AREsp 2266772 - DECISAO
Conheceu-se do agravo em parte e, nessa extensão, conheceu-se parcialmente do recurso especial, negando-lhe provimento, porquanto a Corte de origem apreciou questões fático-probatórias e concluiu pela aplicação da teoria da actio nata em seu viés subjetivo (momento em que a autora tomou ciência do nexo causal em...
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- Parties
- Agravante: ENGIE BRASIL ENERGIA S.A.; Autora/recorrida: SONIA MARIA MACHADO TOURNIER; Ré: FUNDAÇÃO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SANTA CATARINA (atual INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SANTA CATARIA - IMA); Ré: INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS - IBAMA; Ré: UNIÃO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 20 August 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão Sobre Admissibilidade Do Agravo E Conhecimento Parcial Do Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo parcialmente e, nessa extensão, conheço parcialmente do recurso especial; nego-lhe provimento.
- Legal Topics
- Prescrição, Actio Nata (viés Subjetivo), Responsabilidade Civil, Competência, Honorários Sucumbenciais, Dissídio Jurisprudencial
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Parties
ENGIE BRASIL ENERGIA S.A.
Agravante
SONIA MARIA MACHADO TOURNIER
Autora/recorrida
FUNDAÇÃO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SANTA CATARINA (atual INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SANTA CATARIA - IMA)
Ré
INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS - IBAMA
Ré
UNIÃO
Ré
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão Sobre Admissibilidade Do Agravo E Conhecimento Parcial Do Recurso Especial
Legal Issues
- 1 marco inicial do prazo prescricional (actio nata)
- 2 aplicabilidade da teoria da actio nata em seu viés subjetivo
- 3 possibilidade de reexame de fatos e provas diante da Súmula 7/STJ
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo em parte e, nessa extensão, conheceu-se parcialmente do recurso especial, negando-lhe provimento, porquanto a Corte de origem apreciou questões fático-probatórias e concluiu pela aplicação da teoria da actio nata em seu viés subjetivo (momento em que a autora tomou ciência do nexo causal em 2004), conclusão que não comporta reexame no recurso especial em razão da Súmula 7/STJ; ademais, não se caracterizou dissídio jurisprudencial nos termos do art. 255 do Regimento Interno do STJ, razão pela qual a alínea "c" foi rejeitada.
Court Disposition
Conheço do agravo parcialmente e, nessa extensão, conheço parcialmente do recurso especial; nego-lhe provimento.
Orders
- Não conhecimento do recurso quanto à alínea 'c' do art. 105 da Constituição Federal
- Nego provimento ao recurso especial na parte conhecida
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por ENGIE BRASIL ENERGIA S.A. (e-STJ fls. 724/728) objetivando a reforma da decisão que inadmitiu o recurso especial por ela interposto, com fulcro no art. 105, inciso III, alíneas "a" e "c", da Constituição Federal contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Consta dos autos que, em 26 abril de 2006, a ora recorrida - SONIA MARIA MACHADO TOURNIER - ajuizou ação indenizatória em desfavor da ora recorrente (então denominada TRACTEBEL ENERGIA S.A.), da FUNDAÇÃO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SANTA CATARINA (atual INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SANTA CATARIA - IMA), do INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS - IBAMA e da UNIÃO, objetivando a responsabilização civil dos requeridos pelos prejuízos de ordem moral que teria suportado pelo falecimento de uma filha (recém-nascida), no dia 16/4/1986, em virtude de má-formação congênita (anencefalia) que estaria diretamente relacionada, segundo narrado em sua petição inicial, aos efeitos maléficos de dano ambiental supostamente causado por ação direta da primeira requerida e pelo comportamento omissivo dos demais demandados. Aduziu a autora, em sua inicial (e-STJ fls. 4/21), que só teve ciência plena da existência de nexo causal entre o dano por ela suportado e a conduta da primeira ré quando noticiada, pelos meios de comunicação, a propositura de ação civil pública (em outubro de 2004), por parte do MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, em desfavor desta, apontando-a como responsável pela emissão de fases tóxicos na operação da Usina Termoelétrica Jorge Lacerda, situada no Município de Tubarão-SC. O Juízo de primeiro grau, de forma antecipada, julgou extinto o feito, com resolução de mérito, ao fundamento de que estaria prescrita a pretensão autoral. Na oportunidade, condenou a vencida ao pagamento das custas processuais e dos honorários advocatícios sucumbenciais, estes fixados no valor de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais). Inconformada, a autora da demanda interpôs seu recurso de apelação (e-STJ fls. 278/287), objetivando ver afastada a prescrição e determinado o retorno dos autos ao primeiro grau para prosseguimento da instrução. Apelaram também tanto a UNIÃO (e-STJ fls. 293/295) quanto o IBAMA (e-STJ fls. 325/328), ambos postulando apenas a majoração da verba honorária sucumbencial arbitrada na sentença. O TRF da 4ª Região, por unanimidade de votos dos integrantes de sua Quarta Turma, deu parcial provimento aos apelos para: (i) afastar a prescrição da pretensão indenizatória articulada em desfavor da ora agravante - TRACTEBEL (ENGIE) - por força da inteligência do art. 2.028 do Código Civil; (ii) determinar a remessa dos autos à Justiça estadual, para que ali fosse processada a ação em tela apenas em desta, e (iii) majorar os honorários fixados na sentença em prol da UNIÃO e do IBAMA (em virtude da manutenção da sentença quanto ao reconhecimento de que prescrita a pretensão da autora com relação a estes). Vislumbrando a existência, no referido julgado, de contradição (pelo fato de a Corte local, a um só tempo, reconhecer a prescrição com relação a IBAMA, IMA (FATMA) e UNIÃO e declinar da competência para processar e julgar o feito para a Justiça Estadual) e de omissão, a ora agravante opôs embargos de declaração (e-STJ fls. 362/366). Tais embargos foram rejeitados (e-STJ fls. 367/370), o que ensejou a interposição, pela ora agravante, do apelo nobre que, admitido na origem, foi autuado nesta Corte Superior como REsp nº 1.147.247-SC (e-STJ fls. 371/386). Por decisão singular de minha lavra (e-STJ fls. 432/434), o referido recurso especial foi provido (restando reconhecida a apontada ofensa ao art. 535 do CPC de 1973). Determinou-se, assim, a devolução dos presentes autos à Corte de origem para a realização de novo julgamento dos embargos de declaração de fls. 362/366 (e-STJ). Em cumprimento à referida decisão, a Quarta Turma do TRF da 4ª Região, novamente à unanimidade, terminou por acolher os aclaratórios em questão, emprestando-lhes efeitos infringentes, para (i) afastar "o reconhecimento da prescrição em face de todos os réus" (e-STJ fl. 518) e (ii) determinar o retorno dos autos ao juízo de primeiro grau para "eventual reabertura da instrução e prolação de nova sentença" (e-STJ fl. 519). Eis a ementa do acórdão na oportunidade exarado: "CIVIL E ADMINISTRATIVO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. DANO AMBIENTAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. REJULGAMENTO.RETORNO DO STJ. LEGITIMIDADE PASSIVA. COMPETÊNCIA DAJUSTIÇA FEDERAL. PRESCRIÇÃO. ACTIO NATA. AFASTADA. RETORNO DOS AUTOS À ORIGEM. 1. Os réus União, IBAMA e FATMA são partes legítimas para integrar o polo passivo da lide, que versa sobre pedido indenizatório, decorrente de alegado dano ambiental, ocorrido no âmbito de atuação do poder público e suas concessionárias. Assim, a demanda deve ser processada integralmente junto à Justiça Federal, ainda que a empresa Engie Brasil Energia S/A integre a lide. 2. À míngua de prova da inveracidade narrativa veiculada na petição inicial, afigura-se prematuro o reconhecimento da prescrição, porquanto o cômputo do prazo para o exercício da pretensão à indenização ou reparação de danos só se inicia quando o prejudicado toma conhecimento do fato e/ou de suas consequências (princípio da actio nata), o que, segundo afirma a autora, ocorreu em data posterior àquela considerada pelo juízo a quo. 3. Embargos de declaração providos, com efeitos infringentes. Retorno dos autos à origem para complementação da instrução e novo julgamento." (e-STJ fl. 512). Os novos embargos de declaração opostos pelo INSTUTUTO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SANTA CATARINA - IMA - a este último julgado (e-STJ fls. 529/532) foram rejeitados, o que ensejou a interposição de recursos especiais por parte da ora agravante (TRACTEBEL/ENGIE - e-STJ fls. 534/547), do IBAMA (e-STJ fls. 560/570) e do próprio IMA (e-STJ fls. 615/625). Nas razões de seu apelo nobre (e-STJ fls. 534/547), a ora agravante aponta, além da existência de dissídio jurisprudencial, a violação dos arts. 168, 169, 170 e 177 do Código Civil de 1916, vigentes à época dos fatos. Aduz, em síntese, já ter demonstrado que o fato que ensejou a propositura da presente demanda indenizatória (morte da filha da ora recorrida por má-formação congênita) ocorreu em 16/4/1986, devendo esta data ser tomada como o termo inicial do prazo prescricional da pretensão da autora. Sustenta que, desse modo e inexistindo, no caso, marcos suspensivos ou interruptivos do prazo prescricional, a Corte de origem deveria ter mantido hígida a sentença que reconhecera a ocorrência, na espécie, da prescrição, não sendo razoável concluir que tal prazo só começaria a correr a partir de 1987, data em que supostamente elaborado um posterior Estudo de Impacto Ambiental, não juntado aos autos e desprovido de vinculação direta com o evento danoso em que fundado o pedido inicial. Sem contrarrazões, o recurso especial foi inadmitido, na origem, em exame de prelibação, o que deu ensejo à interposição do presente agravo. Também foram inadmitidos os recursos especiais do IBAMA (e-STJ fls. 560/570) e do IMA (e-STJ fls. 615/625) e estes, tal e qual a ora agravante, também interpuseram seus respectivos recursos de agravo (e-STJ fls. 708/714 e 656/668), que serão devidamente apreciados em decisões apartadas. O Ministério Público Federal emitiu parecer, da lavra do Subprocurador-Geral da República Nicolao Dino, opinando pelo conhecimento do presente agravo para não se conhecer do recurso especial (e-STJ fls. 768/774). É o relatório. DECIDO. Ultrapassados os requisitos de admissibilidade do agravo interposto por ENGIE BRASIL ENERGIA S.A., passa-se ao exame de seu recurso especial. A insurgência, todavia, não merece prosperar. Extrai-se da leitura dos fundamentos lançados no voto condutor do acórdão ora recorrido (e-STJ fls. 512/520), que a Corte de origem concluiu, a partir do exame de fatos e provas, que a pretensão indenizatória deduzida pela autora contra a ora recorrente (e os demais corréus) não teria sido alcançada pela prescrição pelo fato de ser aplicável ao caso o princípio da actio nata em seu viés subjetivo. Entendeu-se, assim, que, mesmo tendo ocorrido o evento danoso em 16 de abril de 1986 e sendo vintenário (em tese) o prazo prescricional aplicável na hipótese, seria temporâneo o ajuizamento da ação em 26 de abril de 2006, pois o termo inicial deste prazo só teria começado a correr em outubro de 2004, quando do ajuizamento de ação civil pública, por parte do MPF, que tem por objeto os mesmos fatos que estão diretamente relacionados a causa de pedir da presente ação indenizatória (momento em que, pela compreensão do acórdão, foi finalmente possível à autora conectar a perda que suportara no passado ao dano ambiental atribuído pelo Parquet ao comportamento da recorrente). Sob essa ótica, não merece guarida a alegação da recorrente de que, ao assim decidir, teria o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, violado os arts. 168, 169, 170 e 177 do Código Civil de 1916, vigentes à época dos fatos. Como consabido, prevalece como regra na legislação civil brasileira a noção clássica de que o termo inicial da prescrição se dá com o próprio nascimento da ação (actio nata), sendo este determinado pela violação de um direito atual, suscetível de ser reclamado por seu titular em juízo. Tanto é assim que o Código Civil vigente, em seu art. 189, dispõe expressamente que "violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206". Sob essa ótica, e tendo em vista que o instituto da prescrição serve, antes de mais nada, à segurança e à preservação da paz públicas (ainda que tenha o efeito de, em certa medida, punir o pretenso autor por sua eventual inércia), é possível afirmar que, em regra, o prazo prescricional começa a fluir independentemente do conhecimento da pretensão por seu titular. Nesse sentido, a lição de Pontes de Miranda, para quem nem sequer o conhecimento da existência do próprio direito por seu titular seria pressuposto ao nascimento da pretensão e, consequentemente, do início do prazo prescricional: "(..) Para que nasça a pretensão não é pressuposto necessário que o titular do direito conheça a existência do direito, ou a sua natureza, ou a validade, ou eficácia, ou a existência da pretensão nascente, ou da sua extensão em qualidade, quantidade, tempo e lugar da prestação, ou outra modalidade, ou quem seja o obrigado, ou que saiba o titular que a pode exercer. Por isso, no direito brasileiro a prescrição trintenal da pretensão a haver indenização por ato ilícito absoluto independe de se saber se houve o dano e quem o causou (aliter, no direito civil alemão, § 852, 1ª alínea, 1ª parte: "A pretensão à reparação do dano causado por ato ilícito prescreve em três anos, a partir do momento em que a pessoa lesada teve conhecimento do dano e da pessoa com o dever de reparar.."). Não deixa de correr a prescrição se o devedor mesmo tornou impossível o adimplemento (art. 879, 2ª parte: "..se por culpa do devedor, responderá este pelas perdas e danos", inclusive quanto a essa indenização). Corre a prescrição contra os relativamente incapazes (arg. ao art. 169, I) e contra a mulher casada (salvo entre cônjuges, art. 168, I). Também corre se, pela falta, ou deficiência de patrimônio, ou ausência, seria inútil a propositura da ação, ou o uso dos meios interruptivos do art. 172, I-V. O ter o credor conhecido, ou não, a existência do seu direito e pretensão é sem relevância. Nem na tem o fato de o devedor ignorar a pretensão, ou estar de má-fé (..)". (Tratado de Direito Privado - Parte Geral, Tomo VI, 1ª ed., Campinas, Editora Bookseller, págs. 153/154 - grifou-se). No mesmo sentido é, em essência, a lição de Vilson Rodrigues Alves, que admite, porém, a existência de três situações excepcionais nas quais o conhecimento pelo titular pode ser tido como pressuposto da deflagração do cômputo do prazo prescricional, a saber: (i) quando regra jurídica específica assim expressamente determine; (ii) quando esteja inserido, em regra jurídica específica, elemento que indique suposição da existência desse conhecimento e (iii) quando, mesmo sem previsão em regra jurídica, a própria natureza das coisas indicar que o titular da pretensão encontrava-se em situação tal que lhe seria impossível a não inércia. Nesse particular, aduz o mencionado autor: "(..) "Violado o direito", diz com erronia o Código Civil, art. 189, "nasce para o titular a pretensão, a qual", prossegue com atecnia o Código Civil, "se extingue, pela prescrição". A pretensão há ser cógnita Na doutrina brasileira entendeu-se pela afirmativa, com a dicção de que não seria racional começasse a prescrição a correr sem que o titular do direito violado tivesse ciência dessa violação. Afinal, disse-se, se a prescrição seria um castigo à negligência desse titular, não se compreenderia tal prescrição sem a negligência, e essa não se caracterizaria quando a inércia decorresse da ignorância da violação. Em que pese a esse douto arrazoado, há entender-se, senão adversamente, diversamente, que o prazo de prescrição começa a fluir independentemente do conhecimento da pretensão por seu titular, até porque nem sequer o conhecimento da existência do direito pelo titular é pressuposto ao nascimento da própria pretensão. Tanto é assim, que os prazos de prescrição têm curso mesmo contra as pessoas incapazes relativamente a certos atos, ou à maneira de os exercer, tais, em conformidade com o Código Civil, art. 4º, I-IV, a) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos, b) os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que, por deficiência mental, tenham discernimento reduzido, c) os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo, e d) os pródigos, que têm pretensão e ação regressivas contra seus assistentes se in casu tiverem sido eles os causadores da prescrição, ou se não na tiverem alegado oportunamente, em qualquer grau de jurisdição, em conformidade com o Código Civil, arts. 193 e 195. Se o prazo de prescrição se iniciou contra uma pessoa, continuará a correr contra seu sucessor, herdeiro ou não (Código Civil, art. 196; cf., ainda, art. 1.784 e arts. 1.997/2.001), ainda que incógnito esse dado pelo que sucede. No direito comparado, há sistemas jurídicos em que a regra jurídica explica com clareza o termo inicial do prazo, e deixa claro a inexigibilidade do conhecimento da violação, quando ela existe, para o início do lapso de tempo em que a pretensão e a ação possam ser exercidas. (..). A regra jurídica símile do Código Civil brasileiro, art. 189, não cogita também dessa cognição pelo titular como pressuposto à irradiação da pretensão e, por conseguinte, da contagem do prazo de prescrição, que assim flui independentemente dela, salvo se a) em regra jurídica espec ífica se insira algum elemento que traduza esse conhecimento, ou se b) faça desse conhecimento um dos essentialia da prescrição, c) hipótese em que essa pode se verificar ainda se inexistente regra jurídica a prevê-la, pela própria natureza das coisas. É o caso, a) na primeira hipótese, do art. 200 do Código Civil, em que se estabelece não correr a prescrição antes da sentença penal condenatória passada em julgado, "quando a ação se origina de fato que deva ser apurado no juízo criminal". (..) Da segunda hipótese, em que a lei mesma estabelece o conhecimento do dado fático pelo titular da pretensão como requisito para o curso do prazo prescricional, tem-se exemplo no Código Civil, art. 206. §1º, b), em cuja regra jurídica se prevê, com atecnia, que o lapso prescricional se conta "da ciência do fato gerador da pretensão". Se não há menção a esse requisito de natureza subjetiva, é ele inexigível à contagem da prescrição. A regra é a natureza objetiva do terminus a quo, de modo que não aproveitaria e.g. ao alimentando a afirmação de desconhecimento do não-depósito em sua conta corrente do valor das pensões alimentícias em atraso, para descaracterizar o prazo bienal da prescrição, porque os dois anos para o exercício da pretensão à cobrança das prestações alimentares se contam "a partir da data em que se vencerem", nada importado se apenas dias ou meses depois da data do vencimento é que tomara conhecimento da falta nessa prestação. Nem colheria o argumento, falso, de que nos fundamentos da prescrição - v.g. interesse público, bono público, e estabilização do direito, ne in incerto esset - estaria o "castigo à negligência", poena negligentiae. Esse fundamento de penalidade não havia nas Ordenações Afonsinas, e somente nas Ordenações Manuelinas e nas Ordenações Filipinas é que foi inserido, portanto sem raízes em nosso direito, como se a prescrição fora pena contra o negligente por "não demandar em tanto tempo a sua coisa". Todavia, c) pode ocorrer absoluta falta de conhecimento da pessoa acerca de défice à sua esfera jurídica, e.g., pela inexistência nem sequer de uma prévia situação jurídica que, a despeito de estática, pudesse propiciar-lhe a não-inércia (ação nodum nata)". (Da Prescrição e da Decadência no Código Civil de 2002, 4ª ed., Campinas, Editora Servanda, págs. 107/110 - grifou-se). Desse modo, é possível afirmar que no Direito Civil brasileiro a regra geral é a de que o prazo prescricional é contado a partir do momento em que configurada lesão ao direito subjetivo, sendo desinfluente para tanto ter ou não seu titular conhecimento pleno do ocorrido. Tal regra cede, contudo, em duas situações: (i) nas hipóteses em que a própria legislação vigente estabeleça que o cômputo do lapso prescricional se dê a partir de termo inicial distinto (como ocorre, por exemplo, nas ações que se originam de fato que deva ser apurado no juízo criminal - art. 200 do Código Civil) e (ii) nas excepcionalíssimas situações em que possível constatar que, pela própria natureza das coisas, seria impossível ao autor, por absoluta falta de conhecimento de "défice à sua esfera jurídica", adotar comportamento outro, que não o de inércia (o que pode ocorrer, sem sombra de dúvidas, com pessoa que perde um filho recém-nascido em virtude da má-formação de seu sistema nervoso central, vindo a descobrir, anos mais tarde, que tal condição pode não ter resultado de mero infortúnio da natureza, mas do fato de, durante sua gestação, ter sido submetida, sem saber, à contaminação do meio ambiente por gases tóxicos cuja emissão pode ser, pelo menos em tese, atribuída ao comportamento irresponsável de terceiros). A primeira exceção mencionada não apresenta grandes dificuldades de aplicação, pois regra jurídica específica dita com precisão o diferenciado termo inicial do prazo prescricional. A segunda exceção deve ser admitida com mais cautela e vem sendo solucionada na jurisprudência desta Corte Superior a partir da aplicação pontual da chamada teoria da actio nata em seu viés subjetivo que, em síntese, confere ao conhecimento da lesão (e, a depender do caso, de sua real extensão) pelo titular do direito subjetivo violado a natureza de pressuposto indispensável ao início do prazo de prescrição. Em casos tais, todavia, não se afigura razoável admitir que a mera alegação de conhecimento tardio articulada pelo interessado seja capaz por si só de substituir o termo inicial legalmente estipulado para o cômputo do prazo prescricional. De igual maneira, não se deve estabelecer referido termo com base em meras presunções. A aplicação da referida teoria, por ser medida excepcional, impõe a quem lhe aproveita, a incumbência de produzir a prova, senão inequívoca, ao menos dotada de verossimilhança, do momento a partir do qual lhe foi possível vislumbrar a existência ou a possibilidade de existência de lesão a um direito juridicamente tutelado. Na hipótese vertente, a Corte de origem, examinando as circunstâncias fático-probatórias que envolvem a sensível questão controvertida objeto da demanda, concluiu estar dotada de suficiente verossimilhança a narrativa exposta pela autora, ora recorrida, para o fim de demonstrar que só teria obtido plena consciência do dano que sofrera e, mais especificamente, da possibilidade concreta de existir nexo de causalidade entre tal dano e o comportamento de cada um dos requeridos ao longo do tempo, a partir do ajuizamento, pelo Ministério Público Federal, no ano de 2004, de ação civil pública em desfavor destes. Nesse cenário, a revisão da conclusão da Corte local a respeito da aplicação, ao caso, da teoria da actio nata em seu viés subjetivo, por exigir o revolvimento de fatos e provas, é tarefa que se revela inadequada à via do recurso especial, sendo, em verdade, expressamente vedada pela inteligência da Súmula nº 7/STJ. Nessa esteira: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. APELAÇÃO. COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. LEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM. CONCLUSÃO ESTADUAL PAUTADA SOB OS ASPECTOS FÁTICOS DO CASO CONCRETO. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 5 E 7/STJ. MARCO INICIAL DO PRAZO PRESCRICIONAL. CIÊNCIA DA VIOLAÇÃO DO DIREITO E DA SUA REAL EXTENSÃO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 83/STJ. CIÊNCIA INEQUÍVOCA DO ILÍCITO. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICO-PROBATÓRIA. SÚMULA N. 7/STJ. MULTA DO ART. 1.021, § 4º, DO CPC/2015. NÃO INCIDÊNCIA, NA ESPÉCIE. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Reverter a conclusão do Tribunal local - para acolher a pretensão recursal, sobretudo no que concerne à legitimidade e ao interesse de agir da parte adversa na responsabilização do ora agravante - demandaria a análise de cláusulas contratuais e o revolvimento do acervo fático-probatório dos autos, o que é vedado em face da natureza excepcional da via eleita, consoante enunciado das Súmulas 5 e 7 do Superior Tribunal de Justiça. 2. O início do prazo prescricional, com base na teoria da actio nata, não se dá necessariamente no momento em que ocorre a lesão ao direito, mas sim quando o titular do direito subjetivo violado obtém plena ciência da lesão e de toda a sua extensão. Incidência da Súmula 83/STJ. 2.1. A instância originária entendeu que, mesmo sob a óptica da demanda ser de natureza indenizatória, o marco inicial do prazo prescricional se deu no momento em que o prejuízo foi efetivamente constatado, isto é, após o cancelamento da averbação de compra e venda na matrícula do imóvel, ocasião em que o titular do direito tomou conhecimento da sua violação e a real extensão. 2.2. Na hipótese, para modificar a conclusão exarada no acórdão objurgado e acolher a tese defendida pelo demandante, a fim de reconhecer o escoamento do prazo prescricional, sob o fundamento de que o autor teve ciência inequívoca da violação do seu direito no momento apontado pelo recorrente, seria imprescindível o reexame do acervo fático-probatório do processo em voga, o que é vedado no âmbito do recurso especial, nos termos da Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça. 3. O mero não conhecimento ou a improcedência de recurso interno não enseja a automática condenação à multa do art. 1.021, § 4º, do CPC/2015, devendo ser analisado caso a caso. 4. Agravo interno desprovido." (AgInt no AREsp nº 2.113.756/SC, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 5/6/2023, DJe de 9/6/2023 - grifou-se). "PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. ANULAÇÃO DE FALTAS INJUSTIFICADAS. PRESCRIÇÃO DO FUNDO DE DIREITO ACOLHIDA PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICO-PROBATÓRIA. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. 1. Como cediço, "a jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que, em conformidade com o princípio da actio nata, o termo inicial da prescrição ocorre a partir da ciência inequívoca da lesão ao direito subjetivo" (AgInt no REsp n. 1.909.827/SC, relatora Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, DJe de 19/4/2022). 2. Caso concreto em que a subjacente ação ordinária não foi ajuizada com o objetivo de anular os atos administrativos datados de 2017 que haviam indeferido o pedido de concessão do abono permanência formulado pelo autor, ora agravante, mas para anular atos administrativos anteriores que promoveram anotações - ocorridas no período de 1991 a 2005 - de faltas injustificadas em seus assentamentos funcionais. 3. Rever as conclusões firmadas pelo Tribunal de origem quanto ao momento em que o servidor tomou conhecimento das referidas anotações, de modo a afastar a prejudicial de prescrição do fundo de direito, demandaria o revolvimento de matéria fático-probatória, o que esbarra no óbice da Súmula 7/STJ. 4. Agravo interno desprovido." (AgInt no REsp nº 1.936.139/SE, relator Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, julgado em 12/12/2022, DJe de 15/12/2022 - grifou-se). Oportuno anotar que, mesmo que fosse possível à recorrente convencer esta Corte Superior de que a autora da demanda teria ciência da existência da lesão que sofrera a partir da publicação dos primeiros estudos técnicos que davam conta dos prejuízos ambientais de Tubarão/SC (o que, segundo afirma, teria se dado no ano de 1987), ainda, assim, não haveria falar em prescrição na hipótese vertente. Isso porque, ainda que fosse permitido a esta Corte Superior superar o óbice da Súmula nº 7/STJ para o fim de fixar o ano 1987 como sendo o termo inicial do prazo prescricional aplicável ao caso, este, por ser vintenário (por força do que expressamente estabelecido pelo art. 2028 do Código Civil) também não teria se esvaído na data da propositura da presente ação (que ocorreu, como visto, em 26/4/2006). Por fim, cumpre esclarecer que não merece conhecimento o recurso em exame no tocante à alínea "c" do permissivo constitucional, porquanto o dissídio jurisprudencial não restou caracterizado na forma exigida pelo artigo 255, §§ 1º e 2º, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, haja vista o recorrente ter se limitado a apontar como paradigma aresto que não guarda similitude fática com o que foi objeto de exame pelo aresto ora impugnado, sendo suficiente dizer que, no paradigma, se decidiu acerca da existência de causas interruptivas de prazo prescricional em ação de cobrança e reparação por danos materiais e morais atrelada a contrato de locação (e-STJ fl. 545). Ante o exposto, conheço do agravo para conhecer apenas parcialmente do recurso especial de ENGIE BRASIL ENERGIA S.A. (e-STJ fls. 534/547) e, nessa extensão, negar-lhe provimento. Na hipótese, não cabe a majoração dos honorários sucumbenciais prevista no art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, pois anulada pelo acórdão recorrido a sentença que fixava a referida verba. Publique-se. Intimem-se. EMENTA