HC 966785 - DECISAO
Porquanto a prescrição da falta grave ocorreu por inércia estatal e a alteração da data-base para concessão de benefícios não decorre automaticamente da unificação de penas, impor ao reeducando a data da última prisão como marco interruptivo configuraria afronta à legalidade e excesso de execução; assim, a ordem foi...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: JOÃO FERNANDO DE SOUSA FILHO; Autoridade Coatora: Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 14 May 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Concessão Da Ordem
- Outcome
- ordem concedida
- Legal Topics
- Prescrição Da Falta Grave, Unificação De Penas, Marco Temporal Para Concessão De Benefícios, Tema Repetitivo 1006, Excesso De Execução
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
JOÃO FERNANDO DE SOUSA FILHO
Paciente
Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Concessão Da Ordem
Legal Issues
- 1 Se a prescrição da falta grave impede o uso da data do último crime ou da última prisão como marco interruptivo para aquisição de benefícios executórios
- 2 Se a unificação de penas enseja alteração da data-base para concessão de novos benefícios
- 3 Se considerar a data da última prisão como marco configura bis in idem ou excesso de execução
Ratio Decidendi
Porquanto a prescrição da falta grave ocorreu por inércia estatal e a alteração da data-base para concessão de benefícios não decorre automaticamente da unificação de penas, impor ao reeducando a data da última prisão como marco interruptivo configuraria afronta à legalidade e excesso de execução; assim, a ordem foi concedida para afastar a imposição da última prisão como marco interruptivo para aquisição de benefícios executórios.
Court Disposition
ordem concedida
Orders
- Conceder a ordem para afastar a imposição da última prisão como marco interruptivo para aquisição de benefícios executórios.
- Comunique-se, com urgência, para as providências cabíveis.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO JOÃO FERNANDO DE SOUSA FILHO alega sofrer constrangimento ilegal em decorrência de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios no Agravo em Execução n. 0739858-88.2024.8.07.0000, em que foi mantida a data do último crime como marco para concessão de benefícios, apesar da prescrição da falta grave. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, indicado como autoridade coatora, decidiu que a prescrição da falta grave não impede a definição da data do último crime como marco para concessão de benefícios, pois não configura bis in idem (fls. 9-11). A defesa aduz, em síntese, que, diante da prescrição da falta grave, não se poderia usar a data do novo crime como marco temporal para cálculo de benefícios carcerários, conforme posicionamento pacífico do Superior Tribunal de Justiça. O Parecer da Subprocuradora-Geral da República Sônia Maria de Assunção Macieira foi pelo não conhecimento do habeas corpus e, no mérito, pela denegação da ordem (fls. 962-967). Decido. A Corte estadual afastou a pretensão defensiva em acórdão assim ementado (fls. 11-12): AGRAVO EM EXECUÇÃO PENAL. PRÁTICA DE CRIME NO CURSO DA EXECUÇÃO. FALTA GRAVE. PRESCRIÇÃO. UNIFICAÇÃO DAS PENAS. MARCO PARA NOVOS BENEFÍCIOS. DATA DO ÚLTIMO RECOLHIMENTO. DECISÃO MANTIDA. 1. Embora reconhecida a prescrição da falta grave consistente em prática de crime doloso no curso da execução, havendo condenação penal em relação a tal delito, a reprimenda dela decorrente deve ser somada ou unificada com as demais em execução, podendo haver alteração de regime, nos termos dos arts. 111 e 118, I, ambos da LEP. 2. No tocante ao marco para concessão de benefícios, o Superior Tribunal de Justiça fixou a tese de que "a unificação de penas não enseja a alteração da data-base para concessão de novos benefícios executórios" (Tema Repetitivo 1006), considerando que se o crime cometido no curso da execução foi registrado como infração disciplinar, seus efeitos já repercutiram no bojo do cumprimento da pena. 3. Não é aplicável a tese do Tema Repetitivo 1006 na hipótese dos autos, em que a prática de crime não acarretou a homologação de falta grave, diante da ocorrência de prescrição, porquanto a definição da data do delito como marco para concessão de benefícios não configura bis in idem. 4. Se o apenado cometeu o novo crime quando se encontrava cumprindo pena no regime aberto e a unificação das reprimendas resultou na fixação do regime fechado, correto o estabelecimento do marco para concessão de benefícios como sendo a do último recolhimento (prisão em flagrante), não sendo razoável considerar data anterior em que o sentenciado cumpria pena em meio aberto. 5. Agravo conhecido e não provido. Sobre o tema em debate, a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp n. 1.557.461/SC, de minha relatoria, ocorrido em 22/2/2018, firmou o entendimento de que: a alteração da data-base para concessão de novos benefícios executórios, em razão da unificação das penas, não encontra respaldo legal. Portanto, a desconsideração do período de cumprimento de pena desde a última prisão ou desde a última infração disciplinar, seja por delito ocorrido antes do início da execução da pena, seja por crime praticado após e já apontado como falta disciplinar grave, configura excesso de execução (REsp n. 1.557.461/SC, relator Ministro Rogerio Schietti, Terceira Seção, DJe de 15/3/2018, grifei). Dessa forma, a regressão de regime nem sequer é consectário necessário da unificação das penas, pois, conforme a leitura do parágrafo único do art. 111 e do inc. II do art. 118, ambos da Lei de Execução Penal, é forçosa a regressão de regime somente quando a pena da nova execução, somada à reprimenda ainda não cumprida, torne incabível o regime atualmente imposto. Assim aduz Maurício Kuehne, ao destacar que: .. o inc. II enseja a regressão, quando a condenação anterior, somada ao remanescente da execução em curso, torne incabível o regime. A contrario sensu, se a somatória não inviabilizar a permanência do réu no regime em que se encontre, a regressão não se operará. Assim, a condenação, por fato pretérito, por si só, não induz à regressão. É o que ocorre, v.g.quando o réu esteja em regime aberto, faltando 1 ano de pena a cumprir, e venha a sofrer nova condenação (por fato pretérito à execução em curso), a 2 anos e é fixado o regime aberto. A permanência do condenado, neste regime, é perfeitamente possível (KUEHNE, Maurício. Lei de execução penal anotada. 13. ed. Curitiba: Juruá, 2015, p. 379). Portanto, da leitura conjugada do parágrafo único do art. 111 e do inc. II do art. 118, ambos da Lei de Execução Penal, não se infere que, efetuada a soma das reprimendas impostas ao sentenciado, é mister a alteração da data-base para concessão de novos benefícios, especialmente, diante da ausência de disposição legal expressa. Por conseguinte, deduz-se da exposição supra que a alteração do termo a quo referente à concessão de novos benefícios no bojo da execução constitui afronta ao princípio da legalidade e ofensa à individualização da pena, motivos pelos quais se faz necessária a preservação do marco interruptivo anterior à unificação das penas, pois a alteração da data-base não é consectário imediato do somatório das reprimendas impostas ao sentenciado. É preciso ressaltar que a unificação de nova condenação definitiva já tem o condão de recrudescer o quantum de pena restante a ser cumprido pelo reeducando. Logo, a alteração da data-base para concessão de novos benefícios, a despeito da ausência de previsão legal, configura excesso de execução, baseado apenas em argumentos extrajurídicos. O período de cumprimento de pena desde a primeira prisão ou desde a última infração disciplinar não pode ser desconsiderado, seja por delito ocorrido antes do início da execução da pena, seja por crime praticado depois e já apontado como falta grave. Este entendimento foi sintetizado no julgamento dos Recursos Represen tativos da Controvérsia n. 1.753.509/PR e 1.753.512/PR (relator Ministro Rogerio Schietti, Terceira Seção, DJe 11/3/2019) pela Terceira Seção desta Corte Superior de Justiça, em seu plenário virtual e por meio de minha relatoria, oportunidade em que foi assentada a seguinte tese (Tema n. 1.006): A unificação de penas não enseja a alteração da data-base para concessão de novos benefícios executórios. O acórdão impugnado propõe o "distinguishing" em relação ao Tema n. 1.006, apontando a peculiaridade de que, no caso concreto, houve a prescrição da falta grave, de modo que não se operou a alteração da data-base. Assim, havendo ocorrido a prisão preventiva do paciente enquanto cumpria pena privativa de liberdade em regime aberto, estabeleceu-se que a "data da última prisão" a ser considerada para os efeitos de concessão dos benefícios da execução penal deveria ser a data da prisão preventiva. Com a devida vênia, o raciocínio não merece prosperar. Isso porque não cabe impor ao reeducando, que estava sob a vigilância estatal em regime aberto de cumprimento de pena, o ônus da inércia estatal em apurar a falta grave. Assim, uma vez operada a prescrição do período de apuração de falta grave por exclusiva inércia estatal, não há como considerar a solução de continuidade no cumprimento de pena. Por essa razão, ao negar provimento ao recurso defensivo para estabelecer a data da última prisão (preventiva) como marco interruptivo da contagem de prazo para concessão de novos benefícios, a decisão do Tribunal de Justiça está em dissonância com o entendimento atual da Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça. À vista do exposto, concedo a ordem para afastar a imposição da última prisão como marco interruptivo para aquisição de benefícios executórios. Comunique-se, com urgência, para as providências cabíveis. Publique-se e intimem-se. EMENTA