, motivo pelo qual deve submeter-se ao prazo decadencial estabelecido no art. 54 da referida lei, contando-se, como termo inicial para a contagem da decadência, sua entrada em vigor" (AgRg no REsp 1.549.854/RN, rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, DJe 26/03/2019). Com omesmo entendimento: ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. SERVIDOR PÚBLICO. OFENSA AO ART. 1022 DO CPC INEXISTENTE. LEGITIMIDADE DA UNIVERSIDADE. HORAS EXTRAS INCORPORADAS. COISA JULGADA. ABSORÇÃO. DECADÊNCIA. BOA FÉ. POSSIBILIDADE DE REVISAR PROVENTOS DESDE QUE DENTRO DO PRAZO PREVISTO EM LEI. RECEBIMENTO DE BOA-FÉ. VERBA DE CARÁTER ALIMENTAR. DEVOLUÇÃO. NÃO CABIMENTO. 1. Constata-se que não se configurou a ofensa ao art. 1.022 do Código de Processo Civil, uma vez que o Tribunal de origem julgou integralmente a lide e solucionou a controvérsia. Não é o órgão julgador obrigado a rebater, um a um, todos os argumentos trazidos pelas partes em defesa da tese que apresentaram. Deve apenas enfrentar a demanda, observando as questões relevantes e imprescindíveis à sua resolução. 2. Na hipótese dos autos, a parte insurgente busca a reforma do aresto impugnado, sob o argumento de que o Tribunal local não se pronunciou sobre o tema ventilado no recurso de Embargos de Declaração. Todavia, constata-se que o acórdão impugnado está bem fundamentado, inexistindo omissão ou contradição. 3. Registre-se, portanto, que da análise dos autos extrai-se ter a Corte de origem examinado e decidido, fundamentadamente, todas as questões postas ao seu crivo, não cabendo falar em negativa de prestação jurisdicional. 4. A jurisprudência deste Tribunal Superior é assente no sentido de que as Universidades Federais, pessoas jurídicas de direito público, autônomas, independentes e dotadas de personalidade jurídica própria, detêm legitimidade para a prática de atos processuais, sendo representadas por seus procuradores autárquicos, nos termos do disposto na LC 73/1993 (art. 17, I). 5. Inexiste, portanto, obrigatoriedade de inclusão da União na figura de litisconsorte, já que regular a demanda ajuizada exclusivamente em desfavor da Instituição de Ensino, a qual detém absoluta legitimidade para responder pelos atos veiculados na exordial. 6. Esta Corte possuía o entendimento de que a Administração poderia anular seus próprios atos a qualquer tempo, desde que eivados de vícios que os tornassem ilegais, nos termos das Súmulas 346 e 473/STF. 7. Todavia, sobreveio a Lei n. 9.784, de 29 de janeiro de 1999, que, em seu art. 54, preconiza que "o direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé". 8. Na espécie, o Tribunal a quo decidiu de acordo com jurisprudência desta Corte, ao consignar que "Não pode a Administração retirar rubrica paga há mais de 20 anos à servidora, sob argumento que a aposentadoria é ato complexo que só se perfectibiliza após o registro no Tribunal de Contas, quando o ato que manteve o pagamento da parcela é estranho a análise do cumprimento dos pressupostos da concessão da aposentadoria." (fl. 462, e- STJ). 9. O Superior Tribunal de Justiça vem decidindo, de forma reiterada, que verbas de caráter alimentar pagas a maior em face de conduta errônea da Administração ou da má-interpretação legal não devem ser devolvidas quando recebidas de boa-fé pelo beneficiário. 10. Recurso Especial parcialmente conhecido e, nessa parte, não provido. (REsp 1.762.208/RS, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 02/10/2018, DJe 28/11/2018). AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. ADMINISTRATIVO. INCORPORAÇÃO DE HORAS EXTRAS EM DECORRÊNCIA DE DECISÕES JUDICIAIS. REVISÃO DA FORMA DE ATUALIZAÇÃO. ATO CONCRETO, ÚNICO E DE EFEITOS PERMANENTES.DECADÊNCIA. RECONHECIMENTO. 1 - É pacífico o entendimento no Superior Tribunal de Justiça segundo o qual a inclusão das horas extras incorporadas aos vencimentos dos servidores implantada em razão do cumprimento de decisão judicial transitada em julgado, constitui ato comissivo, único, de efeitos concretos. Assim, a revisão da base de cálculo das horas extras percebidas pelos Recorridos para adotar os novos critérios utilizados pelo Tribunal de Contas da União, em julho de 2008, está fulminada pelo prazo decadencial de cinco anos, previsto no art. 54, da Lei n. 9.784/1999, cuja contagem iniciou-se com a vigência da mencionada norma. (AgInt no REsp 1544316/RN, Rel. Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em 06/10/2016, DJe 21/10/2016). 2 - Precedentes de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça. 3 - Agravo regimental a que se nega provimento. (STJ, 1ª Turm, AgRg no REsp 1.552.624/RN, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, julgado em 22/05/2018, DJe 1º/06/2018) Assim, o acórdão recorrido está em sintonia com o atual posicionamento do STJ, razão pela qual não merece prosperar a irresignação. Incide, in casu, o princípio estabelecido na Súmula 83/STJ: "Não se conhece do Recurso Especial pela divergência, quando a orientação do Tribunal se firmou no mesmo sentido da decisão recorrida." Além disso, ainda no que se refere a violação do art. 54 da Lei 9.784/1999 e a não incidência da decadência in casu, observa-se que a Corte de origem concluiu o seguinte (e-STJ fls. 486-488, com grifos nossos): .. É verdade que a jurisprudência administrativa do TCU, e parte da jurisprudência dos órgãos jurisdicionais, firmou-se em sentido contrário ao entendimento aplicado pela Universidade no pagamento da rubrica. Mas a divergência é apenas de interpretação da lei, não sendo caso de ilegalidade. A não-configuração de ilegalidade manifesta nos atos praticados pela Universidade, e a complexidade da questão, ficam demonstradas pelos longos e intensos debates ocorridos na administração e no TCU sobre ela. Fosse evidente a contrariedade à lei, a administração não se debateria sobre a questão desde pelo menos 2004, quando foi proferido o acórdão 982/2004 pela 2ª Câmara do TCU, manifestando o entendimento no sentido da necessidade de conversão da vantagem em VPNI e sua absorção pelas posteriores restruturações de carreira, que a Universidade agora pretende implantar, em decorrência de auditoria realizada pelo TCU em 2017 (acórdão 5434/2017). .. Os atos já praticados mediante aplicação de uma determinada interpretação que a administração então entendia a mais adequada não podem ser revistos em face de posterior adoção de nova interpretação. A revisão de atos já consolidados, pelo exercício do poder/dever de autotutela da administração, é cabível apenas no caso de ilegalidade, e ainda assim desde que respeitado o prazo decadencial, no caso de atos de que decorram efeitos favoráveis aos destinatários. Isso é o que está expressamente disposto nos arts. 53 e 54 da Lei 9.784/99, nos seguintes termos: .. O que se verifica no caso dos autos não é caso de ilegalidade, nem no fato do pagamento, nem na forma de cálculo da rubrica. Havia aplicação de determinada interpretação da administração acerca da questão, o que motivou o pagamento da parcela da mesma forma pelo menos por mais de uma década, às vezes por mais de vinte anos. A superveniência de nova interpretação jurídica da questão não pode ser aplicada retroativamente para atingir os atos consolidados pelo tempo. A administração não pode revolver esses atos a qualquer momento, impondo que, onde se entendeu que havia possibilidade de pagamento, em verdade não há tal possibilidade; onde se entendeu que a rubrica devia incidir sobre as parcelas da remuneração, na verdade deve ser paga como parcela autônoma; onde se entendeu que essa parcela não era absorvida por reestruturações posteriores, na verdade deve ser absorvida. .. Ainda que se entenda estar configurada ilegalidade no pagamento, a revisão administrativa pode acontecer apenas se respeitado o prazo decadencial de cinco anos. Acresço que a inexistência de decadência do direito à revisão dos atos de aposentadoria e pensão é restrita ao Tribunal de Contas da União, porque é prerrogativa desse órgão o controle externo de legalidade dos atos administrativos. Para os órgãos da administração, diversamente, incide a regra de decadência do art. 54 da Lei 9.784/99, assim como as regras relativas à tramitação do processo administrativo, inclusive as relativas à preclusão e à coisa julgada administrativa, quando a questão não envolver ilegalidade do ato. .. No caso do ato revisando ser anterior à vigência da Lei 9.784/99, cujo art. 54 instituiu a decadência do direito revisional da administração, o prazo quinquenal inicia na data da vigência da lei, ou seja, em 01-02-1999, encerrando-se em 01-02-2004. .. No caso dos autos, a parte autora vinha recebendo as horas extras incorporadas calculadas de forma parametrizada sobre todas as parcelas remuneratórias há mais de 25 anos, conforme mencionado na inicial, o que não é infirmado pela universidade nem pelos demais elementos constantes nos autos, ou seja, desde antes da vigência da Lei 9.784/99, de forma que o prazo decadencial inicia em 01-02-1999 e se encerra em 01-02-2004. Contudo, a revisão administrativa foi realizada em 2018 (Ofício nº 283/2018- DAP/PROGESP, evento 1 - OFIC7, do processo originário), ou seja, quando a decadência do direito de revisão da administração já estava configurada. Portanto, é incabível a revisão administrativa efetuada pela Universidade, dada a caducidade do direto da administração de revisar a forma de cálculo das horas extras incorporadas. O transcurso de grande lapso de tempo desde a implantação da vantagem ora controvertida impõe a preservação da situação jurídica consolidada, em nome do princípio da segurança jurídica. Todavia, nas razões do recurso especial, a fundamentação em destaque não foi impugnada, implicando a inadmissibilidade do recurso, visto que esta Corte tem firme posicionamento segundo o qual a falta de combate a fundamento suficiente para manter o acórdão recorrido justifica a aplicação, por analogia, da Súmula 283 do Colendo Supremo Tribunal Federal: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a decisão recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos eles". A propósito, confira os seguintes precedentes: EDcl no AgInt no REsp 1.702.816/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 22/5/2019; AgInt no REsp 1.678.341/ES, Rel. Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, DJe 8/5/2019. No que tange à alegada prescrição de fundo de direito, verifico que a parte recorrente não apontou nenhum dispositivo de lei federal supostamente contrariado ou interpretado de maneira divergente pela Corte a quo, circunstância que revela a deficiência de sua fundamentação, justificando a incidência da Súmula 284 do STF. Registre-se, além disso, que a ausência de indicação do dispositivo infraconstitucional tido por violado impede o conhecimento do recurso especial tanto pela alínea "a", quando pela alínea "c" do permissivo constitucional. Nesse sentido, os seguintes precedentes: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL BASEADO NAS ALÍNEAS "A" E "C" DO PERMISSIVO CONSTITUCIONAL. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DO DISPOSITIVO DE LEI FEDERAL VIOLADO PELO ACÓRDÃO RECORRIDO OU INTERPRETADO DE FORMA DIVERGENTE PELOS TRIBUNAIS. SÚMULA 284 DO STF. 1. A ausência de indicação de dispositivo de lei federal que teria sido violado pelo acórdão recorrido ou interpretado de forma divergente pelos tribunais, torna o recurso especial interposto com base nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional deficiente em sua fundamentação. Incidência, por analogia, da Súmula 284/STF. 2. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp 635.592/SP, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 24/02/2015, DJe 02/03/2015). PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MERCADORIAS IMPORTADAS. FALSA INFORMAÇÃO NAS ETIQUETAS ACERCA DA PROCEDÊNCIA. PENA DE PERDIMENTO. RESPONSABILIDADE SUBJETIVA. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO EXPRESSA NO RECURSO ESPECIAL DO DISPOSITIVO INFRACONSTITUCIONAL TIDO POR VIOLADO. SÚMULA 284/STF. CULPA EXCLUSIVA DE TERCEIRO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. ACÓRDÃO QUE DIRIMIU A CONTROVÉRSIA COM BASE NOS FATOS DA CAUSA. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ. 1. A via estreita do recurso especial exige a demonstração inequívoca da ofensa ao dispositivo inquinado como violado, bem como a sua particularização, a fim de possibilitar o seu exame em conjunto com o decidido nos autos, sendo certo que a não indicação é circunstância que obsta o conhecimento do Apelo Nobre interposto tanto com fundamento na alínea "a", como na alínea "c" do permissivo constitucional, em conformidade com o Enunciado Sumular 284/STF. 2. A conclusão do Tribunal de origem concernente à ausência de comprovação da culpa exclusiva de terceiro (fornecedor - empresa chinesa), decorreu da análise do acervo fático-probatório dos autos, de modo que o conhecimento do apelo especial por meio das razões expostas pela recorrente, encontra óbice na Súmula 7/STJ. 3. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp 1.294.297/PR, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 03/03/2015, DJe 11/03/2015) Ante o exposto, conheço parcialmente do recurso especial e, nessa extensão, nego-lhe provimento, nos termos da fundamentação. Majoro os honorários advocatícios em 10% (dez por cento) sobre o valorarbitrado anteriormente, levando-se em consideração o trabalho adicional imposto ao advogado da parte recorrida, em virtude da interposição deste recurso, respeitados os limites estabelecidos nos §§ 2º e 3º do art. 85 do CPC/2015. Publique-se. Intimem-se. EMENTA PROCESSUALCIVIL E ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. SERVIDOR PÚBLICO FEDERAL. OFENSA AO ART. 1.022 DO CPC/2015. NÃO OCORRÊNCIA. LEGITIMIDADE PASSIVA. SÚMULA 83/STJ. AUTARQUIA FEDERAL. HORAS-EXTRAS INCORPORADAS. REVISÃO. ADOÇÃO DE NOVA INTERPRETAÇÃO. DECADÊNCIA. ART. 54 DA LEI 9.784/1999. SÚMULA 83/STJ. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO A FUNDAMENTO AUTÔNOMO. SÚMULA 283/STF. PRESCRIÇÃO DO FUNDO DE DIREITO. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DO DISPOSITIVO INFRACONSTITUCIONAL TIDO POR VIOLADO. SÚMULA 284/STF. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESSA EXTENSÃO, NÃO PROVIDO.