REsp 2082777 - DECISAO
O Tribunal concluiu que a pretensão de repetição de quantias pagas decorre de relação contratual e de descumprimento contratual, não se confundindo com enriquecimento sem causa, pelo que incide o prazo prescricional decenal do art. 205 do CC; além disso, a alegação de omissão prevista no art. 1.022 do CPC foi...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 May 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento Decisão De Mérito
- Outcome
- Conheço parcialmente do recurso especial e nego-lhe provimento.
- Legal Topics
- Prescrição, Repetição De Indébito, Planos De Saúde, Responsabilidade Contratual, Honorários Sucumbenciais
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento Decisão De Mérito
Legal Issues
- 1 incidência do prazo prescricional aplicável (art. 205 CC - prazo decenal versus art. 206, §3º, IV, CC - prazo trienal)
- 2 alegada omissão do acórdão e art. 1.022, II, do CPC
- 3 qualificação da pretensão como repetição de indébito em contexto contratual versus enriquecimento sem causa
Ratio Decidendi
O Tribunal concluiu que a pretensão de repetição de quantias pagas decorre de relação contratual e de descumprimento contratual, não se confundindo com enriquecimento sem causa, pelo que incide o prazo prescricional decenal do art. 205 do CC; além disso, a alegação de omissão prevista no art. 1.022 do CPC foi genérica e, por isso, inadmissível à instância especial (incidência da Súmula 284/STF), razão pela qual o recurso especial foi conhecido parcialmente e negado provimento; determinou-se também a majoração dos honorários sucumbenciais para 15% nos termos do art. 85, §11, CPC.
Court Disposition
Conheço parcialmente do recurso especial e nego-lhe provimento.
Orders
- Honorários sucumbenciais majorados de 10% para 15% em favor do advogado da parte recorrida, nos termos do art. 85, § 11, do CPC, observado o benefício da gratuidade da justiça, se for o caso.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pela CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS FUNCIONÁRIOS DO BANCO DO BRASIL, com fundamento nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, desafiando acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assim ementado: "PLANO DE SAÚDE. AÇÃO DE REPETIÇÃO DE INDÉBITO C.C. DECLARATÓRIA DE CESSÃO DE DESCONTOS E DEVOLUÇÃO DE CONTRIBUIÇÕES EM DUPLICIDADE. COBRANÇA DE MENSALIDADE DO CÔNJUGE FALECIDO. DIVERGÊNCIA NOS VALORES DOS PRÊMIOS DEBITADOS NA CONTA CORRENTE DA AUTORA EM COMPARAÇÃO COM EXTRATO DE UTILIZAÇÃO DO PLANO DE SAÚDE. PRETENSÃO DE RESSARCIMENTO DAS QUANTIAS PAGAS EM DUPLICIDADE E A MAIOR. PRESCRIÇÃO DECENAL. Plano de saúde. Pretensão da autora de ressarcimento das quantias pagas ao longo dos anos, com débito em conta corrente, referentes à mensalidade do cônjuge falecido no ano de 2007,bem como dos valores pagos a maior, relativas ao seu próprio prêmio em comparação entre o efetivamente debitado em conta corrente e aqueles constantes do extrato de utilização do plano de saúde. Prescrição decenal. Inteligência do artigo 205 do CC/2002. Hipótese não guarda identidade com o enriquecimento sem causa, mas como descumprimento contratual, ou seja, não tem fundamento na repetição de indébito em razão de declaração de nulidade ou revisão de cláusula contratual, não se confundindo, portanto, com o Tema 610 do C. STJ. Precedentes deste E. Tribunal de Justiça e C. STJ. Correção monetária do desembolso e juros de mora da citação, conforme artigos 404 e 405 do CC. Sentença parcialmente reformada. Recursos parcialmente providos" (e-STJ fl. 358). Os embargos de declaração opostos ao referido aresto foram rejeitados (e-STJ fls. 391/401). Nas razões do especial (e-STJ fls. 403/413), além do dissídio interpretativo, a recorrente aponta negativa de vigência dos arts. 1.022, inciso II, do Código de Processo Civil e 206, § 3º, inciso IV, do Código Civil. Sustenta, em síntese, a nulidade do acórdão por não suprir a omissão apontada nos embargos de declaração. Além disso, afirma que a prescrição é suscetível de ser alegada a qualquer tempo, inclusive, conhecida de ofício pelo magistrado. Aduz, ainda, que, na hipótese vertente, o "pedido de repetição de indébito baseia-se, então, no pagamento de algo que não seria devido, portanto, num enriquecimento sem causa da parte recorrida" (e-STJ fl. 410). E, mais, que "tem que ser respeitado o lapso prescricional de três anos, previsto no inciso IV, do § 3, do art. 206 do Código Civil, atinente às pretensões de ressarcimento de enriquecimento sem causa" (e-STJ fls. 410). Oferecidas as contrarrazões (e-STJ fls. 461/474), o recurso foi admitido na origem, ascend endo os autos a esta Corte. É o relatório. DECIDO. A irresignação não merece acolhida. Inicialmente, no tocante à apontada violação ao art. 1.022 do CPC, impõe-se destacar que, no recurso especial, há somente alegação genérica de negativa de prestação juris dicional, sem especificação das teses que supostamente deveriam ter sido analisadas pelo acórdão recorrido. Ante a deficiente fundamentação do recurso neste ponto, incide a Súmula 284 do STF: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia". A propósito: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. ACIDENTE DE TRÂNSITO. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. PROVA QUE DEMONSTRA A CULPABILIDADE DO RÉU.SÚMULA 7/STJ. QUANTUM INDENIZATÓRIO. VALOR RAZOÁVEL. PENSÃO. FILHO MENOR. IDADE LIMITE. 25 ANOS. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. É deficiente a fundamentação do recurso especial em que a alegação de ofensa ao art. 1.022 do CPC/2015 se faz de forma genérica, sem a demonstração exata dos pontos pelos quais o acórdão se fez omisso, contraditório ou obscuro. Incidência da Súmula 284 do STF. (..) 6.Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 1173946/SP, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 03/03/2020, DJe 25/03/2020). Além disso, no que diz respeito ao prazo prescricional, o aresto atacado está assim fundamentado: "(..) a hipótese não guarda identidade com o enriquecimento sem causa, mas com o descumprimento contratual, ou seja, não tem fundamento na repetição de indébito, mas sim em nulidade ou revisão de cláusula contratual, não se confundindo, portanto, com o Tema 610 do C. STJ. Tal conclusão não destoa do entendimento firmado nesta Corte, no sentido de que, nas controvérsias relacionadas à responsabilidade contratual, aplica-se a regra geral do artigo 205 do Código Civil, que prevê dez anos de prazo prescricional. Nesse sentido, confiram-se: "CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PLANO DE SAÚDE. COBRANÇA EM DUPLICIDADE. RESTITUIÇÃO DE VALORES PAGOS INDEVIDADEMENTE. PRESCRIÇÃO. PRAZO DECENAL. RESTITUIÇÃO EM DOBRO. MÁ-FÉ. REEXAME DE FATOS E PROVAS. SÚMULA N. 7/STJ. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 386 DO STF. 1. Nos casos em que se discute "repetição de indébito, por cobrança indevida de valores contratuais, não se enquadra no conceito de enriquecimento ilícito, em razão da existência de causa jurídica contratual adjacente, de modo que se aplica a prescrição decenal e não a trienal, conforme entendimento desta Corte Especial, firmado por ocasião do julgamento dos EREsp nº 1.281.594/SP" (AgInt no AREsp n. 892.824/SP, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 29/8/2022, DJe de 1º/9/2022). 2. Nos termos da jurisprudência do STJ, a aplicação da penalidade prevista no art. 940 do CC exige a comprovação do dolo. 3. Não cabe ao STJ, em recurso especial, o reexame de fatos e provas, por esbarrar no óbice da Súmula n. 7/STJ. 4. Ausente o prequestionamento dos artigos alegados como violado, não é possível o conhecimento do recurso especial. Incidência das Súmulas 282 e 356 do STF. Agravo interno improvido" (AgInt no AREsp n. 2.526.642/RS, relator Ministro Humberto Martins, Terceira Turma, julgado em 15/4/2024, DJe de 17/4/2024- grifou-se.) "RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE COBRANÇA. CONTRATO DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE. PRETENSÃO DE COBRANÇA DE CONTRIBUIÇÕES MENSAIS INADIMPLIDAS. DISPOSIÇÃO CONTRATUAL QUE ESTABELECE OS DADOS E OS CRITÉRIOS NECESSÁRIOS AO CÁLCULO DOS VALORES DEVIDOS. DÍVIDA LÍQUIDA PREVISTA EM INSTRUMENTO PARTICULAR. PRAZO PRESCRICIONAL QUINQUENAL. 1. Ação de cobrança ajuizada em 24/08/2021, da qual foi extraído o presente recurso especial, interposto em 07/11/2022 e concluso ao gabinete em 30/05/2023. 2. O propósito recursal é decidir sobre o prazo prescricional aplicável à pretensão de cobrança, pela operadora, das contribuições mensais inadimplidas pelo titular do contrato de assistência à saúde: se quinquenal (art. 206, § 5º, I, do CC) ou decenal (art. 205 do CC). 3. A interpretação dos dispositivos legais, à luz do entendimento jurisprudencial e doutrinário, permite inferir que a regra geral, nas pretensões relacionadas ao inadimplemento contratual, inclusive nos contratos de assistência à saúde, é a da incidência da prescrição decenal (art. 205 do CC); se se tratar de pretensão de nulidade de cláusula contratual com a consequente repetição do indébito, aplica se a regra especial do prazo trienal (art. 206, § 3º, IV, do CC); se se tratar de pretensão, pura e simples, de cobrança de dívida líquida prevista no contrato, todavia, aplica-se a regra especial do prazo quinquenal (art. 206, § 5º, I, do CC). 4. Há de ser observada a prescrição especial in concreto - qual seja, a do art. 206, § 5º, I, do CC - quando a dívida exigida em juízo estiver contida em disposição contratual que estabeleça os dados e os critérios necessários ao cálculo dos valores devidos, sendo a sua cobrança a única pretensão exercida pelo autor (pretensão principal) em face do contratante inadimplente que, obrigado a pagar o valor determinado na avença, deixa de fazê-lo no vencimento acordado. 5. A hipótese dos autos não se confunde com a do julgamento do REsp 1.756.283/SP, realizado pela Segunda Seção (em 11/3/2020, DJe de 3/6/2020), pois, enquanto no REsp 1.756.283/SP a pretensão de reembolso é acessória ao reconhecimento da negativa indevida de cobertura pela operadora do plano de saúde (pretensão originária), neste é deduzida, unicamente, a pretensão de cobrança da dívida líquida fundada no contrato, por representar essa dívida líquida, em si mesma, o inadimplemento da prestação a que se obrigou a contratante. 6. Recurso especial conhecido e desprovido" (REsp n. 2.073.372/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 10/4/2024- grifou-se.) "PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PREVIDÊNCIA PRIVADA. FUNDAÇÃO CESP. SUPOSTA OMISSÃO. DEFICIÊNCIA DA FUNDAMENTAÇÃO. INCIDÊNCIA, POR ANALOGIA, DA SÚMULA N.º 284 DO STF. CESSAÇÃO E RESTITUIÇÃO DAS CONTRIBUIÇÕES VERTIDAS POR ASSISTIDOS DE COMPLEMENTAÇÃO DE APOSENTADORIA. LEI ESTADUAL N.º 4.819/58. ILEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM. LITISCONSÓRCIO PASSIVO NECESSÁRIO. APELO NOBRE FUNDAMENTADO NA VIOLAÇÃO DE LEI ESTADUAL. REFORMA DO JULGADO. NECESSIDADE DE REEXAME DE MATÉRIA FÁTICO-PROBATÓRIA. IMPOSSIBILIDADE DE ANÁLISE POR ESTA CORTE. APLICAÇÃO DAS SÚMULAS N. os 7 DO STJ E 280 E 284, AMBAS DO STF. PRESCRIÇÃO TRIENAL. INAPLICABILIDADE. EXISTÊNCIA DE CAUSA JURÍDICA PARA AS CONTRIBUIÇÕES. SUBSIDIARIEDADE DA PRETENSÃO DE ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA. PRECEDENTE DA CORTE ESPECIAL. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. Não se pode conhecer da alegada violação do art. 1.022 do CPC, porquanto as alegações que fundamentaram a suposta ofensa, além de não apontarem a imprescindibilidade para o deslinde do feito, são genéricas, sem indicação, clara e objetiva, dos pontos omissos, contraditórios ou obscuros. Tal deficiência, impede a abertura da instância especial, nos termos da Súmula n.º 284 do Supremo Tribunal Federal, aplicável, por analogia, neste Tribunal. 2. A análise da questão relativa à legitimidade passiva da agravante foi realizada no acórdão recorrido com base na interpretação da Leis Estaduais n.ºs 4.819/58 e 200/74. Dessa forma, afasta-se a competência do STJ para o deslinde da controvérsia diante da vedação prevista na Súmula n.º 280 do STF, por analogia, segundo a qual por ofensa a direito local não cabe recurso extraordinário. 3. Para se chegar a conclusão diversa da que chegou o eg. Tribunal bandeirante quanto à legitimidade passiva da FUNCESP e a desnecessidade de inclusão da Fazenda Pública do Estado de São Paulo e da CETEEP, seria inevitável o revolvimento do arcabouço fático-probatório carreado aos autos, procedimento sabidamente inviável na instância especial, por força do óbice da Súmula n.º 7 do STJ. 4. A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça definiu que, nas pretensões relacionadas à responsabilidade contratual, aplica-se a regra geral (art. 205 do CC/02), que prevê 10 anos de prazo prescricional e, nas demandas que versarem sobre responsabilidade extracontratual, aplica-se o disposto no art. 206, § 3º, V, do mesmo diploma, com prazo prescricional de 3 anos. 5. Inaplicabilidade da prescrição trienal ao caso, tendo em conta que a existência de prévia causa jurídica afasta a hipótese de enriquecimento sem causa. 6. Agravo interno não provido" (AgInt no AREsp n. 1.783.136/SP, relator Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, julgado em 28/8/2023, DJe de 30/8/2023- grifou-se .) "AGRAVO INTERNO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL. REPETIÇÃO DE VALORES COBRADOS INDEVIDAMENTE EM CONTRATO. PRESCRIÇÃO. PRESCRIÇÃO. PRAZO DECENAL. 1. A discussão envolvendo repetição de indébito, por cobrança indevida de valores contratuais, não se enquadra no conceito de enriquecimento ilícito, em razão da existência de causa jurídica contratual adjacente, de modo que se aplica a prescrição decenal e não a trienal, conforme entendimento desta Corte Especial, firmado por ocasião do julgamento dos EREsp nº 1.281.594/SP. 2. Agravo interno a que se nega provimento" (AgInt no AREsp n. 892.824/SP, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 29/8/2022, DJe de 1/9/2022- grifou-se.) Logo, tem incidência o enunciado da Súmula nº 568/STJ. Ante o exposto, conheço parcialmente do recurso especial e nego-lhe provimento. Na origem, os honorários sucumbenciais foram fixados em 10% (dez por cento) sobre o valor da condenação, os quais devem ser majorados para o patamar de 15% (quinze por cento) em favor do advogado da parte recorrida, nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, observado o benefício da gratuidade da justiça, se for o caso. Publique-se. Intimem-se. . EMENTA