REsp 2008131 - DECISAO
O recurso especial foi negado porque, diante da comprovada incapacidade absoluta de natureza congênita do beneficiário, não correu a prescrição do fundo do direito; além disso, a jurisprudência do STJ afasta a prescrição do fundo do direito no BPC-LOAS, restringindo a prescrição às prestações anteriores ao...
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- Parties
- Recorrente: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL; Recorrido: autor
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 December 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Colegiada Da Primeira Seção Do STJ (negado Provimento)
- Outcome
- nega provimento ao recurso especial interposto pelo INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL
- Legal Topics
- Prescrição, BPC LOAS, Efeitos Financeiros, Custas Processuais, Honorários Sucumbenciais
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Parties
INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL
Recorrente
autor
Recorrido
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Colegiada Da Primeira Seção Do STJ (negado Provimento)
Legal Issues
- 1 prescrição do fundo de direito em relação a pessoas absolutamente incapazes
- 2 prescritibilidade do direito ao benefício assistencial (BPC-LOAS)
- 3 termo inicial dos efeitos financeiros do benefício assistencial na ausência de requerimento administrativo
Ratio Decidendi
O recurso especial foi negado porque, diante da comprovada incapacidade absoluta de natureza congênita do beneficiário, não correu a prescrição do fundo do direito; além disso, a jurisprudência do STJ afasta a prescrição do fundo do direito no BPC-LOAS, restringindo a prescrição às prestações anteriores ao quinquênio, e entende que, na ausência de requerimento administrativo, o termo inicial do benefício assistencial é a data da citação. Em razão do provimento indeferido, houve majoração em 10% dos honorários sucumbenciais em desfavor da parte recorrente, conforme art. 85, § 11, CPC.
Court Disposition
nega provimento ao recurso especial interposto pelo INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL
Orders
- Nego provimento ao recurso especial
- Majoro em 10% o valor dos honorários sucumbenciais em desfavor da parte recorrente, nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, observados os limites dos §§ 2º e 3º desse dispositivo
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL, com fundamento no art. 105, inciso III, alínea a, da Constituição Federal, no qual se insurge contra o acórdão do TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5ª REGIÃO assim ementado (fl. 184): PREVIDENCIÁRIO. AMPARO SOCIAL. PRESCRIÇÃO. INOCORRÊNCIA. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS AO DEFERIMENTO DO BENEFÍCIO. EFEITOS FINANCEIROS. CUSTAS. DESPROVIMENTO DO APELO. 1. Caso em que o autor, na condição de deficiente, representado por seu curador (genitor) busca a concessão de amparo social, tendo o magistrado singular deferido o benefício; 2. Demonstrado, através de perícia judicial, ser o postulante portador de retardo mental leve com transtorno de personalidade (CID 10 F70.1 F07.8, respectivamente), resta comprovada a incapacidade para o exercício de atividades laborativas, bem assim para a vida independente; 3. Constatando-se, por sua vez, por meio de laudo social, que o núcleo familiar do requerente é composto por ele, dois irmãos, três irmãs (sendo uma delas deficiente mental), genitor e genitora, que sobrevivem de renda de 01 (um) salário mínimo, decorrente de benefício assistencial, recebido por uma das irmãs e de benefício de Bolsa Família no valor de R$ 376,00, atendidos estão os requisitos necessários à percepção do benefício em questão; 4. A alegação de que o genitor do autor perceberia aposentadoria por invalidez, tal não desconfiguraria a condição de miserabilidade aferida no respectivo laudo social, considerando que os proventos corresponderiam a 1 (um) salário mínimo, não ensejando, portanto, renda superior ao limite da renda per capita prevista, além da informação nos autos de que o aludido benefício teria sido cancelado no ano de 2019; 5. Sem razão a pretensão do apelante de fixar os efeitos financeiros da condenação da data da citação, sob a alegação de prescrição, pois, além de não incidir o prazo prescricional, no caso, por se tratar de interesse de incapaz, a patologia em questão é congênita, manifestando-se desde a infância do respectivo portador, ensejando, portanto, a incapacidade exigida para a concessão do benefício (incapacidade para a vida independente) desde o momento do efetivo requerimento; 6. Tendo o feito sido ajuizado na Justiça Estadual não incidem as Leis nºs 9.289/96 (art. 4º, I,) e 8.620/93 (art. 8º, parágrafo 1º), que isentam o instituto previdenciário do pagamento de custas processuais, em relação aos processos propostos no âmbito da Justiça Federal (Súmula nº 178 do STJ), independentemente do autor ser beneficiário da justiça gratuita, uma vez que tais custas dizem respeito as da própria Autarquia e não as do vencedor. Note-se, por sua vez, que, na hipótese, inexiste Lei Estadual que isente a autarquia das custas que ora se cuida; 7. Apelação desprovida. Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (fls. 218/220). A parte recorrente alega violação do art. 198 do Código Civil, sustentando que "a existência de transtorno mental na autora não se confunde necessariamente com a incapacidade exigida pela lei civil para suspensão do curso do prazo prescricional" (fl. 232). Ainda, aponta afronta do art. 1º do Decreto 20.910/1932 e do art. 103, parágrafo único, da Lei 8.213/1991 sob o argumento de que "não se pode admitir que, passados mais de cinco anos, seja pleiteada a revisão do ato administrativo de negativa/cessação de benefício previdenciário, com repercussão nos valores pagos" (fl. 236). Requer o provimento recursal, "reconhecendo-se a ocorrência da prescrição do fundo do direito, ou que sejam, ao menos, limitadas as parcelas pretéritas desde a citação, nos termos do recurso representativo da controvérsia RESP 1.369.165/SP, ou mesmo do ajuizamento da ação" (fl. 240). A parte adversa apresentou contrarrazões (fls. 245/246). O recurso foi admitido na origem (fl. 248). É o relatório. A discussão posta nos autos diz respeito à prescrição em relação a pessoas absolutamente incapazes. Sobre a prescrição, assim se manifestou o Tribunal de origem (fl. 182): No tocante aos efeitos financeiros da condenação, descabe a pretensão do apelante de fixá-los da data da citação, sob a alegação de prescrição, pois, além de não incidir o prazo prescricional, no caso, por se tratar de interesse de incapaz, a patologia em questão é congênita, manifestando-se desde a infância do respectivo portador, ensejando, portanto, a incapacidade exigida para a concessão do benefício (incapacidade para a vida independente) desde do momento do efetivo requerimento. Esse entendimento não destoa da jurisprudência desta Corte Superior que reconhece a impossibilidade de fluência do prazo prescricional para indivíduos absolutamente incapazes para os atos da vida civil, sem ressalva quanto àqueles que possuem representantes legais, não correndo contra eles a prescrição (REsp 1.469.825/RS, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, julgado em 10/4/2018, DJe de 19/4/2018). Em igual sentido: PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. PENSÃO GRACIOSA. BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO ESTADUAL. PRESCRIÇÃO EM RELAÇÃO A PARTE ABSOLUTAMENTE INCAPAZ. NÃO OCORRÊNCIA. ACÓRDÃO RECORRIDO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ 1. Segundo a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, não flui o prazo prescricional contra os absolutamente incapazes, inclusive os interditados ainda que sob curatela. Precedentes. 2. "Portanto, no caso de pessoas absolutamente incapazes, o prazo prescricional fica impedido de fluir, de tal maneira que, enquanto perdurar a causa, inexiste prescrição a ser contada para efeito de pretensão. A prescrição, na hipótese, só se iniciará se, e quando, cessada a incapacidade." (REsp 1.469.825/RS, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe 19/4/2018). 3. Agravo Interno não provido. (AgInt no REsp n. 2.052.903/SC, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 11/3/2024, DJe de 14/3/2024, sem destaque no original.) Ademais, para este Tribunal, o direito fundamental a benefícios previdenciários e assistenciais não é atingido pela prescrição de fundo de direito por configurar relação de trato sucessivo e de natureza alimentar, incidindo a prescrição apenas sobre as parcelas anteriores ao quinquênio que precedeu a propositura da ação. Nesse sentido, cito o seguinte julgado da Primeira Seção deste Tribunal: PREVIDENCIÁRIO. BENEFÍCIO ASSISTENCIAL. ART. 20 DA LEI 8.742/1993. CONCESSÃO INICIAL E DIREITO DE REVISÃO DE ATO DE ANÁLISE CONCESSÓRIA. PRESCRIÇÃO DO FUNDO DE DIREITO. NÃO OCORRÊNCIA. IDENTIFICAÇÃO DA CONTROVÉRSIA. 1. Trata-se de Recurso Especial, remetido pela Segunda Turma, para exame da Primeira Seção nos termos do art. 14, II, do RI/STJ. Discute-se a prescritibilidade do fundo de direito ao benefício assistencial previsto no art. 20 da Lei 8.742/1993. PANORAMA JURISPRUDENCIAL 2. O Superior Tribunal de Justiça tem-se manifestado a favor de afastar a prescrição do fundo de direito quando em discussão direito fundamental ao Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica da Assistência Social (BPC-LOAS), previsto no art. 20 da Lei 8.742/1993, como instrumento de garantia à cobertura pela Seguridade Social da manutenção da vida digna e do atendimento às necessidades básicas sociais. 3. Conforme precedente do STF (RE 626.489/SE, Rel. Min. Roberto Barroso, Tribunal Pleno, julgado em 16/10/2013, DJe 23/9/2014), julgado sob o rito da repercussão geral, o direito fundamental à concessão inicial ao benefício previdenciário pode ser exercido a qualquer tempo, sem que se atribua consequência prejudicial ao direito pela inércia do beneficiário, entendimento esse aplicável com muito mais força ao BPC-LOAS, por seu caráter assistencial. IMPRESCRITIBILIDADE DO DIREITO AO BENEFÍCIO ASSISTENCIAL 4. No caso do BPC-LOAS, o direito de revisão do ato que indefere ou cessa a prestação assistencial não é completamente fulminado pela demora em exercitar o mencionado direito, ao contrário do que ocorre aos benefícios previdenciários, sobre os quais incide o prazo decadencial de dez anos, e a prescrição fulmina apenas as prestações sucessivas anteriores aos cinco anos da ação de concessão inicial ou de revisão, conforme art. 103 da Lei 8.213/1991. 5. Admitir que, sobre o direito de revisão do ato de indeferimento do BPC-LOAS, incida a prescrição quinquenal do fundo de direito é estabelecer regime jurídico mais rigoroso que o aplicado aos benefícios previdenciários, sendo estes menos essenciais à dignidade humana que o benefício assistencial. 6. Assim, a pretensão à concessão inicial ou ao direito de revisão de ato de indeferimento, cancelamento ou cessação do BPC-LOAS não é fulminado pela prescrição do fundo de direito, mas tão somente das prestações sucessivas anteriores ao lustro prescricional previsto no art. 1º do Decreto 20.910/1932. 7. Na mesma linha de compreensão: REsp 1.731.956/PE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 22/5/2018, DJe de 29/05/2018; REsp 1.349.296/CE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 20/02/2014, DJe de 28/2/2014; AgRg no AREsp 336.322/PE, Rel. Min. Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 24/03/2015, DJe de 8/4/2015; AgRg no REsp 1.471.798/PB, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJe de 6/10/2014; AgRg no AREsp 364.526/CE, Rel. Min. Ari Pargendler, Primeira Turma, DJe de 28/8/2014; AgRg no AREsp 493.997/PR, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe de 9/6/2014; AgRg no AREsp 506.885/SE, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe de 2/6/2014; AgRg no REsp 1.376.033/PB, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe de 9/4/2014. CONSIDERAÇÕES SOBRE O VOTO DO MINISTRO OG FERNANDES 8. Sua Excelência, o Ministro Og Fernandes, apresenta Voto em que aprofunda o exame da questão e argumenta que houve alteração recente no regime decadencial da revisão dos benefícios previdenciários (art. 103 da Lei 8.213/1991) em que expressamente prevista a incidência sobre indeferimento e cessação de benefícios. Pondera que essas alterações legislativas foram consideradas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal (ADI 6.096/DF), razão por que entende que deva prevalecer a compreensão de que o fundo do direito do benefício assistencial é imprescritível. 9. Inaplicável o regime decadencial dos benefícios previdenciários (art. 103 da Lei 8.213/1991) ao benefício assistencial do art. 20 da Lei 8.742/1993, já que sobre este incide o regime prescricional do Decreto 20.910/1932. Oportuno trazer, como reforço de peso, os fundamentos utilizados pelo STF por ocasião do julgamento da ADI 6.096/DF sobre os efeitos do tempo no direito ao benefício previdenciário, como fez o e. Ministro Og Fernandes. 10. O em. Ministro Og Fernandes diverge, todavia, quando ao resultado do julgamento, já que entendeu correto o procedimento adotado pelo Tribunal de origem de julgar improcedente a ação e impor ao ora recorrente a protocolização de novo requerimento administrativo, sem aproveitamento da presente Ação. 11. Na hipótese dos autos, o Tribunal de origem declarou prescrito o direito à revisão de ato administrativo de indeferimento do BPC-LOAS em razão de a Ação ter sido ajuizada após cinco anos da data do exame administrativo, sem prejuízo de apresentação de novo requerimento administrativo. 12. Ouso discordar do judicioso Voto do e. Ministro Og Fernandes no ponto em que manteve a conclusão do acórdão recorrido de impor ao ora recorrente nova postulação administrativa, uma vez que a jurisprudência consolidada do STJ é no sentido de que, ausente requerimento administrativo, o termo inicial do benefício assistencial é a data da citação da autarquia na ação judicial, se observados os requisitos do benefício no mencionado marco temporal. A propósito: "Nos termos da firme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, na ausência de prévio requerimento administrativo, é a citação, e não o ajuizamento da ação, o termo inicial do benefício assistencial" (AgRg no AREsp 475.906/SP, Rel. Ministro Og Fernandes, Segunda Turma, julgado em 1º/4/2014, DJe 24/4/2014); "Caso em que a parte autora pode postular a concessão de benefício a qualquer tempo, sendo certo que, decorridos mais de cinco anos desde o indeferimento administrativo e havendo alteração no estado de fato ou de direito do segurado, este fará jus ao benefício, atendidos os requisitos legais, mas a contar da nova demanda judicial" (AgInt no REsp 1.663.972, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 5/10/2020, DJe 16/10/2020). Na mesma linha: AgInt no REsp 1.601.268/SP, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Turma, julgado em 23/6/2016, DJe 30/6/2016; REsp 1.746.544/RJ, Rel. Min. Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe 14/2/2019; AgRg no REsp 1.417.924/SC, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 10/12/2013, DJe 16/12/2013; e AgRg no REsp 1.576.098/DF, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 1º/3/2016, DJe 8/3/2016. CONCLUSÃO 13. Recurso Especial provido. (REsp n. 1.803.530/PE, relator Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção, julgado em 22/11/2023, DJe de 28/2/2024, sem destaque no original.) Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial da autarquia. Majoro em 10% (dez por cento), em desfavor da parte recorrente, o valor de honorários sucumbenciais já arbitrado, nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, observados, se aplicáveis, os limites percentuais previstos nos §§ 2º e 3º desse mesmo dispositivo. Publique-se. Intimem-se. EMENTA