RHC 196235 - DECISAO
Nega-se provimento ao recurso porque: (i) quanto ao pedido de cancelamento da falta grave e restabelecimento do livramento condicional, o Tribunal de origem não analisou o mérito, o que configuraria supressão de instância, tornando o habeas corpus impróprio para o exame da matéria; (ii) quanto ao pedido de indulto...
Source-derived case information.
- Parties
- Impetrante: ANTÔNIO FERREIRA DE BRITO; Órgão Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 August 2024
- Procedural Posture
- Recurso Ordinário Em Habeas Corpus / Julgamento Pelo Superior Tribunal De Justiça (decisão)
- Outcome
- nego provimento ao recurso ordinário em habeas corpus
- Legal Topics
- Livramento Condicional, Indulto, Falta Grave, Regressão De Regime, Supressão De Instância, Cabimento Do Habeas Corpus
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
ANTÔNIO FERREIRA DE BRITO
Impetrante
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
Órgão Recorrido
Procedural Posture
Recurso Ordinário Em Habeas Corpus / Julgamento Pelo Superior Tribunal De Justiça (decisão)
Legal Issues
- 1 cancelamento de falta grave e restabelecimento do livramento condicional
- 2 concessão de indulto com base no Decreto n. 11.846/2023
- 3 admissibilidade do habeas corpus para discutir benefícios da execução penal
Ratio Decidendi
Nega-se provimento ao recurso porque: (i) quanto ao pedido de cancelamento da falta grave e restabelecimento do livramento condicional, o Tribunal de origem não analisou o mérito, o que configuraria supressão de instância, tornando o habeas corpus impróprio para o exame da matéria; (ii) quanto ao pedido de indulto pelo Decreto n. 11.846/2023, o recorrente foi condenado pelo art. 33, caput, da Lei n. 11.343/06 (crime impeditivo) e não havia cumprido 2/3 da pena correspondente ao crime impeditivo até 25/12/2023, sendo, assim, inviável a concessão do indulto nos termos do decreto; não se constatou flagrante ilegalidade que justificasse a intervenção do STJ.
Court Disposition
nego provimento ao recurso ordinário em habeas corpus
Orders
- Nego provimento ao recurso ordinário em habeas corpus.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso ordinário em habeas corpus, com pedido de liminar, interposto por ANTÔNIO FERREIRA DE BRITO contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS (HC n. 1.0000.24.101061-0/000). Depreende-se dos autos que o recorrente cumpria pena e estava em sede de livramento condicional quando foi preso em flagrante pela suposta prática de novos crimes (art. 129, §13º, e art. 147, ambos do Código Penal), razão pela qual o juízo da execução penal suspendeu o benefício e regrediu a pena para o regime fechado. A Defesa alega, em síntese, que o recorrente sofre constrangimento ilegal, uma vez que estava em livramento condicional e houve regressão direta para o regime fechado sem fundamentação idônea. Pontua que a vítima do suposto novo crime (esposa do recorrente) teria manifestado que não pretende seguir com a ação penal originária. Além disso, aponta que preenche os requisitos para a concessão de indulto, nos termos do Decreto n. 11.846/2023. Argumenta que, apesar do disposto na Súmula 526 do Superior Tribunal de Justiça, no caso, o apenado está preso há cerca de um ano, por fundamentos que se assemelham à responsabilidade objetiva. Requer, liminarmente e no mérito, o provimento do recurso ordinário para que seja cancelada a falta grave. Subsidiariamente, pugna pela regressão ao regime aberto e pala concessão do indulto. Pedido de liminar indeferido (fls. 155-156). As informações foram prestadas às fls. 162-163 e fls. 164-179. O Ministério Público Federal manifestou-se, às fls. 184-185, em parecer assim ementado: PENAL. PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. INDULTO. DECRETO Nº 11.846/2023. MATÉRIA NÃO ANALISADA NA INSTÂNCIA DE ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. PELO DESPROVIMENTO DO RECURSO. É o relatório. DECIDO. Inicialmente, da leitura dos autos, verifica-se que, no tocante ao cancelamento da falta grave e restabelecimento do livramento condicional, o Tribunal de Justiça não analisou o mérito da controvérsia Confira-se o excerto do acórdão proferido pelo Tribunal estadual, verbis (fl. 135): Assim, percebe-se que a situação do paciente está sendo devidamente acompanhada pelo magistrado a quo, não sendo demostrada nenhuma irregularidade na execução da pena. Confira-se, trecho da decisão supramencionada: "A decisão de seq. 220.1, proferida em audiência de custódia e justificação, suspendeu o benefício de livramento condicional. O Ministério Público requereu se aguarde decisão final sobre o fato que originou o APFD (seq. 222.1). Percebe-se que a matéria ainda não foi sequer decidida pelo juízo de 1º grau. Assim, ausente manifestação do Tribunal sobre a questão de fundo também ora vindicada, incabível a análise do presente habeas corpus, porquanto está configurada a absoluta supressão de instância quanto ao ponto debatido, ficando impedida esta Corte de proceder à sua análise. O Superior Tribunal de Justiça entende que, "como é de conhecimento, matéria não apreciada pelo Tribunal de origem inviabiliza a análise por esta Corte Superior, sob pena de incorrer em indevida supressão de instância e violação dos princípios do duplo grau de jurisdição e devido processo legal, mesmo em caso de suposta nulidade absoluta." (AgRg no HC n. 813.772/GO, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 27/4/2023, DJe de 3/5/2023). Ainda nesse sentido: AgRg no HC n. 804.815/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 19/4/2023; AgRg no HC n. 813.293/PB, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 25/4/2023, DJe de 28/4/2023; e AgRg nos EDcl na PET no REsp n. 1.908.093/PR, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 11/4/2023, DJe de 18/4/2023. Vale ressaltar, ademais, que esta Corte Superior de Justiça pacificou o entendimento de que: "o prequestionamento das teses jurídicas constitui requisito de admissibilidade da via, inclusive em se tratando de matérias de ordem pública, sob pena de incidir em indevida supressão de instância e violação da competência constitucionalmente definida para esta Corte" (AgRg nos EDcl no REsp n. 1.955.005/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 24/4/2023). No que tange ao pedido de indulto com base no Decreto n. 11.846/2023, assim dispôs o acórdão recorrido (fls. 135-138): Extrai-se dos autos que o paciente está preso em cumprimento de pena, totalizada em 15 (quinze) anos, 01 (um) mês e 03 (três) dias, pela prática de diversos delitos. Alega a defesa que o paciente estaria sofrendo constrangimento ilegal, uma vez que a falta disciplinar que ocasionou a suspensão de seu livramento condicional seria decorrente da prática de um suposto delito em que a vítima desistira da representação. Ademais, ainda alega que faria jus a concessão de indulto, nos termos do Decreto n. 11.846/2023. Em informações prestadas a autoridade coatora informou que os pedidos acerca da extinção da punibilidade decorrente da concessão do indulto previsto no Decreto n. 11.846/23, não teriam sido analisados, pois aguardava o parecer do Ministério Público Estadual para proferir decisão. Ademais, quanto à reconsideração das alegações realizadas contra homologação da falta grave, teria sido indeferida ante a ausência de novos fatos. Destarte, através de uma análise mais acurada junto ao SEEU, no seq. 259, foi possível identificar que a autoridade coatora indeferiu o pedido realizado pela defesa do impetrante quanto à concessão do indulto previsto no Decreto n. 11.846/23, por observar um impeditivo para a concessão. Ainda, diante da nova apresentação de pedido de indulto, este referente ao Decreto n. 11.302/22 o juízo primevo determinou a vista ao Ministério Público para manifestação. Assim, percebe-se que a situação do paciente está sendo devidamente acompanhada pelo magistrado a quo, não sendo demostrada nenhuma irregularidade na execução da pena. Confira-se, trecho da decisão supramencionada: "A decisão de seq. 220.1, proferida em audiência de custódia e justificação, suspendeu o benefício de livramento condicional. O Ministério Público requereu se aguarde decisão final sobre o fato que originou o APFD (seq. 222.1). Em seq. 250.1, a defesa requereu a concessão de indulto com base no art. 2º, I do Decreto n. 11.826/23 em relação à pena imposta no processo n. 0002347-87.2015.8.13.0116. base no art. 5º do Decreto n. 11.302/2022 (seq. 258.1). É o relatório. Requerimento e indulto (seq. 250.1) O art. 2º, I do Decreto n. 11.846/2023 elenca os seguintes requisitos para concessão de indulto: a) pena não superior a oito anos; b) crime praticado sem violência ou grave ameaça a pessoa; c) pena não substituída por restritivas de direitos ou por multa; d) não concessão desurcis; e) cumprimento de um quarto ou um terço da pena se primário ou reincidente, respectivamente. A par de tais requisitos, o reeducando deve possuir bom comportamento (art. 6º) e cumprir 2/3 da pena de eventual crime impeditivo, se for o caso (art. 9º). No caso dos autos, há vedação ao indulto em virtude do disposto no art. 9º do decreto. O reeducando foi condenado à pena de 07 anos, 03 meses e 15 dias em razão do delito do art. 33, caput da Lei n. 11.343/06, que é impeditivo nos termos do art. 1º, I do Decreto. Conforme linha do tempo desta execução, o reeducando havia cumprido 44,56% da pena no dia 25/12/ 2023, isso é, não cumpriu os necessários 2/3 (ou 66%) do crime impeditivo. Portanto, o requerimento deve ser indeferido. Ante o exposto: Indefiro o requerimento de indulto com base no Decreto n. 11.846/23 (seq. 250.1); Intime-se o Ministério Público para manifestar-se sobre o requerimento de indulto com base no Decreto n. 11.302/2022 em 05 dias (seq. 258.1); Após, conclusos para decisão sobre seq. 258.1." (seq. 259.1, do SEEU) Como relatado, a defesa impetrou o presente writ, pugnando o restabelecimento do livramento condicional e a concessão do indulto previsto no Decreto n. 11.846/23 em favor do paciente. O habeas corpus é notadamente ação constitucional de natureza penal destinada especificamente à proteção da liberdade de locomoção, quando ameaçada ou violada por ilegalidade ou abuso de poder. Vale salientar também, que o Superior Tribunal de Justiça passou também a restringir as hipóteses de cabimento do habeas corpus, não admitindo que o remédio constitucional seja utilizado em substituição do recurso cabível. Para o enfrentamento de tese jurídica na via restrita imprescindível que haja ilegalidade manifesta, relativa à matéria de direito, cuja constatação seja evidente e independa de análise minuciosa, sendo de rigor a observância de devido processo legal. Assim, o pleito ora exposto, consistente em benefícios relativos à execução da pena, requer ainda um exame aprofundado do acervo probatório, medida inviável na via eleita, pois o impetrante não logrou demonstrar, de plano, fato ou causa que justifique medida diversa. Portanto, a análise dos argumentos trazidos na inicial implicaria um confronto minucioso dos documentos colacionado à execução da pena, bem como das decisões proferidas pelo juízo a quo, o que, repita-se, é inviável em sede de habeas corpus. .. Desta forma, embora busque a defesa benefícios relativos à execução da pena, tenho que tal discussão nesta via estreita é incabível, posto que, efetivamente, não se trata de matéria de habeas corpus. Ademais, nota-se que os direitos do paciente estão sendo observados e o impetrante não logrou demonstrar, de pronto, existência de ilegalidade na decisão do juízo a quo. Com efeito, não há qualquer constrangimento ilegal na hipótese. (grifei) Consoante a jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça, a interpretação extensiva das restrições contidas no decreto concessivo de comutação/indulto de penas consiste, nos termos do art. 84, XII, da Constituição Federal, em invasão à competência exclusiva do Presidente da República, motivo pelo qual, preenchidos os requisitos estabelecidos na norma legal, o benefício deve ser concedido, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade. Nesse sentido: "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. IMPUGNAÇÃO MINISTERIAL. INDULTO. DECRETO 11.302/2022. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 5º REJEITADA. INTERPRETAÇÃO SISTÊMICA DO ART. 5º E DO ART. 11. INEXISTÊNCIA, NO DECRETO PRESIDENCIAL, DE DEFINIÇÃO DE PATAMAR MÁXIMO DE PENA (SEJA EM ABSTRATO OU EM CONCRETO) RESULTANTE DA SOMA OU DA UNIFICAÇÃO DE PENAS, COMO REQUISITO A SER OBSERVADO NA CONCESSÃO DO INDULTO. EXECUTADO QUE PREENCHE OS REQUISITOS POSTOS NO DECRETO PARA OBTER O INDULTO DE DOIS DELITOS DE FURTO SIMPLES PELOS QUAIS CUMPRE PENA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Na dicção do Supremo Tribunal Federal, a concessão de indulto natalino é um instrumento de política criminal e carcerária adotada pelo Executivo, com amparo em competência constitucional, e encontra restrições apenas na própria Constituição que veda a concessão de anistia, graça ou indulto aos crimes de tortura, tráfico de drogas, terrorismo e aos classificados como hediondos. 2. No julgamento da ADI 5.874, na qual se deliberava sobre a constitucionalidade do Decreto n. 9.246/2017, o plenário do Supremo Tribunal Federal, por maioria, afirmou a "Possibilidade de o Poder Judiciário analisar somente a constitucionalidade da concessão da clementia principis, e não o mérito, que deve ser entendido como juízo de conveniência e oportunidade do Presidente da República, que poderá, entre as hipóteses legais e moralmente admissíveis, escolher aquela que entender como a melhor para o interesse público no âmbito da Justiça Criminal". Secundando tal orientação, esta Corte vem entendendo que "O indulto é constitucionalmente considerado como prerrogativa do Presidente da República, podendo ele trazer no ato discricionário e privativo, as condições que entender cabíveis para a concessão do benefício, não se estendendo ao judiciário qualquer ingerência no âmbito de alcance da norma" (AgRg no HC n. 417.366/DF, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 21/11/2017, DJe de 30/11/2017.). (..)" (AgRg no HC n. 824.625/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 26/6/2023, grifei). "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PEDIDO DE SUPERAÇÃO DO ÓBICE DA SÚMULA N. 691 DO STF. INDULTO. DECRETO N. 11.302/2022. NÃO PREENCHIMENTO DO REQUISITO RELATIVO À PENA MÁXIMA EM ABSTRATO. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. (..) 3. O art. 5º do Decreto n. 11.302/2022 prevê que "será concedido indulto natalino às pessoas condenadas por crime cuja pena privativa de liberdade máxima em abstrato não seja superior a cinco anos". 4. Portanto, se a paciente foi condenada pelo crime de furto qualificado, cuja pena máxima em abstrato é de 8 anos, evidencia-se o não preenchimento do requisito previsto no caput do art. 5º do Decreto n. 11.302/2022. 5. Agravo regimental não provido." (AgRg no HC n. 822.644/SC, Sexta Turma, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, DJe de 22/6/2023). Portanto, uma vez preenchidos os requisitos expressamente previstos no Decreto Presidencial, viável será a concessão da benesse. Da mesma forma, ocorre se ausentes os pressupostos, quando a benesse não poderá ser aplicada. No caso concreto, o cerne da demanda se concentra na redação do art. 9º, parágrafo único, do Decreto Presidencial n. 11.846/2023, in verbis: Art. 9º As penas correspondentes a infrações diversas devem somar-se, para efeito da declaração do indulto e da comutação de penas, até 25 de dezembro de 2023. Parágrafo único. Na hipótese de haver concurso com crime descrito no art. 1º, não será declarado o indulto ou a comutação da pena correspondente ao crime não impeditivo enquanto a pessoa condenada não cumprir dois terços da pena correspondente ao crime impeditivo dos benefícios. Desse modo, tendo o recorrente sido condenado como incurso no art. 33, caput da Lei n. 11.343/06, que é impeditivo nos termos do art. 1º, I do Decreto, e não tendo cumprido 2/3 da pena do crime impeditivo até o dia 25/12/ 2023, é inviável a concessão do indulto com base no Decreto Presidencial nº 11.846/2023. Ante o exposto, não constatada a flagrante ilegalidade, nego provimento ao recurso ordinário em habeas corpus. Publique-se. Intimem-se. EMENTA