REsp 1948491 - DECISAO
O STJ conheceu do agravo e deu provimento ao recurso especial para determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem, por não ser possível à Corte, em recurso especial, reexaminar o conteúdo fático-probatório; assim, ordenou que o tribunal local analise a viabilidade da medida executiva atípica (suspensão da CNH)...
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- Parties
- Recorrente: Jéssica Patrícia Vicente
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 October 2021
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão De Provimento E Determinação De Retorno Ao Tribunal De Origem
- Outcome
- Agravo conhecido para dar provimento ao recurso especial e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem.
- Legal Topics
- Medidas Executivas Atípicas, Art. 139, IV, Cpc/2015, Suspensão Da CNH, Princípio Da Proporcionalidade, Princípio Da Legalidade
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Parties
Jéssica Patrícia Vicente
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão De Provimento E Determinação De Retorno Ao Tribunal De Origem
Legal Issues
- 1 cabimento de medidas executivas atípicas (suspensão da CNH e retenção de passaporte) no cumprimento de obrigação de pagar quantia
- 2 interpretação e aplicação do art. 139, IV, CPC/2015
- 3 necessidade de exaurimento dos meios típicos antes da adoção de medidas atípicas
Ratio Decidendi
O STJ conheceu do agravo e deu provimento ao recurso especial para determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem, por não ser possível à Corte, em recurso especial, reexaminar o conteúdo fático-probatório; assim, ordenou que o tribunal local analise a viabilidade da medida executiva atípica (suspensão da CNH) à luz das diretrizes da jurisprudência do STJ relativas ao art. 139, IV, do CPC/2015, quais sejam a necessidade de exaurimento dos meios típicos, existência de indícios de patrimônio expropriável, subsidiariedade, fundamentação adequada, observância do contraditório e do princípio da proporcionalidade.
Court Disposition
Agravo conhecido para dar provimento ao recurso especial e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem.
Orders
- Retorno dos autos ao Tribunal de origem para que proceda à análise da viabilidade da medida executiva atípica à luz das diretrizes delineadas pela jurisprudência do STJ.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por Jéssica Patrícia Vicente, com fundamento no art. 105, III, a, da Constituição Federal, contra acórdão prolatado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assim ementado (e-STJ, fl. 12): AGRAVO DE INSTRUMENTO. Ação de execução de título extrajudicial. Insurgência contra a r. decisão que indeferiu a suspensão da CNH da executada. Medida que viola os princípios constitucionais da legalidade e da liberdade pessoal. Ausência de relação, direta ou indireta, com os objetivos perseguidos pela execução. Decisão mantida. RECURSO NÃO PROVIDO. Os embargos de declaração foram rejeitados, conforme se verifica da seguinte ementa (e-STJ, fl. 24): EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. Acórdão que não apresenta omissão, contradição, obscuridade ou erro material a ser afastado. EMBARGOS REJEITADOS. Em suas razões de recurso especial (e-STJ, fls. 27-35), a recorrente alega violação do art. 139, IV, do CPC/2015. Sustenta, em síntese, que o acórdão recorrido violou a legislação federal ao indeferir o pedido de suspensão da CNH da parte recorrida, em virtude da possibilidade de utilização de meios indiretos para satisfação do crédito após o esgotamento de outros meios típicos. Não foram apresentadas contrarrazões. O Tribunal de origem admitiu o recurso especial (e-STJ, fls. 38-39). Brevemente relatado, decido. De plano, vale pontuar que o recurso em análise foi interposto na vigência do NCPC, razão pela qual devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma nele prevista, nos termos do Enunciado Administrativo n. 3, aprovado pelo Plenário do STJ na sessão de 9/3/2016: "Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma do novo CPC". Com efeito, observa-se que a atual jurisprudência perfilhada pelas Turmas de Direito Privado do STJ considera, em tese, lícita e possível a adoção de medidas executivas indiretas, desde que, exauridos previamente os meios típicos de satisfação do crédito exequendo, bem como que a medida se afigure adequada, necessária e razoável para efetivar a tutela do direito do credor em face de devedor que, demonstrando possuir patrimônio apto a saldar o débito em cobrança, intente frustrar injustificadamente o processo executivo. Nesse contexto, a Terceira Turma do STJ, por ocasião do julgamento do REsp n. 1.782.418/RJ, alinhavando diretrizes a serem observadas na aplicação do art. 139, IV, do CPC/2015, assentou que "a adoção de meios executivos atípicos é cabível desde que, verificando-se a existência de indícios de que o devedor possua patrimônio expropriável, tais medidas sejam adotadas de modo subsidiário, por meio de decisão que contenha fundamentação adequada às especificidades da hipótese concreta, com observância do contraditório substancial e do postulado da proporcionalidade". Veja a ementa do julgado: RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE COMPENSAÇÃO POR DANO MORAL E REPARAÇÃO POR DANO MATERIAL. CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. QUANTIA CERTA. MEDIDAS EXECUTIVAS ATÍPICAS. ART. 139, IV, DO CPC/15. CABIMENTO. DELINEAMENTO DE DIRETRIZES A SEREM OBSERVADAS PARA SUA APLICAÇÃO. 1. Ação distribuída em 10/6/2011. Recurso especial interposto em 25/5/2018. Autos conclusos à Relatora em 3/12/2018. 2. O propósito recursal é definir se, na fase de cumprimento de sentença, a suspensão da carteira nacional de habilitação e a retenção do passaporte do devedor de obrigação de pagar quantia são medidas viáveis de serem adotadas pelo juiz condutor do processo. 3. O Código de Processo Civil de 2015, a fim de garantir maior celeridade e efetividade ao processo, positivou regra segundo a qual incumbe ao juiz determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou subrogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária (art. 139, IV). 4. A interpretação sistemática do ordenamento jurídico revela, todavia, que tal previsão legal não autoriza a adoção indiscriminada de qualquer medida executiva, independentemente de balizas ou meios de controle efetivos. 5. De acordo com o entendimento do STJ, as modernas regras de processo, ainda respaldadas pela busca da efetividade jurisdicional, em nenhuma circunstância poderão se distanciar dos ditames constitucionais, apenas sendo possível a implementação de comandos não discricionários ou que restrinjam direitos individuais de forma razoável. Precedente específico. 6. A adoção de meios executivos atípicos é cabível desde que, verificando se a existência de indícios de que o devedor possua patrimônio expropriável, tais medidas sejam adotadas de modo subsidiário, por meio de decisão que contenha fundamentação adequada às especificidades da hipótese concreta, com observância do contraditório substancial e do postulado da proporcionalidade. 7. Situação concreta em que o Tribunal a quo indeferiu o pedido do exequente de adoção de medidas executivas atípicas sob o singelo fundamento de que a responsabilidade do devedor por suas dívidas diz respeito apenas ao aspecto patrimonial, e não pessoal. 8. Como essa circunstância não se coaduna com o entendimento propugnado neste julgamento, é de rigor - à vista da impossibilidade de esta Corte revolver o conteúdo fático-probatório dos autos - o retorno dos autos para que se proceda a novo exame da questão. 9. De se consignar, por derradeiro, que o STJ tem reconhecido que tanto a medida de suspensão da Carteira Nacional de Habilitação quanto a de apreensão do passaporte do devedor recalcitrante não estão, em abstrato e de modo geral, obstadas de serem adotadas pelo juiz condutor do processo executivo, devendo, contudo, observar-se o preenchimento dos pressupostos ora assentados. Precedentes. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. (REsp 1.782.418/RJ, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 23/04/2019, DJe 26/04/2019) (grifo nosso) Nesse mesmo sentido: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE EXECUÇÃO DE TÍTULO EXECUTIVO EXTRAJUDICIAL. DÉBITOS LOCATÍCIOS. MEDIDAS EXECUTIVAS ATÍPICAS. ART. 139, IV, DO CPC/15. CABIMENTO. DELINEAMENTO DE DIRETRIZES A SEREM OBSERVADAS PARA A SUA APLICAÇÃO. 1. Ação de execução de título executivo extrajudicial, tendo em vista o inadimplemento de débitos locatícios. 2. Ação ajuizada em 12/05/1999. Recurso especial concluso ao gabinete em 04/09/2020. Julgamento: CPC/2015. 3. O propósito recursal é definir se a suspensão da carteira nacional de habilitação e a retenção do passaporte do devedor de obrigação de pagar quantia são medidas viáveis de serem adotadas pelo juiz condutor do processo executivo. 4. O Código de Processo Civil de 2015, a fim de garantir maior celeridade e efetividade ao processo, positivou regra segundo a qual incumbe ao juiz determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou subrogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária (art. 139, IV). 5. A interpretação sistemática do ordenamento jurídico revela, todavia, que tal previsão legal não autoriza a adoção indiscriminada de qualquer medida executiva, independentemente de balizas ou meios de controle efetivos. 6. De acordo com o entendimento do STJ, as modernas regras de processo, ainda respaldadas pela busca da efetividade jurisdicional, em nenhuma circunstância poderão se distanciar dos ditames constitucionais, apenas sendo possível a implementação de comandos não discricionários ou que restrinjam direitos individuais de forma razoável. Precedente específico. 7. A adoção de meios executivos atípicos é cabível desde que, verificando se a existência de indícios de que o devedor possua patrimônio expropriável, tais medidas sejam adotadas de modo subsidiário, por meio de decisão que contenha fundamentação adequada às especificidades da hipótese concreta, com observância do contraditório substancial e do postulado da proporcionalidade. 8. Situação concreta em que o Tribunal a quo demonstra que há sinais de que o devedor esteja ocultando patrimônio. 9. Dada as peculiaridades do caso concreto, e tendo em vista que i) há a existência de indícios de que o recorrente possua patrimônio apto a cumprir com a obrigação a ele imposta; ii) a decisão foi devidamente fundamentada com base nas especificidades constatadas; iii) a medida atípica está sendo utilizada de forma subsidiária, dada a menção de que foram promovidas diligências à exaustão para a satisfação do crédito; e iv) observou-se o contraditório e o postulado da proporcionalidade; o acórdão recorrido não merece reforma. 10. Recurso especial conhecido e não provido. (REsp 1.894.170/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 27/10/2020, DJe 12/11/2020) No caso em análise, o Tribunal de origem, ao indeferir a medida de suspensão da Carteira Nacional de Habilitação, assim fundamentou (e-STJ, fls. 14-15 - sem grifo no original): É certo que o artigo 139, IV do Código de Processo Civil de 2015 trouxe importante inovação ao processo civil, ao ampliar significativamente os instrumentos coercitivos à disposição do juiz para induzir ao cumprimento de uma ordem judicial e, principalmente, ao estender a aplicação deles às obrigações de pagar quantia certa. Referido dispositivo legal permite ao juiz "determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária". No entanto, a previsão legal não dá ao juiz poder de determinar toda e qualquer medida para forçar o cumprimento da ordem judicial. Afinal, uma medida coercitiva não visa à punição de seu destinatário, mas sim induzi-lo a cumprir o comando pela imposição de determinado prejuízo. Assim, pode-se concluir que a utilização de meios coercitivos atípicos é excepcional e deve se conformar aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, restringindo-se aos casos em que as medidas atípicas tenham algum liame com o objeto da prestação, bem como se mostrem úteis e com efetivo potencial de atingir ao fim pretendido. Aplicar a medida de suspensão da CNH importaria em violação ao princípio da legalidade, nos termos do art. 5º, II, da CF/88, eis que decisão nesse sentido significaria a aplicação de medida indutiva e coercitiva não prevista em lei. Igualmente, não há como interpretar o art. 139, IV, do CPC de modo a permitir a restrição da liberdade pessoal da executada, porquanto não há qualquer previsão legal expressa a autorizar o cerceamento de liberdade da devedora para o inadimplemento de obrigação civil, salvo no caso de pensão alimentícia. Se deferida, a medida deferida se apresentaria absolutamente desproporcional, não guardando qualquer liame com o objeto da prestação. A efetivação dela imporia restrição demasiadamente severa ao devedor, sem nenhuma indicação de que seria eficaz a compeli-lo ao pagamento do débito. Entretanto, as circunstâncias acima destacadas, isoladamente, não se coadunam com o entendimento propugnado pela jurisprudência desta Corte, razão pela qual,considerando a impossibilidade de o STJ, no âmbito do recurso especial, reexaminar o conteúdo fático-probatório da causa, impõe-se o retorno dos autos ao Tribunal local para proceda à análise da adoção das medidas executivas atípicas à luz das diretrizes delineadas pelos retrocitados precedentes. Diante do exposto, agravo conhecido para dar provimento ao recurso especial com vistas a determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que proceda à análise da viabilidade da medida executiva atípica à luz das diretrizes delineadas pela jurisprudência do STJ. Publique-se. EMENTA RECURSO ESPECIAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. INDEFERIMENTO DE SUSPENSÃO DE CNH. MEDIDAS ATÍPICAS. ART. 139, IV, DO CPC/2015. NECESSIDADE DE ANÁLISE DA VIABILIDADE DA MEDIDA À LUZ DAS DIRETRIZES DELINEADAS PELA JURISPRUDÊNCIA DO STJ. DETERMINAÇÃO DE RETORNO DOS AUTOS AO TRIBUNAL DE ORIGEM. AGRAVO CONHECIDO PARA DAR PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL.