HC 813749 - DECISAO
Há registro de faltas graves relativamente recentes na execução penal do paciente (a mais recente em 23/08/2021) que, segundo jurisprudência consolidada do STJ e a Súmula 439/STJ, justificam a determinação de realização de exame criminológico para aferição do requisito subjetivo do livramento condicional; não se...
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- Parties
- Paciente: HENRIQUE SAPIENZA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO; Parte Interessada: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 14 March 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Denegatória
- Outcome
- ordem denegada
- Legal Topics
- Livramento Condicional, Exame Criminológico, Falta Grave, Requisito Subjetivo, Reincidência
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Parties
HENRIQUE SAPIENZA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Parte Interessada
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Denegatória
Legal Issues
- 1 Possibilidade de o magistrado condicionar o livramento condicional à realização de exame criminológico
- 2 Relevância de faltas graves relativamente recentes para aferição do requisito subjetivo do livramento condicional
- 3 Limites do atestado de bom comportamento carcerário como prova do requisito subjetivo
Ratio Decidendi
Há registro de faltas graves relativamente recentes na execução penal do paciente (a mais recente em 23/08/2021) que, segundo jurisprudência consolidada do STJ e a Súmula 439/STJ, justificam a determinação de realização de exame criminológico para aferição do requisito subjetivo do livramento condicional; não se verifica constrangimento ilegal, motivo pelo qual a ordem foi denegada.
Court Disposition
ordem denegada
Orders
- Nego a ordem.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar, impetrado em favor de HENRIQUE SAPIENZA, em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Agravo de Execução Penal nº 0000242-75.2023.8.26.0996). O Juízo da Unidade Regional de Departamento Estadual de Execução Criminal da Comarca de Presidente Prudente - DEECRIM 5ª RAJ concedeu o livramento condicional ao paciente (e-STJ fls. 26/28). O agravo em execução penal interposto pelo Ministério Público foi provido por meio do acórdão assim ementado (e-STJ fl. 32): LIVRAMENTO CONDICIONAL - Cassação do benefício com determinação da realização do exame criminológico -Possibilidade - Circunstâncias que recomendam cautela na aferição do requisito subjetivo. Agravo Ministerial provido. A Defensoria Pública do Estado de São Paulo alega: a) existência de constrangimento ilegal, considerando que o paciente atende aos requisitos objetivo e subjetivo necessários para o livramento condicional; b) "a natureza dos crimes praticados, suas circunstâncias e reincidência foram analisadas no juízo de conhecimento para a dosimetria da pena, não podendo influir na análise do mérito do sentenciado na execução da pena, uma vez que já integraram o quantum de pena imposta" (e-STJ fl. 4); c) as faltas graves cometidas pelo apenado foram reabilitadas; e d) dispensabilidade do exame criminológico. Requer, liminar e definitivamente, deferimento da ordem para manter o paciente em livramento condicional. Liminar indeferida (e-STJ fls. 38/40). Informações prestadas (e-STJ fls. 48/71, 72/73 e 75/82). Parecer do Ministério Público Federal pelo deferimento da ordem (e-STJ fls. 86/89). É o relatório. Decido. Segundo o disposto nos artigos 112, § 2º, e 131 da Lei de Execução Penal e 83 do Código Penal, com as alterações trazidas pela Lei 13.964/2019, conhecida como Pacote Anticrime, para que o reeducando tenha direito ao livramento condicional é necessário o preenchimento dos requisitos objetivos e subjetivos. O requisito subjetivo é aferido por meio de atestado de bom comportamento carcerário expedido pelo diretor do estabelecimento no qual o condenado cumpre sanção privativa de liberdade. No entanto, pela jurisprudência desta Corte, o magistrado pode condicionar o deferimento do livramento condicional à realização de exame criminológico. Nesse sentido, veja-se: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. PEDIDO DE CONCESSÃO DE LIVRAMENTO CONDICIONAL. DETERMINAÇÃO DE REALIZAÇÃO DE EXAME CRIMINOLÓGICO. POSSIBILIDADE (SÚMULA 439/STJ). FALTA GRAVE RECENTE CONSTANTE NO BOLETIM INFORMATIVO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Embora a alteração legislativa produzida pela Lei n. 10.792/2003, no art. 112 da Lei n. 7.210/84 (Lei de Execução Penal - LEP), tenha suprimido a referência expressa ao exame criminológico como requisito para concessão de benefícios da execução penal, esta Corte consolidou entendimento, por meio do enunciado n. 439, da Súmula/STJ, no sentido de que o magistrado pode, de forma fundamentada, exigir a sua realização. Tal fundamentação, entretanto, deve estar relacionada a algum elemento concreto da execução da pena, não se admitindo a simples referência à gravidade abstrata do delito ou à longevidade da pena. Precedentes do STJ. 2. A noção de bom comportamento do reeducando abrange a valoração de elementos que não se restringem ao atestado emitido pela direção carcerária, sob pena de transformar o juiz em mero homologador de documentos administrativos. (AgRg no HC 660.197/SP, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 17/08/2021, DJe 25/08/2021). 3. No caso concreto, a despeito de o Tribunal de Justiça ter feito alusão à gravidade em abstrato dos delitos, à longa pena ainda por cumprir e à reiteração criminosa do executado, fundamentos que esta Corte considera inidôneos para amparar a determinação de exame criminológico, ele também mencionou a existência de falta grave relativamente recente, fundamento esse que, por si só, justifica a realização do exame criminológico. Com efeito, da leitura do Boletim Informativo consta falta grave recente consistente em desrespeito a servidor datada de 29/5/2018. 4. Assim, na espécie, há registro de infração grave não longínqua a ser considerado, o que justifica a determinação de exame criminológico para progressão ao livramento condicional. 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC 772.831/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 04/10/2022, DJe de 10/10/2022). A Súmula 439/STJ assim dispõe: Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada. No caso dos autos, o Tribunal de origem deu provimento ao agravo do Ministério Público nos seguintes termos (e-STJ fls. 33/35): Conforme a ficha do réu de fls. 17/21, ele cumpre pena total de 13 anos, 7 meses e 26 dias de reclusão pela prática dos crimes de roubo e apropriação indébita, com término previsto para 13/11/2027. Muito embora o atestado de conduta carcerária tenha registrado que o sentenciado apresenta bom comportamento, é de se terem conta que ele, além de ser reincidente, tem histórico criminal desfavorável, já que, durante o cumprimento da pena em regime fechado, praticou duas faltas grave. Com efeito, seu histórico de reiteração criminosa lhe prejudica e impede a concessão do livramento condicional sem qualquer cautela. (..) Assim, as circunstâncias do caso concreto não apenas recomendam como exigem a realização do exame criminológico para a aferição do requisito legal de natureza subjetiva. Observa-se, por oportuno, que não é só o documento administrativo que garante ao condenado o direito ao benefício pleiteado. Necessário se faz avaliar se o tempo de cárcere experimentado, de fato, contribuiu para a alteração de seu ânimo criminoso. O atestado de bom comportamento carcerário a despeito de sua importância se limita a certificar a conduta do sentenciado no interior do presídio, não se reportando a dados importantes sobre a sua personalidade e conduta social. Afinal, importante frisar que na execução penal vigora o princípio "in dubio pro societate", o que significa dizer que, entre o interesse do condenado em obter a liberdade e o da sociedade em manter a paz e a segurança incólumes, o segundo deve prevalecer. No mais, a Lei nº 10.792/03 tornou dispensável a presença do laudo criminológico para se deferir ou não a progressão de regime e o livramento condicional. Contudo, não é vedado ao magistrado, diante das peculiaridades de cada caso concreto, amparar-se nas conclusões de experts para a concessão das benesses, principalmente diante do objetivo primordial da execução penal, que é a harmônica reintegração social do reeducando. Assim, a meu ver, a situação recomenda que melhor se avalie o merecimento do sentenciado antes da concessão do benefício. Como se observa, apesar de ter feito alusão aos delitos praticados pelo paciente, o Tribunal de origem entendeu necessária a realização do exame criminológico amparado no histórico de execução penal do paciente, no qual se vê o cometimento de falta grave relativamente recente (23/08/2021). Da leitura da Guia de Execução (e-STJ 77/81) e do Boletim Informativo (e-STJ 19/25) constata-se o cometimento de duas faltas graves, a mais recente datada de 23/08/2021 consistente na subversão da ordem e disciplina do estabelecimento prisional. Neste contexto, vê-se que o acórdão impugnado não destoa da jurisprudência desta Corte no sentido de que as faltas graves recentes justificam a realização do exame criminológico para fins de análise do cumprimento do requisito subjetivo para fins de progressão de regime e concessão de livramento condicional. Vejamos: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO DE REGIME. EXAME CRIMINOLÓGICO. NECESSÁRIO. . FALTA GRAVE RELATIVAMENTE RECENTE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. O Superior Tribunal de Justiça, alinhando-se à nova jurisprudência da Corte Suprema, também passou a restringir as hipóteses de cabimento do habeas corpus, não admitindo que o remédio constitucional seja utilizado em substituição ao recurso ou ação cabível, ressalvadas as situações em que, à vista da flagrante ilegalidade do ato apontado como coator, em prejuízo da liberdade do paciente, seja cogente a concessão, de ofício, da ordem de habeas corpus. (AgRg no HC 437.522/PR, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 07/06/2018, DJe 15/06/2018) 2. Na hipótese, a progressão de regime foi cassada sob fundamento de necessidade de exame criminológico, uma vez que o paciente possui histórico de falta grave recente. 3 . A jurisprudência desta Corte é assente no sentido de que faltas graves recentes justificam a realização de exame criminológico, para fins de progressão de regime. 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 848.790/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/10/2023, DJe de 5/10/2023.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PROGRESSÃO DE REGIME. EXIGÊNCIA DE EXAME CRIMINOLÓGICO. FUNDAMENTO IDÔNEO. FALTA GRAVE RECENTE. AGRAVO IMPROVIDO. 1. "A noção de bom comportamento do reeducando abrange a valoração de elementos que não se restringem ao atestado emitido pela direção carcerária, sob pena de transformar o juiz em mero homologador de documentos administrativos". (AgRg no HC 660.197/SP, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 17/08/2021, DJe 25/08/2021). 2. A existência de falta grave relativamente recente, como na espécie, em que o apenado praticou falta grave em 15/9/2021 (novo crime doloso), constitui fundamento apto a justificar a realização do exame criminológico. 3. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 750.392/SC, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 7/2/2023, DJe de 10/2/2023.) PENAL. EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. WRIT SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. NÃO CABIMENTO. PROGRESSÃO. CONCESSÃO PELO JUÍZO DE 1º GRAU. DECISÃO CASSADA PELO TRIBUNAL A QUO. DETERMINAÇÃO QUE O PACIENTE SEJA SUBMETIDO A EXAME CRIMINOLÓGICO. SÚMULA 439/STJ E SÚMULA VINCULANTE 26/STF. GRAVIDADE DOS DELITOS PRATICADOS, LONGA PENA A CUMPRIR E FALTA GRAVE VETUSTA. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. AGRAVO DESPROVIDO. I - Nos termos da jurisprudência consolidada nesta Corte, cumpre ao agravante impugnar especificamente os fundamentos estabelecidos na decisão agravada. II - Este Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento de que o Magistrado de primeiro grau, ou mesmo o Tribunal a quo, diante das circunstâncias do caso concreto, podem determinar a realização da prova técnica para a formação de seu convencimento, desde que essa decisão seja adequadamente motivada, consolidando esse entendimento no Enunciado Sumular de n. 439, segundo o qual "Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada.", no mesmo sentido da Súmula Vinculante 26/STF. III - A motivação para a realização do exame criminológico nas circunstâncias fáticas e gravidade abstrata do delito pelo qual foi o paciente condenado, sem que em nenhum momento se fizesse referência a elementos atuais e concretos colhidos no decorrer da execução criminal. IV - Conforme iterativa jurisprudência deste Sodalício, as faltas cometidas em tempo longínquo não podem ser invocados eternamente para manter o apenado em regime mais gravoso, ainda mais quando se trata de falta de natureza média, bem como delito cometido no período de prova do livramento condicional em 24/4/2017. V - Do boletim informativo do apenado, verifica-se a existência de remição da pena em virtude de trabalho e estudo desenvolvido pelo paciente, bem como usufruto de diversas saídas temporárias cujo retorno ocorreu sem qualquer incidente, a reforçar a possibilidade de progressão. Agravo regimental do Ministério Público desprovido. (AgRg no HC n. 792.891/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 27/6/2023, DJe de 3/7/2023.) EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PROGRESSÃO DE REGIME. COMETIMENTO DE NOVO DELITO E FALTAS GRAVES. AUSÊNCIA DE CUMPRIMENTO DO REQUISITO SUBJETIVO. REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. AGRAVO DESPROVIDO. 1. O art. 112 da Lei de Execução Penal exige, para a concessão da progressão de regime, o preenchimento dos requisitos de natureza objetiva (lapso temporal) e subjetiva (bom comportamento carcerário). 2. Na hipótese, a Corte de origem entendeu que o paciente não preenche os requisitos necessários para a progressão posto que "quando agraciado com o livramento condicional, foi preso em flagrante pela prática de novo delito, traindo a confiança daquele Juízo, bem como registra a prática de três faltas disciplinares de natureza grave". 3. Embora o paciente tenha cumprido o requisito temporal para progressão do regime, é sabido que o magistrado define sua convicção pela livre apreciação da prova, analisando os critérios subjetivos, in casu, o abandono do cumprimento de pena, não se verificando, portanto, o alegado constrangimento ilegal. Precedentes. 4. O "atestado de boa conduta carcerária não assegura, automaticamente, a progressão de regime ao apenado que cumpriu o requisito temporal, pois o Juiz das Execuções não é mero órgão chancelador de documentos emitidos pela direção da unidade prisional" (AgRg no HC 426.201/SP, Rel. Ministro ROGÉRIO SCHIETTI, Sexta Turma, julgado em 5/6/2018, Dje 12/6/2018). 5. O remédio constitucional não é o mecanismo próprio para a análise de questões que exijam o exame do conjunto fático-probatório em razão da incabível dilação probatória que seria necessária. 6. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC 633.813/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 23/2/2021, DJe 26/2/2021). Ante o exposto, por não vislumbrar a ocorrência de constrangimento ilegal, DENEGO A ORDEM. Publique-se. Intimem-se. EMENTA