REsp 2115693 - DECISAO
O Superior Tribunal de Justiça conheceu parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, deu provimento para restabelecer a sentença de primeiro grau, acolhendo o entendimento de que, na espécie e à luz da orientação da Primeira Turma, o art. 1º da Lei 14.151/2021 determina apenas o afastamento do trabalho...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: FAZENDA NACIONAL; Recorrido (ilegitimidade Passiva Reconhecida No Acórdão Recorrido): INSS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 16 February 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento No Superior Tribunal De Justiça (conhecimento Parcial E Provimento Parcial)
- Outcome
- Conheço em parte do recurso especial e, na parte conhecida, dou-lhe provimento para restabelecer a sentença de fls. 115/121.
- Legal Topics
- Legitimidade Passiva, Salário Maternidade, Compensação Tributária, Lei 14.151/2021, Afastamento De Gestante Durante Emergência De Saúde Pública
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
FAZENDA NACIONAL
Recorrente
INSS
Recorrido (ilegitimidade Passiva Reconhecida No Acórdão Recorrido)
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento No Superior Tribunal De Justiça (conhecimento Parcial E Provimento Parcial)
Legal Issues
- 1 Se os valores pagos pelo empregador a empregadas gestantes afastadas nos termos da Lei 14.151/2021 podem ser enquadrados como salário-maternidade e compensados nos termos do art.72, §1º da Lei 8.213/1991
- 2 Se o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é parte legítima passiva na demanda
- 3 Se o art.1º da Lei 14.151/2021 implica suspensão ou interrupção do contrato de trabalho ou apenas alteração da forma de execução do trabalho
Ratio Decidendi
O Superior Tribunal de Justiça conheceu parcialmente do recurso especial e, na parte conhecida, deu provimento para restabelecer a sentença de primeiro grau, acolhendo o entendimento de que, na espécie e à luz da orientação da Primeira Turma, o art. 1º da Lei 14.151/2021 determina apenas o afastamento do trabalho presencial e não a suspensão ou interrupção do contrato de trabalho; portanto, havendo pagamento pelo empregador de remuneração à empregada cujo contrato permanece em execução, tais valores não podem ser tratados como salário-maternidade para fins de compensação com futuras contribuições previdenciárias e parafiscais.
Court Disposition
Conheço em parte do recurso especial e, na parte conhecida, dou-lhe provimento para restabelecer a sentença de fls. 115/121.
Orders
- Restabelecer a sentença de fls. 115/121
- Publique-se
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial manejado pela FAZENDA NACIONAL com fundamento no art. 105, III, a, da CF, contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, assim ementado (fl. 204): TRIBUTÁRIO. PROCEDIMENTO COMUM. LEGITIMIDADE PASSIVA. EMPREGADAS GESTANTES AFASTADAS POR FORÇA DA LEI 14.151/2021. RESPONSABILIDADE PELO SALÁRIO. PROTEÇÃO DA MATERNIDADE PELA SEGURIDADE SOCIAL. ENQUADRAMENTO COMO SALÁRIO MATERNIDADE. 1. A legitimidade passiva é da União, não do INSS, considerando-se que a discussão jurídica de fundo é de natureza tributária, e que também pretende a compensação de valores atinentes ao recolhimento das contribuições previdenciárias pagas em decorrência do afastamento compulsório das trabalhadoras gestantes. A propósito: TRF4, Conflito de Competência 5037909-07.2021.4.04.0000, Corte Especial, fev/2022. 2. A Lei 14.151/2021 é omissa quanto à responsabilidade pelo pagamento da remuneração da gestante que, afastada de suas atividades presenciais, esteja impossibilitada de exercer suas tarefas de forma remota. 3. A ordem constitucional estabelece expressamente a proteção da maternidade pela Seguridade Social (art. 201, II), razão pela qual os ônus financeiros decorrentes do afastamento em questão devem ser suportados pela coletividade, e não pelo empregador. 4. É compatível com o ordenamento jurídico o enquadramento como salário maternidade dos valores pagos às trabalhadoras afastadas durante o período de emergência, sendo possível que as respectivas remunerações sejam compensadas, forte no art. 72, § 1º, da Lei 8.213/1991. Opostos embargos declaratórios, foram rejeitados (fls. 258/263). A parte recorrente aponta violação aos arts. 1.022, II, do CPC, 71 a 73 da Lei 8.213/1991, 93, 95 e 96 do Decreto 3.048/1999, 20 da Lei LINDB, 394-A da CLT e 24 da LRF. Sustenta (i) a relevância da questão de direito federal infraconstitucional debatida nos autos; (ii) que houve negativa de prestação jurisdicional, pois o Tribunal de origem não se manifestou sobre questões essenciais ao deslinde da controvérsia; e, por fim, (iii) que nada prevendo a norma "sobre percepção de salário maternidade antes do seu termo inicial ordinário, é inviável cogitar-se no acolhimento da pretensão autoral, descabendo ao Poder Judiciário conceder -ou estender -o benefício para além das hipóteses legais e aquém do atendimento dos seus requisitos" (fl. 279). Recurso extraordinário interposto às fls. 289/306. Contrarrazões às fls. 316/324. É O RELATÓRIO. SEGUE A FUNDAMENTAÇÃO. Inicialmente, mostra-se deficiente a fundamentação do recurso especial em que a alegação de ofensa ao art. 1.022 do CPC se faz de forma genérica, sem a demonstração exata dos pontos pelos quais o acórdão se fez omisso, contraditório ou obscuro. Aplica-se, na espécie, o óbice da Súmula 284 do STF. Nesse mesmo sentido vão os seguintes precedentes: AgInt no AREsp 1.070.808/MA, Rel. Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, DJe de 10/6/2020; AgInt no REsp 1.730.680/RJ, Rel. Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, DJe de 24/4/2020; AgInt nos EDcl no AREsp 1.141.396/SP, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, DJe de 12/3/20020; AgInt no REsp 1.588.520/DF, Rel. Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, DJe de 27/2/2020 e AgInt no AREsp 1.018.228/PI, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 25/9/2019. Com relação à questão de fundo, o recurso merece prosperar. Na origem, tem-se ação ordinária com vistas à declaração do direito de "(i) afastar as empregadas gestantes de suas atividades, em razão da impossibilidade de realização de seu trabalho a distância, (ii) solicitar os salários maternidade em favor das empregadas gestantes durante todo o período de emergência de saúde pública decorrente da Covid-19; (iii) compensar (deduzir) o valor dos salários maternidade quando do pagamento das contribuições sociais previdenciárias, nos termos do artigo 72, § 1º, da Lei nº 8.213/91, artigo 94 do Decreto nº3.048/99 e artigo 86 da Instrução Normativa RFB nº971/09" (fl. 15). O Tribunal de origem deu provimento à apelação com base nos seguintes fundamentos (fls. 188/191, g.n.): Mérito Não se discute que, pela letra da Lei nº 14.151/2021, a empregada gestante deverá permanecer afastada das atividades de trabalho presencial, sem prejuízo da remuneração, devendo exercer "as atividades em seu domicílio, por meio de teletrabalho, trabalho remoto ou outra forma de trabalho a distância." No entanto, como é sabido, nem todas as atividades da empregada são passíveis de trabalho remoto, muitas delas só podem ser prestadas presencialmente, sem condições de afastamento físico. Não parece, todavia, razoável imputar o custo decorrente da determinação do referido afastamento previsto na Lei nº 14.151/21 ao empregador. O art. 201, II da Constituição Federal estabelece a proteção à maternidade pela seguridade social, de modo que eventuais ônus financeiros decorrentes do afastamento em questão devem ser suportados pela coletividade, e não p elo empregador. A legislação, todavia, é omissa no tocante à responsabilidade pelo pagamento da remuneração da gestante que, afastada das atividades presenciais, esteja impossibilitada de exercer suas tarefas de forma remota. (..). Com efeito, "é compatível com o ordenamento jurídico o enquadramento como salário maternidade dos valores pagos às trabalhadoras afastadas durante o período de emergência, sendo possível que as respectivas remunerações sejam compensadas, forte no art. 72, § 1º, da Lei 8.213/91". Nesse sentido, esta Turma firmou entendimento, em julgamento submetido ao rito do art.942 do CPC, segundo o qual "É compatível com o ordenamento jurídico o enquadramento como salário maternidade dos valores pagos às trabalhadoras afastadas durante o período de emergência, sendo possível que as respectivas remunerações sejam compensadas, forte no art. 72, § 1º, da Lei 8.213/1991" (TRF4, AC 5019817-94.2021.4.04.7205,SEGUNDA TURMA, Relatora para Acórdão MARIA DE FÁTIMA FREITASLABARR RE, juntado aos autos em 08/08/2022). (..). Merece, portanto, ser reformada a sentença que julgou improcedente o pedido da autora para reconhecer que é plenamente compatível com o ordenamento jurídico o enquadramento como salário-maternidade dos valores pagos às trabalhadoras afastadas durante o período de emergência, devendo ser reconhecido o direito do Recorrente à compensação tributária dos valores pagos, nos termos do artigo 72, § 1º, da Lei nº 8.213/91, artigo 94 do Decreto nº 3.048/99 e artigo 86 da Instrução Normativa RFB nº 971/09. Condeno a União-Fazenda Nacional ao ressarcimento das custas processuais adiantadas pela parte autora e ao pagamento de honorários advocatícios, estes fixados nos percentuais mínimos do art. 85, §3º, do CPC, sobre o valor da condenação. Ante o exposto, voto por, de oficio, reconhecer a ilegitimidade passiva do INSS e, em relação a este, extinguir o feito, sem resolução demérito, na forma do art. 485, VI, do Código de Processo Civil e por dar provimento à apelação para reconhecer que é plenamente compatível com o ordenamento jurídico o enquadramento como salário-maternidade dos valores pagos às trabalhadoras afastadas durante o período de emergência, devendo ser reconhecido o direito do Recorrente à compensação tributária dos valores pagos, nos termos do artigo 72, § 1º, da Lei nº 8.213/91, artigo 94 do Decreto nº 3.048/99 e artigo 86 da Instrução Normativa RFB nº 971/09. Constata-se que o aresto recorrido encontra-se em desconformidade com a orientação recente da Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça que, analisando caso análogo no julgamento dos REsps. 2.038.269/PR, 2.053.818/CE, 2.081.467/SC e 2.095.404/SC, de relatoria do Min. Gurgel de Faria, manifestou o entendimento de que o art. 1º da Lei 14.151/2021 determinou apenas o afastamento da gestante do trabalho presencial durante o período de emergência de saúde pública decorrente do coronavírus, não havendo que se falar, portanto, em suspensão ou interrupção do contrato de trabalho, mas apenas alteração de sua forma de execução. Desse modo, "havendo o pagamento, pelo próprio empregador, de remuneração à empregada em razão direta da relação empregatícia, cujo contrato de trabalho se encontra em execução, não há como pretender compensar aquele valor com parcelas futuras de contribuição previdenciária e de contribuição parafiscal, como se salário-maternidade fosse". Eis a ementa do julgado: TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA E DE TERCEIROS. EPIDEMIA DE COVID. EMPREGADA GESTANTE. TRABALHO PRESENCIAL. AFASTAMENTO. REMUNERAÇÃO DEVIDA. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. 1. Dispõe o art. 1º da Lei n. 14.151/2021 que "durante a emergência de saúde pública de importância nacional decorrente do novo coronavírus, a empregada gestante deverá permanecer afastada das atividades de trabalho presencial, sem prejuízo de sua remuneração". Tal regra é complementada pelo disposto no § 1º (introduzido pela Lei n. 14.311/2022), do indigitado art. 1º, de acordo com o qual "a empregada gestante afastada nos termos do caput deste artigo ficará à disposição do empregador para exercer as atividades em seu domicílio, por meio de teletrabalho, trabalho remoto ou outra forma de trabalho a distância, sem prejuízo de sua remuneração". 2. Conforme se observa, a norma legal determina o afastamento da gestante do trabalho presencial, não seu afastamento do trabalho tout court. Não se verifica, portanto, suspensão ou interrupção do contrato de trabalho, mas apenas alteração na sua forma de execução. 3. Havendo o pagamento, pelo próprio empregador, de remuneração à empregada em razão direta da relação empregatícia, cujo contrato de trabalho se encontra em execução, não há como pretender compensar aquele valor com parcelas futuras de contribuição previdenciária e de contribuição parafiscal, como se salário-maternidade fosse. 4. Recurso especial provido. (REsp n. 2.081.467/SC, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, julgado em 12/12/2023, DJe de 31/1/2024.) ANTE O EXPOSTO, conheço em parte do recurso especial e, na parte conhecida, dou-lhe provimento para restabelecer a sentença de fls. 115/121. Publique-se. EMENTA