HC 924940 - DECISAO
O acórdão do Tribunal a quo determinou o exame criminológico com base em fundamentos abstratos (gravidade do delito, longa pena a cumprir, reincidência) sem indicar elementos concretos extraídos da execução que justificassem a prova técnica, o que configura ilegalidade; por isso, concedeu-se a ordem para que o juízo...
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- Parties
- Paciente: ALEF RODRIGUES DE SOUZA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 July 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Concessão
- Outcome
- Concedo o habeas corpus, para cassar o acórdão questionado e determinar que o juízo da execução penal avalie a presença do requisito subjetivo para o livramento condicional independentemente de exame criminológico.
- Legal Topics
- Livramento Condicional, Exame Criminológico, Requisitos Subjetivo E Objetivo, Agravo Em Execução Penal, Motivação Da Decisão
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Parties
ALEF RODRIGUES DE SOUZA
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Concessão
Legal Issues
- 1 Possibilidade de condicionamento do livramento condicional à realização de exame criminológico
- 2 Idoneidade da fundamentação para determinar exame criminológico
- 3 Adequação da via processual (Habeas Corpus vs Agravo em Execução Penal)
Ratio Decidendi
O acórdão do Tribunal a quo determinou o exame criminológico com base em fundamentos abstratos (gravidade do delito, longa pena a cumprir, reincidência) sem indicar elementos concretos extraídos da execução que justificassem a prova técnica, o que configura ilegalidade; por isso, concedeu-se a ordem para que o juízo da execução avalie o requisito subjetivo para o livramento condicional independentemente de exame criminológico.
Court Disposition
Concedo o habeas corpus, para cassar o acórdão questionado e determinar que o juízo da execução penal avalie a presença do requisito subjetivo para o livramento condicional independentemente de exame criminológico.
Orders
- Cassar o acórdão prolatado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais.
- Determinar que o juízo da execução penal avalie a presença do requisito subjetivo para o livramento condicional independentemente de exame criminológico.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado em favor de ALEF RODRIGUES DE SOUZA contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, nos autos do HC nº 1.0000.24.273544-7/000. Depreende-se dos autos que o juízo das execuções determinou a prévia submissão do sentenciado a exame criminológico, para que possa analisar o pedido de concessão de livramento condicional. No julgamento do prévio writ, o Tribunal de origem não conheceu do habeas corpus em julgado assim ementado (fl. 16): HABEAS CORPUS - EXECUÇÃO PENAL - LIVRAMENTO CONDICIONAL CONDICIONADO A REALIZAÇÃO DE EXAME CRIMINOLÓGICO - VIA IMPRÓPRIA - NÃO CONHECIMENTO DA IMPETRAÇÃO. As matérias relacionadas à execução da pena devem ser objeto de recurso de Agravo em Execução Penal, conforme art. 197 da Lei de Execução Penal, não se admitindo a utilização de Habeas Corpus como substitutivo do recurso próprio. A determinação de realização de exame criminológico, devidamente fundamentada, não configura manifesta ilegalidade a justificar a impetração de Habeas Corpus em substituição ao recurso próprio. Daí o presente writ, no qual a Defesa aduz que o paciente preenche os requisitos objetivo e subjetivo para o livramento condicional. Sustenta que decisão que condiciona a realização do exame criminológico pauta-se tão somente na gravidade do crime praticado sob violência ou grave ameaça dos anos de 2014 e 2016, ou seja, há mais de 8 anos. Destaca que a última falta grave cometida foi em 06/03/2023, a qual em nada impede a concessão do seu benefício. Requer, liminarmente e no mérito, a concessão do livramento condicional. É o relatório. DECIDO. No caso em análise, a defesa pretende, em síntese, à análise do pedido de livramento condicional, independentemente da realização de exame criminológico. Sobre o tema, este Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento de que o Magistrado de primeiro grau, ou mesmo o Tribunal a quo, diante das circunstâncias do caso concreto, podem determinar a realização da prova técnica para a formação de seu convencimento, desde que essa decisão seja adequadamente motivada. Consolidando esse entendimento, este Superior Tribunal de Justiça editou o Enunciado Sumular n. 439, segundo o qual: "admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada". Não bastasse, o Supremo Tribunal Federal, ao analisar o tema, editou a Súmula Vinculante n. 26, in verbis: "Para efeito de progressão de regime no cumprimento de pena por crime hediondo, ou equiparado, o juízo da execução observará a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei n. 8.072, de 25 de julho de 1990, sem prejuízo de avaliar se o condenado preenche, ou não, os requisitos objetivos e subjetivos do benefício, podendo determinar, para tal fim, de modo fundamentado, a realização de exame criminológico." Assim, forçoso reconhecer a possibilidade de determinar-se a realização do exame criminológico ou sua complementação, quando as peculiaridades do caso o recomendarem, em decisão adequadamente motivada. In casu, o juízo de execução determinou a realização do exame criminológico sob os seguintes fundamentos (fl. 52): Exame criminológico Verifico que o sentenciado cumpre pena por crimes cometidos com emprego de violência contra a pessoa. Ademais, é de se ressaltar que, não bastasse a gravidade estatuída em abstrato na lei penal, a análise do caso permite concluir que o crime praticado pelo sentenciado foi deveras grave, porquanto, da análise da denúncia e sentença condenatória juntada aos autos, verifica-se que o reeducando, em concurso com um agente, à época, menor de idade e mediante emprego de arma de fogo, interceptaram a vítima em via pública, e subtraíram o cordão, um anel e uma pulseira. Ademais, em outra empreitada, ingressou em um estabelecimento comercial, e, valendo-se de emprego de arma de fogo, surrupiou diversos bens, de todas as pessoas presentes no recinto, bem como dos valores que havia no caixa, Tal fato revela que aspectos pessoais do apenado que, em tese, desaconselham sua liberdade, o que demanda análise mais acurada do pedido de progressão. Para tais casos, é de se ressaltar que o mero atestado carcerário não é bastante para a análise do requisito subjetivo, já que, repito, a gravidade do delito praticado pelo apenado revela que é necessária análise de aspectos psicossociais que não são aferíveis por simples constatação de bom comportamento no estabelecimento prisional. Logo, emerge a importância do exame criminológico, elaborado por profissionais aptos a constatar diversos aspectos da psique do apenado, que revelarão a segurança de se colocá-lo em regime que lhe possibilite o cumprimento de pena fora do estabelecimento prisional. Vejam-se trechos do acórdão impugnado (fl. 19): Importante destacar que a determinação de realização do exame criminológico é providência necessária para que se possa averiguar se o reeducando está apto a ser reintegrado ao convívio social, usufruindo da progressão de regime e demais benesses executórias. In casu, o Magistrado da execução indicou fundamentadamente elementos concretos que recomendam a realização do exame, considerando a gravidade dos delitos perpetrados pelo paciente (ordem nº 14). Por todo o exposto, não se observa ilegalidade a ser sanada, uma vez que a matéria em discussão refere-se à execução penal e deveriam ter sido combatidos por Agravo em Execução, não cabendo esta discussão pela via estreita do Habeas Corpus. Com tais considerações, NÃO CONHEÇO DA ORDEM IMPETRADA. Verifica-se que os fundamentos utilizados pelas instância ordinárias não se mostram idôneos para determinar a realização de exame criminológico. Para tanto, o julgador deve indicar elementos concretos extraídos da execução da pena, não servindo como embasamento à determinação do exame a menção à gravidade abstrata do delito, a longa pena em cumprimento ou a reincidência, consoante entendimento firmado por esta Corte Superior de Justiça, a exemplo dos seguintes julgados: "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. DETERMINAÇÃO DE EXAME CRIMINOLÓGICO BASEADA TÃO SOMENTE NA GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO, LONGA PENA A CUMPRIR E REINCIDÊNCIA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL CONFIGURADO. JURISPRUDÊNCIA FIRMADA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Esta Corte Superior de Justiça pacificou entendimento no sentido de que fatores relacionados ao crime praticado são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento para a progressão de regime, de modo que a avaliação do cumprimento do requisito subjetivo somente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução penal. Precedentes. 2. No caso concreto, as instâncias ordinárias determinaram a realização de exame criminológico com fundamento apenas na gravidade dos crimes praticados, no tempo de pena ainda por cumprir e na reincidência do paciente, fatores que, por si sós, não justificam a realização do exame criminológico. Precedentes: HC 444.132/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 17/05/2018, DJe 30/05/2018; HC 436.653/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 20/03/2018, DJe 26/03/2018; AgRg no HC 590.322/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 18/08/2020, DJe 24/08/2020. 3. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 628.977/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/2/2021, DJe de 4/2/2021.) "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. WRIT IMPETRADO CONTRA DECISÃO MONOCRÁTICA DO RELATOR, QUE INDEFERIU O PEDIDO LIMINAR NO MANDAMUS ORIGINÁRIO. PROGRESSÃO DE REGIME. EXAME CRIMINOLÓGICO. NECESSIDADE. FUNDAMENTAÇÃO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO IDÔNEA. PRECEDENTES. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. ORDEM CONCEDIDA LIMINARMENTE. ALEGAÇÃO DE NULIDADE DO JULGAMENTO MONOCRÁTICO. OFENSA AO PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. PRECEDENTES. EXAME CRIMINOLÓGICO. GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO. FUNDAMENTO INIDÔNEO. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTE. ILEGALIDADE MANIFESTA NÃO EVIDENCIADA. AGRAVO IMPROVIDO. 1. O julgamento monocrático encontra previsão no Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça (art. 34, incisos XVIII, "b" e "c", e XX), não havendo nulidade, tanto mais que, com a interposição de agravo regimental, torna-se superada eventual violação do princípio da colegialidade, tendo em vista que se devolve a matéria recursal ao órgão julgador competente (AgRg no AREsp n. 1.843.398/PR, Ministro Olindo Menezes, Desembargador convocado do TRF da 1ª Região, Sexta Turma, DJe 27/9/2021). 2. É assente o entendimento nesta Corte, segundo o qual, a gravidade abstrata do crime não justifica diferenciado tratamento à progressão prisional, uma vez que fatores relacionados ao delito são determinantes da pena aplicada, mas não justificam diferenciado tratamento à negativa da progressão de regime ou do livramento condicional, de modo que respectivo indeferimento somente poderá fundar-se em fatos ocorridos no curso da própria execução (HC n. 519.301/SP, Ministro Nefi Cordeiro, Terceira Seção, DJe 13/12/2019). 3. Sem razão o regimental, pois a decisão recorrida está de acordo com o entendimento jurisprudencial desta Corte Superior, uma vez que a gravidade abstrata, a longa pena a cumprir e a reincidência não constituem fundamentos idôneos a justificar a necessidade de realização de exame criminológico. Precedentes. 4. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 696.604/ES, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 19/10/2021, DJe de 22/10/2021.) Diante de tais considerações, vislumbra-se a existência de flagrante ilegalidade passível de concessão da ordem. Dessa forma, estando o acórdão prolatado pelo Tribunal a quo em desconformidade com o entendimento desta Corte de Justiça quanto ao tema, incide, no caso o enunciado da Súmula 568/STJ, in verbis: "O relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema." Ante o exposto, concedo o habeas corpus, para cassar o acórdão questionado e determinar que o juízo da execução penal avalie a presença do requisito subjetivo para o livramento condicional indepen dentemente de exame criminológico. Publique-se. Intimem-se. EMENTA