HC 701712 - DECISAO
Embora o habeas corpus não fosse conhecido, há flagrante ilegalidade na determinação de submissão ao exame criminológico quando a instância ordinária se limita a invocar apenas a gravidade abstrata dos delitos e a longa pena; assim, concedeu-se a ordem de ofício para cassar o acórdão e determinar ao Juízo da...
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- Parties
- Paciente: RODRIGO WILLIANS DA SILVA; Decisão Impugnada / Órgão Recorrente: Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 October 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Julgamento Decisão Do Superior Tribunal De Justiça (não Conheço; Concessão Da Ordem De Ofício)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem, de ofício, para cassar o acórdão impugnado e determinar ao Juízo da Execução que examine o pedido de livramento condicional dispensando a realização de exame criminológico.
- Legal Topics
- Livramento Condicional, Exame Criminológico, Motivação Das Decisões Judiciais, Súmula 439/stj, Súmula 691/stf
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Parties
RODRIGO WILLIANS DA SILVA
Paciente
Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Decisão Impugnada / Órgão Recorrente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Julgamento Decisão Do Superior Tribunal De Justiça (não Conheço; Concessão Da Ordem De Ofício)
Legal Issues
- 1 cabimento de habeas corpus contra decisão monocrática que não conhece pedido originário
- 2 possibilidade de determinação de exame criminológico pelo Juízo da Execução e seus limites
- 3 se a gravidade abstrata do delito e a longa pena justificam exigência de exame criminológico para concessão de livramento condicional
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus não fosse conhecido, há flagrante ilegalidade na determinação de submissão ao exame criminológico quando a instância ordinária se limita a invocar apenas a gravidade abstrata dos delitos e a longa pena; assim, concedeu-se a ordem de ofício para cassar o acórdão e determinar ao Juízo da Execução que examine o pedido de livramento condicional dispensando a realização do exame criminológico.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem, de ofício, para cassar o acórdão impugnado e determinar ao Juízo da Execução que examine o pedido de livramento condicional dispensando a realização de exame criminológico.
Orders
- Não conhecer do habeas corpus
- Conceder a ordem, de ofício, para cassar o acórdão impugnado
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de RODRIGO WILLIANS DA SILVA, contra decisão monocrática prolatada por Desembargador do TJSP que não conheceu do habeas corpus originariamente impetrado naquela Corte (Processo n.º 2226034-62.2021.8.26.0000). Neste writ, a defesa apontou constrangim ento ilegal, na medida em que o paciente preencheu os requisitos legais para o livramento condicional, possui boa conduta carcerária, bem como não há ocorrências de falta grave no curso da execução penal e, ainda assim, o Juízo de primeiro grau determinou que o paciente seja submetido à avaliação criminológica. Sustentou ainda que a situação excepcional da pandemia gerada pelo covid-19 reforça o pedido de concessão imediato do livramento condicional. Requereu, inclusive liminarmente, a concessão da ordem para que seja concedido livramento condicional ao paciente. É o relatório. Decido. Esta Corte possui entendimento pacificado no sentido de que não cabe habeas corpus contra decisão que indefere pedido liminar, salvo em casos de flagrante ilegalidade ou teratologia da decisão impugnada (Súmula 691/STF), o que se aplica analogicamente nas questões decididas monocraticamente pelo relator. Ora, tendo em vista que a matéria não foi apreciada pelo Colegiado, sua apreciação nesta Corte implicaria em indevida supressão de instância, daí porque a superação do enunciado acima referenciado apenas seria possível diante de casos de flagrante ilegalidade ou teratologia da decisão impugnada, o que se verifica na hipótese. Da leitura da decisão proferida pelo Juízo da Execução, observo que o pedido de livramento condicional teve sua apreciação condicionada à prévia realização de exame criminológico, em decisão assim fundamentada (e-STJ, fl. 66): "Em relação ao Livramento Condicional: Oficie-se à Penitenciária solicitando expediente de praxe atualizado. Ainda, por considerar que os crimes atribuídos ao sentenciado são de maior gravidade (roubos majorados, organização criminosa e associação para o tráfico), bem como a quantidade de pena imposta, determino a realização da avaliação preconizada pela Resolução SAP 88, de 28-4-2010,a fim de que o pedido de livramento condicional possa ser analisado de forma mais criteriosa." Destaco que não é vedado ao órgão julgador determinar a submissão do apenado ao exame criminológico, desde que o faça de maneira fundamentada, em estrita observância à garantia constitucional de motivação das decisões judiciais, expressa no art. 93, IX, da Constituição Federal, bem como à própria previsão do art. 112, § 1º, da Lei de Execução Penal ("A decisão será sempre motivada e precedida de manifestação do Ministério Público e do defensor."). Referido entendimento é objeto da Súmula 439/STJ ("admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada."). Ilustrativamente, confira-se: "HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. DESCABIMENTO. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO DE REGIME. EXAME CRIMINOLÓGICO. GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO E LONGA PENA A CUMPRIR. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. SÚMULA 439 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - STJ. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. Por se tratar de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração não deve ser conhecida, segundo a atual orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal - STF e do próprio Superior Tribunal de Justiça - STJ. Contudo, considerando as alegações expostas na inicial, razoável a análise do feito para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. 2. O advento da Lei n. 10.792/03 não proibiu a realização do exame criminológico para a verificação do preenchimento do requisito subjetivo à progressão de regime, mas impôs ao magistrado a necessidade de motivar concretamente a imprescindibilidade de submissão do apenado à perícia. Nessa esteira, editou-se a Súmula n. 439 do Superior Tribunal de Justiça - STJ. Na hipótese dos autos, as instâncias ordinárias entenderam indispensável a realização de exame criminológico sem, contudo, apresentar elementos concretos da conduta da apenada no decorrer da execução que pudessem justificar a necessidade do exame, razão pela qual, entendo caracterizado o constrangimento ilegal. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício, para cassar o acórdão do Tribunal de origem e determinar ao Juízo da Execução que - afastando o entendimento de que a gravidade abstrata do delito pode impor a realização de exame criminológico - avalie concretamente a necessidade da confecção da perícia para a progressão de regime da paciente, confirmando a liminar anteriormente deferida." (HC 457.753/SP, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 21/08/2018, DJe 31/08/2018) Todavia, verifico no caso dos autos que a instância ordinária determinou a submissão do apenado ao exame criminológico sem a indicação de fundamentos idôneos, na medida em que se limitaram a tecer considerações a respeito da gravidade abstrata do delito praticado pelo sentenciado e da longa pena a cumprir, o que consubstancia o alegado constrangimento ilegal, de acordo com o entendimento desta Corte: "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO DE REGIME PRISIONAL. NECESSIDADE DE SUBMISSÃO A EXAME CRIMINOLÓGICO. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO E LONGA PENA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. REVOLVIMENTO DE MATÉRIA FÁTICA. DESNECESSIDADE. AGRAVO DESPROVIDO.1. De acordo com a Súmula 439/STJ "admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada".2. No caso dos autos, a Corte de origem determinou a submissão do ora agravado ao exame criminológico sem a indicação de argumento idôneo, na medida em que se limitou a tecer considerações a respeito da gravidade do delito praticado e da longa pena a cumprir, o que consubstancia o alegado constrangimento ilegal, conforme o entendimento desta Corte. Precedentes.3. A análise da controvérsia prescinde do aprofundado reexame de provas, pois a mera leitura do acórdão recorrido é suficiente para se concluir pela ausência de fundamento idôneo, necessário à submissão do reeducando ao exame criminológico.4. Agravo regimental desprovido." (AgRg no HC 596.966/SP, deste Relator, QUINTA TURMA, julgado em 27/10/2020, REPDJe 12/11/2020, DJe 03/11/2020) "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. LIVRAMENTO CONDICIONAL. DETERMINAÇÃO DO EXAME CRIMINOLÓGICO PARA AFERIÇÃO DO MÉRITO DO SENTENCIADO. GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO E LONGEVIDADE DA PENA. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. FUGA COMETIDA NO CUMPRIMENTO DE EXECUÇÃO ANTERIOR. IRRELEVÂNCIA. NÃO APRESENTAÇÃO DE ARGUMENTOS NOVOS PELO AGRAVANTE PARA INVALIDAR A DECISÃO AGRAVADA. MANUTENÇÃO POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS.1. Esta Corte Superior é firme no entendimento de que a longevidade da pena e a gravidade do delito não são aptos, por si só, a fundamentar a exigência de realização do exame criminológico ou a negativa de concessão de benefícios, porquanto o que se exige do reeducando é que demonstre seu mérito no curso da execução de sua pena.2. Consolidou-se neste Tribunal diretriz jurisprudencial no sentido de que faltas graves antigas, já reabilitadas pelo decurso do tempo, não justificam o indeferimento da progressão de regime prisional (HC n. 544.368/SP, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 17/12/2019).3. In casu, o agravante não apresentou argumentos novos capazes de infirmar aqueles que alicerçaram a decisão agravada, razão pela qual deve ser mantida por seus próprios fundamentos.4. Agravo regimental improvido." (AgInt no HC 554.750/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 23/06/2020, DJe 30/06/2020) "EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. NÃO CABIMENTO. PROGRESSÃO AO REGIME SEMIABERTO. CONCESSÃO PELO JUÍZO DE 1º GRAU. DECISÃO CASSADA PELO TRIBUNAL A QUO. DETERMINAÇÃO QUE A PACIENTE SEJA SUBMETIDA A EXAME CRIMINOLÓGICO. GRAVIDADE DOS DELITOS PRATICADOS, LONGA PENA A CUMPRIR E FALTA GRAVE VETUSTA. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. .. II - O eg. Tribunal a quo cassou a decisão que deferiu a progressão de regime à paciente e determinou a realização de exame criminológico, com fundamento apenas na gravidade abstrata dos crimes por ela praticados, na sua longa pena a cumprir, bem como na vetusta falta grave por ela cometida em 9/6/2009 (há mais de dez anos); os fundamentos utilizados não se mostram idôneos para afastar a presença do requisito subjetivo e indeferir a progressão de regime. Precedentes.III - Além disso, este Tribunal Superior de Justiça tem se manifestado no sentido de que faltas graves cometidas em período longínquo e já reabilitadas não configuram fundamento idôneo para indeferir o pedido de progressão de regime. Precedentes.Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício para cassar o v. acórdão proferido no agravo em execução n. 7002012-73.2018.8.26.0344, e restabelecer a decisão do d. Juízo das Execuções que concedeu a progressão de regime à paciente." (HC 509.389/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 18/06/2019, DJe 27/06/2019) "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. EXAME CRIMINOLÓGICO. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE ELEMENTOS CONCRETOS QUE JUSTIFICASSEM A ELABORAÇÃO DA PROVA TÉCNICA. VIOLAÇÃO À SÚMULA N. 439/STJ E À SÚMULA VINCULANTE N. 26. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A despeito de o exame criminológico não ser requisito obrigatório para a progressão do regime prisional, os Tribunais Superiores admitem a sua realização para a aferição do mérito do apenado em hipóteses excepcionais. Súmula n. 439/STJ e Súmula Vinculante n. 26.2. Na hipótese, o Tribunal de origem deu provimento ao agravo em execução interposto pelo Ministério Público e reformou a decisão de primeiro grau que concedera a progressão de regime, sem indicar elementos concretos pelos quais o exame criminológico estaria justificado, fundamentando a determinação tão somente na gravidade em abstrato dos delitos cometidos e na longa pena a cumprir do agravado, o que não se coaduna com a jurisprudência desta Corte acerca do tema.3. Agravo regimental desprovido." (AgRg no HC 536.956/SP, Rel. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 22/10/2019, DJe 28/10/2019) Nesse contexto, faz-se necessário o reconhecimento de flagrante ilegalidade a ensejar a concessão da ordem, de ofício, a fim de determinar ao Juízo da Execução que avalie o pedido de eventual concessão do benefício do livramento condicional, sem a necessidade de exame criminológico. Ressalto, ainda, que a gravidade abstrata dos delitos praticados e a longa pena a cumprir, de acordo com o posicionamento do STJ acima explicitado, não conferem idoneidade à decisão que indefere os benefícios executórios pleiteados pela defesa. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem, de ofício, para cassar o acórdão impugnado e determinar ao Juízo da Execução, que examine o pedido de eventual concessão de livramento condicional ao paciente, dispensando a realização de exame criminológico. Comunique-se, com urgência, ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e ao Juízo da Execução. Publique-se. Intimem-se.