RHC 215807 - DECISAO
Negou‑se a ordem porque as medidas protetivas da Lei n. 11.340/2006 possuem duração indeterminada vinculada à persistência do risco e sua revogação exige prova concreta da alteração das circunstâncias, com prévia manifestação da vítima; no caso concreto o juízo de origem manteve as medidas ante a informação de risco...
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- Parties
- Recorrente: ESMERINDO FERREIRA MARQUES; Recorrente: INGRID ARAÚ JO; Ofendida: ANA ROSA DOS SANTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 21 May 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Denegatória Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- denegada a ordem (nego provimento ao recurso em habeas corpus)
- Legal Topics
- Medidas Protetivas De Urgência, Lei Maria Da Penha, Habeas Corpus, Revogação De Medidas Protetivas
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Parties
ESMERINDO FERREIRA MARQUES
Recorrente
INGRID ARAÚ JO
Recorrente
ANA ROSA DOS SANTOS
Ofendida
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Denegatória Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Manutenção e revogação de medidas protetivas de urgência
- 2 Necessidade de comprovação concreta para revogação de medidas protetivas
- 3 Limites do habeas corpus para reexame de fatos e provas
Ratio Decidendi
Negou‑se a ordem porque as medidas protetivas da Lei n. 11.340/2006 possuem duração indeterminada vinculada à persistência do risco e sua revogação exige prova concreta da alteração das circunstâncias, com prévia manifestação da vítima; no caso concreto o juízo de origem manteve as medidas ante a informação de risco pela vítima e determinação de estudo técnico, e o habeas corpus não é meio adequado para reexaminar fatos e provas, razão pela qual se denegou a ordem.
Court Disposition
denegada a ordem (nego provimento ao recurso em habeas corpus)
Orders
- DENEGO A ORDEM.
- Publique-se. Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso em habeas corpus com pedido liminar interposto por ESMERINDO FERREIRA MARQUES e INGRID ARAÚ JO contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO. Consta dos autos que os recorrentes estão submetidos a medidas protetivas de urgência, concedidas em 18/1/2023, que determinam a manutenção de distância mínima de 500 m de Ana Rosa dos Santos, além da proibição de contato e de frequentar os mesmos locais que a ofendida. Os recorrentes sustentam que as medidas protetivas foram concedidas com base em uma narrativa inverídica, fora do contexto de menosprezo ou discriminação à condição de mulher, que autorizaria o manejo da Lei n. 11.340/2006 (Lei Maria da Penha). Destacam que, na audiência de acolhimento realizada em 4/12/2024, o Magistrado reconheceu a inexistência de risco em relação à solicitante, declarando a incompetência da Vara de Violência Doméstica contra a mulher para gerir o feito. Ressaltam que as medidas protetivas vigem há mais de 2 anos, sem que a solicitante tenha apresentado provas concretas e contemporâneas que justifiquem sua manutenção. Asseveram que a solicitante, Ana Rosa dos Santos, tem interesse puramente patrimonial, buscando afastar os recorrentes de um estabelecimento comercial cuja posse pertence à recorrente Ingrid Araújo. Afirmam que a ofendida não se encontra em situação de risco e que os recorrentes não têm realizado nenhuma forma de contato ou aproximação. Requerem, liminarmente e no mérito, a revogação das medidas protetivas concedidas há mais de dois anos. É o relatório. O Superior Tribunal de Justiça possui o entendimento de que as medidas protetivas da Lei Maria da Penha diferem das cautelares tradicionais por não terem prazo de vigência determinado, sendo mantidas enquanto persistir a ameaça à vítima. Ainda, firmou a compreensão de que a revogação ou modificação das medidas protetivas de urgência exige comprovação concreta da alteração das circunstâncias que levaram à sua concessão, não sendo possível a extinção automática baseada em mera presunção temporal. Nesse sentido: REsp n. 2.066.642/MG, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 13/8/2024, DJe de 4/10/2024; e AgRg nos EDcl no AREsp n. 2.422.628/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 11/4/2024. O Juízo de primeiro grau prorrogou as medidas protetivas de urgência, o que foi mantido pelo Tribunal de origem, nos termos a seguir (fls. 132-133, grifei): Quanto ao mérito, a impetrante alega que os pacientes vêm sofrendo constrangimento ilegal, pois possuem um estabelecimento comercial, anexo à residência da ofendida, de que não podem fazer uso, em razão da decisão combatida. Argumenta ainda, que a paciente INGRID é filha da vítima ANA ROSA DOS SANTOS e que a posse do imóvel, objeto da discussão, já foi resolvida através de processo judicial cível, reconhecendo o direito daquela em usufruir do bem, inclusive, com a manutenção do seu comércio. Acerca dos fatos, colhe-se da narrativa constante no requerimento de medida protetiva (id 11387858), que os pacientes são filha e genro da ofendida e que pelo fato não ter sido realizado inventário e a partilha, constantemente, invadem o imóvel em que reside a vítima, proferindo ameaças, com o intuito puramente financeiro. Em vista de tais circunstâncias, em 18/01/2023, o Magistrado deferiu medidas protetivas de proibição de contato, por qualquer meio de comunicação, e aproximação da vítima, mantendo uma distância de 500 (quinhentos) metros, proibindo ainda de frequentaram o mesmo local/ambiente onde a ofendida frequente. Feitas estas considerações, tenho que devem ser mantidas as referidas medidas protetivas, uma vez que, na audiência realizada no dia 04/12/2024, a vítima informou, que ainda continua em situação de risco, tanto é que o Magistrado determinou a realização de estudo pela equipe multidisciplinar, a fim averiguar a situação familiar. Desse modo, até que seja concluído o estudo pela equipe técnica, tais medidas devem ser mantidas, a fim de resguardar a integridade física e psicológica da vítima. .. Por fim, acerca da alegação defensiva de que a vítima teria apresentado o pedido de medidas protetivas apenas para impedir o ingresso dos pacientes no imóvel, uma vez que seriam possuidores do bem e lá funcionaria um ponto comercial em que trabalhavam, tenho que tal discussão é afeta ao mérito do procedimento de origem, cabendo ao Juízo de 1º Grau a sua análise. Isto posto, DENEGO A ORDEM. Assim, não compete ao Superior Tribunal de Justiça avaliar a necessidade e adequação das medidas protetivas à luz da permanência do risco concreto à vítima, pois isso demandaria um exame aprofundado de fatos e provas, o que não é permitido no âmbito do habeas corpus. Nesse sentido: AgRg no HC n. 813.923/MG, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe 16/8/2023; AgRg no RHC n. 190.102/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 11/3/2024, DJe de 14/3/2024; AgRg no HC n. 567.753/DF, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 8/9/2020, DJe 22/9/2020; e AgRg no HC n. 868.057/GO, relator Ministro Jesuíno Rissato -Desembargador convocado do TJDFT, Sexta Turma, julgado em 12/3/2024, DJe de 18/3/2024. Não bastasse isso, esta Corte Superior de Justiça enfrentou a matéria aqui discutida no Tema repetitivo n. 1.249, tendo fixado as seguintes teses: I - As medidas protetivas de urgência (MPUs) têm natureza jurídica de tutela inibitória e sua vigência não se subordina à existência (atual ou vindoura) de boletim de ocorrência, inquérito policial, processo cível ou criminal. II - A duração das MPUs vincula-se à persistência da situação de risco à mulher, razão pela qual devem ser fixadas por prazo temporalmente indeterminado. III - Eventual reconhecimento de causa de extinção de punibilidade, arquivamento do inquérito policial ou absolvição do acusado não origina, necessariamente, a extinção da medida protetiva de urgência, máxime pela possibilidade de persistência da situação de risco ensejadora da concessão da medida. IV - Não se submetem a prazo obrigatório de revisão periódica, mas devem ser reavaliadas pelo magistrado, de ofício ou a pedido do interessado, quando constatado concretamente o esvaziamento da situação de risco. A revogação deve sempre ser precedida de contraditório, com as oitivas da vítima e do suposto agressor. Em caso de extinção da medida, a ofendida deve ser comunicada, nos termos do art. 201, § 2º, do CPP. Desse modo, as medidas protetivas da Lei Maria da Penha independem de boletim de ocorrência, inquérito ou processo judicial e devem ser mantidas enquanto persistir a ameaça à integridade da vítima, não possuindo prazo de vigência predeterminado. Somado a isso, sua revogação não pode ocorrer de forma automática, com base em mera presunção decorrente da passagem do tempo, sendo indispensável a comprovação concreta da alteração das circunstâncias que motivaram sua concessão, mediante prévia manifestação da vítima. Ante o exposto, nos termos do art. 34, XVIII, b, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, nego provimento ao recurso em habeas corpus. Publique-se. Intimem-se. EMENTA