REsp 2121503 - DECISAO
Em razão da jurisprudência consolidada do STJ (REsp n. 2.094.303/SP e 2.088.100/SP), o reconhecimento da prescrição da pretensão impede a cobrança do débito tanto judicial quanto extrajudicial; assim, declarou-se a inexigibilidade das dívidas prescritas na esfera extrajudicial e reconheceu-se a obrigação de exclusão...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: MAURILIO FERREIRA DA SILVA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 February 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgado Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- provimento parcial do recurso especial
- Legal Topics
- Prescrição Da Pretensão, Cobrança Extrajudicial, Inexigibilidade De Débito, Danos Morais, Inscrição Em Cadastro De Inadimplentes (serasa LIMPA Nome)
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MAURILIO FERREIRA DA SILVA
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgado Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 se o reconhecimento da prescrição impede a cobrança extrajudicial do débito
- 2 inexigibilidade do débito na esfera extrajudicial
- 3 exclusão de dados da plataforma 'SERASA LIMPA NOME'
Ratio Decidendi
Em razão da jurisprudência consolidada do STJ (REsp n. 2.094.303/SP e 2.088.100/SP), o reconhecimento da prescrição da pretensão impede a cobrança do débito tanto judicial quanto extrajudicial; assim, declarou-se a inexigibilidade das dívidas prescritas na esfera extrajudicial e reconheceu-se a obrigação de exclusão dos dados do autor da plataforma 'SERASA LIMPA NOME'. A questão relativa a eventual indenização por danos morais foi remetida ao tribunal de origem por implicar reexame fático-probatório vedado em recurso especial.
Court Disposition
provimento parcial do recurso especial
Orders
- Declarar a inexigibilidade das dívidas prescritas na esfera extrajudicial
- Reconhecer a obrigação da recorrida em excluir os dados do autor da plataforma 'SERASA LIMPA NOME'
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de recurso especial, interposto por MAURILIO FERREIRA DA SILVA, com amparo na alínea "a" do permissivo constitucional, no intuito de reformar acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, assim ementado (fl. 357, e-STJ): AÇÃO DECLARATÓRIA CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. APELAÇÃO DO AUTOR IMPROVIDA. DÉBITO PRESCRITO. SERASA LIMPA NOME. COBRANÇA EXTRAJUDICIAL. POSSIBILIDADE. DANOS MORAIS NÃO CONFIGURADOS. A ação cinge-se à discussão sobre os seguintes pontos: (a) inexigibilidade do débito, (b) impossibilidade de cobrança judicial e extrajudicial e (c) existência de danos morais indenizáveis. Na instrução processual e na r. sentença, constatou-se que a dívida estava prescrita, pois datada de fevereiro de 2017. Observa-se que não houve a demonstração por parte das rés da interrupção desta prescrição. Isto posto, incide na espécie o prazo prescricional de 5 (cinco) anos, a teor do art. 206, § 5º, inc. l, do Código Civil. Entretanto, a prescrição, na forma do art. 189 do Código Civil, alcança a pretensão de cobrança judicial do débito, mas não a existência do próprio direito (direito subjetivo), de modo que a impossibilidade do exercício do direito de ação não implica na extinção do direito subjetivo de crédito. Sendo assim, embora o credor do crédito prescrito não tenha mais possibilidade do ajuizamento da ação de cobrança, não lhe é vedado fazer valer o seu direito por outros meios, tal como a sua cobrança administrativa ou extrajudicial, o que, a principio, não configura ato ilícito. Ou seja, a dívida prescrita não deixa de ser exigível no campo extrajudicial. Não poderá somente ingressar com ação judicial, o que não foi ventilado como parte do pedido. Daí a improcedência do pedido de inexigibilidade extrajudicial do débito. O autor não negou a existência do débito e fundamentou seu pedido no reconhecimento da prescrição como fato extintivo daquele direito de crédito. Logo, a inclusão do nome do autor na plataforma digital "SERASA LIMPA NOME" não se deu de forma ilegal, uma vez que a dívida de fato existia. Em tese, nada impedia que o autor pagasse uma dívida prescrita. E, nessa linha de pensamento, o reconhecimento da ocorrência da prescrição não tornava ilegal a inserção da dívida naquela plataforma, mesmo que tenha funcionado como um convite ao pagamento da dívida prescrita. Bastava, como ocorrido, que o autor se manifestasse e recusasse o convite à renegociação daquela dívida. Ação julgada improcedente. Nas razões do recurso especial (fls. 365-370, e-STJ), o insurgente alega ofensa ao artigo 43, §1º e § 5º do Código de Defesa do Consumidor, sustentando, em síntese, que a prescrição do débito gera a perda do direito de exigi-lo também na esfera extrajudicial. Contrarrazões às fls. 373/388, e-STJ. Admitido o recurso especial na origem (fls. 389/391, e-STJ), ascenderam os autos a esta egrégia Corte de Justiça. É o relatório. Decide-se A irresignação merece prosperar em parte. 1. Na hipótese, a Corte local consignou (fls. 110/111, e-STJ): Sendo assim, embora o credor do crédito prescrito não tenha mais possibilidade do ajuizamento da ação de cobrança, não lhe é vedado fazer valer o seu direito por outros meios, tal como a sua cobrança administrativa ou extrajudicial, o que, a principio, não configura ato ilícito. Ou seja, a dívida prescrita não deixa de ser exigível no campo extrajudicial. Não poderá somente ingressar com ação judicial, fato não ventilado na petição inicial. Daí a improcedência do pedido de inexigibilidade extrajudicial do débito. (grifou-se) Contudo, o acordão recorrido está em dissonância com a jurisprudência recente desta Corte Superior, haja vista a Terceira Turma do STJ, na sessão do dia 17/10/2023, no julgamento dos REsps n. 2.094.303/SP e 2.088.100/SP, ter consolidado o entendimento de que o reconhecimento da prescrição afasta a pretensão do credor de exigir o débito tanto judicial quanto extrajudicialmente. Nesse sentido: DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE DE DÉBITO PRESCRITO. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO. INSTITUTO DE DIREITO MATERIAL. DEFINIÇÃO. PLANO DA EFICÁCIA. PRINCÍPIO DA INDIFERENÇA DAS VIAS. PRESCRIÇÃO QUE NÃO ATINGE O DIREITO SUBJETIVO. COBRANÇA EXTRAJUDICIAL DE DÍVIDA PRESCRITA. IMPOSSIBILIDADE. MANUTENÇÃO DO ACÓRDÃO ESTADUAL. 1. Ação de conhecimento, por meio da qual se pretende o reconhecimento da prescrição, bem como a declaração judicial de inexigibilidade do débito, ajuizada em 4/8/2021, da qual foi extraído o presente recurso especial, interposto em 26/9/2022 e concluso ao gabinete em 3/8/2023. 2. O propósito recursal consiste em decidir se o reconhecimento da prescrição impede a cobrança extrajudicial do débito. 3. Inovando em relação à ordem jurídica anterior, o art. 189 do Código Civil de 2002 estabelece, expressamente, que o alvo da prescrição é a pretensão, instituto de direito material, compreendido como o poder de exigir um comportamento positivo ou negativo da outra parte da relação jurídica. 4. A pretensão não se confunde com o direito subjetivo, categoria estática, que ganha contornos de dinamicidade com o surgimento da pretensão. Como consequência, é possível a existência de direito subjetivo sem pretensão ou com pretensão paralisada. 5. A pretensão se submete ao princípio da indiferença das vias, podendo ser exercida tanto judicial, quanto extrajudicialmente. Ao cobrar extrajudicialmente o devedor, o credor está, efetivamente, exercendo sua pretensão, ainda que fora do processo. 6. Se a pretensão é o poder de exigir o cumprimento da prestação, uma vez paralisada em razão da prescrição, não será mais possível exigir o referido comportamento do devedor, ou seja, não será mais possível cobrar a dívida. Logo, o reconhecimento da prescrição da pretensão impede tanto a cobrança judicial quanto a cobrança extrajudicial do débito. 7. Hipótese em que as instâncias ordinárias consignaram ser incontroversa a prescrição da pretensão do credor, devendo-se concluir pela impossibilidade de cobrança do débito, judicial ou extrajudicialmente, impondo-se a manutenção do acórdão recorrido. 8. Recurso especial conhecido e desprovido (REsp n. 2.088.100/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 17/10/2023, DJe de 23/10/2023.) DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXIGIBILIDADE DE DÉBITO PRESCRITO. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO. INSTITUTO DE DIREITO MATERIAL. DEFINIÇÃO. PLANO DA EFICÁCIA. PRINCÍPIO DA INDIFERENÇA DAS VIAS. PRESCRIÇÃO QUE NÃO ATINGE O DIREITO SUBJETIVO. COBRANÇA EXTRAJUDICIAL DE DÍVIDA PRESCRITA. IMPOSSIBILIDADE. MANUTENÇÃO DO ACÓRDÃO ESTADUAL. 1. Ação de conhecimento, por meio da qual se pretende o reconhecimento da prescrição, bem como a declaração judicial de inexigibilidade do débito, ajuizada em 18/3/2022, da qual foi extraído o presente recurso especial, interposto em 27/12/2022 e concluso ao gabinete em 12/9/2023. 2. O propósito recursal consiste em decidir se o reconhecimento da prescrição impede a cobrança extrajudicial do débito. 3. Inovando em relação à ordem jurídica anterior, o art. 189 do Código Civil de 2002 estabelece, expressamente, que o alvo da prescrição é a pretensão, instituto de direito material, compreendido como o poder de exigir um comportamento positivo ou negativo da outra parte da relação jurídica. 4. A pretensão não se confunde com o direito subjetivo, categoria estática, que ganha contornos de dinamicidade com o surgimento da pretensão. Como consequência, é possível a existência de direito subjetivo sem pretensão ou com pretensão paralisada. 5. A pretensão se submete ao princípio da indiferença das vias, podendo ser exercida tanto judicial, quanto extrajudicialmente. Ao cobrar extrajudicialmente o devedor, o credor está, efetivamente, exercendo sua pretensão, ainda que fora do processo. 6. Se a pretensão é o poder de exigir o cumprimento da prestação, uma vez paralisada em razão da prescrição, não será mais possível exigir o referido comportamento do devedor, ou seja, não será mais possível cobrar a dívida. Logo, o reconhecimento da prescrição da pretensão impede tanto a cobrança judicial quanto a cobrança extrajudicial do débito. 7. Hipótese em que as instâncias ordinárias consignaram ser incontroversa a prescrição das pretensões do credor, devendo-se concluir pela impossibilidade de cobrança dos débitos, judicial ou extrajudicialmente, impondo-se a manutenção do acórdão recorrido. 8. Recurso especial conhecido e desprovido. (REsp n. 2.094.303/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 17/10/2023.) Assim, verifica-se que o acórdão merece reforma, a fim de se adequar ao entendimento desta Corte sobre a matéria, segundo o qual, uma vez reconhecida a prescrição, não é possível a cobrança extrajudicial da dívida. 2. Outrossim, o agravante pede indenização por danos morais em decorrência do infortúnio causado pela recorrida. Nesse contexto, declarar a existência, ou não, dos danos morais demandaria o reexame fático-probatório nesta Corte Superior, o qual é vedado em sede de recurso especial, atraindo o óbice da súmula 7/STJ. Assim, mostra-se mais adequado, em atenção ao devido processo legal e à segurança jurídica, que a controvérsia dos danos morais seja submetida a nova apreciação pelo Tribunal de origem, com a finalidade de se comprovar a existência do dano, inclusive para fins de arbitramento do quantum indenizatório, se for o caso. 3. Do exposto, com amparo no artigo 932 do CPC/15 c/c a Súmula 568/STJ, dá-se parcial provimento ao recurso especial para declarar a inexigibilidade das dívidas prescritas na esfera extrajudicial, bem como para reconhecer a obrigação da recorrida em excluir os dados do autor da plataforma "SERASA LIMPA NOME". Quanto ao pedido de indenização por danos morais, determina-se o retorno dos autos à Corte de origem para novo julgamento, como entender de direito. Publique-se. Intimem-se. EMENTA