HC 678301 - DECISAO
O STJ concluiu que, embora o exame criminológico possa ser determinado em hipóteses excepcionais mediante decisão fundamentada, não é requisito obrigatório após a alteração do art. 112 pela Lei 10.792/2003; no caso concreto o Tribunal de origem exigiu o exame sem fundamentação concreta, limitando-se à gravidade dos...
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- Parties
- Paciente: ROBERTO LUCIANO MOREIRA COSTA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO; Órgão Ministerial: Ministério Público Federal; Juízo De Primeiro Grau: Juízo da Vara das Execuções Criminais da Comarca de Bauru/SP
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 August 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Em Habeas Corpus No STJ
- Outcome
- Ordem concedida. Cassado o acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo e restabelecida a decisão do juízo de primeiro grau que concedeu o livramento condicional ao paciente.
- Legal Topics
- Livramento Condicional, Exame Criminológico, Progressão De Regime, Fundamentação Da Decisão Judicial
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Parties
ROBERTO LUCIANO MOREIRA COSTA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
Ministério Público Federal
Órgão Ministerial
Juízo da Vara das Execuções Criminais da Comarca de Bauru/SP
Juízo De Primeiro Grau
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Em Habeas Corpus No STJ
Legal Issues
- 1 necessidade de realização do exame criminológico para concessão do livramento condicional
- 2 obrigatoriedade do exame criminológico após a Lei 10.792/2003
- 3 exigência de fundamentação concreta para determinação do exame criminológico
Ratio Decidendi
O STJ concluiu que, embora o exame criminológico possa ser determinado em hipóteses excepcionais mediante decisão fundamentada, não é requisito obrigatório após a alteração do art. 112 pela Lei 10.792/2003; no caso concreto o Tribunal de origem exigiu o exame sem fundamentação concreta, limitando-se à gravidade dos delitos e à longa pena, e desconsiderou a boa conduta carcerária atestada, razão pela qual a exigência do exame foi ilegal e a decisão de primeiro grau que concedeu o livramento condicional deve ser restabelecida.
Court Disposition
Ordem concedida. Cassado o acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo e restabelecida a decisão do juízo de primeiro grau que concedeu o livramento condicional ao paciente.
Orders
- Concedeu-se a ordem de habeas corpus.
- Cassado o acórdão proferido no Agravo de Execução Penal n. 0009152-58.2020.8.26.0071.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de ROBERTO LUCIANO MOREIRA COSTA em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Agravo em Execução n.0009152-58.2020.8.26.0071). Consta nos autos que a 6ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça bandeirante deu provimento ao recurso ministerial, cassando a decisão de primeira instânciae determinando o retorno do paciente ao cárcere, assinalando a necessidade de realização do exame criminológico. A impetrante, no presente habeas corpus, sustenta que "o artigo 112 da Lei de Execução Penal exige, após alteração operada pela Lei 10.792/2003, para a progressão de regime, tão somente o cumprimento de 1/6 da pena no regime anterior e que o Sentenciado ostente, ao tempo do pedido, bom comportamento carcerário comprovado por documento emitido pelo Diretor do Estabelecimento Prisional"(fl. 5). Requer, liminarmente e no mérito, a concessão da ordem de habeas corpus em favor do paciente, cassando o acórdão estadual, restabelecendo a decisão que deferiu ao reeducando o livramento condicional. O pedido liminar foi indeferido (e-STJ fls. 61/62). Ouvido, o Ministério Público Federal manifestou-se pela denegação da ordem (e-STJ fls. 78/83). É o relatório. Decido. A questão posta a deslinde refere-se à necessidade de realização doexame criminológicopara o deferimento dolivramento condicional. Com a nova redação dada ao art. 112 da Lei n. 7.210/1984, pela Lei n. 10.792/2003, suprimiu-se a realização deexame criminológicocomo expediente obrigatório, mantendo-se apenas como requisitos legais o cumprimento de determinada fração da pena aplicada e o bom comportamento carcerário, a ser comprovado pelo diretor do estabelecimento. Confira-se: Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos 1/6 (um sexto) da pena no regime anterior e ostentar bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão. A despeito de oexamenão ser requisito obrigatório para a progressão do regime prisional/livramentocondicional,em hipóteses excepcionais, contudo, os tribunais superiores vêm admitindo a sua realização para a aferição do mérito do apenado. Segundo esse entendimento, o magistrado de primeiro grau, ou mesmo o tribunal, diante das circunstâncias do caso concreto, pode determinar a realização da referida prova técnica para a formação de seu convencimento. Tal entendimento foi consolidado no enunciado da Súmula n. 439 desta Corte: Admite-se oexame criminológicopelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada. O tema também foi objeto da Súmula Vinculante n. 26 do Supremo Tribunal Federal: Para efeito de progressão de regime no cumprimento de pena por crime hediondo, ou equiparado, o juízo da execução observará a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei n. 8.072, de 25 de julho de 1990, sem prejuízo de avaliar se o condenado preenche, ou não, os requisitos objetivos e subjetivos do benefício, podendo determinar, para tal fim, de modo fundamentado, a realização deexame criminológico. No caso, o Juízo da Vara das Execuções Criminais da Comarca de Bauru/SP concedeu ao ora paciente olivramento condicional,consignando, para tanto, que (e-STJ fls. 50/51): O pedido de Livramento Condicional é procedente. O requisito temporal do livramento condicional foi cumprido. O sentenciado, portanto, preenche o requisito objetivo previsto no artigo 131, da LEP c.c. o artigo 83, incisos I e V, do Código Penal. Ainda, possui bom comportamento carcerário. Não possui faltas disciplinares. Registra trabalho e estudo no cárcere. Possui anotações de saídas temporárias sem observações. Posto isso, presentes os pressupostos legais para tanto (art. 131 da LEP e 83 do CP), concedo ao sentenciado ROBERTO LUCIANO MOREIRA DA COSTA o livramento condicional, referente ao(s) processo(s):7009923-24,2913,8,26.0050 e 7002048-95.2016.8.26.0050, em cumprimento de pena São impostas as condições previstas no artigo 132 da Lei de Execução Penal, abaixo mencionadas: .. Realize-se audiência de advertência, expedindo-se o necessário. Ante a concessão do livramento condicional, tratando-se pedidos alternativos, declaro prejudicado o pedido e progressão ao regime aberto. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, por sua vez, deu provimento ao agravo em execução interposto pelo Ministério Público para cassar a decisão singular, determinando o retorno do paciente ao cárcere e a realização deexame criminológico, em acórdão assim fundamentado (e-STJ fls. 53/58): Assim, ao meu ver, continua sendo necessária a realização do exame criminológico, mesmo após o advento da Lei nº 10.792/03, para que se possa apreciar se o sentenciado reúne, ou não, condições pessoais para conseguir o livramento condicional, mormente quando se está diante de indivíduo como COSTA, que é reincidente (fl. 30) e foi condenado ao desconto de 13 anos, 8 meses e 21 dias de reclusão pela prática de dois roubos qualificados (um pelo concurso de agentes e o outro por esse concurso, mais o emprego de arma de fogo), com término de cumprimento de pena previsto para 13/ABR/2026. Realmente, tenho que a mudança do artigo 6º da Lei de Execução Penal, efetivada pela Lei nº 10.792/03, limitou-se à redação do dispositivo. Em suma, trata-se de um problema de forma, não de fundo, ou seja, mudou a letra da Lei, não o seu espírito. E, ademais, se à Comissão Técnica de Classificação incumbe elaborar "o programa individualizador da pena privativa de liberdade", como reza o novo diploma legal, é óbvio que àquele órgão cabe, necessariamente, fazer o acompanhamento da execução das penas, de que falava o antigo artigo 6º da Lei nº 7.210/84. Aliás, seria pouco útil que a legislação atribuísse à Comissão Técnica de Classificação a possibilidade de intervir apenas uma vez, no início da execução da pena, dada a própria natureza dinâmica do processo de ressocialização dos condenados, derivada da existência de três regimes sucessivos de cumprimento da pena. Note-se que continua em vigor o artigo 8º da Leinº 7.210/84, que determina a realização de "exame criminológico para a obtenção dos elementos necessários a uma adequada classificação e com vistas à individualização da execução", tanto para o condenado ao cumprimento de pena no regime fechado, quanto no semiaberto. Também não seria admissível que o sentenciado pudesse obter livramento condicional obedecendo, tão-só, requisitos de ordem objetiva, porque a aferição do mérito do condenado, de que fala o artigo 83, do Código Penal - mandamento que ninguém duvida que continue em plena vigência - é conditio sine qua non para que a ele se conceda a benesse. Em outras palavras, continua sendo obrigatório, sim, que o reeducando preencha também requisitos de ordem subjetiva para obter o livramento condicional, mas a constatação disto implica na aferição das mudanças psicológicas que o efetivo cumprimento da pena privativa de liberdade vai propiciando ao condenado, paulatinamente. Tanto é assim que continua sendo compulsório, para a obtenção da benesse, o bom comportamento carcerário, circunstância que reflete apenas parte desse mérito, parte da esperada capacidade de recuperação que o reeducando tem que demonstrar para fazer jus ao livramento. A outra parte desse mérito precisa ser aferida pelo exame criminológico. Então, soa como rematado absurdo dizer-se que a nova Lei aboliu o exame criminológico, posto que só com a realização desta prova é que se poderá apreciar se o sentenciado reúne, ou não, mérito para conseguir a benesse. Em suma, se fosse intenção do legislador abolir oexame criminológico, seria preciso modificar a redação não só dos artigos6º e 112 da Lei de Execução Penal, mas também - e principalmente - dos artigos 8º e 9º daquele mesmo diploma e do artigo 33, parágrafo 2º, do Estatuto Repressivo. E, como isto não foi feito, conclui-se que continua sendo de bom alvitre a feitura do exame criminológico, cujo resultado favorável ao examinando é condição impostergável para que lhe seja concedido o livramento. Nesse passo, já se decidiu: .. Nestas condições, DOU PROVIMENTO ao recurso ministerial, para cassar a decisão guerreada, determinando o retorno do agravado ao cárcere e a realização de exame criminológico. Como se vê dos trechos do acórdão acima colacionados, a determinação de que fosse realizado oexame criminológiconão foi devidamente fundamentada, uma vez que o Tribunal de origem levou em conta a gravidade dos delitos cometidos e, de forma genérica, a necessidade de ter respaldo técnico, que propicie uma análise mais cuidadosa sobre o comportamento e a personalidade do ora sentenciado, para avaliar a viabilidade de seu retorno ao convívio em sociedade. Dessa forma, não havendo demonstração, efetivamente, da necessidade de realização deexame criminológico,deve ser reconhecida a ilegalidade da sua exigência. A propósito, confiram-se os seguintes precedentes: .. 2. A Lei n. 10.792/2003 deu nova redação ao art. 112 da Lei n. 7.210/1984, para suprimir a realização deexame criminológicocomo expediente obrigatório para a progressão de regime. 3. "Admite-se oexame criminológicopelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada" (Súmula 439/STJ). 4. No caso, o Tribunal de origem ao indeferir olivramento condicionalnão logrou fundamentar a necessidade do referidoexame,deixando de invocar elementos concretos dos autos que pudessem afastar a decisão do magistrado, levando em conta apenas a gravidade dos delitos e a longa pena a cumprir, desconsiderando, ainda, a boa conduta carcerária atestada pelo diretor do estabelecimento prisional. 5.Ordemnão conhecida. Concessão de habeas corpus de ofício pararestabelecera decisão de Primeiro Grau que deferiu ao paciente olivramento condicional(HC 366.253/SP, de minha relatoria, SEXTA TURMA, julgado em 13/09/2016, DJe 21/09/2016, grifei). .. 2. Nos termos da jurisprudência desta Corte, desde a Lei n. 10.792/2003, que conferiu nova redação ao art. 112 da Lei de Execução Penal, aboliu-se a obrigatoriedade doexame criminológicocomo requisito para a concessão da progressão de regime, cumprindo ao julgador verificar, em cada caso, acerca da necessidade, ou não, de sua realização, podendo dispensá-lo ou, ao contrário, determinar sua realização, desde que mediante decisão concretamente fundamentada na conduta do apenado no decorrer da execução. Precedentes. 3. In casu, foi cassado o benefício dolivramento condicional,determinando-se a realização deexame criminológico,sem qualquer fundamento concreto. 4. Fatores relacionados ao crime praticado são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento para a progressão de regime, de modo que oexame criminológicosomente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução penal. 5. Habeas corpus não conhecido.Ordemconcedida, de ofício, pararestabelecera decisão de 1º Grau, que havia deferido olivramento condicional(HC 323.553/SP, relator Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 18/08/2015, DJe 03/09/2015, grifei). Ante o exposto,concedoaordempara, cassando o acórdão proferido no Agravo de Execução Penal n. 0009152-58.2020.8.26.0071,restabelecera decisão do Juízo de primeiro grau que concedeu olivramento condicionalao paciente. Publique-se. Intimem-se.