RO 280 - DECISAO
A exceção de imprescritibilidade aplicada pelo Tribunal aos atos estatais de perseguição política não se estende, por interpretação restritiva, aos atos e omissões relativos ao caso dos 'soldados da borracha'; o reconhecimento previsto no art. 54 do ADCT não equivale a admitir responsabilidade estatal pela prática...
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- Parties
- Recorrente: HUGO FERREIRA DE SOUZA; Recorrente: AMIM PENASAN HALY; Recorrente: OCIREMA SABOYA DA SILVA; Recorrente: FRANCISCO PAULINO DA SILVA FILHO; Recorrente: ELIZEU ALVES SILVA; Recorrente: FRANCISCO BARROSO DE ARAUJO; Recorrente: SEBASTIAO IVO DE LIMA; Recorrente: MARIA DO LIVRAMENTO COSTA; Recorrente: RAIMUNDO PEREIRA DE SOUZA; Recorrente: OSVALDO RODRIGUES DE SOUZA; Recorrente: JOSE DIMAS DOURADO; Recorrido: União; Recorrido: Estados Unidos da América
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 September 2024
- Procedural Posture
- Recurso Ordinário / Decisão Em Recurso Ordinário
- Outcome
- Nego provimento ao recurso ordinário.
- Legal Topics
- Prescrição, Imprescritibilidade De Direitos Da Personalidade, Indenização Por Condição Análoga À Escravidão, Soldados Da Borracha, Perseguição Política, Omissão Estatal
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Parties
HUGO FERREIRA DE SOUZA
Recorrente
AMIM PENASAN HALY
Recorrente
OCIREMA SABOYA DA SILVA
Recorrente
FRANCISCO PAULINO DA SILVA FILHO
Recorrente
ELIZEU ALVES SILVA
Recorrente
FRANCISCO BARROSO DE ARAUJO
Recorrente
SEBASTIAO IVO DE LIMA
Recorrente
MARIA DO LIVRAMENTO COSTA
Recorrente
RAIMUNDO PEREIRA DE SOUZA
Recorrente
OSVALDO RODRIGUES DE SOUZA
Recorrente
JOSE DIMAS DOURADO
Recorrente
União
Recorrido
Estados Unidos da América
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Ordinário / Decisão Em Recurso Ordinário
Legal Issues
- 1 Se é imprescritível a pretensão indenizatória dos "soldados da borracha" por violação de direitos humanos análoga à escravidão
- 2 Se a exceção de imprescritibilidade aplicada a atos estatais de perseguição política pode ser estendida a omissões ou atos de caráter geral não vinculados à perseguição ditatorial
- 3 Se o reconhecimento do art. 54 do ADCT equivale a reconhecimento de responsabilidade estatal direta
Ratio Decidendi
A exceção de imprescritibilidade aplicada pelo Tribunal aos atos estatais de perseguição política não se estende, por interpretação restritiva, aos atos e omissões relativos ao caso dos 'soldados da borracha'; o reconhecimento previsto no art. 54 do ADCT não equivale a admitir responsabilidade estatal pela prática dos atos tidos como violadores; não havendo base normativa que trate de forma especial a redução à condição análoga à de escravo, e em respeito à separação de poderes, o direito indenizatório reconhecido pelos recorrentes está sujeito à prescrição, devendo o recurso ser negado provimento com fundamento no art. 332, § 1º, do CPC/2015.
Court Disposition
Nego provimento ao recurso ordinário.
Orders
- Manter a sentença que considerou prescrita a pretensão indenizatória
- Negar provimento ao recurso ordinário com fundamento no art. 332, § 1º, do CPC/2015
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Em análise, RECURSO ORDINÁRIO interposto por HUGO FERREIRA DE SOUZA, AMIM PENASAN HALY, OCIREMA SABOYA DA SILVA, FRANCISCO PAULINO DA SILVA FILHO, ELIZEU ALVES SILVA, FRANCISCO BARROSO DE ARAUJO, SEBASTIAO IVO DE LIMA, MARIA DO LIVRAMENTO COSTA, RAIMUNDO PEREIRA DE SOUZA, OSVALDO RODRIGUES DE SOUZA, JOSE DIMAS DOURADO, contra sentença que considerou prescrita a pretensão indenizatória endereçada à União e aos Estados Unidos da América. Na origem, alegam ter sido vítimas de políticas públicas ensejadoras de regime de escravidão, no âmbito do esforço de guerra aliado, no caso conhecido como dos "soldados da borracha". Pleiteiam indenização equivalente a dois salários mínimos, devidos entre 1942 e 2012, estimada por eles em pouco mais de R$ 1 milhão. No recurso ordinário, defendem a imprescritibilidade do direito vindicado, por tratar de direito de personalidade irrenunciável. Apontam para a jurisprudência desta Corte firmada nos casos de perseguição política durante o regime militar. Sem contrarrazões. O Ministério Público Federal pugna pelo desprovimento. De fato, esta Corte admite estarem excepcionados da regra geral de prescrição os atos estatais vinculados a perseguição política cometidos durante o governo militar. A excepcionalidade, porém, devem ser interpretada de forma restritiva. Nesse passo, sua extensão para atos normativos de caráter geral e omissão estatal, em contextos diversos da perseguição ditatorial a dissidentes políticos, não pode ser aplicada. Admiti-lo corresponderia a uma reforma radical do direito vigente, transformando qualquer imputação de omissão estatal envolvendo violação a direitos fundamentais cometidos por particulares impassível de prescrição. O Estado brasileiro já reconheceu a situação de vulnerabilidade dos "soldados da borracha", nos termos do art. 54 do ADCT, concedendo benefício assistencial específico. Mas isso não corresponde a um reconhecimento de ter cometido, diretamente, os atos tidos como violadores de seus direitos. A equiparação com a perseguição política cometida pelo próprio Estado ou a seu mando não é viável. Os atos imputados são equivalentes a prática de escravidão moderna, pela imposição aos seringueiros do sistema de aviamento. Ocorre que não há no ordenamento qualquer base normativa que sugira o tratamento especial dessa classe de violação de direitos humanos, ao contrário do que ocorre com a tortura, especialmente a de motivação política, ou mesmo o racismo (arts. 5º, XLII, XLIII e XLIV, da CF/1988). Nem mesmo a Lei de Crimes Hediondos atribui especial atenção à redução de trabalhador à condição análoga à de escravo. É de todo razoável questionar que assim seja. Entretanto, a separação de poderes impede que o Judiciário intervenha de forma tão relevante no ordenamento para criar um direito específico, indenizatório, que duas assembleias constituintes democráticas, de 1946 e 1988, resolveram porque cientes dos fatos não positivar. Desse modo, correta a sentença, devendo ser mantida, com fundamento no art. 332, § 1º, do CPC/2015. Isso posto, nego provimento ao recurso ordinário. Intimem-se . EMENTA