REsp 2107930 - DECISAO
O recurso não merece provimento porque parte das questões (incidência do art. 833, X, do CPC) não foi prequestionada; quanto à impenhorabilidade dos valores, o Tribunal de origem, à luz das provas, concluiu não estar demonstrada a natureza salarial/alimentar dos montantes bloqueados, conclusão que não pode ser...
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- Parties
- Recorrente: RICARDO ALEXANDRE BELLEI
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 February 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento De Recurso Especial
- Outcome
- Recurso conhecido em parte e, nessa extensão, negado provimento
- Legal Topics
- Penhora De Ativos Financeiros, Impenhorabilidade (art. 833 Cpc), Natureza Salarial De Verba, Penhora De Cota De Consórcio Imobiliário, Bem De Família, Prequestionamento, Súmula 7/stj
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Parties
RICARDO ALEXANDRE BELLEI
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento De Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Se a quantia bloqueada em conta corrente é impenhorável por se tratar de verba salarial/autônoma (arts. 832 e 833, IV e X, do CPC)
- 2 Se a cota de consórcio imobiliário destinada à aquisição de imóvel para moradia é protegida pela Lei nº 8.009/1990 (art. 1º) e, portanto, impenhorável
Ratio Decidendi
O recurso não merece provimento porque parte das questões (incidência do art. 833, X, do CPC) não foi prequestionada; quanto à impenhorabilidade dos valores, o Tribunal de origem, à luz das provas, concluiu não estar demonstrada a natureza salarial/alimentar dos montantes bloqueados, conclusão que não pode ser reexaminada em recurso especial por força da Súmula 7/STJ; e a penhorabilidade da cota de consórcio encontra respaldo na interpretação restritiva das exceções da Lei nº 8.009/1990 e na jurisprudência do STJ.
Court Disposition
Recurso conhecido em parte e, nessa extensão, negado provimento
Orders
- Recurso conhecido em parte e, nessa extensão, negado provimento
- Não cabe a majoração dos honorários sucumbenciais prevista no art. 85, § 11, do Código de Processo Civil
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por RICARDO ALEXANDRE BELLEI, com fundamento no artigo 105, III, alínea "a", da Constituição Federal, contra o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assim ementado: "AGRAVO DE INSTRUMENTO. Penhora on line. Alegação de impenhorabilidade da importância bloqueada em conta corrente, fundada no art. 833, IV, do CPC. Descabimento. Ausência de comprovação de que os valores são oriundos de remuneração ou atividade autônoma. Penhora de cota de consórcio imobiliário. Alegação de impenhorabilidade por se tratar de bem de família. Inadmissibilidade. Legitimidade da medida, conforme art. 835, I, do Código de Processo Civil a execução realizada no interesse primordial do credor, art. 797 do aludido diploma. Ausência de localização de outros bens para a liquidação da dívida. Cota de consórcio é penhorável, pois não se enquadra na proteção delineada pela Lei n. 8.009/90. Precedentes do TJSP. Decisão mantida. RECURSO IMPROVIDO" (fl. 48 e-STJ). No recurso especial, o recorrente alega violação dos seguintes dispositivos legais com as respectivas teses: (i) artigos 832 e 833, IV e X, do Código de Processo Civil - haja vista a penhora de quantia depositada em renda fixa, cujo valor não ultrapassa 7 (sete) salários mínimos, oriunda da produção de leite comercializada pelo recorrente, afetando a sua manutenção básica e de seus familiares; (ii) artigo 1º da Lei nº 8.009/1990 - pela penhora de cotas de consórcio imobiliário, destinado à aquisição de imóvel com o objetivo de moradia. Contrarrazões às fls. 76/90 (e-STJ). É o relatório. DECIDO. A insurgência não merece prosperar. No que se refere à ofensa ao art. 833, X, do CPC, verifica-se que a matéria versada no dispositivo apontado como violado no recurso especial não foi objeto de debate pelas instâncias ordinárias, sequer de modo implícito, e não foram opostos embargos declaratórios com a finalidade de sanar omissão porventura existente. Por esse motivo, ausente o requisito do prequestionamento, incide, por analogia, o disposto na Súmula nº 282/STF: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando não ventilada, na decisão recorrida, a questão federal suscitada". A propósito: "EMBARGOS DE DECLARAÇÃO CONHECIDO COMO AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. EXCEÇÃO DE PRÉ-EXECUTIVIDADE. ALEGADA VIOLAÇÃO AOS ARTS. 26 E 29 DA LEI 10.931 E 789 DO CPC. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. NÃO OPOSIÇÃO DE EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ATRAÇÃO DO ENUNCIADO 282/STF. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO CONHECIDOS COMO AGRAVO INTERNO AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO." (EDcl no REsp 1.789.134/RS, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado em 30/11/2020, DJe de 3/12/2020 - grifou-se) "PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE COMPLEMENTAÇÃO DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PREQUESTIONAMENTO. NÃO OCORRÊNCIA. SÚMULA 282/STF. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL. ALCANCE DAS PARCELAS VENCIDAS ANTERIORMENTE AO QUINQUÊNIO QUE PRECEDE O AJUIZAMENTO DA AÇÃO. 1. A ausência de decisão acerca dos dispositivos legais indicados como violados impede o conhecimento do recurso especial. 2. O acórdão recorrido que adota a orientação firmada pela jurisprudência do STJ não merece reforma. 3. Agravo interno não provido." (AgInt no AREsp 1.097.857/SP, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe 10/11/2017 - grifou-se) No que concerne à natureza salarial dos valores depositados em conta bancária, o Tribunal de origem, à luz da prova dos autos, concluiu não estar comprovada essa alegação, conforme se extrai da leitura do voto condutor, merecendo destaque o seguinte trecho: "Em que pese a afirmação de que a quantia bloqueada é originária da venda de sua produção de leite e que esta constitui o seu rendimento como autônomo, os documentos anexados pelo agravante não são aptos a comprovar as suas alegações. Em suma, não há nos autos qualquer documento a demonstrar as alegações do executado em relação à origem dos valores depositados em sua conta, tampouco em relação à natureza alimentar da verba. Dessa forma, não se verifica nenhum impedimento à penhora de ativos financeiros do executado, que não se enquadram em nenhuma das hipóteses de impenhorabilidade prevista no artigo 833, IV, do Código de Processo Civil" (fl. 51 e-STJ). Nesse contexto, o acolhimento da pretensão recursal demandaria o revolvimento do acervo fático-probatório dos autos, procedimento inviável ante a natureza excepcional da via eleita, conforme dispõe a Súmula nº 7/STJ. A propósito: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. IMPENHORABILIDADE. VERBA DE NATUREZA SALARIAL. REEXAME. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7 DO STJ. ART. 833, X, DO CPC. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. DEFICIÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. 1. Derruir a conclusão a que chegou o Tribunal a quo no sentido de que não foi comprovada a natureza alimentar da verba penhorada demandaria o reexame de fatos e provas o que é vedado pelo enunciado da Súmula 7 do STJ. 2. A tese calcada, especificamente, no inciso X do art. 833 do CPC não foi prequestionada, o que inviabiliza a sua apreciação em sede de recurso especial. 3. Agravo interno não provido." (AgInt no AgInt nos EDcl no REsp n. 2.015.511/DF, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 20/11/2023, DJe de 22/11/2023 - grifou-se) "CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. DECISÃO DA PRESIDÊNCIA DESTA CORTE. AGRAVO DE INSTRUMENTO. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DOS DISPOSITIVOS VIOLADOS. SÚMULA N. 284/STF. IMPUGNAÇÃO À PENHORA. REVISÃO. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. SÚMULA N. 7/STJ. DECISÃO MANTIDA. 1. A falta de indicação precisa dos dispositivos legais supostamente violados impede o conhecimento do recurso especial (Súmula n. 284/STF). 2. O recurso especial não comporta exame de questões que impliquem o revolvimento do contexto fático-probatório dos autos (Súmula n. 7 do STJ). 3. No caso concreto, o Tribunal de origem analisou a prova dos autos para concluir pela penhorabilidade dos valores constantes em conta-corrente, pois não comprovada sua natureza salarial. Alterar tal conclusão é inviável em recurso especial. 4. Agravo interno a que se nega provimento." (AgInt no REsp n. 2.082.872/SP, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em 13/11/2023, DJe de 20/11/2023 - grifou-se) No tocante à penhorabilidade de cotas de consórcio imobiliário, o aresto combatido encontra-se alinhado à jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, que entende que o caráter protetivo da Lei nº 8.009/19 90 impõe sejam as exceções nela previstas interpretadas restritivamente. A propósito: "AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO - AUTOS DE AGRAVO DE INSTRUMENTO NO BOJO DE DEMANDA DE EXECUÇÃO POR QUANTIA CERTA CONTRA DEVEDOR SOLVENTE - IMPENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA - REEXAME DE PROVAS - SÚMULA 7/STJ - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE CONHECEU DO AGRAVO PARA NEGAR SEGUIMENTO AO RECURSO ESPECIAL. INSURGÊNCIA DA EXEQUENTE. 1. É iterativa a jurisprudência deste e. Superior Tribunal de Justiça que entende ser admissível a penhora do bem de família hipotecado quando a garantia real for prestada em benefício da própria entidade familiar, e não para assegurar empréstimo obtido por terceiro ou pessoa jurídica, sendo vedado se presumir que a garantia fora dada em benefício da família, para, assim, afastar a impenhorabilidade do bem com base no art. 3º, V, da Lei n. 8.009/90. Alterar a conclusão do Tribunal de origem - de que a dívida decorrente da hipoteca não se reverteu em prol da família -, enseja o reexame de provas e, consequentemente a incidência da Súmula 7/STJ. 2. A impenhorabilidade do bem de família é irrenunciável pela vontade do seu titular por tratar-se de um princípio relativo às questões de ordem pública. O escopo da proteção ao bem de família é a proteção da própria entidade familiar e não do patrimônio do devedor em face de suas dívidas, devendo as exceções à impenhorabilidade serem interpretadas restritivamente à hipótese prevista em lei. Incidência da Súmula 83/STJ. Precedentes. 3. Agravo regimental desprovido." (AgRg no Ag n. 1.355.749/SP, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 26/5/2015, DJe de 1/6/2015 - grifou-se) "AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO MONITÓRIA. CHEQUE PRESCRITO. PENHORA DE BEM DE FAMÍLIA. IMPENHORABILIDADE ABSOLUTA. 1. A proteção conferida ao instituto de bem de família é princípio concernente às questões de ordem pública, não se admitindo nem mesmo a renúncia por seu titular do benefício conferido pela lei, sendo possível, inclusive, a desconstituição de penhora anteriormente feita. 2. A jurisprudência do STJ tem, de forma reiterada e inequívoca, pontuado que o benefício conferido pela Lei 8.009/90 trata-se de norma cogente, que contém princípio de ordem pública, e sua incidência somente é afastada se caracterizada alguma hipótese descrita no art. 3º da Lei 8.009/90, o que não é o caso dos autos. 3. A finalidade da Lei 8.009/90 não é proteger o devedor contra suas dívidas, mas visa à proteção da entidade familiar no seu conceito mais amplo, motivo pelo qual as hipóteses de exceção à impenhorabilidade do bem de família, em virtude do seu caráter excepcional, devem receber interpretação restritiva. 4. Agravo regimental não provido." (AgRg no AREsp n. 537.034/MS, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 26/8/2014, DJe de 1/10/2014 - grifou-se) Logo, não merece reparos o acórdão recorrido, incidindo na espécie o enunciado da Súmula nº 568/STJ. Ante o exposto, conheço em parte do recurso especial e, nessa extensão, nego-lhe provimento. Na hipótese, não cabe a majoração dos honorários sucumbenciais prevista no art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, pois o recurso tem origem em decisão interlocutória, sem a prévia fixação de honorários. Publique-se. Intimem-se. EMENTA