AREsp 1521528 - DECISAO
Negou-se provimento ao agravo porque o Tribunal de origem fundamentou adequadamente a nulidade da cessão de direitos por inobservância das formalidades exigidas para pessoa analfabeta (exigência de escritura pública ou de assinatura a rogo por procurador constituído por instrumento público ou, subsidiariamente,...
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- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 31 May 2021
- Procedural Posture
- Agravo Nos Próprios Autos / Decisão Sobre Agravo Nos Próprios Autos Contra Decisão Que Negou Seguimento Ao Recurso Especial
- Outcome
- Nego provimento ao agravo.
- Legal Topics
- Nulidade De Negócio Jurídico, Cessão De Direitos Possessórios, Capacidade E Forma Do Analfabeto, Assinatura a Rogo, Dano Moral, Honorários Advocatícios, Súmula 83/stj, Negativa De Prestação Jurisdicional
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Procedural Posture
Agravo Nos Próprios Autos / Decisão Sobre Agravo Nos Próprios Autos Contra Decisão Que Negou Seguimento Ao Recurso Especial
Legal Issues
- 1 alegação de negativa de prestação jurisdicional (art. 489 do CPC/2015)
- 2 forma exigida para a prática de negócio jurídico por pessoa analfabeta
- 3 nulidade da cessão de direitos por inobservância de forma
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo porque o Tribunal de origem fundamentou adequadamente a nulidade da cessão de direitos por inobservância das formalidades exigidas para pessoa analfabeta (exigência de escritura pública ou de assinatura a rogo por procurador constituído por instrumento público ou, subsidiariamente, assinatura a rogo com testemunhas nos termos do art. 595 do CC/2002), entendimento em consonância com a jurisprudência do STJ; não se configurou negativa de prestação jurisdicional e incidiu a Súmula 83/STJ.
Court Disposition
Nego provimento ao agravo.
Orders
- Majorada em 20% (vinte por cento) o valor atualizado dos honorários advocatícios arbitrados na origem em favor da parte recorrida, nos termos do art. 85, § 11, do CPC/2015, observando-se os limites dos §§ 2º e 3º do referido dispositivo.
- Publique-se.
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DECISÃO Trata-se de agravo nos próprios autos interposto contra decisão que negou seguimento ao recurso especial sob os seguintesfundamentos: (a) ausência de negativa de prestação jurisdicional, e (b) incidência daSúmulan. 83/STJ(e-STJ fls. 313/317). O acórdão está assim ementado (e-STJ fl. 261): DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL - APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURIDICO - CESSÃO DE DIREITO DE POSSE SOBRE IMÓVEL E BENFEITORIAS - CESSIONÁRIO ANALFABETO - INSTRUMENTO PARTICULAR - NECESSIDADE DE FORMALIZAÇÃO POR MEIO DE ESCRITURA PÚBLICA, OU POR INTERMÉDIO DE PROCURADOR, TAMBÉM CONSTITUÍDO POR INSTRUMENTO PÚBLICO - AJUSTE INVÁLIDO - DANO MORAL - NÃO CARACTERIZAÇÃO - SENTENÇA REFORMADA - RECURSO PROVIDO EM PARTE. - O analfabeto somente pode contratar por meio de escritura pública ou, por instrumento particular, quando firmado por procurador constituído também por instrumento público, o que não ocorreu no caso dos autos. - Firmado ajuste sem observância dessas regras, este é nulo, de pleno direito, conforme o disposto no art. 166, inc. IV c/c art. 104, inc. III, ambos do CC/02. - Para a caracterização do dano moral exige-se abalo à estrutura psíquica e emocional do homem médio, que goza de toda a sua capacidade de percepção da realidade e é capaz de suportar os transtornos da vida moderna, hipótese não demonstrada no caso. Os embargos de declaraçãoforam rejeitados (e-STJ fls. 280/286). No recurso especial (e-STJ fls. 290/306), fundamentado no art. 105, III, "a" e "c", da CF, os recorrentes alegaramdissídio jurisprudencial eofensa aoart. 489 do CPC/2015, sustentando: (a) negativa de prestação jurisdicional, e (b) inexistência de forma prescrita em lei para a realização do negócio jurídico por pessoa analfabeta. Aagravadanão apresentoucontrarrazões(e-STJ fl. 311). É o relatório. Decido. O Tribunala quodecidiu a matéria controvertida de forma fundamentada, ainda que contrariamente aos interesses dosagravantes,deixando claros os motivos pelos quais entendeu pela nulidade da cessão de direitos. Assim, quanto à alegada afronta aoart. 489do CPC/2015, não assiste razão à parte. No mérito, a Corte local consignou que, "tratando-se a autora - cedente da posse - de pessoa analfabeta, somente poderia contratar mediante formalização de escritura pública, ou, por documento particular, via de assinatura "a rogo"de procurador especialmente constituído, por instrumento público - como meio de expressão inequívoca da vontade do contratante - hipóteses que não foram observadas in casu" (e-STJ fls. 263/264). Esse entendimento está de acordo com a jurisprudência desta Corte que, embora prestigie a liberdade de contratar, exige que haja, ao menos, a assinatura a rogo de pessoa analfabeta. A propósito: DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO C/C PEDIDOS DE RESTITUIÇÃO DE VALORES E COMPENSAÇÃO POR DANOS MORAIS. CONTRATO DE EMPRÉSTIMO CONSIGNADO FIRMADO POR IDOSO INDÍGENA ANALFABETO. VALIDADE. REQUISITO DE FORMA. ASSINATURA DO INSTRUMENTO CONTRATUAL A ROGO POR TERCEIRO, NA PRESENÇA DE DUAS TESTEMUNHAS. ART. 595 DO CC/02. PROCURADOR PÚBLICO. DESNECESSIDADE. 1. Ação ajuizada em 20/07/2018. Recurso especial interposto em 22/05/2020 e concluso ao gabinete em 12/11/2020. 2. O propósito recursal consiste em dizer acerca da forma a ser observada na contratação de empréstimo consignado por idoso indígena que não sabe ler e escrever (analfabeto). 3. Os analfabetos, assim como os índios, detêm plena capacidade civil, podendo, por sua própria manifestação de vontade, contrair direitos e obrigações, independentemente da interveniência de terceiro. 4. Como regra, à luz dos princípios da liberdade das formas e do consensualismo, a exteriorização da vontade dos contratantes pode ocorrer sem forma especial ou solene, salvo quando exigido por lei, consoante o disposto no art. 107 do CC/02. 5. Por essa razão, em um primeiro aspecto, à míngua de previsão legal expressa, a validade do contrato firmado por pessoa que não saiba ler ou escrever não depende de instrumento público. 6. Noutra toada, na hipótese de se tratar de contrato escrito firmado pela pessoa analfabeta, é imperiosa a observância da formalidade prevista no art. 595 do CC/02, que prevê a assinatura do instrumento contratual a rogo por terceiro, com a subscrição de duas testemunhas. 7. Embora o referido dispositivo legal se refira ao contrato de prestação de serviços, deve ser dada à norma nele contida o máximo alcance e amplitude, de modo a abranger todos os contratos escritos firmados com quem não saiba ler ou escrever, a fim de compensar, em algum grau, a hipervulnerabilidade desse grupo social. 8. Com efeito, a formalização de negócios jurídicos em contratos escritos - em especial, os contratos de consumo - põe as pessoas analfabetas em evidente desequilíbrio, haja vista sua dificuldade de compreender as disposições contratuais expostas em vernáculo. Daí porque, intervindo no negócio jurídico terceiro de confiança do analfabeto, capaz de lhe certificar acerca do conteúdo do contrato escrito e de assinar em seu nome, tudo isso testificado por duas testemunhas, equaciona-se, ao menos em parte, a sua vulnerabilidade informacional. 9. O art. 595 do CC/02 se refere a uma formalidade a ser acrescida à celebração de negócio jurídico por escrito por pessoa analfabeta, que não se confunde com o exercício de mandato. O contratante que não sabe ler ou escrever declara, por si próprio, sua vontade, celebrando assim o negócio, recorrendo ao terceiro apenas para um auxílio pontual quanto aos termos do instrumento escrito. 10. O terceiro, destarte, não celebra o negócio em representação dos interesses da pessoa analfabeta, como se mandatário fosse. Por isso, não é necessário que tenha sido anteriormente constituído como procurador. 11. Se assim o quiser, o analfabeto pode se fazer representar por procurador, necessariamente constituído mediante instrumento público, à luz do disposto no art. 654, caput, do CC/02. Nessa hipótese, típica do exercício de mandato, não incide o disposto no art. 595 do Código e, portanto, dispensa-se a participação das duas testemunhas. 12. Recurso especial conhecido e provido(REsp 1907394/MT, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 04/05/2021, DJe 10/05/2021) RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO FIRMADO COM ANALFABETO.1. VIOLAÇÃO DO ART. 1.022 DO CPC/2015. FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE.ENUNCIADO N. 284/STF. 2. ÔNUS DA PROVA. QUESTÃO ADSTRITA À PROVA DA DISPONIBILIZAÇÃO FINANCEIRA. APRECIAÇÃO EXPRESSA PELO TRIBUNAL LOCAL. REEXAME DE FATOS E PROVAS. INVIABILIDADE. 3. VALIDADE DE CONTRATO FIRMADO COM CONSUMIDOR IMPOSSIBILITADO DE LER E ESCREVER.ASSINATURA A ROGO, NA PRESENÇA DE DUAS TESTEMUNHAS, OU POR PROCURADOR PÚBLICO. EXPRESSÃO DO LIVRE CONSENTIMENTO. ACESSO AO CONTEÚDO DAS CLÁUSULAS E CONDIÇÕES CONTRATADAS. 4. RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESSA EXTENSÃO, DESPROVIDO. 1. É deficiente a fundamentação do recurso especial em que a alegação de violação do art. 1.022 do CPC/2015 se faz de forma genérica, sem a demonstração exata dos pontos pelos quais o acórdão tornou-se omisso, contraditório ou obscuro. Aplica-se, na hipótese, o óbice da Súmula n. 284/STF. 2. Modificar o entendimento do Tribunal local acerca do atendimento do ônus probatório não prescinde do reexame de matéria fático-probatória, o que é inviável devido ao óbice da Súmula 7/STJ. 3. A liberdade de contratar é assegurada ao analfabeto, bem como àquele que se encontre impossibilitado de ler e escrever. .. 8. Nas hipóteses em que o consumidor está impossibilitado de ler ou escrever, acentua-se a hipossuficiência natural do mercado de consumo, inviabilizando o efetivo acesso e conhecimento às cláusulas e obrigações pactuadas por escrito, de modo que a atuação de terceiro (a rogo ou por procuração pública) passa a ser fundamental para manifestação inequívoca do consentimento. 9. A incidência do art. 595 do CC/2002, na medida em que materializa o acesso à informação imprescindível ao exercício da liberdade de contratar por aqueles impossibilitados de ler e escrever, deve ter aplicação estendida a todos os contratos em que se adote a forma escrita, ainda que esta não seja exigida por lei. 10. A aposição de digital não se confunde, tampouco substitui a assinatura a rogo, de modo que sua inclusão em contrato escrito somente faz prova da identidade do contratante e da sua reconhecida impossibilidade de assinar. 11. Reconhecida pelas instâncias ordinárias a existência de assinatura a rogo no caso concreto, a alteração do acórdão recorrido dependeria de reexame de fatos e provas, inadmissível nesta estreita via recursal. 12. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, não provido. (REsp 1868099/CE, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 15/12/2020, DJe 18/12/2020) Na mesma linha, a seguinte decisão monocrática:AREsp n.1.761.705, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, DJe 02/03/2021. Incide, portanto, a Súmula n. 83/STJ. Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao agravo. Nos termos do art. 85, § 11, do CPC/2015, majoro em 20% (vinte por cento) o valor atualizado dos honorários advocatícios arbitrados na origem em favor da parte recorrida, observando-se os limites dos §§ 2º e 3º do referido dispositivo. Publique-se e intimem-se.