HC 942040 - DECISAO
Verificada ilegalidade flagrante no acórdão recorrido, porque o Tribunal estadual utilizou exclusivamente critério aritmético (percentual sobre o salário mínimo) sem ponderar as demais circunstâncias fáticas relevantes (valor efetivo dos bens, restituição integral, primariedade técnica, desemprego e finalidade...
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- Parties
- Paciente: ALLAN DONIZETE DE OLIVEIRA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 October 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Mérito Não Conhecimento Do Habeas Corpus E Concessão Da Ordem De Ofício Pelo STJ
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus e concedo a ordem de ofício para restabelecer a sentença absolutória de primeiro grau por atipicidade material em razão da incidência do princípio da insignificância.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Atipicidade Material, Furto Simples, Crime Impossível, Intervenção Mínima, Uso Do Habeas Corpus Como Substitutivo De Recurso
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Parties
ALLAN DONIZETE DE OLIVEIRA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Mérito Não Conhecimento Do Habeas Corpus E Concessão Da Ordem De Ofício Pelo STJ
Legal Issues
- 1 aplicação do princípio da insignificância ao furto de pequeno valor
- 2 valor da res furtiva como critério isolado (regra dos 10% do salário mínimo)
- 3 possibilidade de reconhecimento do crime impossível
Ratio Decidendi
Verificada ilegalidade flagrante no acórdão recorrido, porque o Tribunal estadual utilizou exclusivamente critério aritmético (percentual sobre o salário mínimo) sem ponderar as demais circunstâncias fáticas relevantes (valor efetivo dos bens, restituição integral, primariedade técnica, desemprego e finalidade alimentícia), o que impediu adequada aplicação do princípio da insignificância; assim, restabeleceu-se a sentença absolutória por atipicidade material e foi concedida a ordem de ofício.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus e concedo a ordem de ofício para restabelecer a sentença absolutória de primeiro grau por atipicidade material em razão da incidência do princípio da insignificância.
Orders
- Não conheço do habeas corpus.
- Concedo a ordem de ofício para restabelecer a sentença absolutória de primeiro grau na ação penal, em razão da atipicidade material por força da incidência do princípio da insignificância.
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de ALLAN DONIZETE DE OLIVEIRA em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Consta dos autos que o Tribunal local deu provimento ao recurso de apelação manejado pelo Ministério Público estadual para, cassando a sentença absolutória de primeiro grau, determinar o prosseguimento do feito em que se atribui ao paciente o crime previsto no art. 155, caput, do Código Penal. A impetrante sustenta que não há motivação válida no acórdão impugnado, uma vez que o Tribunal local, ao negar a incidência do princípio da intervenção mínima, considerou somente o fato de o valor dos bens furtados ultrapassar 10% do salário mínimo. Alega que o paciente foi condenado pela prática do crime de furto simples e, por força do princípio da insignificância, a conduta seria atípica, visto que não teria havido ofensa ao bem jurídico tutelado pela norma penal, em razão do valor irrisório dos bens subtraídos - 1 pedaço de alcatra, 4 desodorantes e 2 iogurtes -, os quais, inclusive, foram restituídos à vítima. Aduz, também, que estaria evidenciada a prática do crime impossível, porque os fatos atribuídos ao paciente aconteceram em estabelecimento comercial de grande porte, com sistema de vigilância ostensivo e funcionários que monitoraram o acusado durante todo o trajeto dentro do supermercado, realizando a abordagem somente após o acusado passar pelo caixa. Requer, liminarmente, a suspensão da ação penal e, no mérito, a absolvição do paciente pela aplicação do princípio da insignificância ou pelo reconhecimento do crime impossível. A liminar foi indeferida às fls. 93-95. As informações foram prestadas (fls. 104-111, 112-119 e 120-123). O parecer do Ministério Público Federal é pelo não conhecimento do habeas corpus, mas favorável à concessão da ordem de ofício (fls. 125-129). É o relatório. O Superior Tribunal de Justiça já firmou a compreensão de que o habeas corpus não deve ser utilizado como substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Confiram-se os seguintes precedentes a respeito do assunto: AgRg no HC n. 933.316/MG, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 20/8/2024, DJe de 27/8/2024; AgRg no HC n. 874.713/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 13/8/2024, DJe de 20/8/2024; AgRg no HC n. 918.177/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 19/8/2024, DJe de 22/8/2024; AgRg no HC n. 749.702/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 26/2/2024, DJe de 29/2/2024; AgRg no HC n. 912.662/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 24/6/2024, DJe de 27/6/2024; e HC n. 740.303/ES, relator Ministro Jesuíno Rissato - Desembargador convocado do TJDFT, Quinta Turma, julgado em 9/8/2022, DJe de 16/8/2022. No caso em exame, verifica-se a ocorrência de ilegalidade flagrante apta a superar esse entendimento. Com efeito, conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, os requisitos para aplicação do princípio da insignificância são (i) a mínima ofensividade da conduta; (ii) a ausência de periculosidade social na ação; (iii) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e (iv) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. O Tribunal local, ao dar provimento ao recurso do Ministério Público, afastou a tese de crime impossível e o estado de necessidade. Todavia, quanto ao crime de bagatela, embora discorra a despeito da orientação da Suprema Corte, utilizou-se exclusivamente, na verdade, de critério aritmético para aferir a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância. Confiram-se os seguintes trechos do acórdão impugnado (fl. 45): Ademais, não há que se falar em aplicação do princípio da insignificância, na medida em que o valor da totalidade dos bens subtraídos supera a décima parte do salário mínimo vigente à época da conduta criminosa, o que se mostra relevante em termos de lesão patrimonial, segundo o critério adotado pelo Superior Tribunal de Justiça, para quem "a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça firmou-se no sentido de ser incabível a aplicação do princípio da insignificância quando o montante do valor da res furtiva superar o percentual de 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos" (AgRg no REsp n. 2.132.837/MG, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 11/6/2024, D Je de 17/6/2024). Como se observa, o entendimento do Tribunal estadual não está totalmente de acordo com o posicionamento desta Corte Superior de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, porque, para se concluir de forma mais efetiva sobre o grau de reprovalibilidade da conduta, embora seja necessário o exame do valor do bem furtado, é preciso ponderar a respeito das demais circunstâncias fáticas da causa, o que a toda evidência não se operou no presente feito. No caso, tem-se um furto simples, em que não se revela excessivo o valor dos produtos alimentícios subtraídos R$ 203,24 (duzentos e três reais e vinte e quatro centavos), equivalente a 14,39% do salário mínimo vigente à época do fato . Esse valor foi aferido, inclusive, de forma indireta, visto que nem sequer foi providenciado o exame pericial. Além disso, os bens foram integralmente restituídos à vítima. Desse modo, levando-se em conta a primariedade técnica do réu, que, nos termos da sentença, encontra-se desempregado e teria subtraído os produtos somente para se alimentar, não há como afastar a incidência do princípio da insignificância, conforme a jurisprudência desta Corte Superior. A propósito: AGRAVOS REGIMENTAIS EM RECURSO ESPECIAL. PENAL. FURTO QUALIFICADO. VIOLAÇÃO DO ART. 155, § 4º, I, DO CP. PLEITO DE AFASTAMENTO DO RECONHECIMENTO DA BAGATELA. RES FURTIVA AVALIADA EM VALOR SUPERIOR A 10% DO SALÁRIO MÍNIMO. RESTITUIÇÃO INTEGRAL À VÍTIMA E REINCIDÊNCIA NÃO ESPECÍFICA EM CRIME DE ORDEM PATRIMONIAL. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. APLICABILIDADE. MANUTENÇÃO DO ENTENDIMENTO DAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS, QUE ABSOLVERAM SUMARIAMENTE O RECORRIDO, QUE SE IMPÕE. INTERPOSIÇÃO DE MAIS DE UM RECURSO CONTRA A MESMA DECISÃO. PRINCÍPIO DA UNIRRECORRIBILIDADE. PRECLUSÃO CONSUMATIVA. PRECEDENTES. 1. Não se desconhece a posição majoritária desta Corte Superior atinente à não aplicação do princípio da insignificância nas hipóteses em que a res furtiva seja avaliada em patamar superior a 10% do salário mínimo vigente à época do delito. Contudo, no caso concreto, devem ser sopesadas as demais circunstâncias fáticas, admitindo-se a incidência do aludido princípio, conforme reconhecido pelas instâncias ordinárias. 2. Em face da constatada primariedade, ainda que técnica, dos agentes, bem como do montante, em sua integralidade, ter sido restituído à vítima, mostra-se presente a excepcionalidade que autoriza a incidência do princípio da insignificância. .. Na hipótese, apesar de os bens subtraídos somarem cerca de 23% do salário mínimo vigente em 2016, considerando tratar-se de paciente primário, o qual possui, em sua folha de antecedentes criminais, somente a anotação referente ao presente processo, bem como que tentou subtrair 3 peças de carne, as quais foram restituídas à vítima, não se mostra recomendável sua condenação, eis que evidente a inexpressividade da lesão jurídica provocada (HC n. 600.107/SP, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 3/9/2020) (AgRg no REsp n. 1.872.218/SC, Ministro Sebastião Reis Junior, Sexta Turma, DJe 3/2/2021). 3. O "princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. .. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como: (a) a mínima ofensividade da conduta do agente; (b) nenhuma periculosidade social da ação; (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público." (HC n. 84.412-0/SP, STF, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, DJU 19/11/2004). .. A jurisprudência desta Corte, dentre outros critérios, aponta o parâmetro da décima parte do salário mínimo vigente ao tempo da infração penal, para aferição da relevância da lesão patrimonial. .. Na hipótese, apesar de o bem subtraído somar cerca de 21,5% do salário mínimo vigente em 2015, considerando tratar-se de paciente primário, o qual possui, em sua folha de antecedentes criminais, somente a anotação referente ao presente processo e outro por posse de droga para o consumo pessoal, no qual foi concedida a transação penal em 2009, bem como que subtraiu 1 (um) celular, que foi devolvido à vítima antes de sua saída da danceteria, não se mostra recomendável sua condenação, eis que evidente a inexpressividade da lesão jurídica provocada. (HC n. 596.144/SC, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 16/10/2020). 4. Levando em consideração que a res furtiva foi, em sua integralidade, restituída à vítima e que a constatada reincidência não é específica em delitos de ordem patrimonial, mostra-se presente a excepcionalidade que autoriza a incidência do princípio da insignificância. .. 8. Agravo regimental de fls. 310/314 desprovido e agravo regimental de fls. 316/320 não conhecido. (AgRg no REsp n. 1.949.420/DF, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 15/3/2022, DJe de 23/3/2022, grifo próprio.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. FURTO SIMPLES NA FORMA TENTADA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INEXPRESSIVIDADE DA LESÃO. RÉU PRIMÁRIO E AUSÊNCIA DE CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS DESFAVORÁVEIS. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A aplicabilidade do princípio da insignificância deve observar as peculiaridades do caso concreto, de forma a aferir o potencial grau de reprovabilidade da conduta e identificar a necessidade, ou não, da utilização do direito penal como resposta estatal. 2. Na hipótese dos autos, a Vítima da conduta praticada pelo Agravado é um estabelecimento comercial, cujos bens nem sequer foram apossados e a natureza e o valor dos bens (9 frascos de shampoo e 3 de condicionador, e 2 frascos de creme, avaliados em R$ 126,00 (cento e vinte e seis reais). Dessa forma, o grau de reprovabilidade da conduta é mínimo, somado à primariedade do Agravado e a ausência de circunstâncias judiciais desfavoráveis na primeira fase da dosimetria. 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 518.801/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 6/2/2020, DJe de 21/2/2020, grifo próprio.) PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. PECULIARIDADES DO CASO CONCRETO. INCIDÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. Entretanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. 2. Assim, o princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Relator Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). 3. Salienta-se que, quanto ao tema, o Plenário do eg. Supremo Tribunal Federal, ao examinar, conjuntamente, o HC n. 123.108/MG, o HC n. 123.533/SP e o HC n. 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da insignificância deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). Nessa linha, a Terceira Seção desta Corte, no julgamento dos EREsp n. 221.999/RS, de minha relatoria, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação que a medida é socialmente recomendável, como no presente caso. Precedentes. 4. Na hipótese em análise, o entendimento das instâncias de origem deve ser afastado, tendo em vista que se trata de situação que atrai a incidência excepcional do Princípio da Insignificância, uma vez que, apesar da acusada ser multirreincidente em crime patrimonial, além da natureza (item de higiene) e o valor do bem envolvido (escova de cabelo no valor R$ 109,00) ultrapassar um pouco o percentual de 10% do salário mínimo vigente ao tempo dos fatos (R$ 937,00 - 2017), as circunstâncias do delito e a ausência de qualquer ato mais grave configuram a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento da envolvida. - Precedentes do STJ. 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp n. 2.464.251/DF, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 16/4/2024, DJe de 23/4/2024, grifo próprio.) PENAL E PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. DESCABIMENTO. FURTO SIMPLES. VALOR REDUZIDO DOS OBJETOS SUBTRAÍDOS. ATIPICIDADE MATERIAL DA CONDUTA. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. O Superior Tribunal de Justiça, seguindo entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal, passou a não admitir o conhecimento de habeas corpus substitutivo de recurso previsto para a espécie. No entanto, deve-se analisar o pedido formulado na inicial, tendo em vista a possibilidade de se conceder a ordem de ofício, em razão da existência de eventual coação ilegal. 2. De acordo com a orientação traçada pelo Supremo Tribunal Federal, a aplicação do princípio da insignificância demanda a verificação da presença concomitante dos seguintes vetores: (a) a mínima ofensividade da conduta do agente; (b) a nenhuma periculosidade social da ação; (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 3. O princípio da insignificância é verdadeiro benefício na esfera penal, razão pela qual não há como deixar de se analisar o passado criminoso do agente, sob pena de se instigar a multiplicação de pequenos crimes pelo mesmo autor, os quais se tornariam inatingíveis pelo ordenamento penal. Imprescindível, no caso concreto, porquanto, de plano, aquele que é contumaz na prática de crimes não faz jus a benesses jurídicas. 4. Na espécie, a conduta é referente ao furto de objetos pertencentes a uma loja especializada em produtos de baixo custo (Loja "1,99"), por réu primário e sem antecedentes, sem notícia de condutas assemelhadas perpetradas anteriormente, o que autoriza o reconhecimento da atipicidade material da conduta neste caso. 5. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício para absolver o paciente, nos termos do art. 386, inciso III, do Código de Processo Penal. (HC n. 558.261/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 10/3/2020, DJe de 26/3/2020, grifo próprio.) Ante o exposto, não conheço do habeas corpus e concedo a ordem de ofício para restabelecer a sentença absolutória de primeiro grau na ação penal de que tratam os autos, haja vista a atipicidade material da conduta por força da incidência do princípio da insignificância. Prejudicadas as demais alegações. Comunique-se, com urgência, ao Tribunal de origem e ao Juízo de primeiro grau. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA