AREsp 2737141 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial, reformando o acórdão recorrido por entender que a notificação prévia exclusiva por meio eletrônico é insuficiente à luz do art. 43, §2º, do CDC e da súmula 568/STJ, determinando-se o cancelamento da inscrição por ausência de notificação válida e o...
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- Parties
- Agravante: LUIZ CARLOS PERES; Agravado: empresa Serasa
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 24 February 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão
- Outcome
- Agravo conhecido e provido para dar provimento ao recurso especial, reformar o aresto recorrido e determinar o cancelamento da inscrição mencionada na exordial por ausência de notificação válida.
- Legal Topics
- Notificação Prévia, Cadastro Restritivo De Crédito, Notificação Por E Mail, Dano Moral
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Parties
LUIZ CARLOS PERES
Agravante
empresa Serasa
Agravado
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão
Legal Issues
- 1 se a notificação prévia ao consumidor acerca da inscrição em cadastro restritivo pode ser realizada exclusivamente por e-mail
- 2 obrigatoriedade de envio de correspondência ao endereço do consumidor antes da inscrição
- 3 consequências da ausência de notificação válida, inclusive cancelamento da inscrição e reparação por danos morais
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial, reformando o acórdão recorrido por entender que a notificação prévia exclusiva por meio eletrônico é insuficiente à luz do art. 43, §2º, do CDC e da súmula 568/STJ, determinando-se o cancelamento da inscrição por ausência de notificação válida e o retorno dos autos à origem para análise do pedido de danos morais.
Court Disposition
Agravo conhecido e provido para dar provimento ao recurso especial, reformar o aresto recorrido e determinar o cancelamento da inscrição mencionada na exordial por ausência de notificação válida.
Orders
- Determinar o cancelamento da inscrição mencionada na exordial por ausência de notificação válida.
- Determinar o retorno dos autos à origem para que seja analisado o pedido de danos morais à luz das peculiaridades da hipótese concreta.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por LUIZ CARLOS PERES contra a decisão que inadmitiu recurso especial. O apelo extremo, com fundamento no artigo 105, III, alíneas "a" e "c", da Constituição Federal, insurge-se contra o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina assim ementado: "PROCESSUAL CIVIL - JULGAMENTO MONOCRÁTICO - AGRAVO INTERNO - CPC, ART. 1.021 - REDISCUSSÃO - DECISUM - SÚMULAS - SUBSISTÊNCIA O agravo interno, que desafia a decisão unipessoal fundada no art. 932, incs. IV e V, do Código de Processo Civil, não se presta para a rediscussão das matérias lá ventiladas, razão pela qual cabe ao recorrente impugnar a ausência dos requisitos que permitem a análise sumária do pleito recursal ou demonstrar que o paradigma não é aplicável à espécie. Ademais, de todo modo, não há falar em reforma do decisum quando o resultado é condizente com as súmulas e julgados que o ampararam" (e-STJ fl. 615). Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (e-STJ fls. 644/648 e 722/723). No recurso especial, o recorrente alega, além de divergência jurisprudencial, violação do artigo 43, §2º do Código de Defesa do Consumidor. Sustenta, em síntese, ser necessária a notificação por escrito enviada no endereço do devedor antes da inscrição do seu nome junto aos cadastros de inadimplentes, sendo vedada que a notificação do consumidor se dê exclusivamente por meio de e-mail ou mensagem de texto. Após as contrarrazões (e-STJ fls. 828/239), o recurso especial foi inadmitido, dando ensejo à interposição do presente agravo. É o relatório. DECIDO. Ultrapassados os requisitos de admissibilidade do agravo, passa-se ao exame do recurso especial. A insurgência não merece prosperar. No caso, consta na sentença que "(..) o requerido comprovou que enviou notificação para a parte autora, cujo endereço eletrônico foi cadastrado no sistema no momento de adesão ao serviço oferecido pela empresa Serasa, sendo encaminhada a notificação de maneira regular, ilidindo assim a responsabilidade do registro no tocante ao recebimento de tal comunicado pelo autor." (e-STJ fl. 104). Entendimento mantido pelo Tribunal de origem que entendeu que houve notificação prévia válida do recorrente acerca da inscrição do seu nome no cadastro de restrição ao crédito. É o que se colhe nos seguintes trechos do acórdão recorrido: "(..) Desse modo, na esteira do posicionamento sedimentado pela Corte Superior, o órgão mantenedor do cadastro de restrição ao crédito não deve ser condenado ao pagamento de indenização por danos morais se comprovar que enviou notificação ao consumidor no endereço indicado por quem fez o registro, isto é, a parte credora. Ainda, a despeito da argumentação do recorrente, conforme as precisas inferências da Magistrada sentenciante, a parte requerida cumpriu seu ônus processual, uma vez que os comprovantes juntados aos autos (evento 8, DOC4 e evento 8, DOC5, do primeiro grau) são suficientes para comprovar a notificação prévia do autor acerca da negativação de seu nome. Por fim, a validade da notificação prévia por meio virtual é reconhecida pela Segunda Turma Recursal do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, uma vez que não há forma predeterminada: (..)" (e-STJ fl. 613 - grifou-se). Tal posicionamento destoa da orientação firmada no Superior Tribunal de Justiça no sentido de que a notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro restritivo de crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusiva por meio de e-mail ou mensagem de texto de celular. Confiram-se: "RECURSO ESPECIAL. CONSUMIDOR. CADASTRO DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO. PRÉVIA NOTIFICAÇÃO. NECESSIDADE. NOTIFICAÇÃO POR E-MAIL. IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE CORRESPONDÊNCIA AO ENDEREÇO DO CONSUMIDOR. DANO MORAL. CONFIGURAÇÃO. ARBITRAMENTO. MÉTODO BIFÁSICO. 1. Ação de cancelamento de registro e indenizatória da qual foi extraído o presente recurso especial, interposto em 14/2/2023 e concluso ao gabinete em 12/5/2023. 2. O propósito recursal consiste em dizer se a notificação prévia à inscrição do consumidor em cadastro de inadimplentes, prevista no §2º, do art. 43, do CDC, pode ser realizada, exclusivamente, por e-mail. 3. O Direito do Consumidor, como ramo especial do Direito, possui autonomia e lógica de funcionamento próprias, notadamente por regular relações jurídicas especiais compostas por um sujeito em situação de vulnerabilidade. Toda legislação dedicada à tutela do consumidor tem a mesma finalidade: reequilibrar a relação entre consumidores e fornecedores, reforçando a posição da parte vulnerável e, quando necessário, impondo restrições a certas práticas comerciais. 4. É dever do órgão mantenedor do cadastro notificar o consumidor previamente à inscrição - e não apenas de que a inscrição foi realizada -, conferindo prazo para que este tenha a chance (I) de pagar a dívida, impedindo a negativação ou (II) de adotar medidas extrajudiciais ou judiciais para se opor à negativação quando ilegal. 5. Na sociedade brasileira contemporânea, fruto de um desenvolvimento permeado, historicamente, por profundas desigualdades econômicas e sociais, não se pode ignorar que o consumidor, parte vulnerável da relação, em muitas hipóteses, não possui endereço eletrônico (e-mail) ou, quando o possui, não tem acesso facilitado a computadores, celulares ou outros dispositivos que permitam acessá-lo constantemente e sem maiores dificuldades, ressaltando-se a sua vulnerabilidade técnica, informacional e socioeconômica. 6. A partir de uma interpretação teleológica do §2º, do art. 43, do CDC, e tendo em vista o imperativo de proteção do consumidor como parte vulnerável, conclui-se que a notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro restritivo de crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusiva através de e-mail. 7. Na hipótese dos autos, merece reforma o acórdão recorrido, com o cancelamento da inscrição mencionada na inicial, pois, à luz das disposições do CDC, não se admite a notificação do consumidor, exclusivamente, através de e-mail. 8. No que diz respeito à compensação por danos morais, extrai-se dos fatos delineados pela instância ordinária, que não existiam outras inscrições preexistentes e legítimas quando foi realizado o registro negativo que ora se examina, motivo pelo qual encontra-se caracterizado o dano extrapatrimonial em razão da ausência de prévia notificação válida do consumidor. 9. Quanto à fixação do montante a ser pago a título de compensação pelo dano moral experimentado, as Turmas integrantes da Segunda Seção valem-se do método bifásico para o seu arbitramento. 10. Na espécie, para fixação do quantum compensatório, tendo em vista os interesses jurídicos lesados - honra e dignidade do consumidor - e os precedentes análogos desta Corte, considera-se razoável que a condenação deve ter como valor R$ 10.000,00 (dez mil reais). 11. Recurso especial conhecido e provido para julgar procedentes os pedidos formulados na presente ação, determinando o cancelamento da inscrição mencionada na exordial e condenando a ré ao pagamento de compensação por danos morais no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), com juros de mora desde o evento danoso e correção monetária a partir da data do arbitramento." (REsp n. 2.069.520/RS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 13/6/2023, DJe de 16/6/2023.) "AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CADASTRO DE INADIMPLENTES. INSCRIÇÃO INDEVIDA. NOTIFICAÇÃO PRÉVIA VIA E-MAIL. INADEQUAÇÃO DA FORMA. PRECEDENTES. IMPRESCINDIBILIDADE DE RETORNO DOS AUTOS PARA NOVO JULGAMENTO. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. "A partir de uma interpretação teleológica do §2º, do art. 43, do CDC, e tendo em vista o imperativo de proteção do consumidor como parte vulnerável, conclui-se que a notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro restritivo de crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusiva através de e-mail". (REsp n. 2.069.520/RS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 13/6/2023, DJe de 16/6/2023.) 2. Necessidade de apreciação pelo Tribunal de origem da matéria sob o enfoque das orientações desta Corte, a fim de que proceda com novo julgamento da apelação, à luz da orientação jurisprudencial firmada por ocasião do julgamento do REsp 2.069.520/RS, de relatoria da Ministra Nancy Andrighi. 3. Agravo interno desprovido." (AgInt no REsp n. 2.096.232/RS, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 11/12/2023, DJe de 14/12/2023.) "AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. INSCRIÇÃO. CANCELAMENTO. CADASTRO RESTRITIVO DE CRÉDITO. NOTIFICAÇÃO POR E-MAIL. IMPOSSIBILIDADE. ENDEREÇO DO CONSUMIDOR. INTERPRETAÇÃO. TELEOLÓGICA. RESTRITIVA. ART. 43, § 2º, CDC. SÚMULA Nº 568/STJ. 1. Nos termos da orientação firmada no Superior Tribunal de Justiça, a notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro restritivo de crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusiva por meio de e-mail ou mensagem de texto de celular. Precedentes. 2. Na atual sociedade da informação, a utilização de e-mail e mensagens de texto via celular (SMS) representa importante avanço tecnológico, podendo contribuir para aprimorar o relacionamento entre as partes no âmbito das relações de consumo. No entanto, não se revela lícita a sua utilização exclusiva como mecanismo único de notificação do consumidor acerca da abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo. Interpretação teleológica do art. 43, § 2º, do CDC. 3. Agravo interno não provido." (AgInt no REsp n. 2.070.075/RS, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 13/5/2024, DJe de 15/5/2024.) Nesse contexto, tem incidência a Súmula nº 568/STJ. Ante o exposto, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, a fim de reformar o aresto atacado, determinando o cancelamento da inscrição mencionada na exordial por ausência de notificação. Os autos devem retornar à origem para que seja analisado o pedido de danos morais a partir das peculiaridades da hipótese concreta. Publique-se. Intimem-se. EMENTA AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. INSCRIÇÃO. CANCELAMENTO. CADASTRO RESTRITIVO DE CRÉDITO. NOTIFICAÇÃO POR E-MAIL. IMPOSSIBILIDADE. ENDEREÇO DO CONSUMIDOR. INTERPRETAÇÃO. TELEOLÓGICA. RESTRITIVA. ART. 43, § 2º, CDC. SÚMULA Nº 568/STJ. 1. O posicionamento do Tribunal de origem destoa da orientação firmada no Superior Tribunal de Justiça no sentido de que a notificação do consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro restritivo de crédito exige o envio de correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusiva por meio de e-mail ou mensagem de texto de celular. 2. Agravo conhecido para dar provimento ao recurso especial, determinando o cancelamento da inscrição mencionada na exordial por ausência de notificação. 3. Agravo conhecido para conhecer e dar provimento ao recurso especial.