HC 1052408 - DECISAO
Concedeu-se a ordem liminar porque houve ilegalidade apta a ser sanada via habeas corpus, na medida em que o Tribunal de origem não conheceu do recurso de apelação por entender haver mera repetição das alegações finais, sendo aplicável o entendimento de que tal repetição não constitui, por si só, óbice ao...
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- Parties
- Paciente: DIEGO EMILIO RIOS GONCALVES; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 November 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Liminar Concedida
- Outcome
- ordem concedida liminarmente
- Legal Topics
- Princípio Da Dialeticidade, Efeito Devolutivo, Nulidade Por Não Conhecimento De Apelação, Dever De Fundamentação
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Parties
DIEGO EMILIO RIOS GONCALVES
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Liminar Concedida
Legal Issues
- 1 Se o habeas corpus é meio adequado para sanar ilegalidade decorrente do não conhecimento de apelação pelo Tribunal de origem
- 2 Se a mera repetição das alegações finais nas razões de apelação impede o conhecimento do recurso (princípio da dialeticidade)
- 3 Se há ilegalidade flagrante que autoriza concessão de ofício da ordem
Ratio Decidendi
Concedeu-se a ordem liminar porque houve ilegalidade apta a ser sanada via habeas corpus, na medida em que o Tribunal de origem não conheceu do recurso de apelação por entender haver mera repetição das alegações finais, sendo aplicável o entendimento de que tal repetição não constitui, por si só, óbice ao conhecimento do recurso e o efeito devolutivo permite ao tribunal examinar amplamente a matéria; por isso determinou-se que o TJPR prossiga no julgamento do recurso de apelação.
Court Disposition
ordem concedida liminarmente
Orders
- Determinar que a Corte de origem prossiga no julgamento do recurso de apelação interposto pelo ora paciente, como entender de direito, em seus ulteriores termos.
- Publique-se. Intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido liminar impetrado em benefício de DIEGO EMILIO RIOS GONCALVES no qual se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ (Apelação n. 0006722-95.2023.8.16.0075). Depreende-se dos autos que o ora paciente foi condenado como incurso nos arts. 22, caput, da Lei n. 13.869/2019; 223 do CPM; art. 1º, I, a c/c os § 4º, I, e § 5º, da Lei n. 9.455/1997; 209, caput, do CPM; e 242, § 2º, I e II, do CPM, às penas de 15 anos, 4 meses e 9 dias de reclusão (e-STJ fls. 34/192). O Tribunal de origem não conheceu do recurso do paciente (e-STJ fls. 12/33). Daí o presente writ, no qual sustenta a defesa, basicamente, que "a irresignação recursal em análise, que não foi conhecida pelo TJPR, esclareceu o desacerto da sentença condenatória e apresentou os motivos de fato e de direito para sua reforma, em total observância ao princípio da dialeticidade" (e-STJ fl. 9). Diante dessas considerações, pede "a concessão da ordem liminar, e, ao final, concedida ou não a liminar, seja reconhecida a ilegalidade do acórdão, conforme fundamentos apresentados, para fins de determinar que o Tribunal de Justiça do Estado do Paraná conheça do recurso em questão e se pronuncie sobre o mérito arguido pela defesa. Subsidiariamente, caso não seja conhecido o habeas corpus, seja a ordem concedida de ofício, diante da manifesta ilegalidade (CRFB/88, art. 5.º, LXVIII; CPP, art. 654, § 2.º)" - e-STJ fl. 11. É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, de longa data, vem buscando fixar balizas para a racionalização do uso do habeas corpus, visando a garantia não apenas do curso natural das ações ou revisões criminais mas também da efetiva priorização do objeto ínsito ao remédio heroico, qual seja, o de prevenir ou remediar lesão ou ameaça de lesão ao direito de locomoção. Nessa linha, "é incognoscível, ordinariamente, o habeas corpus impetrado em substituição à via recursal de impugnação própria" (AgRg no HC n. 716.759/RS, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 26/9/2023, DJe de 2/10/2023). De toda forma, vislumbra-se ilegalidade flagrante apta a ser sanada na presente via, mediante a eventual concessão de habeas corpus de ofício. De todos os efeitos recursais, consoante teoria geral dos recursos, o efeito devolutivo é aquele, segundo escólio doutrinário, consistente na transferência da matéria impugnada ao órgão jurisdicional competente, seja para anular, reformar ou integrar o decisum que lhe deu azo. É dizer, tal efeito permite, via de regra, o conhecimento amplo da matéria suscitada, máxime quando a devolução (rectius: transferência) se dá para um órgão de superposição. Com efeito, já decidiu o Supremo Tribunal Federal, ao enfrentar tema correlato, que "as razões do recurso de apelação que reproduzem os argumentos lançados nas alegações finais não incorrem em deficiência da defesa técnica a atrair declaração de nulidade, máxime nas hipóteses em que a peça infirmou todos os fundamentos da sentença condenatória .. É que "o efeito devolutivo, tomado em profundidade, permite ao tribunal examinar aspectos ou tópicos não apreciados pelo juiz inferior: a profundidade do conhecimento do tribunal é a maior possível: pode levar em consideração tudo que for relevante para a nova decisão" (Ada Pellegrini Grinover et alii, Recursos no Processo Penal, São Paulo, RT, 1996, p. 52, nº 25; p. 156, nº 95)" (HC n. 105.897, relator Ministro Marco Aurélio, relator para acórdão: Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 13/9/2011, DJe-189 divulgado em 30/ 9/2011, publicado em 3/10/2011, grifei). Nesse sentido também é a jurisprudência desta Corte: PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. INCÊNDIO E DANO QUALIFICADO. NULIDADE. RAZÕES DE APELAÇÃO. OFENSA AO PRINCÍPIO DA DIALETICIDADE. INOCORRÊNCIA. REITERAÇÃO DAS RAZÕES EXPENDIDAS NAS ALEGAÇÕES FINAIS. POSSIBILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A jurisprudência das Cortes Superiores é de que, mutatis mutandis, "as razões do recurso de apelação que reproduzem os argumentos lançados nas alegações finais não incorrem em deficiência da defesa técnica a atrair declaração de nulidade, máxime nas hipóteses em que a peça infirmou todos os fundamentos da sentença condenatória .. É que "o efeito devolutivo, tomado em profundidade, permite ao tribunal examinar aspectos ou tópicos não apreciados pelo juiz inferior: a profundidade do conhecimento do tribunal é a maior possível: pode levar em consideração tudo que for relevante para a nova decisão" (Ada Pellegrini Grinover et alii, Recursos no Processo Penal, São Paulo, RT, 1996, p. 52, nº 25; p. 156, nº 95)" (HC n. 105.897, relator Ministro MARCO AURÉLIO, relator para acórdão: Ministro LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 13/9/2011, DJe-189 divulgado em 30/09/2011, publicado em 3/10/2011). Precedentes. 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no REsp n. 1.550.399/SC, minha relatoria, Sexta Turma, julgado em 14/9/2022, DJe de 21/9/2022.) HABEAS CORPUS. NULIDADE. CONDENAÇÃO. APELAÇÃO INTERPOSTA NÃO CONHECIDA. MERA REPETIÇÃO DAS ALEGAÇÕES FINAIS. ACÓRDÃO FUNDADO NA INOBSERVÂNCIA AO PRINCÍPIO DA DIALETICIDADE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. VIOLAÇÃO AO PRIMADO DA EXIGÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO DO ATO JUDICIAL. ORDEM CONCEDIDA. 1. A teor do art. 93, IX, da Constituição Federal, é imperioso que as decisões do Poder Judiciário sejam motivadas, a ponto de conter o substrato da causa e as particularidades defendidas pelas partes, de modo a viabilizar, de um lado, o exercício do duplo grau de jurisdição, e, de outro, o controle político do cumprimento da função judicante. 2. Na espécie, o Tribunal de origem não conheceu do apelo da defesa e, a pretexto de apreciar o recurso, apenas concluiu que a mera repetição das alegações finais nas razões do recurso de apelação viola o princípio da dialeaticidade. 3. Mutatis mutandis, "repetir, na apelação, os argumentos já lançados na petição inicial ou na contestação não representa, por si só, obstáculo ao conhecimento do recurso, nem ofensa ao princípio da dialeticidade. Precedentes." (AgInt no AREsp 980.599/SC, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 13/12/2016, DJe 02/02/2017) 4. Ordem concedida para anular o julgamento da apelação e determinar novo exame daquele recurso, de forma fundamentada. (HC n. 392.479/SC, relatora Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, julgado em 22/8/2017, DJe de 31/8/2017.) Ante o exposto, concedo a ordem, liminarmente, para determinar que a Corte de origem prossiga no julgamento do recurso de apelação interposto pelo ora paciente, como entender de direito , em seus ulteriores termos. Publique-se. Intimem-se. EMENTA