HC 961606 - DECISAO
Não se conhece do habeas corpus quando utilizado como substitutivo de recurso próprio ou de revisão criminal; contudo, verificando-se flagrante ilegalidade no caso concreto, concede-se a ordem de ofício. A nova redação do §1º do art.112 da LEP, que exige exame criminológico, não se aplica ao fato anterior à sua...
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- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 November 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Em Sede De Habeas Corpus Pela Terceira Seção
- Outcome
- Habeas corpus não conhecido como substitutivo de recurso ou revisão criminal; por ofício, concedida a ordem para que o juízo singular analise o pedido de livramento condicional independentemente da realização do exame criminológico.
- Legal Topics
- Livramento Condicional, Progressão De Regime, Exame Criminológico, Habeas Corpus, Irretroatividade
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Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Em Sede De Habeas Corpus Pela Terceira Seção
Legal Issues
- 1 Necessidade de realização prévia de exame criminológico para concessão de livramento condicional
- 2 Aplicabilidade temporal da nova redação do §1º do art.112 da LEP
- 3 Cabimento do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio ou revisão criminal
Ratio Decidendi
Não se conhece do habeas corpus quando utilizado como substitutivo de recurso próprio ou de revisão criminal; contudo, verificando-se flagrante ilegalidade no caso concreto, concede-se a ordem de ofício. A nova redação do §1º do art.112 da LEP, que exige exame criminológico, não se aplica ao fato anterior à sua vigência quando for mais gravosa; além disso, a decisão de primeiro grau não demonstrou peculiaridade motivadora para exigir o exame criminológico excepcionalmente, nos termos da Súmula 439 do STJ, razão pela qual se determinou que o juízo de origem analise o pedido de livramento condicional independentemente da realização do exame.
Court Disposition
Habeas corpus não conhecido como substitutivo de recurso ou revisão criminal; por ofício, concedida a ordem para que o juízo singular analise o pedido de livramento condicional independentemente da realização do exame criminológico.
Orders
- Determinar que o Juízo singular analise o pedido de livramento condicional independentemente da realização do exame criminológico.
- Comunique-se, com urgência, o teor desta decisão ao Tribunal e ao Juízo de origem.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado contra acórdão assim ementado: Habeas Corpus - Pedido de progressão analisado na origem, com determinação de exame criminológico - Medida necessária à segurança do Juízo sobre o mérito subjetivo Inteligência do art. 112, §1º, da LEP - Constrangimento ilegal não evidenciado - Ordem denegada. O paciente cumpre pena de 4 anos, 3 meses e 17 dias de reclusão, e atingiu o requisito objetivo para a obtenção do livramento condicional. O Juízo singular determinou a realização de exame criminológico para apreciar o pedido de livramento condicional. A defesa alega, em síntese, a ocorrência de constrangimento ilegal, pois a análise do pedido de livramento condicional foi condicionado à prévia realização de exame criminológico com base com na gravidade do delito e na quantidade de pena a cumprir. Assevera que o paciente não cometeu faltas disciplinares no cumprimento da pena. Ao final, requer a concessão da ordem para determinar que o Juízo analise o pedido independentemente da realização do aludido exame. É o relatório. Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024). A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o "habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado" (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. A concessão de ofício da ordem, nos termos dos arts. 647-A e 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade. Analisando-se o conteúdo da documentação colacionada aos autos, verifico a presença de flagrante ilegalidade capaz de fundamentar a concessão da ordem de ofício. A controvérsia posta em julgamento diz respeito à necessidade ou não da realização prévia de exame criminológico para fins de livramento condicional . Para decidir a respeito dessa controvérsia, é preciso, em primeiro lugar, definir qual o arcabouço normativo aplicável ao caso. A nova redação do §1º do art. 112 da Lei de Execuções Penais exige a realização prévia do exame criminológico, ao afirmar: "Em todos os casos, o apenado terá direito à progressão de regime se ostentar boa conduta carcerária, comprovada pelo diretor do estabelecimento, e pelos resultados do exame criminológico, respeitadas as normas que vedam a progressão". No entanto, essa redação não é aplicável ao presente caso. Isso porque as normas relacionadas à execução são de natureza penal e, enquanto tais, somente podem incidir ao tempo do crime, ou seja, no momento em que a ação ou omissão for praticada (art. 4º do CP), salvo se forem mais benéficas ao executando, situação em que terão efeitos retroativos (art. 2º, parágrafo único, do CP). Nesse sentido já decidiu o Supremo Tribunal Federal: AGRAVO INTERNO NO RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSUAL PENAL. EXECUÇÃO PENAL. PROGRESSÃO DE REGIME. LEI Nº 13.964/19. NOVO REGIME DE PROGRESSÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE. AUMENTO DA FRAÇÃO DE CUMPRIMENTO DE PENA EXIGIDA PARA A PROGRESSÃO DE REGIME NOS CRIMES COMUNS. NOVATIO LEGIS IN MALAM PARTEM. DISCIPLINA LEGISLATIVA DISTINTA DA PROGRESSÃO DE REGIME, A DEPENDER DA NATUREZA DO DELITO, COMUM OU HEDIONDO. LEX TERTIA. NÃO CONFIGURAÇÃO. TRATAMENTO LEGAL NÃO UNIFORME DA EXECUÇÃO DAS PENAS DOS CRIMES COMUNS E DOS CRIMES HEDIONDOS. NORMAS QUE INCIDEM AUTONOMAMENTE, E NÃO COORDENADAMENTE, EM CADA ESPÉCIE DELITIVA. VERIFICAÇÃO DA RETROATIVIDADE DA NOVA FRAÇÃO DE PROGRESSÃO, CONSIDERADA A NATUREZA DE CADA DELITO (COMUM OU HEDIONDO). DIREITO FUNDAMENTAL À IRRETROATIVIDADE DA LEI PENAL MAIS GRAVOSA. ARTIGO 5º, XL, DA CONSTITUIÇÃO. VIOLAÇÃO. PRECEDENTES UNÍSSONOS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. DETERMINAÇÃO DE APLICAÇÃO DA NORMA VIGENTE AO TEMPO DO FATO DELITUOSO, QUANTO AO CRIME COMUM, POR SER MAIS BENÉFICA. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. .. . 8. A lei que estabelece requisitos mais gravosos para concessão de progressão de regime não se aplica aos crimes cometidos antes da sua vigência, como ressai da pacífica jurisprudência desta Corte. Precedentes. 9. A reunião, sob um mesmo dispositivo legal, de todas as normas regentes da progressão de regime de delitos de diferentes modalidades, não anula o fato de que a disciplina conferida a crimes comuns e a crimes hediondos continua a ser autônoma. 10. Por esta razão, não incide, no caso, o óbice jurisprudencial que veda a combinação de normas ou de leis, consistente na criação de uma lex tertia. Trata-se de regimes de progressão de pena que receberam, do legislador, tratamento legal independente, cada qual (crimes comuns e crimes hediondos) com seu conjunto específico de normas de regência. Precedentes. 11. Agravo interno desprovido. (RHC 221271 AgR, Relator(a): LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 09-05-2023 - grifos acrescidos). No mesmo sentido, ensina Alexis Couto de Brito: .. . Sempre que a lei voltada à execução penal contiver normativas sancionadoras (novas infrações, novas sanções, pressupostos para liberdade etc.), deverá prevalecer a natureza penal dos princípios e não poderá retroagir exceto para beneficiar o condenado .. (BRITO, Alexis Couto de. Execução penal. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2019, e-book, p. 69) Sendo assim, para o presente caso, aplica-se o entendimento já firmado por esta Corte no enunciado da súmula nº 439: "Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada". A decisão que exigiu a prévia realização de exame criminológico, fundamentou da seguinte forma (e-STJ fl. 70): O sentenciado cumpre pena por crime grave (roubo), cometido mediante violência ou grave ameaça à pessoa e possui alguns anos de pena a cumprir (término da pena previsto para 05/02/2027). Além disso, no caso, não se mostra razoável o simples atestado de bom comportamento carcerário como comprovação da absorção do requisito subjetivo, pois como é de conhecimento comum, o "bom" comportamento é decorrente da simples não anotação de faltas disciplinares ou reabilitação de faltas anteriores. Assim, nesta situação, denota ser necessário a realização de exame mais aprofundado, que forneça com segurança meios de avaliação do requisito subjetivo, especialmente quanto ao reconhecimento da responsabilidade e absorção da terapêutica penal. Extrai-se do trecho que o Juízo de primeira instância não apresentou peculiaridade alguma para exigir, excepcionalmente, o exame criminológico. Sendo assim, não conheço do habeas corpus substitutivo, mas concedo a ordem de ofício para determinar que o Juízo singular analise o pedido de livramento condicional independentemente da realização do exame criminológico. Comunique-se, com urgência, o teor desta decisão ao Tribunal e ao Juízo de origem. Após, ciência ao Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA