REsp 2173131 - DECISAO
O Tribunal concluiu que não havia comprovação suficiente da voluntariedade do suposto consentimento para ingresso domiciliar e que não se demonstrou fundada suspeita anterior apta a legitimar a invasão sem mandado; por isso, reconheceu-se a ilegalidade do ingresso e das provas daí decorrentes, determinando a...
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- Parties
- Recorrente: PAULO ALERRANDRO DOS SANTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 06 February 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento
- Outcome
- parcial provimento
- Legal Topics
- Posse Irregular De Arma De Fogo, Busca Pessoal, Violação De Domicílio, Nulidade De Provas, Fundada Suspeita (art. 244 Do Cpp)
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Parties
PAULO ALERRANDRO DOS SANTOS
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento
Legal Issues
- 1 existência de fundada suspeita para busca pessoal nos termos do art. 244 do CPP
- 2 validação do ingresso domiciliar sem mandado e presumido consentimento do morador
- 3 ilegitimidade das provas decorrentes de ingresso domiciliar ilegal
Ratio Decidendi
O Tribunal concluiu que não havia comprovação suficiente da voluntariedade do suposto consentimento para ingresso domiciliar e que não se demonstrou fundada suspeita anterior apta a legitimar a invasão sem mandado; por isso, reconheceu-se a ilegalidade do ingresso e das provas daí decorrentes, determinando a cassação dos julgamentos e o retorno dos autos à primeira instância para novo julgamento.
Court Disposition
parcial provimento
Orders
- Reconhecida a ilegalidade na invasão de domicílio e das eventuais provas daí decorrentes
- Cassarem-se os julgamentos prolatados pelas instâncias de origem
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por PAULO ALERRANDRO DOS SANTOS, com fundamento no art. 105, inc iso III, a, da Constituição Federal, contra acórdão prolatado pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE PERNAMBUCO (Apelação n. 0004446-32.2019.8.17.0810). Depreende-se dos autos que o recorrente foi condenado, como incurso no art. 12, caput, da Lei n. 10.826/2003, à pena de 2 meses de detenção, em regime inicial aberto, ante a apreensão de um revólver, calibre 38, municiado com seis cartuchos do mesmo calibre (e-STJ fls. 106/109). Interposta apelação pela defesa, o Tribunal de origem manteve incólume a sentença condenatória, em acórdão assim ementado (e-STJ fls. 152/153): EMENTA: PENAL. PROCESSO PENAL. APELAÇÃO. POSSE IRREGULAR DE ARMA DE FOGO DE USO PERMITIDO. PRELIMINAR. NULIDADE POR VIOLAÇÃO DE DOMICÍLIO DO RÉU. REJEIÇÃO. PROVADO O CONSENTIMENTO DO RÉU PARA INGRESSO EM SUA RESIDÊNCIA, BEM COMO, PROVADA JUSTA CAUSA PARA O INGRESSO ANTE A FUGA DO RÉU. PRECEDESNTE STJ. PRECEDENTE VINCULANTE STF. NO MÉRITO. REDUÇÃO DA PENA. IMPOSSIBILIDADE. PENA FIXADA AQUÉM DO MÍNIMO LEGAL. SENTENÇA MANTIDA. APELAÇÃO NÃO PROVIDA. DECISÃO UNÂNIME. 1. Havendo consentimento do Réu para ingresso em sua residência onde a arma do crime foi encontrada e apreendida, e ainda, havendo justa causa para o ingresso dos policias, ante a fuga do réu, no momento da abordagem policial, revela óbice a alegação de nulidade suscitada pela defesa de violação de domicílio, ex vi, do art. 5º, inciso XI, da CR/88. Precedentes do STJ e STF. 2. Não existindo, no feito, prova de prejuízo para o réu com eventual alegação de nulidade, a preliminar resta insustentável, acarretando sua rejeição. Precedentes do STF e STJ. 3. Hipótese em que a pena definitiva do réu foi fixada aquém do mínimo legal revela óbice ao acolhimento do pleito defensivo de fixação da pena pouco acima do mínimo legal, prejudicando o conhecimento do apelo, nessa parte, por falta de interesse recursal. 4. Sentença Mantida. Apelação Não Provida. Decisão unânime. Irresignada, a Defensoria Pública interpõe recurso especial, alegando ofensa ao art. 244 do Código de Processo Penal, sob o argumento de nulidade das provas obtidas por meio de busca pessoal e posterior violação de domicílio, visto que as diligências teriam sido motivadas pelo fato de o agente usar tornozeleira eletrônica, não havendo provas do consentimento do morador para o ingresso em sua residência. Requer, ao final, o reconhecimento da ilicitude das provas e a consequente absolvição do recorrente (e-STJ fl. 193). O Ministério Público Federal manifestou-se pelo provimento do recurso (e-STJ fls. 217/222). É, em síntese, o relatório. Decido. Quanto à alegada nulidade probatória, em razão da ausência de fundada suspeita para a realização da diligência inicial em desfavor do recorrente, sabe-se que o art. 244 do Código de Processo Penal prevê que "a busca pessoal independerá de mandado, no caso de prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar". A Sexta Turma deste Superior Tribunal de Justiça, ao analisar o Recurso em Habeas Corpus n. 158.580/BA, apreciou a matéria referente à busca pessoal e/ou veicular prevista no referido art. 244 do CPP. O Ministro Rogerio Schietti, relator do referido recurso, concluiu que: 1. Exige-se, em termos de standard probatório para busca pessoal ou veicular sem mandado judicial, a existência de fundada suspeita (justa causa) - baseada em um juízo de probabilidade, descrita com a maior precisão possível, aferida de modo objetivo e devidamente justificada pelos indícios e circunstâncias do caso concreto - de que o indivíduo esteja na posse de drogas, armas ou de outros objetos ou papéis que constituam corpo de delito, evidenciando-se a urgência de se executar a diligência. 2. Entretanto, a normativa constante do art. 244 do CPP não se limita a exigir que a suspeita seja fundada. É preciso, também, que esteja relacionada à posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito. Vale dizer, há uma necessária referibilidade da medida, vinculada à sua finalidade legal probatória, a fim de que não se converta em salvo-conduto para abordagens e revistas exploratórias (fishing expeditions), baseadas em suspeição genérica existente sobre indivíduos, atitudes ou situações, sem relação específica com a posse de arma proibida ou objeto que constitua corpo de delito de uma infraçãopenal. O art. 244 do CPP não autoriza buscas pessoais praticadas como rotina ou praxe do policiamento ostensivo, com finalidade preventiva e motivação exploratória, mas apenas buscas pessoais com finalidade probatória e motivação correlata. 3. Não satisfazem a exigência legal, por si sós, meras informações de fonte não identificada (e.g. denúncias anônimas) ou intuições/impressões subjetivas, intangíveis e não demonstráveis de maneira clara e concreta, baseadas, por exemplo, exclusivamente, no tirocínio policial. Ante a ausência de descrição concreta e precisa, pautada em elementos objetivos, a classificação subjetiva de determinada atitude ou aparência como suspeita, ou de certa reação ou expressão corporal como nervosa, não preenche o standard probatório de fundada suspeita exigido pelo art. 244 do CPP. 4. O fato de haverem sido encontrados objetos ilícitos - independentemente da quantidade - após a revista não convalida a ilegalidade prévia, pois é necessário que o elemento fundada suspeita seja aferido com base no que se tinha antes da diligência. Se não havia fundada suspeita de que a pessoa estava na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito, não há como se admitir que a mera descoberta casual de situação de flagrância, posterior à revista do indivíduo, justifique a medida. 5. A violação dessas regras e condições legais para busca pessoal resulta na ilicitude das provas obtidas em decorrência da medida, bem como das demais provas que dela decorrerem em relação de causalidade, sem prejuízo de eventual responsabilização penal do(s) agente(s) público(s) que tenha(m) realizado a diligência. Como evolução desse entendimento, a Terceira Seção desta Corte definiu que a tentativa de fuga pelo réu, ao visualizar uma guarnição policial, autoriza a busca pessoal, desde que se apresente narrativa verossímil, coerente e não contraditória com os demais elementos dos autos. Confira-se: HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. BUSCA PESSOAL. ART. 244 DO CPP. FUGA DO RÉU AO AVISTAR A GUARNIÇÃO POLICIAL. FUNDADA SUSPEITA QUANTO À POSSE DE CORPO DE DELITO. CONFIGURAÇÃO. ABSOLVIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. PROVAS LÍCITAS. ORDEM DENEGADA. 1. Segundo o disposto no art. 244 do Código de Processo Penal, "A busca pessoal independerá de mandado, no caso de prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar". 2. Por ocasião do julgamento do RHC n. 158.580/BA (Rel. Ministro Rogerio Schietti, 6ª T, DJe 25/4/2022), a Sexta Turma desta Corte Superior de Justiça, à unanimidade, propôs criteriosa análise sobre a realização de buscas pessoais e apresentou como conclusões, no que interessa: 2.1. "Exige-se, em termos de standard probatório para busca pessoal ou veicular sem mandado judicial, a existência de fundada suspeita (justa causa) - baseada em um juízo de probabilidade, descrita com a maior precisão possível, aferida de modo objetivo e devidamente justificada pelos indícios e circunstâncias do caso concreto - de que o indivíduo esteja na posse de drogas, armas ou de outros objetos ou papéis que constituam corpo de delito, evidenciando-se a urgência de se executar a diligência" .. . 2.2. "Não satisfazem a exigência legal, por si sós, meras informações de fonte não identificada (e.g. denúncias anônimas) ou intuições/impressões subjetivas, intangíveis e não demonstráveis de maneira clara e concreta, baseadas, por exemplo, exclusivamente, no tirocínio policial". 3. A Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso Fernandez Prieto e Tumbeiro v. Argentina, ao tratar sobre a validade de buscas pessoais, assentou que, "ante a ausência de elementos objetivos, a classificação de determinada conduta ou aparência como suspeita, ou de certa reação ou expressão corporal como nervosa, obedece às convicções pessoais dos agentes intervenientes e as práticas dos próprios corpos de segurança, o que comporta um grau de arbitrariedade que é incompatível com o art. 7.3 da CADH". Em 11/4/2024, o Plenário do Supremo Tribunal Federal encampou essa compreensão quanto à necessidade de elementos objetivos para a busca, ao firmar a tese, no HC n. 208.240/SP, de que "A busca pessoal, independente de mandado judicial, deve estar fundada em elementos indiciários objetivos de que a pessoa esteja na posse de arma proibida, ou de objetos ou papeis que constituam corpo de delito, não sendo lícita a realização da medida com base na raça, sexo, orientação sexual, cor da pele, ou aparência física". 4. Não se desconsidera, por certo, que os agentes de segurança, em virtude da experiência adquirida durante anos no trabalho nas ruas, talvez possam ter uma certa "intuição" sobre algumas situações, da mesma forma que um magistrado com anos de carreira, em certos casos, eventualmente "sinta" quando algum réu ou testemunha está mentindo em um depoimento. Entretanto, do mesmo modo que o juiz não pode fundamentar uma decisão afirmando apenas ter "sentido" que o acusado ou testemunha mentiu em seu depoimento, também não se pode admitir que o policial adote medidas restritivas de direitos fundamentais com base somente na sua intuição ou impressão subjetiva. 5. Não é possível argumentar que uma busca (fato anterior) é válida porque o réu foi preso (fato posterior) e, ao mesmo tempo, dizer que a prisão (fato posterior) é válida porque a busca (fato anterior) encontrou drogas. Se havia fundada suspeita de posse de corpo de delito, a ação policial é legal, mesmo que o indivíduo seja inocente; se não havia, a ação é ilegal, ainda que o indivíduo seja culpado. 6. O cerne da controvérsia em debate é saber se a conduta de fugir correndo repentinamente ao avistar uma guarnição policial preenche ou não o requisito de fundada suspeita de corpo de delito para uma busca pessoal em via pública, nos termos do art. 244 do CPP. 7. Não se ignora, naturalmente, que esta Corte vem rechaçando a validade de buscas domiciliares realizadas com base apenas no fato de o suspeito haver corrido para dentro de casa ao avistar uma guarnição policial. Também não se desconhece a recente decisão proferida sobre o tema pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal no julgamento do HC n. 169.788/SP. É importante notar, porém, que, ao contrário do que noticiaram alguns veículos de informação, embora a ordem de habeas corpus não haja sido concedida pela Suprema Corte, não houve maioria no colegiado para estabelecer a tese de que a fuga do suspeito para o interior da residência ao avistar a polícia justifica, por si só, o ingresso domiciliar. Assim, por imperativo de coerência, é necessário esclarecer o motivo pelo qual essa atitude, embora não justifique uma busca domiciliar sem mandado, pode justificar uma busca pessoal em via pública. Para isso, é preciso invocar a noção de standards probatórios, os quais devem seguir uma tendência progressiva, de acordo com a gravidade da medida a ser adotada. 8. Enquanto a proteção contra buscas pessoais arbitrárias está no Código de Processo Penal (art. 244) e decorre apenas indiretamente das proteções constitucionais à privacidade, à intimidade e à liberdade, a inviolabilidade do domicílio está prevista expressamente em diversos diplomas internacionais de proteção aos direitos humanos e na Constituição Federal, em inciso próprio do art. 5º, como cláusula pétrea, além de a afronta a essa garantia ser criminalizada nos arts. 22 da Lei n. 13.869/2019 e 150 do Código Penal. É bem verdade que buscas pessoais são invasivas e que algumas delas eventualmente podem ser quase tão constrangedoras quanto buscas domiciliares; no entanto, não há como negar a diferença jurídica de tratamento entre as medidas. 9. O art. 5º, XI, da Constituição Federal exige, para o ingresso domiciliar sem mandado judicial - ressalvadas as hipóteses de "prestar socorro" ou "desastre" -, a existência de flagrante delito, e o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema de Repercussão Geral n. 280, reputou necessário haver "fundadas razões" prévias quanto à existência de situação flagrancial no interior do imóvel. Assim, embora o STF não haja imposto um standard probatório de plena certeza, trata-se de uma exigência elevada quanto à provável existência de flagrante delito, diante da ressaltada dimensão que a proteção domiciliar ocupa e da interpretação restritiva que se deve atribuir às exceções a essa garantia fundamental. E, ao contrário do que se dá na busca pessoal, o direito à inviolabilidade do domicílio não protege apenas o alvo de uma atuação policial, mas todo o grupo de pessoas que residem ou se encontram no local da diligência. 10. Já no que concerne às buscas pessoais, apesar de evidentemente não poderem ser realizadas sem critério legítimo, o que a lei exige é a presença de fundada suspeita da posse de objeto que constitua corpo de delito, isto é, uma suspeição razoavelmente amparada em algo sólido, concreto e objetivo, que se diferencie da mera suspeita intuitiva e subjetiva. 11. É possível cogitar quatro motivos principais para que alguém empreenda fuga ao avistar uma guarnição policial: a) estar praticando crime naquele exato momento (flagrante delito); b) estar na posse de objeto que constitua corpo de delito (o que nem sempre representa uma situação flagrancial); c) estar em situação de descumprimento de alguma medida judicial (por exemplo, medida cautelar de recolhimento noturno, prisão domiciliar, mandado de prisão em aberto etc.) ou cometendo irregularidade administrativa (v. g. dirigir sem habilitação); d) ter medo de sofrer pessoalmente algum abuso por parte da polícia ou receio de ficar próximo a eventual tiroteio e ser atingido por bala perdida, sobretudo nas comunidades periféricas habitadas por grupos vulneráveis e marginalizados, em que a violência policial e as intensas trocas de tiros entre policiais e criminosos são dados presentes da realidade. 12. Com base nessas premissas, diante da considerável variabilidade de possíveis explicações para essa atitude, entende-se que fugir correndo repentinamente ao avistar uma guarnição policial não configura, por si só, flagrante delito, nem algo próximo disso para justificar que se excepcione a garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar. Trata-se, todavia, de conduta intensa e marcante que consiste em fato objetivo - não meramente subjetivo ou intuitivo -, visível, controlável pelo Judiciário e que, embora possa ter outras explicações, no mínimo gera suspeita razoável, amparada em juízo de probabilidade, sobre a posse de objeto que constitua corpo de delito (conceito mais amplo do que situação de flagrante delito). 13. Ademais, também não se trata de mera "suspeita baseada no estado emocional ou na idoneidade ou não da reação ou forma de vestir" ou classificação subjetiva de "certa reação ou expressão corporal como nervosa", o que, segundo a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Fernandez Prieto e Tumbeiro v. Argentina, é insuficiente para uma busca pessoal. Fugir correndo é mais do que uma mera reação sutil, como seria o caso, por exemplo, de: a) um simples olhar (ou desvio de olhar), b) levantar-se (ou sentar-se), c) andar (ou parar de andar), d) mudar a direção ou o passo, enfim, comportamentos naturais de qualquer pessoa que podem ser explicados por uma infinidade de razões, insuficientes, a depender do contexto, para classificar a pessoa que assim se comporta como suspeita. Essas reações corporais, isoladamente, são assaz frágeis para embasar de maneira sólida uma suspeição; a fuga, porém, se distingue por representar atitude intensa, nítida e ostensiva, dificilmente confundível com uma mera reação corporal natural. 14. Não se deve ignorar, entretanto, a possibilidade de que se criem discursos ou narrativas dos fatos para legitimar a diligência policial. Daí, por conseguinte, a necessidade de ser exercido um "especial escrutínio" sobre o depoimento policial, na linha do que propôs o Ministro Gilmar Mendes por ocasião do julgamento do RE n. 603.616/RO (Tema de Repercussão Geral n. 280): "O policial pode invocar o próprio testemunho para justificar a medida. Claro que o ingresso forçado baseado em fatos presenciados pelo próprio policial que realiza a busca coloca o agente público em uma posição de grande poder e, por isso mesmo, deve merecer especial escrutínio". 15. Trata-se, portanto, de abandonar a cômoda e antiga prática de atribuir caráter quase que inquestionável a depoimentos prestados por testemunhas policiais, como se fossem absolutamente imunes à possibilidade de desviar-se da verdade; do contrário, deve-se submetê-los a cuidadosa análise de coerência - interna e externa -, verossimilhança e consonância com as demais provas dos autos. 16. Assim, à luz de todas essas ponderações, conclui-se que fugir correndo repentinamente ao avistar uma guarnição policial configura motivo idôneo para autorizar uma busca pessoal em via pública, mas a prova desse motivo, cujo ônus é do Estado, por ser usualmente amparada apenas na palavra dos policiais, deve ser submetida a especial escrutínio, o que implica rechaçar narrativas inverossímeis, incoerentes ou infirmadas por outros elementos dos autos. 17. O exame destes autos indica que o réu, ao avistar uma viatura policial que fazia patrulhamento de rotina na região dos fatos, correu, em fuga, para um terreno baldio, o que motivou a revista pessoal, na qual foram encontradas drogas. Diante das premissas estabelecidas neste voto e da ausência de elementos suficientes para infirmar ou desacreditar a versão policial, mostra-se configurada a fundada suspeita de posse de corpo de delito a autorizar a busca pessoal, nos termos do art. 244 do CPP. 18. Ordem denegada. (HC n. 877.943/MS, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Terceira Seção, julgado em 18/4/2024, DJe de 15/5/2024.) Para melhor delimitar a quaestio, transcrevo o seguinte excerto do voto condutor do acórdão recorrido (e-STJ fls. 157/159, grifei): Após análise detida dos autos, verifico que a preliminar não merece ser acolhida. Vejamos. Extraio dos autos que o argumento defensivo de nulidade encontra óbice na prova dos autos, principalmente no depoimento judicial e extrajudicial das testemunhas, no qual afirmam que foi o próprio acusado quem levou os policiais, livremente, à sua residência, tendo o mesmo colaborado com a entrada dos policiais, nos termos que se seguem: .. O CONDUTOR e TESTEMUNHA, aos costumes disse nada e, prestando compromisso na forma da lei, prometeu dizer a verdade do que souber e lhe for perguntado, respondeu: QUE na manhã do dia de hoje, por volta das 11h45m, estava de serviço de plantão, realizando bloqueio de rotina na Av. Dr. José Rufino, Tejipió, quando deram ordem de parada a uma Motocicleta, YAMAHA, Cor preta; QUE O motorista não parou no bloqueio, tendo O policiamento entrado em perseguição, o abordando; QUE não havia nada de ilícito com o abordado, que identificou-se como PAULO ALERRANDRO DOS SANTOS, porém o mesmo utilizava uma tornozeleira e alegou que estava no semiaberto e que estaria na área de permissão da mesma; QUE indagaram o motivo de ter furado o bloqueio, indagaram por drogas e armas, ocasião em que o abordado disse que não estava com nada de ilícito, mas que iria contar a verdade ao policiamento, confessando que guardava uma arma de fogo em sua residência, por motivos de já ter sido ameaçado, anteriormente, por pessoas que já cortaram sua barriga e ficam o ameaçando de morte; QUE diante dos fatos indagaram o endereço, momento em que o conduzido os levou até sua residência, .. QUE lá chegando o autuado colaborou com o policiamento, entregando a arma de fogo, um Revólver, TAURUS, .38 SPECIAL, cabo em borracha, n de série FY714397, tambor com capacidade para 06 (seis) munições, municiado com 06 (seis) munições de mesmo calibre .. Assim, tem-se a prova judicial e extrajudicial dos autos no sentido de que houve o consentimento do próprio Apelante, bem como, a condução dos policias pelo próprio réu até sua residência, onde de fato a arma do crime deste feito foi apreendida, configurando a autorização do réu para ingresso dos policiais em seu domicílio, não havendo que se falar em prova ilícita, revelando a prova do processo que a entrada em domicílio não foi forçada. Desse modo, nestes autos, houve o consentimento do morador/Apelante. Ademais, ainda que não tal consentimento não houvesse ocorrido, é certo que este processo possui elementos suficientes a justificar a entrada dos policiais, no domicílio do réu, sem mandado e sem consentimento, nos termos da CR/88 e dos recentes precedentes do STJ e do recentíssimo precedente vinculante do STF, a saber. Na espécie, observa-se que a abordagem inicial foi realizada com base em critérios objetivos e devidamente justificada pelos indícios e circunstâncias do caso concreto, porquanto o agente teria desobedecido ordem de parada dos policiais e tentado empreender fuga, sendo perseguido e alcançado na sequência, circunstâncias fáticas que autorizam a diligência, conforme demonstrado alhures. Entretanto, verifica-se violação do art. 157 do Código de Processo Penal, observado que o ingresso forçado na casa onde foram apreendidas os ilícitos não se sustenta em fundadas razões extraídas da leitura dos documentos dos autos. Isso, porque a Sexta Turma desta Corte, em recente entendimento firmado nos autos do HC n. 598.051/SP, de relatoria do Ministro Rogerio Schietti Cruz, fixou as teses de que "as circunstâncias que antecederem a violação do domicílio devem evidenciar, de modo satisfatório e objetivo, as fundadas razões que justifiquem tal diligência e a eventual prisão em flagrante do suspeito, as quais, portanto, não podem derivar de simples desconfiança policial, apoiada, v. g., em mera atitude "suspeita", ou na fuga do indivíduo em direção a sua casa diante de uma ronda ostensiva, comportamento que pode ser atribuído a vários motivos, não, necessariamente, o de estar o abordado portando ou comercializando substância entorpecente", e de que até mesmo o consentimento, registrado nos autos, para o ingresso das autoridades públicas sem mandado deve ser comprovado pelo Estado, o que não ocorreu no caso em tela. Como visto, os policiais apresentaram a narrativa fática de que realizaram a busca pessoal em via pública e nada ilícito foi encontrado; ainda assim, o próprio réu teria informado guardar uma arma em sua residência, razão pela qual os milicianos para lá se dirigiram e, após serem autorizados a entrar no imóvel, localizaram um revólver calibre 38 e seis munições do mesmo calibre. Com efeito, esta Corte Superior tem reiteradamente decidido que compete ao Estado a comprovação da voluntariedade do residente em autorizar a entrada dos policiais, o que não ocorreu no caso em tela. A propósito, confiram-se: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS INTERPOSTO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL CONTRA DECISÃO QUE CONCEDEU A ORDEM. TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES. NULIDADE. BUSCA PESSOAL E VIOLAÇÃO DE DOMICÍLIO. AUSÊNCIA DE FUNDADAS RAZÕES. VOLUNTARIEDADE DO CONSENTIMENTO PARA O INGRESSO NA RESIDÊNCIA. FALTA DE COMPROVAÇÃO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. PRECEDENTES. .. 4. A Sexta Turma tem sedimentado entendimento, no sentido de que é inverossímil a suposta confissão informal (livre e voluntária) do réu sobre armazenamento de drogas no interior do imóvel, seguida de autorização para ingresso dos policiais (por parte do acusado ou de outro morador da residência), ante a ausência de comprovação do consentimento dos moradores, como ocorreu no presente caso (AgRg no HC n. 742.270/GO, Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe 24/10/2022). .. (AgRg no HC n. 768.471/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 27/3/2023, DJe de 31/3/2023, grifei.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. APREENSÃO DE 110G (CENTO E DEZ GRAMAS) DE COCAÍNA. VIOLAÇÃO DE DOMICÍLIO. INGRESSO POLICIAL APOIADO EM DENÚNCIA ANÔNIMA AUTORIZAÇÃO DE ENTRADA NÃO COMPROVADA PELO ESTADO. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. APLICAÇÃO DO ENTENDIMENTO FIRMADO NO HC N. 598.051/SP. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Tendo como referência o recente entendimento firmado por esta Corte, nos autos do HC n. 598.051/SP, o ingresso policial forçado em domicílio, resultando na apreensão de material apto a configurar o crime de tráfico de drogas - 110g (cento e dez gramas) de cocaína -, quando apoiado em mera denúncia anônima, não traz contexto fático que justifica a dispensa de investigações prévias ou do mandado judicial para a entrada dos agentes públicos na residência, acarretando a nulidade da diligência policial, como no caso dos autos. 2. Na hipótese em exame, do contexto fático delineado pelas instâncias ordinárias, infere-se que não houve nenhuma espontaneidade no dito consentimento do acusado para que os policiais ingressassem na residência, pois não foi comprovada a voluntariedade, tal como narrada na sentença condenatória, ônus probatório esse de incumbência do Estado. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 692.882/RJ, de minha relatoria, Sexta Turma, DJe de 13/12/2021, grifei.) De fato, não é crível a versão de que o acusado, sponte propria, tenha franqueado a entrada dos policiais para ser preso em flagrante logo em seguida. No mesmo sentido o parecer do Ministério Público Federal, do qual extraio o seguinte excerto (e-STJ fls. 221/222, grifei): Na hipótese, verifica-se que não foram observados os pressupostos exigidos para que o ingresso no domicílio seja reputado legal, sendo evidente a irregularidade na atuação dos agentes estatais. No caso, a entrada dos policiais na residência do recorrente, onde foi encontrada a arma, foi ilícita, porque inexistente situação de fundada suspeita anterior que justificasse a entrada no domicílio, eis que, na busca pessoal, nenhum objeto proibido foi encontrado com o recorrente. E, mesmo que na busca pessoal algo ilícito estivesse em sua posse, isto não convalidaria a posterior entrada do domicílio. Com efeito, a situação flagrancial que excepciona a inviolabilidade do domicílio (art. 5º, inciso XI, da Constituição da República) é aquela em que o suposto crime é praticado dentro da residência. Sendo assim, o flagrante ocorrido em via pública não é suficiente para justificar a revista no domicílio do acusado, sendo essencial a existência de elementos prévios que indiquem a prática de delito naquele local, o que não ocorreu na hipótese. E, embora conste nos autos que o réu franqueou a entrada dos agentes, não houve nenhuma comprovação documental de que a autorização tenha se dado de forma livre e voluntária, não sendo crível, ademais, que o recorrente tenha admitido aos policiais guardar uma arma em sua residência e ainda tenha os conduzido até o local. Pelo exposto, opino pelo conhecimento e provimento do recurso especial, para absolver o recorrente da prática do crime de posse irregular de arma de fogo de uso permitido. Assim, superado o antigo entendimento vigente nesta Corte, que convalidava o ingresso ilegal dos agentes com amparo exclusivo na natureza permanente dos delitos supostamente cometidos, faz-se imperiosa a anulação da prova decorrente do ingresso ilegal no imóvel. Por todo o exposto, dou parcial provimento ao recurso especial para, reconhecida a ilegalid ade na invasão de domicílio e das eventuais provas daí decorrentes, cassar os julgamentos prolatados pelas instâncias de origem e determinar o retorno dos autos à primeira instância para que profira novo julgamento, como entender de direito. Publique-se. Intimem-se. EMENTA