AREsp 2261534 - DECISAO
O Superior Tribunal de Justiça conheceu do agravo e, diante da jurisprudência consolidada de que o prazo de cinco anos do art. 618 do Código Civil refere-se à garantia da obra e não ao prazo prescricional, reconheceu que o prazo prescricional aplicável às ações indenizatórias por vícios de construção é o decenal...
Source-derived case information.
- Parties
- Autora: IVONEIDE SILVA OLIVEIRA; Ré: Caixa Econômica Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 25 September 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Julgamento De Admissibilidade E Provimento Do Agravo, Conhecimento Do Recurso Especial E Devolução Dos Autos À Origem
- Outcome
- Conheço do agravo para conhecer do recurso especial e dou-lhe provimento para afastar a prescrição e ordenar o retorno dos autos à origem para regular prosseguimento do feito
- Legal Topics
- Prescrição, Vícios De Construção, Garantia Da Obra, Prazo Prescricional Decenal, Teoria Da Actio Nata, Minha Casa, Minha Vida, Responsabilidade Civil, Honorários Recursais
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
IVONEIDE SILVA OLIVEIRA
Autora
Caixa Econômica Federal
Ré
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Julgamento De Admissibilidade E Provimento Do Agravo, Conhecimento Do Recurso Especial E Devolução Dos Autos À Origem
Legal Issues
- 1 Se o prazo de garantia quinquenal do art. 618 do Código Civil se confunde com o prazo prescricional para ações indenizatórias por vícios de construção
- 2 Se o prazo prescricional aplicável às ações indenizatórias por vícios de construção é decenal, nos termos do art. 205 do Código Civil, contado a partir da ciência inequívoca do dano (teoria da actio nata)
- 3 Se os vícios apontados são aparentes, de fácil percepção, e, portanto, o termo inicial do prazo de garantia/contagem seria a data de recebimento do imóvel
Ratio Decidendi
O Superior Tribunal de Justiça conheceu do agravo e, diante da jurisprudência consolidada de que o prazo de cinco anos do art. 618 do Código Civil refere-se à garantia da obra e não ao prazo prescricional, reconheceu que o prazo prescricional aplicável às ações indenizatórias por vícios de construção é o decenal previsto no art. 205 do Código Civil. Em face dessa jurisprudência, afastou-se a conclusão de prescrição constante do acórdão recorrido e determinou-se o retorno dos autos à origem para regular prosseguimento do feito.
Court Disposition
Conheço do agravo para conhecer do recurso especial e dou-lhe provimento para afastar a prescrição e ordenar o retorno dos autos à origem para regular prosseguimento do feito
Orders
- Conhecer do agravo
- Conhecer do recurso especial
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo em recurso especial interposto por IVONEIDE SILVA OLIVEIRA contra a decisão que inadmitiu o recurso especial com fundamento na ausência de violação dos arts. 205 e 618 do Código Civil; na incidência da Súmula n. 7 do STJ; e na falta de demonstração de similitude fática entre o acórdão recorrido e o acórdão paradigma. Alega a agravante que os pressupostos de admissibilidade do recurso especial foram atendidos. Contraminuta às fls. 877-880. O recurso especial foi interposto com fundamento no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região em apelação nos autos de ação de indenização por danos materiais e morais em decorrência de vícios construtivos em imóvel adquirido no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida. O julgado foi assim ementado (fls. 656-657): CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO. VÍCIOS DE CONSTRUÇÃO. DEFEITOS APARENTES E DE FÁCIL PERCEPÇÃO. SUPERAÇÃO DO PRAZO DE GARANTIA DE CINCO ANOS. INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE DA EMPRESA PÚBLICA FEDERAL. RECURSO DESPROVIDO. 1. Trata-se de Apelação interposta pelo particular contra sentença que julgou improcedentes os pedidos em razão da prescrição, extinguindo o feito com resolução do mérito. A referida ação buscava a indenização por danos materiais, em decorrência de vícios de construção de empreendimento do Minha Casa Minha Vida. 2. De início, o c. Superior Tribunal de Justiça solidificou entendimento no sentido de que o prazo de cinco anos estabelecido pelo art. 618 do Código Civil de 2002 refere-se à garantia da obra, não alcançando o prazo para a propositura de ações indenizatórias contra o responsável pelos vícios de construção. Este é, na verdade, regulado pela prescrição decenal prevista no art. 205 da mesma Lei Civil (AgInt no AREsp 1355163/GO, Rel. Min. Raul Araújo, Quarta Turma, Julgado em 16/05/2019; AgInt no AREsp 495.031/RJ, Rel. Min. Lázaro Guimarães (Desembargador Convocado do TRF 5ª Região), Quarta Turma, julgado em 19/06/2018). 3. No pertinente, cumpre esclarecer que a lei obriga o construtor (e quem mais tenha responsabilidade pela obra, no caso, a Caixa Econômica Federal) a garantir, por cinco anos, a segurança e a solidez do empreendimento. Ou seja, existe responsabilidade por todos os defeitos relacionados à segurança e solidez que surgirem nos cinco anos seguintes à conclusão da obra. Dessa forma, o prazo de prescrição é de dez anos para todos os defeitos relacionados com a segurança e a solidez que surgirem nos cinco anos seguintes ao término da construção. Nesse contexto, precedentes deste e. Tribunal Regional: Apelação Cível 08066648420204058100, Desembargador Federal Convocado Bruno Leonardo Câmara Carrá, Quarta Turma, Julgado em 23/03/2021; Apelação Cível 08041194120204058100, Desembargador Federal Edilson Pereira Nobre Júnior, Quarta Turma, Julgado em 09/02/2021. 4. Todavia, no presente caso, os vícios apontados pela parte apelante são problemas de "rachaduras nas paredes e estruturas, problemas nas instalações elétricas e hidráulicas, esgoto sanitário entupindo e transbordando, falha de impermeabilização, reboco e pintura esfarelados e deteriorados, pisos trincados, umidade ascendente, bem como portas emperradas e janelas de baixa qualidade, com frestas que permitem a entrada de água da chuva ( ) infiltração; pisos rachados; infiltração; fissuras em parede e no piso e outros. Além de todos os vícios construtivos acima expostos, a construção ficou inacabada, por não ter sido entregue tudo aquilo que era para ter sido entregue." Ocorre que o que deve ser especialmente considerado é que tais vícios são aparentes e de fácil percepção, razão pela qual o termo de contagem do prazo de garantia (cinco anos) deve iniciar a partir da data de recebimento do imóvel (Apelação Cível 08198389720194058100, Desembargador Federal Paulo Roberto de Oliveira Lima, 2ª turma, Julgamento em 17/11/2020). 5. Há de se salientar que na inicial, a parte admitiu que "além de todos os vícios construtivos acima expostos, a construção ficou inacabada, por não ter sido entregue tudo aquilo que era para ter sido entregue." Logo, sendo problemas existentes desde a entrega das chaves, não se aplica o prazo decenal, já que este é limitado aos defeitos relacionados à segurança e solidez que aparecem nos cinco anos posteriores ao término da construção e não para vícios aparentes. 6. Assim, fica evidente a ocorrência da prescrição, já que pela natureza dos vícios apontados pela própria parte apelante, não prospera a alegação de que os mesmos se caracterizam como contínuos, graduais e progressivos, ficando imperceptíveis por tantos anos sem que o apelante os percebesse. 7. Desse modo, a conclusão a que se chega é que os vícios surgiram após o prazo de cinco anos de garantia, o que fulmina o pleito de indenização pretendido pela parte apelante em face da instituição financeira. 8. Apelação desprovida. Condenação da parte apelante em honorários recursais, ficando majorado em 1% o percentual aplicado na sentença, nos termos do art. 85, § 11, do CPC, e na forma do art. 98, § 3º, do CPC, suspensa a exigibilidade. Os embargos de declaração opostos foram rejeitados. No recurso especial, a parte aponta, além de divergência jurisprudencial, violação dos seguintes artigos: a) 205 do Código Civil, porque o prazo prescricional para ações indenizatórias por vícios de construção é de 10 anos, contados a partir da ciência inequívoca dos danos; b) 618 do Código Civil, pois o prazo de garantia de 5 anos não se confunde com o prazo prescricional; c) 27 do Código de Defesa do Consumidor, visto que o prazo prescricional de 5 anos deve ser contado a partir do conhecimento do dano e de sua autoria; d) 489, § 1º, e 1.022, I e II, do CPC, porquanto o acórdão recorrido foi omisso e contraditório ao não considerar a teoria da actio nata e ao não aplicar o entendimento consolidado do STJ. Sustenta que o Tribunal de origem divergiu do entendimento firmado no REsp n. 1.717.160/DF e no REsp n. 1.534.831/DF, em que a Terceira Turma do STJ reconheceu a aplicação do prazo prescricional decenal para ações indenizatórias por vícios de construção, contado a partir da ciência inequívoca dos danos. Requer o provimento do recurso para que se reforme o acórdão recorrido e se afaste a prescrição, determinando-se o retorno dos autos à origem para regular prosseguimento. Contrarrazões do recurso especial às fls. 877-880. É o relatório. Decido. A controvérsia envolve ação de indenização por danos materiais, ajuizada por Ivoneide Silva Oliveira contra a Caixa Econômica Federal, em razão de vícios de construção em imóvel adquirido no âmbito do programa Minha Casa, Minha Vida. A autora alegou que os danos, classificados como vícios ocultos, surgiram após a entrega e utilização do imóvel, sendo constatados por laudo judicial. A sentença julgou improcedentes os pedidos, reconhecendo a prescrição e extinguindo o feito com resolução do mérito, decisão que foi mantida pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região em apelação. No julgamento da apelação, o Tribunal destacou que, embora o prazo de 5 anos previsto no art. 618 do Código Civil se refira à garantia da obra, o prazo prescricional para ações indenizatórias por vícios de construção é de 10 anos, conforme o art. 205 do Código Civil. Contudo, entendeu que os vícios apontados pela autora eram aparentes e de fácil percepção, devendo o prazo de garantia ser contado a partir da data de recebimento do imóvel, ocorrido em 29 de outubro de 2012. Como a comunicação dos vícios à Caixa Econômica Federal foi realizada apenas em dezembro de 2019 e a ação foi ajuizada em abril de 2020, concluiu que o prazo de 5 anos já havia sido superado, configurando-se a prescrição. O Tribunal também ressaltou que os vícios alegados não poderiam ser considerados contínuos, graduais e progressivos, uma vez que seriam perceptíveis desde a entrega do imóvel. Assim, foi negado provimento à apelação, mantendo-se a improcedência dos pedidos e condenando-se a autora ao pagamento de honorários recursais, majorados em 1% sobre o valor fixado na sentença, com a suspensão da exigibilidade em razão da gratuidade de justiça concedida. É o relatório. Decido. Assiste razão à parte recorrente. No ca so, a parte autora requereu a condenação da ré ao pagamento dos valores necessários à reparação de vícios construtivos no imóvel, bem como ao ressarcimento das despesas já realizadas para essa finalidade. A sentença, às fls. 455-462, registrou que, embora o bem fosse objeto da lide desde 2012, somente após mais de 5 anos de ocupação é que a existência dos defeitos foi comunicada à ré. Por esse motivo, entendeu que a obra não mais estava abrangida pelo prazo de garantia legal e julgou improcedentes os pedidos. Os embargos de declaração opostos foram rejeitados. O acórdão, às fls. 641-647, confirmou a sentença, reconhecendo a ocorrência da prescrição em razão da natureza dos vícios alegados pela própria apelante. Assentou que os defeitos surgiram apenas após o prazo quinquenal de garantia previsto em lei, o que inviabilizaria a pretensão indenizatória. Entretanto, verifica-se que a decisão recorrida diverge da jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça de que o prazo de 5 anos previsto no art. 618 do Código Civil refere-se à garantia de solidez e segurança da obra, sendo o prazo prescricional para a propositura da ação indenizatória de 10 anos, conforme dispõe o art. 205 do mesmo diploma. Desse modo, não há falar em prescrição do direito de pleitear a reparação pelos vícios construtivos no caso em exame A propósito: AgInt no REsp n. 2.148.065/MS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 24/2/2025, DJEN de 27/2/2025. Ante o exposto, conheço do agravo para conhecer do recurso especial e dar-lhe provimento para afastar a prescrição e ordenar o retorno dos autos à origem para que seja dado normal prosseguimento ao feito quanto à análise das demais questões de mérito. Publique-se. Intimem-se. EMENTA