HC 980153 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus porque a via não é adequada para reexaminar o acervo probatório decidido pelas instâncias ordinárias, não se verificando, no caso, flagrante ilegalidade manifesto a justificar a concessão de ofício; o Tribunal de origem fundamentou a condenação em boletim de ocorrência, laudo de exame de...
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- Parties
- Paciente: FERNANDO NESTOR SANTANA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 February 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão (não Conhecimento)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus.
- Legal Topics
- Nulidade Da Condenação, Prova Testemunhal, Reexame Do Acervo Probatório, Substituição De Recurso Próprio Pelo Habeas Corpus, Flagrante Ilegalidade, Violência Doméstica, Lesão Corporal Leve, Art. 129, § 9º Do Código Penal
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Parties
FERNANDO NESTOR SANTANA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão (não Conhecimento)
Legal Issues
- 1 cabimento do habeas corpus como substituto de recurso próprio
- 2 existência de ilegalidade manifesta no ato judicial impugnado
- 3 valoração da prova testemunhal e dos elementos da fase inquisitorial
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus porque a via não é adequada para reexaminar o acervo probatório decidido pelas instâncias ordinárias, não se verificando, no caso, flagrante ilegalidade manifesto a justificar a concessão de ofício; o Tribunal de origem fundamentou a condenação em boletim de ocorrência, laudo de exame de corpo de delito e depoimento da vítima, suficientes para demonstrar materialidade e autoria.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus.
Orders
- Indeferido o pedido liminar.
- Não conheço do habeas corpus.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de FERNANDO NESTOR SANTANA, em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO na apelação n. 1502452-93.2020.8.26.0005. Consta dos autos que o paciente foi condenado à 3 (três) meses de detenção, em regime inicial aberto, por infração ao disposto no art. 129, § 9º, do Código Penal, e ao pagamento de indenização de um salário-mínimo, apesar do pedido de absolvição formulado pelo Ministério Público em alegações finais. O Tribunal de origem manteve integralmente a condenação em sede de apelação. Neste writ, sustenta a nulidade da condenação por violação aos arts. 155 e 385, ambos do Código de Processo Penal. Aduz que a sentença e o acórdão se basearam exclusivamente em elementos informativos colhidos na fase inquisitorial, sem confirmação em Juízo sob o crivo do contraditório. Acrescenta que a vítima não confirmou os fatos em Juízo, limitando- se a dizer que não se lembrava do ocorrido. Requereu, liminarmente, a suspensão dos efeitos da condenação até o julgamento final do presente, e, no mérito, pugnou pelo reconhecimento da nulidade da condenação, com a consequente absolvição do paciente. Decisão indeferindo o pedido liminar (fls. 285-286). As informações foram prestadas (fls. 291-311). O Ministério Público Federal manifestou-se pelo não conhecimento do writ ou pela denegação da ordem (fls. 313-317). É o relatório. DECIDO. Inicialmente, pontuo que esta Corte Superior, seguindo o entendimento do Supremo Tribunal Federal (AgRg no HC 180.365, Primeira Turma, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 27/3/2020; AgR no HC 147.210, Segunda Turma, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 30/10/2018), pacificou orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado (HC n. 535.063/SP, Terceira Seção, relator Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/6/2020). Na espécie, embora a parte impetrante não tenha adotado a via processual adequada, cumpre analisar as razões da impetração, de forma a verificar a ocorrência de eventual ilegalidade manifesta a justificar a concessão do habeas corpus, de ofício. No caso em análise, o Tribunal de origem fixou a seguinte ementa (fl. 29): Apelação. Crime de lesão corporal leve no âmbito da violência doméstica. Preliminar de nulidade da Sentença por fundamentação irregular. Rejeição. Absolvição por insuficiência de provas. Não cabimento. Materialidade e autoria demonstradas. Não provimento ao recurso. Relevante registrar as instâncias antecedentes, soberanas na apreciação do acervo probatório, validaram e entenderam suficientes as provas que fundamentam a condenação do paciente. Observe-se (fls. 29/34 - grifamos): A materialidade delitiva ficou comprovada por meio do boletim de ocorrência (fls.03/06) e do laudo de exame de corpo de delito (fls.35/36). A prova oral produzida demonstrou que, por razões que guardam relação com temperamento agressivo, o Réu agrediu a vítima com um tapa no olho. A autoria ficou demonstrada. O Réu negou o fato na fase administrativa (fls.45) e em Juízo, dizendo, em síntese, que agiu apenas para se defender, segurando a vítima que tentava retirar seu aparelho celular. A versão do Réu ficou isolada das demais provas produzidas e não convence. A vítima B. declarou, na fase administrativa (fls.07), que o Réu era seu companheiro e, na data do fato, após discussão tentou retirar o aparelho celular de suas mãos e o deixou cair ao solo, danificando-o. Em razão disso, o Réu desferiu um tapa em seu olho. Em declarações judiciais, tentou modificar a dinâmica dos fatos para minimizar os efeitos da conduta do Réu, informando que se reconciliaram e passaram a ter bom convívio. Confirmou, contudo, que foi vítima de "diversas agressões". .. Como se vê, a agressão perpetrada pelo Réu ficou demonstrada pela prova oral produzida, ganhando credibilidade com o laudo de exame de corpo de delito (fls.35/36), confirmando as agressões narradas. A condenação era medida de rigor. Importante salientar, outrossim, que a sentença reconheceu "que a vítima confirmou, sim, as agressões constantes da denúncia, inclusive porque fez expressa menção ao exame a que fora submetida e que apontou a presença de lesões" (fl. 39, grifamos). Conforme já assentou esta Corte, o habeas corpus não é o instrumento adequado para reexaminar todo o conjunto de provas que serviu de suporte à condenação. A propósito: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. TRÁFICO DE DROGAS. PRETENDIDA ABSOLVIÇÃO OU DESCLASSIFICAÇÃO PARA O CRIME DE POSSE DE DROGAS PARA USO PRÓPRIO. INVIABILIDADE. CONTUNDENTE ACERVO PROBATÓRIO PARA LASTREAR A CONDENAÇÃO. REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO NÃO CONDIZENTE COM A VIA ESTREITA DO MANDAMUS. PRECEDENTES. DEPOIMENTO DOS POLICIAIS EM JUÍZO. MEIO DE PROVA IDÔNEO. PRECEDENTES. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. O habeas corpus não é a via adequada para apreciar o pedido de absolvição ou de desclassificação de condutas, tendo em vista que, para se desconstituir o decidido pelas instâncias de origem, mostra-se necessário o reexame aprofundado dos fatos e das provas constantes dos autos, procedimento vedado pelos estreitos limites do writ, caracterizado pelo rito célere e por não admitir dilação probatória. Precedentes. 2. A conclusão obtida pelas instâncias de origem sobre a condenação do paciente foi lastreada em contundente acervo probatório, consubstanciado não apenas na quantidade e diversidade de entorpecentes apreendidos - 116 pedras de crack, 39 buchas de haxixe e 36 frascos de loló (e-STJ, fl. 49) -, mas principalmente nas circunstâncias que culminaram em sua apreensão em flagrante - quando policiais militares em patrulhamento de rotina em local de intenso movimento de tráfico de drogas, conhecido como "Lixão", avistaram uma aglomeração de pessoas e, diante da fundada suspeita, procederam a abordagem e encontraram algumas pedras de crack com o paciente, e o restante das drogas em local próximo a ele (e-STJ, fl. 20); acrescente-se a isso, o fato de ele já ser conhecido da polícia por ser gerente do tráfico da região, respondendo pela alcunha de Gigante, tudo isso a indicar que estava, de fato, praticando a mercancia ilícita no local dos fatos. 3. Nesse contexto, reputo demonstradas a materialidade e autoria delitivas para o delito de tráfico de drogas, inexistindo ilegalidade em sua condenação, sendo que entendimento diferente, como pretendido, repito, demandaria a imersão vertical na moldura fática e probatório delineada nos autos, providência incabível na via processual eleita. 4. Não obstante isso, ressalto que segundo a jurisprudência consolidada desta Corte, o depoimento dos policiais prestado em Juízo constitui meio de prova idôneo a resultar na condenação do réu, notadamente quando ausente qualquer dúvida sobre a imparcialidade dos agentes, cabendo à defesa o ônus de demonstrar a imprestabilidade da prova, o que não ocorreu no presente caso. Precedentes. 5. Desse modo, não constatei nenhuma ilegalidade a ser sanada na condenação do paciente pela prática do referido delito e concluí que a pretensão formulada pela impetrante encontrava óbice na jurisprudência desta Corte Superior sendo, portanto, manifestamente improcedente. 6. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 904.513/ES, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 21/5/2024, DJe de 28/5/2024, grifamos). PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS. ESTUPRO DE VULNERÁVEL, MAJORADO NA FORMA DE CRIME CONTINUADO (ART. 217-A C/C 226, II C/C 71, TODOS DO CP) EM RAZÃO DA INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO COMO SUCEDÂNEO DE RECURSO PRÓPRIO OU REVISÃO CRIMINAL. INVIABILIDADE DE APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DO IN DUBIO PRO REO. VALOR PROBATÓRIO DA PALAVRA DA VÍTIMA EM CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL. NECESSIDADE DE REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE NA VIA DO HABEAS CORPUS. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. QUANTUM DE MAJORAÇÃO EM DECORRÊNCIA DO CRIME CONTINUADO APLICADO CORRETA E FUNDAMENTADAMENTE. ORDEM NÃO CONHECIDA. I. CASO EM EXAME 1. Habeas corpus impetrado com o objetivo de obter a absolvição do paciente, condenado pelo crime de estupro de vulnerável, sob a alegação de insuficiência probatória e aplicação do princípio do in dubio pro reo. Alternativamente, requer a diminuição do quantum de majoração do crime continuado. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há três questões centrais em discussão: (i) a possibilidade de utilização do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio ou de revisão criminal, em casos de alegada insuficiência probatória; (ii) a suficiência da palavra da vítima como prova em crimes contra a dignidade sexual e sua conformidade com os demais elementos probatórios e (iii) se, no caso dos autos, em que os atos de violência perduraram de janeiro de 2020 até dezembro de 2020, é adequada a majoração da proporção de 2/3. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. A jurisprudência consolidada do STJ e do STF não admite o uso do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio ou de revisão criminal, salvo em hipóteses de flagrante ilegalidade, que não se verifica no presente caso (AgRg no HC n. 895.777/PR; AgRg no HC n. 864.465/SC). 4. O entendimento desta Corte Superior considera a palavra da vítima como prova de especial relevância em delitos contra a dignidade sexual, especialmente quando corroborada por outros elementos probatórios, em razão da natureza dos crimes, frequentemente praticados às ocultas (AgRg no HC n. 852.027/MG). 5. No caso, o Tribunal de origem concluiu pela suficiência da prova testemunhal, destacando o depoimento firme e detalhado da vítima, que narrou os abusos de maneira clara e coerente, bem como o depoimento de familiares que corroboraram as declarações. 6. O reexame do acervo fático-probatório, necessário para revisar a credibilidade dos depoimentos e a aplicação do princípio do in dubio pro reo, é incompatível com a via estreita do habeas corpus, que não admite dilação probatória. 7. A majoração da pena em 2/3 com base na continuidade delitiva encontra amparo na jurisprudência desta Corte, que permite o aumento máximo em casos de reiterada prática de abusos ao longo de período extenso, ainda que o número exato de eventos não seja precisamente delimitado (REsp n. 2.029.482/RJ). IV. DISPOSITIVO 8. Habeas corpus não conhecido. (HC n. 955092/RJ, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 26/11/2024, DJEN de 18/12/2024, grifamos). Ante o e xposto, não conheço do habeas corpus, registrando, ademais, a inviabilidade da concessão da ordem de ofício, já que não há, in casu, nenhuma ilegalidade manifesta a ser corrigida. Publique-se e intimem-se. EMENTA