REsp 1974481 - DECISAO
Conheceu-se do recurso especial e deu-se parcial provimento: manteve-se o reconhecimento da prescrição intercorrente em razão da inércia do exequente durante longo período de suspensão do processo, mas, por conflito com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça quanto à distribuição dos ônus sucumbenciais,...
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- Parties
- Recorrente: RIO PARANÁ COMPANHIA SECURITIZADORA DE CRÉDITOS FINANCEIROS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 01 October 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Julgamento
- Outcome
- Recurso especial conhecido e parcialmente provido
- Legal Topics
- Prescrição Intercorrente, Ônus Da Sucumbência, Honorários Advocatícios, Exceção De Pré Executividade, Negativa De Prestação Jurisdicional
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Parties
RIO PARANÁ COMPANHIA SECURITIZADORA DE CRÉDITOS FINANCEIROS
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Julgamento
Legal Issues
- 1 existência de negativa de prestação jurisdicional (arts. 489 e 1.022 do CPC)
- 2 incidência e marco inicial da prescrição intercorrente em execução extinta por inércia da parte exequente
- 3 distribuição dos ônus da sucumbência em execução extinta por prescrição intercorrente e aplicação do princípio da causalidade
Ratio Decidendi
Conheceu-se do recurso especial e deu-se parcial provimento: manteve-se o reconhecimento da prescrição intercorrente em razão da inércia do exequente durante longo período de suspensão do processo, mas, por conflito com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça quanto à distribuição dos ônus sucumbenciais, inverteu-se a condenação em honorários advocatícios em favor da recorrente, aplicando-se o princípio da causalidade e fixando-se honorários em 10% sobre o valor da causa.
Court Disposition
Recurso especial conhecido e parcialmente provido
Orders
- Conheço do recurso especial e dou-lhe parcial provimento.
- Inverto os ônus de sucumbência.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por RIO PARANÁ COMPANHIA SECURITIZADORA DE CRÉDITOS FINANCEIROS, com fundamento no art. 105, inciso III, alínea "a" , da Constituição Federal, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso do Sul, assim ementado: "APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE EXECUÇÃO - PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE - INÉRCIA E DESÍDIA DO EXEQUENTE - DESNECESSIDADE DE INTIMAÇÃO PESSOAL DO EXEQUENTE - PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE CORRETAMENTE DECLARADA - REGRA DO ARTIGO 1.056, DO CPC - INAPLICÁVEL - ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA - FIXAÇÃO DE HONORÁRIOS EM DESFAVOR DO EXEQUENTE - POSSIBILIDADE - SENTENÇA MANTIDA - RECURSO NÃO PROVIDO. Verificada a paralisação do feito executivo por prazo superior àquele previsto na lei para a pretensão executória, por inércia e desídia única do credor, tal circunstância leva à consumação da prescrição intercorrente. Tendo em vista que o credor deu causa à instauração do incidente de exceção de pré-executividade, bem como restou vencido na demanda expropriatória, a qual foi extinta, deve responder pelos honorários advocatícios, em virtude do princípio da causalidade e da sucumbência." (e-STJ fl. 462). Os embargos de declaração opostos foram rejeitados (e-STJ fls. 495/506). Em suas razões, a recorrente aponta violação dos seguintes dispositivos legais com as respectivas teses: (i) arts. 489 e 1.022 do Código de Processo Civil - haja vista a nulidade do acórdão recorrido por deficiência de fundamentação e negativa de prestação jurisdicional ao não apreciar aspectos relevantes da demanda suscitados nos embargos declaratórios; (ii) arts. 791 do Código de Processo Civil de 1973 e 921 Código de Processo Civil atual - porque o acórdão combatido teria aplicado incorretamente a prescrição intercorrente; (iii) arts. 10 e 85 do Código de Processo Civil - porque a mudança abrupta na jurisprudência, que passou a considerar a prescrição intercorrente sem intimação prévia, não deveria prejudicar o credor que agiu de boa-fé. Sem contrarrazões (e-STJ fl. 508). É o relatório. DECIDO. A insurgência merece prosperar, em parte. No tocante à negativa de prestação jurisdicional, verifica-se que o Tribunal de origem motivou adequadamente sua decisão, solucionando a controvérsia com a aplicação do direito que entendeu cabível à hipótese. No caso, o Tribunal de Justiça manifestou-se expressamente quanto à incidência da prescrição intercorrente à hipótese dos autos, conforme se verifica do seguinte trecho do acórdão: "No caso em tela, o exequente ajuizou a presente ação em 29.09.1987 (p. 01). Houve a citação e oferecimento de bens móveis para garantir a execução na data de 21.10.1987. Foi proferida sentença, admitindo os embargos da executada, reconhecendo a nulidade do título (p. 33-35), entendimento este reformado em sede de recurso de apelação (p. 36-45). Após vários atos processuais, entre eles avaliação e arrematação (p. 318-329), houve o levantamento do valor desta (p. 330-331), determinando-se à página 333, a suspensão do feito em data de 05/03/1996, com a sua remessa ao arquivo, sendo reativado somente em 06/11/2019, por provação da executada que pleiteou o desarquivamento (p. 342) e apresentou a exceção de pré- executividade com a tese de prescrição (p. 344-355). Como muito bem considerado pelo Juízo singular, durante a suspensão do processo, incumbia à parte credora diligenciar para promover a satisfação de seu crédito, tendo ela, no entanto, ficado inerte por todo o período e, assim, a executiva ficou paralisada por mais de vinte e três anos, sem qualquer impulso da exequente na persecução de seu crédito. .. Logo, a prescrição intercorrente passa a fluir, após um ano de suspensão por ausência de bens penhoráveis, independentemente da intimação da parte ou de seu representante legal para dar andamento do processo. Sendo assim, uma vez que a demanda permaneceu suspensa desde o ano de 1996 (p. 340) e, após esta data, a exequente não adotou qualquer outra medida para dar regular andamento ao feito, tem-se que ocorreu efetivamente a prescrição intercorrente." (e-STJ fls. 464/465). Não há falar, portanto, em existência de omissão apenas pelo fato de o julgado recorrido ter decidido em sentido contrário à pretensão da parte. A esse respeito, os seguintes precedentes: "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PLANO DE SAÚDE. NEGATIVA DE CUSTEIO DE MEDICAMENTO (THIOTEPA). 1. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL NÃO CONFIGURADA. 2. FUNDAMENTO SUFICIENTE NÃO ATACADO. SÚMULA 283/STF. 3. ACÓRDÃO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE SUPERIOR. SÚMULA 83/STJ. 4. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 282/STF E 211/STJ. 5. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Não ficou configurada a violação ao art. 1.022 do CPC/2015, uma vez que o Tribunal de origem se manifestou, de forma fundamentada, sobre todas as questões necessárias para o deslinde da controvérsia. O mero inconformismo da parte com o julgamento contrário à sua pretensão não caracteriza falta de prestação jurisdicional. 2. O acórdão recorrido encontra-se em perfeita harmonia com a jurisprudência desta Corte no sentido de que, "embora se trate de fármaco importado ainda não registrado pela ANVISA, teve a sua importação excepcionalmente autorizada pela referida Agência Nacional, sendo, pois, de cobertura obrigatória pela operadora de plano de saúde" (REsp 1.923.107/SP, relatora ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 10/8/2021, DJe 16/8/2021). 3. Atentando-se aos argumentos trazidos pela recorrente e aos fundamentos adotados pela Corte estadual de que a ANVISA admite a importação do fármaco, verifica-se que estes não foram objeto de impugnação nas razões do recurso especial, e a subsistência de argumento que, por si só, mantém o acórdão recorrido torna inviável o conhecimento do apelo especial, atraindo a aplicação do enunciado n. 283 da Súmula do Supremo Tribunal Federal. 4. A ausência de debate acerca do conteúdo normativo dos arts. 66 da Lei n. 6.360/1976 e 10, V, da Lei n. 6.437/1976, apesar da oposição de embargos de declaração, atrai os óbices das Súmulas 282/STF e 211/STJ. 5. Agravo interno a que se nega provimento." (AgInt no AREsp 2.164.998/RJ, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 13/2/2023, DJe de 16/2/2023 - grifou-se) "AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL - AÇÃO DE REGRESSO - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE NEGOU PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA RECURSAL DOS DEMANDADOS. 1. Não há se falar em negativa de prestação jurisdicional, na medida em que o órgão julgador dirimiu todas as questões que lhe foram postas à apreciação, de forma clara e sem omissões, embora não tenha acolhido a pretensão da parte. 2. Rever a conclusão do Tribunal de origem com relação à responsabilidade pelo ressarcimento dos valores pagos em reclamação trabalhista demandaria o reexame do conjunto fático-probatório dos autos e a interpretação de cláusulas contratuais, providencias que encontram óbice no disposto nas Súmulas 5 e 7 do STJ. Precedentes. 3. Agravo interno desprovido." (AgInt nos EDcl no AREsp 2.135.800/SP, relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 13/2/2023, DJe de 16/2/2023 - grifou-se) Registra-se que, mesmo à luz do art. 489 do CPC, o órgão julgador não estaria obrigado a se pronunciar acerca de todo e qualquer ponto suscitado pelas partes, mas apenas a respeito daqueles capazes de, em tese, de algum modo, infirmar a conclusão adotada pelo órgão julgador (inciso IV). A motivação contrária ao interesse da parte, ou mesmo omissa em relação a pontos considerados irrelevantes pelo julgador, não autoriza o acolhimento dos embargos declaratórios. Além disso, o aresto combatido encontra-se alinhado à jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, que entende ser aplicável a prescrição intercorrente quando o processo executivo fica paralisado por prazo superior ao da prescrição, contado a partir do transcurso de 1 (um) ano de suspensão. A propósito: "RECURSO ESPECIAL. INCIDENTE DE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA. AÇÃO DE EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE DA PRETENSÃO EXECUTÓRIA. CABIMENTO. TERMO INICIAL. NECESSIDADE DE PRÉVIA INTIMAÇÃO DO CREDOR-EXEQUENTE. OITIVA DO CREDOR. INEXISTÊNCIA. CONTRADITÓRIO DESRESPEITADO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. As teses a serem firmadas, para efeito do art. 947 do CPC/2015 são as seguintes: 1.1 Incide a prescrição intercorrente, nas causas regidas pelo CPC/73, quando o exequente permanece inerte por prazo superior ao de prescrição do direito material vindicado, conforme interpretação extraída do art. 202, parágrafo único, do Código Civil de 2002. 1.2 O termo inicial do prazo prescricional, na vigência do CPC/1973, conta-se do fim do prazo judicial de suspensão do processo ou, inexistindo prazo fixado, do transcurso de um ano (aplicação analógica do art. 40, § 2º, da Lei 6.830/1980). 1.3 O termo inicial do art. 1.056 do CPC/2015 tem incidência apenas nas hipóteses em que o processo se encontrava suspenso na data da entrada em vigor da novel lei processual, uma vez que não se pode extrair interpretação que viabilize o reinício ou a reabertura de prazo prescricional ocorridos na vigência do revogado CPC/1973 (aplicação irretroativa da norma processual). 1.4. O contraditório é princípio que deve ser respeitado em todas as manifestações do Poder Judiciário, que deve zelar pela sua observância, inclusive nas hipóteses de declaração de ofício da prescrição intercorrente, devendo o credor ser previamente intimado para opor algum fato impeditivo à incidência da prescrição. 2. No caso concreto, a despeito de transcorrido mais de uma década após o arquivamento administrativo do processo, não houve a intimação da recorrente a assegurar o exercício oportuno do contraditório. 3. Recurso especial provido." (REsp n. 1.604.412/SC, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Segunda Seção, julgado em 27/6/2018, DJe de 22/8/2018 - grifou-se) Logo, não merece reparos o acórdão recorrido, incidindo na espécie o enunciado da Súmula nº 568/STJ. Todavia, no que se refere à pretensão de afastamento de sua condenação aos ônus de sucumbência e, em especial, à inversão da condenação aos honorários advocatícios, o recurso merece provimento. A respeito desse tema, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça assentou o entendimento de que prevalece o princípio da causalidade como fundamento para a distribuição da sucumbência. Todavia, a aplicação desse princípio deverá levar em conta, não a eventual resistência do credor contra o acolhimento da preliminar de mérito, mas a existência da dívida e do inadimplemento, o que enseja a própria propositura da execução. Nesse sentido: "PROCESSUAL CIVIL. ÔNUS DA SUCUMBÊNCIA NA EXECUÇÃO EXTINTA POR PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CUSTAS. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. RECONHECIMENTO DA PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE, PRECEDIDO DE RESISTÊNCIA DO EXEQUENTE. RESPONSABILIDADE PELOS ÔNUS SUCUMBENCIAIS. PREVALÊNCIA DO PRINCÍPIO DA CAUSALIDADE. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA PROVIDOS. 1. A controvérsia cinge-se em saber se a resistência do exequente ao reconhecimento de prescrição intercorrente é capaz de afastar o princípio da causalidade na fixação dos ônus sucumbenciais, mesmo após a extinção da execução pela prescrição. 2. Segundo farta jurisprudência desta Corte de Justiça, em caso de extinção da execução, em razão do reconhecimento da prescrição intercorrente, mormente quando este se der por ausência de localização do devedor ou de seus bens, é o princípio da causalidade que deve nortear o julgador para fins de verificação da responsabilidade pelo pagamento das verbas sucumbenciais. 3. Mesmo na hipótese de resistência do exequente - por meio de impugnação da exceção de pré-executividade ou dos embargos do executado, ou de interposição de recurso contra a decisão que decreta a referida prescrição -, é indevido atribuir-se ao credor, além da frustração na pretensão de resgate dos créditos executados, também os ônus sucumbenciais com fundamento no princípio da sucumbência, sob pena de indevidamente beneficiar-se duplamente a parte devedora, que não cumpriu oportunamente com a sua obrigação, nem cumprirá. 4. A causa determinante para a fixação dos ônus sucumbenciais, em caso de extinção da execução pela prescrição intercorrente, não é a existência, ou não, de compreensível resistência do exequente à aplicação da referida prescrição. É, sobretudo, o inadimplemento do devedor, responsável pela instauração do feito executório e, na sequência, pela extinção do feito, diante da não localização do executado ou de seus bens. 5. A resistência do exequente ao reconhecimento de prescrição intercorrente não infirma nem supera a causalidade decorrente da existência das premissas que autorizaram o ajuizamento da execução, apoiadas na presunção de certeza, liquidez e exigibilidade do título executivo e no inadimplemento do devedor. 6. Embargos de divergência providos para negar provimento ao recurso especial da ora embargada." (EAREsp n. 1.854.589/PR, relator Ministro Raul Araújo, Corte Especial, julgado em 9/11/2023, DJe de 24/11/2023 - grifou-se) Assim, o aresto combatido encontra-se em confronto com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, no que se refere à condenação da ora recorrente ao pagamento de honorários advocatícios, impondo-se ainda a pretendida inversão da condenação. Ante o exposto, conheço do recurso especial e dou-lhe parcial provimento. Consequentemente, inverto os ônus de sucumbência, fixando os honorários advocatícios em 10% (dez por cento) sobre o valor da causa, observado o benefício da justiça gratuita, se for o caso. Publique-se. Intimem-se. EMENTA