REsp 2133235 - DECISAO
Acolheram-se os embargos porque o Tribunal de origem não se pronunciou sobre a data de ajuizamento da ação, questão indispensável para definir se incide o prazo prescricional decenal do art. 205 do CC ou o prazo de 12 meses introduzido no parágrafo único do art. 8º da Lei 10.209/2001 pela Lei 14.229/2021; assim,...
Source-derived case information.
- Parties
- Embargante: TRANSPORTES TRANSVIDAL LTDA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 October 2024
- Procedural Posture
- Embargos De Declaração / Decisão De Acolhimento E Determinação De Retorno Ao Tribunal De Origem
- Outcome
- Embargos de declaração acolhidos; provimento ao recurso especial; retorno dos autos ao Tribunal de origem para reexame da prescrição com base na data de ajuizamento.
- Legal Topics
- Prescrição, Vale Pedágio, Lei Nº 10.209/2001, Lei Nº 14.229/2021, Art. 205 Do Código Civil, Embargos De Declaração, Retorno Dos Autos Ao Tribunal De Origem
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
TRANSPORTES TRANSVIDAL LTDA
Embargante
Procedural Posture
Embargos De Declaração / Decisão De Acolhimento E Determinação De Retorno Ao Tribunal De Origem
Legal Issues
- 1 contradição apontada na decisão embargada quanto ao acórdão utilizado
- 2 qual prazo prescricional aplicável à pretensão indenizatória do art. 8º da Lei 10.209/2001 (decenal previsto no art. 205 do CC ou 12 meses do parágrafo único do art. 8º da Lei 10.209/2001 introduzido pela Lei 14.229/2021)
- 3 se a data de ajuizamento da ação determina a incidência da lei nova e do respectivo prazo prescricional
Ratio Decidendi
Acolheram-se os embargos porque o Tribunal de origem não se pronunciou sobre a data de ajuizamento da ação, questão indispensável para definir se incide o prazo prescricional decenal do art. 205 do CC ou o prazo de 12 meses introduzido no parágrafo único do art. 8º da Lei 10.209/2001 pela Lei 14.229/2021; assim, determinou-se o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que, com base na data de interposição da ação e na jurisprudência do STJ, aplique o prazo prescricional adequado.
Court Disposition
Embargos de declaração acolhidos; provimento ao recurso especial; retorno dos autos ao Tribunal de origem para reexame da prescrição com base na data de ajuizamento.
Orders
- Dou provimento ao recurso especial e determino o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que aplique o prazo prescricional adequado com base na data em que a ação foi interposta, nos termos da jurisprudência do STJ.
- Acolho os embargos de declaração e determino o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que se manifeste sobre a prescrição.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de embargos de declaração opostos por TRANSPORTES TRANSVIDAL LTDA, em face da decisão monocrática de fls. 202-205, que negou provimento ao seu recurso especial. A parte embargante, em suas razões recursais (e-STJ, fls. 208-211), alega contradição na decisão embargada, relativa ao acórdão utilizado para embasar a decisão, que deveria ser o acórdão de fls. 119-124. A parte embargada não apresentou impugnação. É o relatório. Decido. A pretensão recursal merece prosperar. Os embargos de declaração têm como objetivo esclarecer obscuridade, eliminar contradição ou suprimir omissão de ponto ou questão sobre o qual se devia pronunciar o órgão julgador de ofício ou a requerimento das partes, bem como para corrigir erro material (CPC/2015, art. 1.022), sendo inadmissível a sua oposição para rediscutir questões tratadas e devidamente fundamentadas na decisão embargada, já que não são cabíveis para provocar novo julgamento da lide. No caso, o Tribunal de origem entendeu que o prazo prescricional aplicável seria o decenal, previsto no art. 205 do CC/02, uma vez que os transportes foram realizados entre 23/5/2012 e 25/7/2013, pois apontou que "a exceção que clama a prescrição anual fica para os contratos de frete firmados em dada posterior à alteração legislativa na Lei 10.209/2001", in verbis (e-STJ, fls. 120-121): "O Agravo Interno não prospera, devendo ser mantida a decisão agravada pelos seus próprios fundamentos, verbis: (..) Recebo o Agravo de Instrumento, visto que presentes os requisitos de admissibilidade, previstos no art. 1.015, inc. I, do Código de Processo Civil. Conforme entendimento deste colegiado, o Relator pode, por decisão monocrática, dar ou negar provimento ao recurso interposto, sem oportunizar manifestação à parte contrária, nos termos da Súmula nº 568 do Superior Tribunal de Justiça1. No mesmo sentido, o artigo 932, VIII, do CPC, prevê que incumbe ao Relator exercer, além das atribuições previstas no diploma processual, outras estabelecidas no regimento interno do Tribunal. A esse respeito, o Regimento Interno deste Tribunal de Justiça autoriza o Relator a negar ou dar provimento ao recurso quando há jurisprudência dominante acerca da matéria em discussão no âmbito do próprio Tribunal: Art. 206. Compete ao Relator: (..) XXXVI "negar ou dar provimento ao recurso quando houver jurisprudência dominante acerca do tema no Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça com relação, respectivamente, às matérias constitucional e infraconstitucional e deste Tribunal"; Dessa forma, este recurso comporta pronunciamento monocrático, visto que outro não seria o resultado alcançado em julgamento colegiado neste órgão julgador e também no colendo STJ. Observo que a pretensão indenizatória se refere ao não adiantamento dos vales pedágios dos fretes realizados pelo autor/agravado no período entre 23/05/2012 e 25/07/2013. No que diz respeito à prescrição, a jurisprudência já firmou entendimento no sentido de que o prazo prescricional em demandas em que a parte busca a indenização de que trata o art. 8º da Lei 10.209/01, é decenal, pois aplicável o art. 205 do CC. Nesse sentido: AGRAVO DE INSTRUMENTO. TRANSPORTE. AÇÃO ORDINÁRIA DE COBRANÇA. VALE- PEDÁGIO. NULIDADE DA CITAÇÃO. Não se verifica a alegada nulidade da citação, pois a carta A. R. foi enviada corretamente para o endereço da empresa requerida, sendo recebida por funcionário da portaria responsável pelo recebimento da correspondência, o que se mostra suficiente para o cumprimento do ato citatório, ponderando-se, sobretudo, que tal funcionário não se declarou inapto para o recebimento da carta de citação. Respeitada, portanto, a norma do §2º do artigo 248 do Código de Processo Civil, precisamente na parte final do referido dispositivo legal. INCOMPETÊNCIA DO JUÍZO. Constatada a intempestividade da contestação, afigura-se correta a decisão agravada quanto à decretação da revelia, assim como quanto ao não conhecimento da exceção de incompetência, haja vista a prorrogação da competência, na forma do artigo 65 do Código de Processo Civil. PRESCRIÇÃO. Em se tratando de cobrança de penalidade legal por não adiantamento do vale-pedágio, mostra-se aplicável o prazo prescricional de dez anos, segundo a regra geral do Código Civil, na linha da jurisprudência deste Colegiado e do Superior Tribunal de Justiça. AGRAVO DE INSTRUMENTO DESPROVIDO.(Agravo de Instrumento, Nº 70083519025, Décima Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Ana Lúcia Carvalho Pinto Vieira Rebout, Julgado em: 07-05-2020) AGRAVO INTERNO. TRANSPORTE. TRANSPORTE DE COISAS. AÇÃO CONDENATÓRIA. INDENIZAÇÃO PREVISTA NO ART. 8º DA LEI N.º 10.209/2001. PAGAMENTO DO VALE- PEDÁGIO PELO TRANSPORTADOR DA CARGA, NÃO PELO SEU EMBARCADOR, NO CASO CONCRETO. LEGITIMIDADE ATIVA "AD CAUSAM". PRAZO PRESCRICIONAL APLICÁVEL À PRETENSÃO INDENIZATÓRIA. HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS. 1- Agravo Interno n.º 70071776090: recurso manejado pela Dimed S. A. Distribuidora de Medicamentos a que se nega provimento, para, assim, preservar inalterada a condenação da ré ao pagamento da multa prevista no art. 8º da Lei n.º 10.209/2001, com observância do prazo prescricional decenal dado pelo art. 205 do Código Civil, mantido, pois o julgamento de total procedência dos pedidos. 2- Agravo Interno n.º 70071777783: recurso manejado pelas autoras, CR Distribuidora de Jornais e Revistas Ltda. e BR Distribuidora de Jornais e Revistas Ltda., a que se nega provimento, para manter a verba honorária sucumbencial fixada na decisão recorrida, ante a sua conformidade às circunstâncias do caso concreto. 3- Pedidos contrarrecursais formulados pelas autoras: rejeitados os pleitos de fixação de multa com base no art. 1.021, §4º, do NCPC, e com base no art. 80, I e IV, também do NCPC, porque não verificas, no caso concreto, as hipóteses dadas pelos dispositivos legais indicados pelas autoras, a esse respeito. Preliminar de não conhecimento do Agravo Interno n.º 70071776090 rejeitada. Agravo Interno n.º 70071776090 e Agravo Interno n.º 70071777783 desprovidos. Pedidos contrarrecursais das autoras de aplicação de multa rejeitados.(Agravo, Nº 70071777783, Décima Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Umberto Guaspari Sudbrack, Julgado em: 23-02-2017) Dessa forma, comprovado que os transportes foram realizados entre 23/05/2012 e 25/07/2013, de pronto, vai afastada a alegação da prescrição, visto que decenal. Diante do exposto, NEGO PROVIMENTO ao Agravo de Instrumento. Destaco que a exceção que clama a prescrição anual fica para os contratos de frete firmados em dada posterior à alteração legislativa na Lei 10.209/2001: Art. 8º Sem prejuízo do que estabelece o art. 5 º, nas hipóteses de infração ao disposto nesta Lei, o embarcador será obrigado a indenizar o transportador em quantia equivalente a duas vezes o valor do frete. Parágrafo único. Prescreve em 12 (doze) meses o prazo para cobrança das penas de multa ou da indenização a que se refere o caput deste artigo, contado da data da realização do transporte. (Incluído pela Lei nº 14.229, de 2021)" (Sem grifo no original). Quanto ao tema, no julgamento do REsp 2.022.552/RS, de relatoria da em. Ministra NANCY ANDRIGHI, esta Corte Superior julgou que "a regra geral é a incidência da lei nova, que estabelece um novo prazo de prescrição, à relação jurídica em curso, tendo em vista que não há direito adquirido a prazo prescricional. No entanto, a contagem desse prazo novo somente terá início a partir da entrada em vigor da lei que o estipulou, sob pena de se chancelar a possibilidade de consumação do lapso temporal antes mesmo de a lei existir no cenário jurídico. De outro lado, o prazo definido pelo novo diploma legal não incidirá se o prazo de prescrição aplicável anteriormente já tiver se consumado ou se a ação já tiver sido ajuizada antes da entrada em vigor da lei nova". A propósito, confira-se a íntegra da ementa desse julgado: "RECURSO ESPECIAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. VALE-PEDÁGIO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA. PRAZO PRESCRICIONAL INCIDENTE. INOCORRÊNCIA DE PRESCRIÇÃO. REQUISITOS DA MULTA DO ART. 8º DA LEI 10.209/2008. ÔNUS DA PROVA. AUTOR DA AÇÃO. RETORNO DOS AUTOS À ORIGEM. 1. Ação ajuizada em 15/06/2021, da qual foi extraída o presente recurso especial interposto em 30/06/2022 e concluso ao gabinete em 02/09/2022. 2. O propósito recursal consiste em definir a) se houve negativa de prestação jurisdicional; b) qual o prazo prescricional incidente à pretensão de exigir o pagamento da multa prevista no art. 8º da Lei nº 10.209/2001 e c) sobre qual das partes recai o ônus de comprovar o preenchimento dos requisitos para a incidência da penalidade prevista no art. 8º da Lei nº 10.209/2001. 3. A jurisprudência do STJ é uníssona no sentido de que o recurso especial é via inadequada para analisar ofensa a resoluções, portarias ou instruções normativas, uma vez que tais espécies normativas não se inserem no conceito de lei federal. Precedentes. 4. Na hipótese, é de afastar-se a alegação de omissão no acórdão recorrido, haja vista que as questões suscitadas na apelação foram devidamente enfrentadas pelo Tribunal de origem. 5. Considerando que a multa devida em razão do não adiantamento do vale-pedágio (art. 8º da Lei nº 10.209/2001) decorre da existência de uma relação contratual entre o transportador e o embarcador, esta Corte Superior vinha se manifestando no sentido da incidência do prazo prescricional decenal (art. 205 do CC) à pretensão de cobrança dessa penalidade. No entanto, a Lei nº 14.229/2021 acrescentou o parágrafo único ao art. 8º da Lei nº 10.209/2001, que passou a prever o prazo prescricional de 12 meses. 6. A regra geral é a incidência da lei nova, que estabelece um novo prazo de prescrição, à relação jurídica em curso, tendo em vista que não há direito adquirido a prazo prescricional. No entanto, a contagem desse prazo novo somente terá início a partir da entrada em vigor da lei que o estipulou, sob pena de se chancelar a possibilidade de consumação do lapso temporal antes mesmo de a lei existir no cenário jurídico. De outro lado, o prazo definido pelo novo diploma legal não incidirá se o prazo de prescrição aplicável anteriormente já tiver se consumado ou se a ação já tiver sido ajuizada antes da entrada em vigor da lei nova. 7. No particular, o prazo prescricional de 12 meses introduzido pela Lei nº 14.229/2021 não produz efeitos na relação jurídica firmada entre os litigantes. Isso porque, quando do ajuizamento da presente ação - 15/06/2021 -, a lei em questão sequer havia entrado em vigor, o que verificou-se apenas em 21/10/2021. 8. O vale-pedágio foi instituído pela Lei nº 10.209/2001, cujo art. 1º estabelece ser de responsabilidade do embarcador o pagamento do vale-pedágio ao transportador para utilização efetiva em despesas de deslocamento de carga mediante transporte rodoviário realizado em rodovias brasileiras. O inadimplemento da obrigação de pagar o vale-pedágio dá origem à obrigação do embarcador de indenizar o transportador no montante equivalente a duas vezes o valor do frete (art. 8º da Lei nº 10.209/2001). 9. Em observância ao disposto no art. 373, incisos I e II, do CPC/2015, é ônus do transportador comprovar a exclusividade do transporte, o valor devido em todas as praças de pedágio existentes na rota de viagem contratada, bem como o respectivo pagamento. Realizada tal comprovação, caberá ao embarcador demonstrar ter adiantado o vale-pedágio. Assim, impõe-se o retorno dos autos à origem, para que a Corte local reexamine a questão, tomando por base tal orientação. 10. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido." (REsp n. 2.022.552/RS, relatora Ministra NANCY ANDRIGHI, Terceira Turma, julgado em 6/12/2022, DJe de 9/12/2022 - sem grifo no original). Sendo assim, conforme entendimento desta Corte Superior, o que determina se o prazo prescricional a ser aplicado é o decenal, previsto no art. 205 do CC/02, ou o prazo de doze meses previsto no parágrafo único do art. 8º da Lei 10.209/2001, é a data de ajuizamento da ação e não a data em que os contratos foram firmados, conforme o entendimento da Corte de origem. Ocorre que o TJ-RS não analisou se a ação indenizatória foi proposta antes da entrada em vigor da Lei nº 14.229/2021, que acrescentou o parágrafo único ao art. 8º da Lei nº 10.209/2001, afirmando apenas que o prazo aplicável era o decenal em razão dos contratos terem sido firmados antes da vigência da lei que fixou o prazo decenal. Dentro desse contexto, verifica-se que fica inviável a análise neste Tribunal Superior acerca do prazo prescricional a ser aplicado, uma vez que a Corte de origem não se pronunciou sobre a data em que foi interposta a presente demanda, se antes da vigência da Lei nº 14.229/2021, ou após, devendo a demanda retornar à origem, para que seja novamente apreciado o prazo prescricional a ser aplicado, de acordo com a jurisprudência do STJ. Diante do exposto, nos termos do art. 255, § 4º, III, do RISTJ, dou provimento ao recurso especial, determinando o retorno dos autos ao Tribunal de origem, para que aplique o prazo prescricional adequado com base na data em que interposta a ação, nos moldes da jurisprudência do STJ. Diante do exposto, acolho os embargos de declaração, para determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem, a fim de se manifestar sobre a prescrição, nos moldes expendidos acima. Publique-se. EMENTA