RHC 235871 - DECISAO
Negou-se provimento ao habeas corpus porque o acórdão recorrido não é flagrante irrazoabilidade ou ilegalidade, encontrando-se em conformidade com o entendimento do Tema Repetitivo n. 1.249 do STJ: as MPUs têm natureza inibitória, independem de inquérito para sua vigência, sua duração vincula-se à persistência do...
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- Parties
- Paciente: VOLNEI LONGHI ZORRASKI
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 16 April 2026
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Nego provimento ao recurso em habeas corpus, in limine.
- Legal Topics
- Medidas Protetivas De Urgência, Lei Maria Da Penha, Arquivamento Do Inquérito, Duração Das Medidas, Proporcionalidade E Razoabilidade
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Parties
VOLNEI LONGHI ZORRASKI
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Manutenção de medidas protetivas após arquivamento do inquérito
- 2 Necessidade de produção de provas em habeas corpus
- 3 Requisitos para revogação de medidas protetivas (contraditório e oitiva da vítima)
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao habeas corpus porque o acórdão recorrido não é flagrante irrazoabilidade ou ilegalidade, encontrando-se em conformidade com o entendimento do Tema Repetitivo n. 1.249 do STJ: as MPUs têm natureza inibitória, independem de inquérito para sua vigência, sua duração vincula-se à persistência do risco e a revogação exige contraditório e oitivas; além disso, a produção de provas para verificar fatos é incabível na via do habeas corpus.
Court Disposition
Nego provimento ao recurso em habeas corpus, in limine.
Orders
- Nego provimento ao recurso em habeas corpus, in limine.
- Publique-se e intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO VOLNEI LONGHI ZORRASKI alega sofrer coação ilegal diante de acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, que denegou a ordem no HC n. 5046796-46.2026.8.21.7000/RS. Consta dos autos que as medidas de urgência foram fixadas em 27/10/2025, consistentes nas proibições de aproximação e de contato, com fundamento em registro de ocorrência policial lavrado pela vítima para a apuração da suposta contravenção penal de vias de fato, ocasião em que foi instaurado o Inquérito Policial n. 5013236-81.2025.8.21.0038. Apesar do arquivamento do inquérito, não foi deferido o pedido de revogação das medidas protetivas. A defesa sustenta que: a) o último contato do requerente com a ofendida foi uma ligação de vídeo via Whatsapp, não atendida, no dia 3/11/2025, a qual foi realizada com o intuito de falar com o filho menor de idade, b) o fato originário que motivou as medidas teve sua base probatória esvaziada, culminando no arquivamento do inquérito por "dúvida insuperável", c) a autonomia da medida protetiva não é sinônimo de arbitrariedade ou perpetuidade, d) violação dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade e e) inexistência de ligações e/ou mensagens via Whatsapp que fundamentaram a manutenção das medidas protetivas. Requer a revogação das medidas protetivas de urgência impostas no processo n. 5013236-81.2025.8.21.0038. Decido. É possível o avanço para a pronta solução do habeas corpus, com base em precedente vinculante desta Corte. No caso, o ora paciente foi investigado pela contravenção penal consistente em vias de fato. Foi determinado ao postulante proibições de aproximação e de contato, mas o inquérito policial foi arquivado. Todavia, o Juízo de origem, em decisão confirmada pelo Tribunal estadual, manteve as medidas protetivas anteriormente deferidas, em 27/10/2025, de forma excepcional, considerando a declaração da vítima quanto à permanência da situação de risco e a concordância do Ministério Público. Manteve-se o prazo de vigência de seis meses, a contar de 27/10/2025. Extrai-se do acórdão que agentes policiais da Patrulha Maria da Penha, em 3/3/2026, noticiaram que, "mesmo após a ciência inequívoca das medidas restritivas, o paciente passou a realizar "diversas ligações telefônicas, as quais não foram atendidas", embora houvesse proibição de contato "por qualquer meio de comunicação"" (fl. 52). O acórdão recorrido não é flagrantemente ilegal, pois está conforme a tese jurídica fixada no Tema Repetitivo n. 1.249 deste Superior Tribunal de Justiça: As medidas protetivas de urgência (MPUs) têm natureza jurídica de tutela inibitória e sua vigência não se subordina à existência (atual ou vindoura) de boletim de ocorrência, inquérito policial, processo cível ou criminal; II - A duração das MPUs vincula-se à persistência da situação de risco à mulher, razão pela qual devem ser fixadas por prazo temporalmente indeterminado; III - Eventual reconhecimento de causa de extinção de punibilidade, arquivamento do inquérito policial ou absolvição do acusado não origina, necessariamente, a extinção da medida protetiva de urgência, máxime pela possibilidade de persistência da situação de risco ensejadora da concessão da medida; IV - Não se submetem a prazo obrigatório de revisão periódica, mas devem ser reavaliadas pelo magistrado, de ofício ou a pedido do interessado, quando constatado concretamente o esvaziamento da situação de risco. A revogação deve sempre ser precedida de contraditório, com as oitivas da vítima e do suposto agressor. Em caso de extinção da medida, a ofendida deve ser comunicada, nos termos do art. 21 da Lei n. 11.340/2006. Com efeito, são irrelevantes as alegações de necessidade de convívio com os filhos, decurso de tempo e de arquivamento parcial do inquérito, pois prevalece a compreensão de que: RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. RITO DOS RECURSOS REPETITIVOS. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER. TEMA N. 1249. MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA. NATUREZA JURÍDICA. TUTELA INIBITÓRIA. CONTEÚDO SATISFATIVO. VIGÊNCIA DA MEDIDA NÃO SE SUBORDINA À EXISTÊNCIA DE BOLETIM DE OCORRÊNCIA, INQUÉRITO POLICIAL, PROCESSO CÍVEL OU CRIMINAL. IMPOSSIBILIDADE DE FIXAÇÃO DE PRAZO PREDETERMINADO. DURAÇÃO SUBORDINADA À PERSISTÊNCIA DA SITUAÇÃO DE RISCO. RECURSO PROVIDO. 1. A Lei Maria da Penha foi fruto de uma longa e custosa luta de setores da sociedade civil para que o Estado brasileiro oferecesse às mulheres um conjunto de mecanismos capaz de assegurar a elas, em situações de violência doméstica, efetiva proteção e assistência. 2. Em verdade - e isso deve ser tomado como uma necessária premissa a nortear qualquer avaliação e interpretação da Lei n. 11.343/2006 - o ingresso dessa lei no ordenamento jurídico resultou na criação de um microssistema dentro do sistema de justiça criminal, cujas características são únicas, em alguns pontos não coincidentes com as categorias e institutos usualmente presentes em outras áreas do Direito. 3. Daí por que se deve extrair o máximo possível de extensão semântica às medidas protetivas de urgência, como medida inovadora na legislação brasileira, idônea e necessária para maximizar a proteção estatal às mulheres vítimas de algum tipo de violência doméstica, mas que também ultrapassa a esfera do Direito Penal e avança no desejado equilíbrio nas relações de gênero em nossa sociedade. 4. Sob tal consideração inicial, cumpre registrar que as medidas protetivas previstas na Lei n. 11.340/2006, por visarem resguardar a integridade física e psíquica da ofendida, possuem conteúdo satisfativo, e não se vinculam, necessariamente, a um procedimento principal. Elas têm como objeto a proteção da vítima e devem permanecer enquanto durar a situação de perigo. 5. O Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, do Conselho Nacional de Justiça, afirma que as medidas protetivas de urgência "são autônomas em relação ao processo principal, com dispensa da vítima quanto ao oferecimento de representação em ação penal pública condicionada". Em igual direção, o Enunciado n. 37 do FONAVID (Fórum Nacional de Juízas e Juízes de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher): "A concessão da medida protetiva de urgência não está condicionada à existência de fato que configure, em tese, ilícito penal." 6. Tal posição foi partilhada pelo legislador com a publicação da Lei n. 14.550/2023, que incluiu o parágrafo 5º no art. 19 da Lei Maria da Penha para afirmar que "As medidas protetivas de urgência serão concedidas independentemente da tipificação penal da violência, do ajuizamento de ação penal ou cível, da existência de inquérito policial ou do registro de boletim de ocorrência". 7. Diante do exposto, não é possível vincular, a priori, a ausência de um processo penal ou inquérito policial à inexistência de um quadro de ameaça à integridade da mulher. É certo que há razões múltiplas, para além da inexistência de uma efetiva situação de risco, que podem justificar o não ajuizamento de uma ação penal. 8. A configuração das medidas protetivas, portanto, deve ser considerada como tutela inibitória, porquanto tem por escopo proteger a ofendida, independentemente da existência de inquérito policial ou ação penal, não sendo necessária a realização de um dano, tampouco a prática de uma conduta criminalizada. 9. Sobre o prazo de duração das medidas, a Carta da XVIII Jornada Lei Maria da Penha, documento produzido em evento organizado pelo Conselho Nacional de Justiça, recomenda que "na aplicação da Lei Maria da Penha, seja assegurada sua finalidade preventiva e protetiva, sem fixação de prazo de vigência das medidas protetivas de urgência, que devem persistir enquanto perdurar o risco à integridade física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral da ofendida e seus dependentes, podendo ser reavaliada a qualquer tempo". 10. É desse mesmo jaez o entendimento retratado na Lei Maria da Penha com a inclusão do art. 19, § 6º, pela Lei n. 14.550/2023, que estabelece que "as medidas protetivas de urgência vigorarão enquanto persistir risco à integridade física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral da ofendida ou de seus dependentes". 11. É dizer, apesar do caráter provisório inerente às medidas protetivas de urgência, não há como quantificar, de antemão, em dias, semanas, meses ou anos, o tempo necessário à cessação do risco, a fim de romper com o ciclo de violência instaurado. 12. Com efeito, a fim de se evitar a perenização das medidas, a pessoa interessada, quando entender não mais ser pertinente a tutela inibitória, poderá provocar o juízo de origem a se manifestar e este, ouvindo a vítima, decidirá acerca da manutenção ou extinção da medida protetiva. Em caso de extinção da medida, a ofendida deve ser comunicada, nos termos do art. 21 da Lei n. 11.340/2006. 13. O que não é adequado, e muito menos conforme ao desejo de proteção e acolhimento da mulher vítima de violência em razão do gênero, é dela exigir um reforço periódico de seu desejo de manter-se sob a proteção de uma MPU. A renovação de sua iniciativa - dirigir-se ao Fórum ou à Delegacia de Polícia para insistir, a cada 3 ou 6 meses, na manutenção da medida protetiva - implicaria uma revitimização e, consequentemente, uma violência institucional que precisa ser coibida. 14. A iniciativa para eventual revisão ou mesmo retirada da Medida Protetiva de Urgência deve partir de quem esteja sob o compromisso de abster-se de algum ato que possa turbar a tranquilidade ou segurança da ofendida, hipótese em que esta será ouvida antes de uma decisão judicial. 15. .. 16. Recurso especial provido para clarificar que a duração das medidas protetivas deve perdurar pelo tempo necessário à cessação do risco, sem fixação de prazo certo de validade, e sem vinculação com a existência ou permanência de inquérito policial ou ação penal. Fixação das seguintes teses: I - As medidas protetivas de urgência (MPUs) têm natureza jurídica de tutela inibitória e sua vigência não se subordina à existência (atual ou vindoura) de boletim de ocorrência, inquérito policial, processo cível ou criminal. II - A duração das MPUs vincula-se à persistência da situação de risco à mulher, razão pela qual devem ser fixadas por prazo temporalmente indeterminado; III - Eventual reconhecimento de causa de extinção de punibilidade, arquivamento do inquérito policial ou absolvição do acusado não origina, necessariamente, a extinção da medida protetiva de urgência, máxime pela possibilidade de persistência da situação de risco ensejadora da concessão da medida. IV - Não se submetem a prazo obrigatório de revisão periódica, mas devem ser reavaliadas pelo magistrado, de ofício ou a pedido do interessado, quando constatado concretamente o esvaziamento da situação de risco. A revogação deve sempre ser precedida de contraditório, com as oitivas da vítima e do suposto agressor. Em caso de extinção da medida, a ofendida deve ser comunicada, nos termos do art. 21 da Lei n. 11.340/2006. (REsp n. 2.070.863/MG, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, relator para acórdão Ministro Rogerio Schietti Cruz, Terceira Seção, julgado em 13/11/2024, DJEN de 25/3/2025 - grifei). Para averiguar se são, ou não, verídicas as declarações da vítima, seria indispensável a produção e o exame de provas, providência incabível na via eleita. À vista do ex posto, nego provimento ao recurso em habeas corpus, in limine. Publique-se e intimem-se. EMENTA