REsp 2177408 - DECISAO
Havendo nos autos comprovação do envio e da entrega da notificação por e-mail ao endereço eletrônico informado pelo credor ao banco de dados, a jurisprudência recente do STJ reconhece a validade da comunicação eletrônica para fins do art. 43, § 2º, do CDC; assim, a notificação considerada válida afasta a falta de...
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- Parties
- Recorrente: BOA VISTA SERVICOS S.A.
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 30 October 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgado Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Recurso especial provido; acórdão recorrido reformado; reconhecida a validade da notificação por e-mail; pedido de indenização por danos morais julgado improcedente; ônus da sucumbência invertido.
- Legal Topics
- Notificação Prévia, Inscrição Em Cadastro De Inadimplentes, Meio Eletrônico (e Mail), Danos Morais in Re Ipsa, Honorários Advocatícios, Ônus Da Sucumbência
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Parties
BOA VISTA SERVICOS S.A.
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgado Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Validade da notificação prévia por e-mail para fins do art. 43, § 2º do Código de Defesa do Consumidor
- 2 Caracterização de dano moral pela inscrição em cadastro de proteção ao crédito quando notificação prévia não observada
- 3 Necessidade de comprovação do envio e da entrega da notificação eletrônica
Ratio Decidendi
Havendo nos autos comprovação do envio e da entrega da notificação por e-mail ao endereço eletrônico informado pelo credor ao banco de dados, a jurisprudência recente do STJ reconhece a validade da comunicação eletrônica para fins do art. 43, § 2º, do CDC; assim, a notificação considerada válida afasta a falta de prévia notificação que motivou a condenação por danos morais, impondo o provimento do recurso especial para reformar o acórdão recorrido e julgar improcedente o pedido de indenização por danos morais, com inversão dos ônus da sucumbência.
Court Disposition
Recurso especial provido; acórdão recorrido reformado; reconhecida a validade da notificação por e-mail; pedido de indenização por danos morais julgado improcedente; ônus da sucumbência invertido.
Orders
- Dou provimento ao recurso especial para, reformando o acórdão recorrido, reconhecer validade da notificação remetida por e-mail ao consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes.
- Julgar improcedente o pedido de condenação ao pagamento de indenização por danos morais.
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DECISÃO Trata-se de recurso especial, interposto por BOA VISTA SERVICOS S.A., com amparo nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, no intuito de reformar o acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul, assim resumido (fl. 240, e-STJ): EMENTA - APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DECLARATÓRIA C/C INDENIZAÇÃO DE DANOS MORAIS - INSCRIÇÃO EM CADASTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO - INDEVIDA - NOTIFICAÇÃO PRÉVIA E VIA POSTAL - NÃO COMPROVADA - DANO MORAL IN RE IPSA - DEMONSTRADO - DEVIDO - VALOR MANTIDO - HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS - MANTIDO - RECURSOS CONHECIDOS E NÃO PROVIDOS. Os arts. 5º, inc. XXXII, e 170, inc. V, da Constituição Federal garantem a defesa do consumidor, nos termos da lei. O art. 43 da Lei nº 8.070/1990 (Código de Defesa do Consumidor) prevê, dentre outras, que o consumidor deverá ser previamente notificado por via postal, no endereço fornecido pelo credor, o que é de responsabilidade do órgão mantenedor de cadastro de proteção ao crédito, a respeito de apontamentos em bancos de dados ou cadastros, cujas informações são de responsabilidade exclusiva do credor (STJ: Recurso Especial nº 1.083.291/RS (recurso repetitivo) (Tema 59); Súmulas nº 359 e 404). São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação, nos termos do art. 5º, inc. X, da Constituição Federal. Caracteriza-se o dano moral in re ipsa a inscrição ou a manutenção indevida do consumidor em cadastro de proteção ao crédito, por ofensa aos direitos da personalidade, consoante o art. 12 do Código Civil. O valor da condenação deve se afastar do irrisório ou do exorbitante, casos em que pode ser revisto. Jurisprudência dominante do Superior Tribunal de Justiça. (STJ: Recursos Especiais nº 1.062.336/RS e 1.061.134/RS (recurso repetitivo) (Temas 37, 40 e 41) e Recurso Especial nº 1.444.469/DF (recurso repetitivo) (Tema 806); Súmula nº 385). O Superior Tribunal de Justiça, nos julgamentos dos Recursos Especiais nº 1.850.512/SP, 1.877.883/SP, 1.906.623/SP e 1.906.618/SP (recursos repetitivos) (Tema 1.076), fixou a seguinte tese: 1) A fixação dos honorários por apreciação equitativa não é permitida quando os valores da condenação ou da causa, ou o proveito econômico da demanda, forem elevados. É obrigatória, nesses casos, a observância dos percentuais previstos nos parágrafos 2º ou 3º do artigo 85 do Código de Processo Civil (CPC) - a depender da presença da Fazenda Pública na lide -, os quais serão subsequentemente calculados sobre o valor: (a) da condenação; ou (b) do proveito econômico obtido; ou (c) do valor atualizado da causa. 2) Apenas se admite o arbitramento de honorários por equidade quando, havendo ou não condenação: (a) o proveito econômico obtido pelo vencedor for inestimável ou irrisório; ou (b) o valor da causa for muito baixo. Recursos conhecidos e não providos. Nas razões do recurso especial (fls. 259/274, e-STJ), a recorrente aponta, além de dissídio jurisprudencial, ofensa ao art. 43, § 2º, do CDC. Sustenta, em suma, a validade da notificação prévia do devedor acerca de sua inscrição em cadastro restritivo de crédito por meio eletrônico, via e-mail. Sem contrarrazões (certidão de fl. 379, e-STJ), e após decisão de admissão do recurso especial (fls. 381/386, e-STJ), os autos ascenderam a esta egrégia Corte de Justiça. É o relatório. Decido. A irresignação merece prosperar. 1. Confirmando os fundamentos que embasaram a decisão exarada pelo magistrado de primeiro grau, compreendeu a Corte de origem ser inválida a notificação prévia do devedor acerca de sua inscrição em cadastro restritivo de crédito via e-mail. É o que se extrai do seguinte trecho do acórdão recorrido (fls. 243/248, e-STJ): Nos termos do art. 43, § 3º, da Lei nº 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor), a notificação prévia, que é de responsabilidade do órgão mantenedor de cadastro de proteção ao crédito, visa possibilitar ao consumidor o conhecimento exato da informação arquivada, que é de responsabilidade do credor, permitindo sua impugnação ou a regularização, por exemplo, de eventual pendência comercial com o fornecedor que solicitou o apontamento. A respeito da notificação, frise-se que não há autorização legal ou regulamentar para o envio eletrônico. Na verdade, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça a esse respeito afirma que tal notificação deve ser enviada por via postal, ainda que sem aviso de recebimento. (..) Constata-se que há comprovação que o órgão mantenedor do cadastro de proteção ao crédito enviou a notificação por meio eletrônico (e-mail, aplicativo de mensagem etc.) ao consumidor (f. 102/107). Interpretando-se a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça a respeito do tema, concluo que não há permissão legal ou regulamentar para o envio eletrônico da notificação, uma vez que a dispensa da obrigatoriedade do aviso de recebimento implica na via postal como a única admitida para a efetiva e prévia notificação do consumidor, desde que enviada para o endereço fornecido pelo credor. (..) Assim, não cumprida obrigação por parte do órgão mantenedor do cadastro de proteção ao crédito, consistente na devida e prévia notificação via postal do consumidor, impõe-se a condenação em danos morais. 2. Todavia, em pronunciamento recente, exarado nos autos do REsp 2.063.145-RS, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, a Quarta Turma desta Colenda Corte, por maioria, definiu que é válida a comunicação remetida por e-mail para fins de notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes, desde que comprovado o envio e entrega da comunicação ao servidor de destino. Eis a ementa do referido julgado: RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO INDENIZATÓRIA. INSCRIÇÃO EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. ARTIGO 43, § 2º, DO CDC. PRÉVIA NOTIFICAÇÃO. POSSIBILIDADE DE ENVIO DA COMUNICAÇÃO ESCRITA POR E-MAIL. SUFICIÊNCIA DA COMPROVAÇÃO DO ENVIO E ENTREGA DO E-MAIL NO SERVIDOR DE DESTINO. RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO. 1. Cinge-se a controvérsia a definir a validade ou não da comunicação remetida por e-mail ao consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes para fins de atendimento ao disposto no art. 43, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor. 2. O dispositivo legal determina que a abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele. 3. Considerando que é admitida até mesmo a realização de atos processuais, como citação e intimação, por meio eletrônico, inclusive no âmbito do processo penal, é razoável admitir a validade da comunicação remetida por e-mail para fins de notificação prevista no art. 43, § 2º, do CDC, desde que comprovado o envio e entrega da comunicação ao servidor de destino. 4. Assim como ocorre nos casos de envio de carta física por correio, em que é dispensada a prova do recebimento da correspondência, não há necessidade de comprovar que o e-mail enviado foi lido pelo destinatário. 5. Comprovado o envio e entrega de notificação remetida ao e-mail do devedor constante da informação enviada ao banco de dados pelo credor, está atendida a obrigação prevista no art. 43, § 2º, do CDC. 6. Na hipótese, o Tribunal local consignou, de forma expressa, que foi comprovado o envio de notificação ao endereço eletrônico fornecido pelo credor associado cientificando o consumidor e sua efetiva entrega à caixa de e-mail do destinatário. 7. Modificar a premissa fática estabelecida no acórdão recorrido de que houve o envio e entrega da notificação por e-mail demandaria o reexame de fatos e provas dos autos, providência vedada em recurso especial. 8. Recurso especial a que se nega provimento. (REsp n. 2.063.145/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 14/3/2024, DJe de 7/5/2024.) Neste mesmo sentido: AGRAVO INTERNO. RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. AÇÃO INDENIZATÓRIA. INSCRIÇÃO EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. ARTIGO 43, § 2º, DO CDC. PRÉVIA NOTIFICAÇÃO. POSSIBILIDADE DE ENVIO DA COMUNICAÇÃO ESCRITA POR E-MAIL. SUFICIÊNCIA DA COMPROVAÇÃO DO ENVIO E ENTREGA DO E-MAIL NO SERVIDOR DE DESTINO. PRECEDENTE DA QUARTA TURMA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. A Quarta Turma desta Corte Superior decidiu que é válida a comunicação remetida por e-mail para fins de notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes, desde que comprovados o envio e a entrega da comunicação ao servidor de destino (REsp n. 2.063.145/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 14/3/2024, DJe de 7/5/2024). 2. Na hipótese, o Tribunal local concluiu que a parte ré trouxe documentação suficiente que comprova a notificação por meio eletrônico. 3. Modificar a premissa fática estabelecida no acórdão recorrido de que houve o envio e a entrega da notificação por e-mail demandaria o reexame de fatos e provas dos autos, providência vedada em recurso especial. 4. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no REsp n. 2.099.270/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 30/9/2024, DJe de 3/10/2024.) RECURSO ESPECIAL. CONSUMIDOR. AÇÃO DE CANCELAMENTO DE REGISTRO CUMULADA COM INDENIZATÓRIA. REGISTRO DO NOME DO CONSUMIDOR EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. NOTIFICAÇÃO PRÉVIA. MENSAGEM DE TEXTO DE CELULAR. POSSIBILIDADE. ENVIO E ENTREGA DA NOTIFICAÇÃO. COMPROVAÇÃO. REGULARIDADE DEMONSTRADA. RECURSO DESPROVIDO. 1. O propósito recursal consiste em definir se a notificação prévia enviada ao consumidor, acerca do registro do seu nome em cadastro de inadimplentes, pode se dar por meio eletrônico, à luz do art. 43, § 2º, do CDC. 2. Nos termos do art. 43, § 2º, do CDC, a validade da notificação ao consumidor - acerca do registro do seu nome em cadastro de inadimplentes - pressupõe a forma escrita, legalmente prevista, e a anterioridade ao efetivo registro, como se depreende da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça sintetizada na Súmula 359/STJ. 3. Nos termos da Súmula 404/STJ e do Tema repetitivo 59/STJ (REsp n. 1.083.291/RS), afigura-se prescindível a comprovação do recebimento da comunicação pelo consumidor, bastando apenas que se comprove o envio prévio para o endereço por ele informado ao fornecedor do produto ou serviço, em razão do silêncio do diploma consumerista. 4. Considerando a regra vigente no ordenamento jurídico pátrio - de que a comunicação dos atos processuais, através da citação e da intimação, deve ser realizada pelos meios eletrônicos, que, inclusive, se aplica ao processo penal, nos termos da jurisprudência deste Tribunal, com mais razão deve ser admitido o meio eletrônico como regra também para fins da notificação do art. 43, § 2º, do CDC, desde que comprovados o envio e o recebimento no e-mail ou no número de telefone (se utilizada a mensagem de texto de celular ou o aplicativo whatsapp) informados pelo consumidor ao credor. 5. No contexto atual da sociedade brasileira, marcado por intenso e democrático avanço tecnológico, com utilização, por maciça camada da população, de dispositivos eletrônicos com acesso à internet, na quase totalidade do território nacional, constata-se que não subsiste a premissa fática na qual se baseou a Terceira Turma nos precedentes anteriores, que vedavam a utilização exclusiva dos meios eletrônicos. 6. Portanto, a notificação prévia do consumidor acerca do registro do seu nome no cadastro de inadimplentes, nos termos do art. 43, § 2º, do CDC, pode ser realizada por meio eletrônico, desde que devidamente comprovados o envio e a entrega da notificação, realizados por e-mail, mensagem de texto de celular (SMS) ou até mesmo pelo aplicativo whatsapp. 7. Recurso especial desprovido. (REsp n. 2.092.539/RS, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 17/9/2024, DJe de 26/9/2024.) AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL - AÇÃO CONDENATÓRIA - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE DEU PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA RECURSAL DA PARTE DEMANDADA. 1. No julgamento do REsp 2.063.145-RS, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por maioria, julgado em 14/3/2024, restou definido que "É válida a comunicação remetida por e-mail para fins de notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes, desde que comprovado o envio e entrega da comunicação ao servidor de destino". 1.1. No caso concreto, o acórdão recorrido não revela se houve, ou não, comprovação do envio e da entrega da comunicação ao servidor de destino. Dessa forma, é necessário o retorno dos autos à origem para que o Tribunal estadual verifique se houve ou não a comprovação exigida, e profira novo julgamento à luz da jurisprudência desta Corte Superior. 2. Agravo interno desprovido. (AgInt no REsp n. 2.111.655/RS, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 26/8/2024, DJe de 29/8/2024.) Portanto, conforme destacado no aresto recorrido, "há comprovação que o órgão mantenedor do cadastro de proteção ao crédito enviou a notificação por meio eletrônico (e-mail, aplicativo de mensagem etc.) ao consumidor (f. 102/107)" - fl. 247 (e-STJ). Por conseguinte, há de ser considerada válida a referida notificação, nos termos da hodierna orientação jurisprudencial adotada por esta Colenda Corte. 3. Do exposto, com amparo no artigo 932 do NCPC c/c a súmula 568/STJ, dou provimento ao recurso especial para, reformando o acórdão recorrido, reconhecer validade da notificação remetida por e-mail ao consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes e, consequentemente, julgar improcedente o pedido de condenação ao pagamento de indenização por danos morais, invertendo-se os ônus da sucumbência. Publique-se. Intimem-se. EMENTA